terça-feira, dezembro 13, 2005

Heróis e vilões

Hoje me peguei pensando nos meus ídolos de infância.
Há alguma coisa de esquisito em grande parte deles estar morta. Ou então terem se ferrado de alguma forma.
Bom, deixando a psicanálise, meu pai e minha mãe de fora, o primeiro ídolo de que eu me lembro de ter tido foi o Raul (Seixas) - pelo menos na música. Amava pluct plact zum, claro. Mas um monte de outras também. Até hoje canto emocionado quando ouço Cowboy fora da lei...
Beatles não conta muito. Sempre adorei, mas foi por influência do meu pai. Com o Raul sentia que a descoberta tinha sido minha, por meus próprios meios. Era mais meu.
Depois veio uma época em que eu adorava música, mas não tinha grandes heróis. Talvez um pouco o que todo mundo gostava, Renato Russo. Mas eu não me identificava muito com ele. Com as letras, sim, adorava. Mas aí também tinha Titãs, quando eles ainda prestavam.
Então começou a tocar Depeche Mode, Smiths e The Cure nas festinhas. The Cure era a favorita. E o Bob Smith virou um ídolo, com certeza. Por muito tempo tentava usar o cabelo espetado, mas como precisava usar muito gel pra isso - e odiava gel - acabei por deixar o cabelo crescer. É que também havia chegado a época de um rockinho tipo U2. Por um tempo achei que o Bono Vox era meu ídolo. Mas pensando agora, sei não...
Depois de uma época house, techno e afins, descobri Happy Mondays e todo o rock-dance inglês. Estava na Inglaterra no auge do Soup Dragons, EMF, Pet Shop Boys e New Order, e não pude deixar de curtir muito tudo aquilo. Por um tempo passei a raspar o cabelo dos lados e atrás, escondendo dentro do boné como se fosse careca - inspirado no James Atkin.
Simultâneamente ouvia também os ingleses mais malvados. Ouvia Sex Pistols sim, mas o que amava mesmo era Clash. Conheci Ramones via punk inglês. Os dois Joe foram grandes heróis. Minha vitrola ficou cansada de ouvir Queen por esses tempos. Ainda lembro onde estava e o que fazia quando o Mercury morreu.
Depois veio a fase metal. Quer dizer, metal e metal poser / hard rock. Ouvia Metallica, mas também Guns 'n Roses. Fui no show das duas, no começo da década de 90. Naquela época havia uma treta entre os fãs do Metallica e do Iron. Então não gostava de Iron - coisa que se inverteu completamente alguns anos depois...
Descobri o Deep Purple e Black Sabbath, atrasado. O Ian Gillan foi quase um ídolo, só não foi porque orbitavam os outros juntos com ele. Lord e Glenn Hughes, mas não Blackmore e Coverdale. Era um conjunto realmente, que se estendia ao Sabbath (ainda que hoje só goste mesmo da primeira fase).
Nisso tudo não tinha muitas heroínas na música. Exceção para a Joan Jett e a Siouxie. Quando descobri Nick Cave, também me apaixonei pela PJ, mas isso veio depois. Mas nunca quis emular uma delas - felizmente, acho.
Tenho a impressão que o último ídolo (não cara que respeito, mas ídolo mesmo) deve ter sido o Cobain. Nirvana foi a última coisa realmente incrível que ouvi. Na época do suicídio eu estava "brigado" com o Nirvana, em parte por conta da aproximação com o Hole e a Love. Achava que eles estavam decaindo. De qualquer maneira, doeu muito quando fiquei sabendo. E doeu mais ainda porque me senti um traidor, abandonado o cara.
Quando o Joey Ramone morreu, senti um vazio enorme. Chorei. Quando o Joe Strummer passou desta pra melhor, logo depois, começou a cair a ficha. Achei que a vida era realmente cruel. Meio como aquela música "only the good die young", sabe?
Com alguns acréscimos ou variantes (suicídio, assassinato, acidente, câncer, aids), vi que outro ídolo - também falecido cedo - tinha razão:

"Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos - tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito
E aquele garoto que ia mudar o mundo
Frequenta agora as festas do Grand Monde

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder

Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu prazer agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder"

E não morrem. São os mesmos, desde que eu me conheço por gente.

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