terça-feira, setembro 30, 2008

Neuras

Conversando com um amigo ontem resolvi escrever um post sobre um problema da vida moderna.

Acho que todo mundo - todo mundo que não tem TOC - é um pouco desorganizado. Eu, com algumas coisas, sou pouco. Mas com outras...
Um dos campeões no quesito é o bendito recadinho. Quer dizer, para mim e para metade da torcida do Corinthians, imagino.
Eu anoto algo em algum papel solto pela casa e, meia hora depois, ele é tragado para as brumas de Lugarnenhum (NG, heim?!).
Às vezes é um número de telefone, sem nenhum nome junto para fornecer qualquer indício de quem seja. "Mas de quem é esse número, catzo?"
Outras vezes são umas palavras soltas, provavelmente para lembrar de alguma idéia a ser desenvolvida no futuro (para a tese existem dezenas desses recadinhos), mas sem qualquer lógica aparente. É como se eu tivesse psicografado alguma coisa. "Mas que raios de códigos são esses?"
Tem também o bom e velho garrancho indecifrável. Não são poucas as vezes que eu não entendo minha própria letra. "Mas que tipo de hieróglifo é esse, deuses?"
Claro que só encontro esses misteriosos rabiscos em pedacinhos de papel e cantos de revistas quando há muito já não servem para mais nada. Nunca quando saio procurando feito doido "onde é que eu meti aquele recado? Daniiii!"

segunda-feira, setembro 29, 2008

(Des)Antenado

Para algumas coisas até acho que sou bem informado. Mas confesso que uma certa cultura popular que aparece, principalmente, na programação das tvs abertas, me escapa completamente.
Até vejo as manchetes quando abro minha página na internet. Mas não sei de onde surgiu isso ou do que se trata realmente.
Fico com a sensação de ter viajado para outro país e ter voltado décadas depois. A língua é a mesma, mas as referências, as gírias, são completamente desconhecidas.
Por exemplo: não tenho a mínima idéia de quem seja a mulher samambaia, ou a melancia. Ou outra vegetal. E nem sei se são fenômenos surgidos de uma mesma lógica.
Sei que Pânico na TV é algum programa em que apresentadores enchem o saco de pseudo-personalidades. Mas nunca vi.
Mal tenho idéia do que se passa no Casseta e Planeta.
E não é só no Brasil. Quem é Lindsay Lohan? Que filmes ela fez? Como fez tanto sucesso e eu nem vi chegando? Ou essas cantoras de falsete e playback, pretensamente soul pop? Não sei diferenciar uma da outra, nem sei que tipo de música fazem.
As pessoas vêm falar comigo sobre o novo vídeo de fulana. Ou a nova pegadinha de tal programa. Quando na mesa surgem assuntos da atualidade pop, só me resta ficar com uma cara de interrogação e torcer para chegar um outro tópico.
Eu fico com a mesma sensação de quem está em uma roda de amigos e eles lembram de histórias maravilhosas das quais você não participou: "você lembra daquela vez que aconteceu aquilo naquela festa?"; "claro! Como poderia esquecer, foi muito engraçado"; "e a cara daquele cara quando isso aconteceu?". "ha ha ha"s. Sorriso amarelo.

quinta-feira, setembro 25, 2008

O lado B da pesquisa

Nas minhas pesquisas de arquivos de vez em quando me deparo com umas figuras surreais e suas histórias maravilhosas. Isso torna meu trabalho mais divertido, ainda que não contribua muito para a tese.

