Quarta-feira, Novembro 04, 2009

"Citizen and Subject"

Hoje assisti, com algum atraso, Distric 9, o filme produzido pelo Peter Jackson que estava dando o que falar.
Tenho ido muito pouco ao cinema ultimamente. Em parte porque nada de bom tem sido feito, em parte porque estou ficando biruta com a tese. Acho que os últimos filmes que tinha ido assistir na telona foram Up e Era do Gelo 3.
Ambos em 3D.
Nem o do Tarantino acabei vendo - apesar que estou achando que vou me decepcionar com o tal...
Mas nesses dias de calor, saariano, com a pouca produtividade acadêmica ainda mais debilitada, acabei fugindo para o ar condicionado, siberiano, da sala de cinema com minha bat-companheira de filmes.

A idéia me parecia bastante interessante. Algo sobre uma analogia sobre o apartheid (na África do Sul, para dissipar qualquer possibilidade de não compreensão da referência) com aliens que tiveram que parar, por motivo de força maior, nesse planetinha esquisito e infeliz, o terceiro da órbita solar - para trocar o estepe, ou encher uma garrafa pet de gasolina, algo asssim (me lembrei da notícia dos franceses que foram rapelados numa faleva do Rio porque o GPS do carro deles pode até identificar radar, mas não considera IDH).
A velha história do deslocamento e do varrer para baixo do tapete.
Arrisco dizer que aconteceria o mesmo se eles tivessem ido parar em Toronto e não em Johannesburg (mas reconheço que deram azar os coitados. Pior apenas seria se tivessem acabado na Faixa de Gaza...).

E o começo parecia mesmo ser promissor. Referências explícitas ao multiculturalismo tenso da África do Sul, bem como sobre o genocídio de Ruanda - e tasca Mamdani neles (tutsi aqui não são baratas, mas camarões; ainda que os tais aliens pareçam mais baratas mesmo)!
(Eco, talvez, da idéia de que a África é uma coisa só?)
Achei bem interessante a sapatada na ONU e nas "agências humanitárias" e as cooperativas (geralmente escandinavas ou americanas) nós-cegas que patinam, soberbas, em nome de uma política "esclarecida" e altruísta, mas que operam basicamente com a mesma lógica paternalista do período colonial (resta fazer documentário premiado para passar no GNT, não é?).

Só que achei a narrativa meio confusa (sei que era intencional, propositalmente evitando explicar tudo tintim por tintim; mas...). Um pouco perdida nas nojentices e na ação, a meu ver, demasiada (a proposta não era ser um blockbuster de ação - mesmo pecado cometido pelos demais Matrix, aliás, que passaram do ponto).
Nojentice, aliás, que deve ter sido bem a gosto do Peter Jackson, relembrando sua fase Bad Taste e Braindead (sim, ele fez algo bom na Nova Zelândia antes dos hobbits e orcs).

Mas no geral saí satisfeito. Veria a continuação.

Nota - Todo mundo deve estar agora escrevendo sobre o Lévi-Strauss, que aguentou firme, centenário, para poder enterrar boa parte dos pós-estruturalistas e pós-modernistas pentelhos.
Quem sabe uma outra hora falo mais sobre o autor que me maravilhou e me irritou nesses anos todos de antropologia. Mas não agora.
Digo apenas que depois dele realmente não existem mais grandes pensadores humanistas.

Domingo, Outubro 04, 2009

Aotearoa

O congresso em Buenos Aires foi muito bom, ainda que tenha visto muita pouca coisa do mesmo. Tive que organizar bem meu pouco tempo lá para fazer coisas interessantes (como comer que nem um condenado os maravilhosos bifes argentinos!). Mas valeu. Eu não sei qual é a lógica, algumas vezes fico nervoso, outras não. Mas a apresentação foi tranquila e a sessão como debatedor, bastante proveitosa!
Não deu pra passear tanto quanto gostaria pela cidade, mas o Gábor me levou num pub e fiz umas coisas turista básico também.
E agora cheguei à Aotearoa (ou Nova Zelândia, ou Terra Média)! E comigo veio a chuva. Mas tudo bem, por enquanto adorando tudo! As pessoas são incrivelmente hospitaleiras, a terra é linda e a cultura maori simplesmente sensacional! Hoje vim para uma das universidades em que a Dani tem feito pesquisa, e dei um pulo numa Marae, ou um espaço de recepção sagrado maori. E sobre isso vou escrever um post a parte depois. Mas é incrivelmente belo e extremamente significativo. Todos os entalhes são uma grande narrativa sobre a história maori - cosmológica e histórica (a distinção não faz muito sentido para eles, pelo jeito). E um senhor muito simpático ficou um tempão explicando tudo e tirando todas minhas dúvidas imbecis.
O pessoal aqui tem muita paciência. E levam uma vida muito tranquila. Stress-free!
Mais sobre o outro lado do mundo em outra ocasião!