Théodore Monod, por exemplo, que por um tempo dirigiu o IFAN senegalês, aparece de vez em quando nas reuniões do International African Institute de Londres e nas cartas de seus membros. Ele circulava por lá um pouco antes da época da Mary, mas de qualquer jeito foi uma referência para os africanistas na época não tão profissional do campo.
O legal foi descobrir que ele saía com o Jacques Cousteau para uns mergulhos de escafandro. Quer dizer, naquela bolha de metal que descia para o fundo do mar, ligada ao mundo real por nada mais que um cabo, um tubo de oxigênio e a fé no Senhor.
Quando não saía atravessando o Saara num camelo. Como, aliás, fizeram outros malucos...
Naquele tempo sim é que se faziam exploradores de verdade.

domingo, setembro 14, 2008

Mão inglesa

Ainda sobre Londres, me lembrei do dia em que quase empacoto por lá. A lembrança veio durante a ABA em Porto Seguro, alguns meses atrás, quando vi que havia por lá uma rua com o sentido invertido, devidamente assinalado com uma placa com os dizeres "mão inglesa". A razão para existir uma única rua, na cidade inteira, com a mão contrária me escapou.

Enfim, é incrível como nos acostumamos rápido com outra dinâmica do cotidiano. Nas andanças pelo centro de Londres, principalmente quando estava sozinho, eu era contaminado pelo afã apressado dos londrinos. Andando praticamente em ritmo de marcha atlética (menos nos horários de rush, quando é necessário reduzir o ritmo para a velocidade de gado confinado), eu desviava dos idosos, das crianças e dos turistas e suas câmeras e me enfiava entre os carros e demais veículos como um desvairado.
Entretanto, eventualmente acabei percebendo que não havia me acostumado totalmente com este outro padrão urbanóide. Ou ainda, exatamente por achar que havia dominado todos os códigos londrinos de conduta, às vezes me via de calças abaixadas.
A Camila sempre me alertava "cuidado com a mão contrária"! E de fato isso ficou bastante automático com o passar dos meses. As faixas pintadas no chão indicando para onde olhar (produzidas certamente pela quantidade de não-ingleses surpreendidos ao atravessar a rua) também facilitaram.
Mas nesse dia em questão, imbuído de um espírito especialmente estressado, quase engordo as estatísticas das baixas destes desavisados (outros dias terríveis incluem uma vez que fiquei tão bêbado que não conseguia ficar de pé e queria morrer e outra vez que peguei a gripe da Pati e suava tanto que parecia que tinha deitado molhado na cama, tendo que trocar de roupa algumas vezes durante a noite). Vinha feito um raio numa daquelas ruas perto do Soho, muito provavelmente Charing Cross Rd, quando um senhor me pára na esquina. Tive que freiar e já me preparava para mostrar minha cara de pedestre irritado quando passou voando um doubledeck exatamente onde estaria se não houvesse parado.
Na hora minhas pernas ficaram meio bambas. Atravessei, depois de alguns segundos tentando me refazer da quase tragédia que ninguém notou ou poderia impedir, olhando para os dois lados e fiquei o restante do dia andando bem devagar.

Quando mais achava que estava virando um londrino de fato, minha herança brasileira de mão contrária voltou com tudo, me fazendo lembrar que minhas referências mais básicas ainda eram outras.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Neuras londrinas

A casa onde morava lá na terra das tortas devia ter mais de 100 anos de idade.
Também vi que as casas dos amigos de lá eram igualmente velhas. Um pouco mais, um pouco menos, mas bastante velhas mesmo assim. Então acabei achando meio normal que o chão do meu quarto não fosse realmente plano, e as tomadas elétricas meio suspeitas.
Só que nos últimos meses de minha estada lá comecei a ficar bastante encanado com isso. Ainda mais depois que descobri que o que eu acreditava ser um armário no banheiro era na verdade a entrada para o porão da casa.
O tal armário estava sempre fechado e eu acreditei que estivesse trancado e lá apenas houvesse material de limpeza. Mas um dia a porta estava meio entreaberta e resolvi dar uma espiada. Era bastante escuro, úmido e mofado. Uma boa morada de troll. Ou de repente uma passagem para um mundo secreto saído da imaginação do Neil Gaiman.
O grande problema, para mim, não era tanto o risco dos abestos ou dos fungos assassinos, mas o fato do porão ser bem embaixo do meu quarto. E como o chão deste rangia bastante com qualquer movimento que fazia, deduzi que aquele calombo que existia do lado da cama, meio como uma concha no chão, de mais ou menos um metro de raio, era sinal de que não deveria existir uma laje muito resistente entre a minha morada e a do troll.
Comecei a ficar com medo de tudo aquilo desabar um dia.
A velhinha do apartamento do lado também me contou umas histórias meio assustadoras e contribuiu para a minha paranóia. Ela me disse que os donos do prédio eram gangsters e vira e mexe deixavam o heating quebrado por semanas, em pleno inverno. Aparentemente também não gostavam que os moradores notificassem as autoridades municipais sobre problemas estruturais na construção (um dia fiquei morrendo de medo de deixar duas moças, que eram da força e luz de lá, darem uma olhada na fiação. Mais ainda quando vi que elas ficaram revoltadas com o que viram e anotaram tudo num caderninho. Fiquei algum tempo esperando o primo mafioso fortão do dono me visitar um dia com um bastão de beisebol). Enfim, segundo ela os donos não cuidavam de nada e alugavam aquilo para estudantes estrangeiros ou velhinhos inofensivos que acabavam se sujeitando a qualquer coisa sem reclamar.
Tudo isso me deixou ainda mais apreensivo, já que imaginei que a fiscalização do equivalente do contru deles lá - que achava que devia ser rigorosíssima - não tinha nem idéia da fragilidade do meu lar.
Mas, como em outros momentos da vida, preferi não fazer nada e torcer para não acordar no porão até o dia de ir embora. E também é duro quando você não conhece muito bem os códigos de conduta de outra sociedade e as formas de reivindicar seus direitos...

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Um dia, andando com minha amiga Camila, por Primrose Hill pelo que me lembro, passamos na frente de um escritório de uma ong que cuidava de gorilas na África. Ela já vinha me falando há algum tempo do desejo de fazer algum trabalho voluntário e me convenceu a entrar e perguntar sobre como ajudar na nobre causa.
O grande problema, descobri, era que a ajuda - bem vinda, claro - não consistia em viagens para o Congo para ver os tais gorilas. Era ficar no escritório cuidando de burocracia, varrer o chão, separar documentos...
Sim, eu sei que alguém tem que fazer isso. Mas essa idéia de fazer caridade à distância nunca me atraiu. Confesso que o que me interessava eram os louros da empreitada. Trabalho de campo!
Fiquei então sabendo de outra ong que consistia em ser voluntário para brincar com animais abandonados. Essa me interessou mais, porque era algo palpável, como se minha consciência não se satisfazesse apenas com a promessa do benefício, tinha que ver de fato acontecer. Mas acabei não indo atrás também. Não sei exatamente porque.
Outra vez, também com a Camila, quase entro junto numa outra ong, essa em Camden Town, para pegar no pesado em prol de humanos carentes (sim, era separar caixas e varrer o chão). Mas de novo não me apeteceu.
Uma que cheguei a fazer algo foi numa livraria da Oxfam - separar e arrumar livros para serem vendidos e arrecadar dinheiro para os programas sociais deles. Mas isso já foi no final da estada lá, que foi bastante corrida.
Fiquei pensando porque lá o apelo para ajudar é mais forte - ao menos para mim, ainda que eu tenha a impressão que seja algo generalizado. Porque eu lá, ainda que na minha preguiça e falta de comprometimento social costumazes, planejava fazer muito mais do que aqui, no meu próprio país?
Minha contribuição aqui sempre é monetária, no máximo doação de roupas e eletrodomésticos velhos. Sempre no esquema "delegação de consciência". Porque então a sensação de que as organizações de suporte inglesas são mais eficazes?
Minha hipótese é de que essas mesmas organizações de ajuda operam nos canais e mecanismos de circulação internacionais abertos pelas instituições de controle coloniais (extremamente eficientes, ainda que remodeladas). Controle e governo de um lado, e desenvolvimento e assistência por outro, sempre andaram de mãos dadas no projeto colonial. A herança do projeto civilizador é óbvia - o que não quer dizer que deva ser extinta - e as redes de funcionamento das ongs européias trilham caminhos abertos por seus ancestrais hoje desacreditados. Sem deixar de lembrar, claro, que o montante de recursos arrecadados é infinitamente maior por lá.