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

A volta do bom horror?

Bom, esse deve ser o último post antes de viajar para terras porteñas.
Tô meio sem tempo de atualizar aqui. Não exatamente por falta de vontade. Tenho uns textos na cabeça, mas na hora de vir pra frente do computador acabo vendo outras coisas... Enfim, apenas um rapidinho para dar uma dica cinematográfica.

Sam Raimi parece nunca ter se afastado tanto do horror que o consagrou (perdi noites insones quando criança assistindo Evil Dead - era o filme que nós, quase adolescentes, pegávamos de algum jeito (provavelmente irmã ou irmão mais velho que alugava e repassava) e assistíamos morrendo de medo debaixo de um cobertor! Esse e Demons, aliás!).
Ao longo dos anos ele esteve envolvido em alguns projetos do gênero, mesmo que mais bobinhos. E passa agora por uma fase super pop, com os duvidosos Homem-Aranha, por exemplo. Entretanto, ele anuncia a filmagem de Evil Dead 4, o que me dá um pouco de medo do que virá (o 2 é passável, mas o 3 é terrivelmente ruim, ainda que não seja dele; mas não sei se a série ainda se mantêm... mesmo com a onda revival atual). Que, claro, vou conferir quando sair.
Agora, ontem vi, junto com o André, num cinema completamente vazio, Drag me to Hell, do Raimi!
E fiquei impressionado como é bom! Ok, um pouco previsível, mas acho que isso não era preocupação dele (nada de ficar quebrando a cabeça para montar um final "surpreendente", como o tal M Night Shyamalan tenta cada vez mais desesperadamente fazer e que já me encheu o saco faz tempo - ainda que no finalzinho ele tenha se entregado à formula, já manjada... você sabe que ainda vai ter algo quando o filme não termina quando deveria). Nada de trapacear também abusando dos sustos (os filmes de terror hoje parecem só se valer do truque barato de colocar um rosto assustador, de repente, na fuça do "protagonista" (a.k.a. espectador)). Tudo muito conscientemente tosco, mesmo que não tenha chutado o balde como gostaria e tenha feito algumas concessões sobre as coisas que mencionei aí em cima.
Mas o estilo, um pouco vintage (porque claramente homenageando os filmes antigos de horror), é maravilhoso. Alguns personagens muito interessantes (tudo bem, tem o imbecil do Justin Long só para atrair bilheteria, mas também tem os pais do personagem dele, deliciosamente esquisitíssimos). E a trilha sonora é de matar! Uma das melhores em muito tempo!
E tem o humor gore dele também. Que nem sempre dá certo, mas normalmente dá um bom contraste com as partes assustadoras.
Vale a pena ver na telona. Mas vá com a mente aberta.
Espero que o filme sirva para abrir precedentes de filmes menos pretenciosos e com melhor qualidade. Pelo menos com outras possibilidades de enredo.