terça-feira, setembro 09, 2008

O Incondicionado segundo Kant

Amanhã começam as experiências nas entranhas das terras francófonas para recriar o big bang. Lembro quando meu grande professor de Epistemologia, nos idos de 1997, mencionou pela primeira vez a notícia - na época a experiência talvez acontecesse no Arizona, ou Kansas, sei lá, um desses estados americanos quase vazios (não sei exatamente o que aconteceu no meio tempo e porque a honra ficou com o Velho Continente).
A propósito do prefácio da Segunda Edição da Crítica da Razão Pura, ele falava sobre o Incondicionado kantiano, e achava algo realmente formidável - de um ponto de vista puramente teórico; na prática a coisa toda lhe soava como um disparate megalomaníaco extremamente perigoso e caro - que as pessoas ainda buscassem a origem da origem, agora menos em termos filosóficos e especulativos, e partindo para a parte prática. Nada como ter recursos e pôr a mão na massa.
Seria algo como gastar alguns bilhões (não é que esteja faltando, heim?) para fazer uma máquina biruta para descobrir se há vida após a morte, ou qual é resposta para a pergunta fundamental da vida, do universo e tudo mais (essa o Douglas Adams já anunciou: 42. Aliás, aposto que nenhum dos caras brincando de hamster naqueles túneis leu Douglas Adams; se houvessem talvez passassem a acreditar que a idéia toda soa bastante ridícula).
E não é que eu seja um defensor da pesquisa aplicada apenas - afinal, faço antropologia e mexo com biografia e trajetória - mas tudo isso me cheira muito estranho. Meia dúzia de cientistas gastam mais que o orçamento de um pequeno país, fazem a pesquisa da vida deles e o resultado é meio dúbio. Tudo bem, você vai me dizer que não há como prever os desdobramentos das experiências. Realmente. Vai que descobrem a cura do câncer numa dessas. Mas ainda não me convenci (e não adianta me explicar em termos euclidianos) de que se a tal aceleração de partículas realmente der certo, todos nós não deixaremos de existir, ou passaremos para um plano de realidade paralela bizarro. E se não acontecer nada... bem, há sempre desperdícios mais estúpidos do que este.
Ainda não sei se torço para sair uma faisquinha por lá ou não...
Dizem que os primeiros sucessos (depende de que sentido você aplica ao termo) da experiência demorarão algumas semanas, talvez meses, para acontecer. Mas por via das dúvidas, se amanhã um buraco negro se abrir no meio da Suíça e tudo isso por aqui finalmente for pra cucuia, deixo meu post de despedida.

terça-feira, setembro 02, 2008

Análise social

Hoje assisti um ótimo The Simpsons! Alguém aí já viu o episódio em que um Homer mais jovem monta uma banda grunge para dar vazão às mágoas por ter perdido a Marge para um professor universitário mente-aberta e contestador?
Pois achei excelente. Além de engraçado e inteligente, vi que este episódio é, no fundo, a encenação de algo que sempre me incomodou: A constante preocupação em apreciar as coisas mundanas, o prazer da vida simples, frente às possibilidades opressoras da vida produtiva. Para isso mantendo um certo cinismo em relação aos dogmatismos e chatices da vida acadêmica.
Gozar a figura do intelectual, e criticar o tolhimento viciante que a pretensão de desvendar as verdades sociais veladas propicia, é minha incansável e perdida batalha contra algo que me aterroriza, mas que é parte indelével do que sou e faço.
É uma espécie de ambivalência que eu adoro odiar.
Me resta tentar deixar sempre essa figura à margem, sempre em tons de ridículo. Tentativa, é bom ressaltar, claro.
O que não quer dizer que esse Simpsons seja anti-intelectual. Percebe a contradição?