Sábado, Setembro 19, 2009

Loki

Ultimamente tenho visto uns documentários muito bons sobre bandas e músicos. Começou há uns anos, com o lindo documentário do Joe Strummer pelo Julian Temple. Aí passou por Leonard Cohen, Ramones etc. Semana passada vi um do The Who muito bem feito, com depoimentos de vários "sobreviventes". Você pensa que sabe muita coisa sobre os artistas que admira e descobre que está enganado. A vida compartimentalizada.
Aí hoje vi Loki: Arnaldo Baptista, no Canal Brasil.
E aconteceu algo engraçado. Na babação de ovo atrasada (por quê não consagraram o cara antes? Enfim...) eu fiquei com a impressão de existirem vários sentidos do Arnaldo. Algo até mesmo esquizofrênico.
Que ele é genial, sei bem. Mas o fato dele ser "descoberto" pelos gringos, à maneira do que aconteceu com Tom Zé e outros (músicos e DJs gringos adoram música brasileira dos 60 e 70 - o que não acontece aqui. Ou melhor, redescobrimos nossa história via gringolândia - e não é que ele aparece mesmo como a versão brasileira do Syd Barrett?) me deixa estarrecido. E agora é cool gostar de Mutantes. Antes ele era só o maluco. Quando isso.
E me incluo na crítica.
No documentário mostraram o show em que ele saiu do casulo em que esteve por anos para dar uma canja esquisita de Panis et Circenses com o chato do Sean Lennon. Eu estava nesse show. Num Free Jazz de 2000 (sim, cigarro antes patrocinava abertamente boas coisas - você perceba aí que o acossamento dos fumantes é um processo paulatino). Mas o show em si foi um saco. Culpa do filho do John com Yoko, principalmente, que não empolgou ninguém até o aparecimento do Arnaldo. Mas lembro que na época fiquei pensando "o que esse velho de camisa prateada está fazendo aí?".
Mea culpa.
Tipo, ele não era exatamente o mesmo cara dos Mutantes, mas uma versão triste deste passado pouquíssimo lembrado (caberia fácil uma tese sobre a psicodelia brasileira dos 60, ou então alguma biografia de um desses malucos rejeitados).
De novo, quando os Mutantes se reuniram há alguns anos, em Londres, achei a notícia meio esquisita, talvez negativamente influenciado pelo fenômeno das band reunions que pipocava um tempo atrás.
O que é chatice minha, claro. Porque o cara merece um carinho, ainda que tardiamente. Só acho esquisito, de repente, ele virar au concour.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Vergonha Alheia

Eu tinha decidido que não ia assistir o video da Vanusa cantando o hino nacional. Por conta da tal Vergonha Alheia, esse trágico sentimento que de vez em quando me assalta os ânimos, em momentos em que rola uma certa empatia com a figura humilhada - a maior parte das vezes o que vem mesmo é algo em direção ao sadismo, mas, enfim...
Só pelas notícias, pelas piadas, já imaginava que a coisa não devia ser bonita. Então por vários dias me poupei a dor no âmago que normalmente me faz mudar de canal, ou cantar em voz alta "nanananananana" com a esperança de sobrepujar o humilhante em ação - como pessoas falando portunhol ou "inglês joel santanês" na tv. O que os anglo-saxões, com tanta propriedade, definem na língua deles como making an ass of oneself.
Mas nesse final de semana, numa reuniãozinha com amigos, o assunto virou pauta. Aí fiquei com a sensação de que era a única pessoa que não tinha visto o bendito vídeo no you tube e me senti marginalizado.
E então fui ver.
Nessas horas, meu patriotismo seletivo, quase nulo na verdade (ele aparece quando gringo fala mal do Brasil ou de quatro em quatro anos, em Copa do Mundo), acorda indignado. Eu coloco toda a dó e compreensão de lado - ou "a humilhação já é punição suficiente" (e não cola a desculpa de remédio de labirintite, como não colou a explicação do Fernando Vanucci há 3 anos, na Copa da Alemanha). Bom, na verdade é uma mistura de constrangimento, irritação e... bem, um certo fascínio divertido.
Ah, como queria que um dos polícias ao fundo fossem lá dar um ippon na mulher...

Sábado, Agosto 08, 2009

Manifesto anti-anti-tabaco

Fumantes do mundo uni-vos!

Tudo bem, não vou discriminar. Que se una quem quiser, fumante ou simplesmente o apreciador da boa e velha cor azul francesa.
Porque não é o direito de fumar que gostaria de discutir. Mas o controle crescente em nome de uma certa ditadura da saúde. Em que comer alface e broto de feijão não é mais um estilo de vida ou uma escolha, mas O padrão a ser seguido, "naturalmente", sob pena do escrutínio e disciplinarização por parte do Estado.

Como todo bom manifesto, começo radicalizando. Já que a primeira frase que me vem à mente é a do pastor Niemöller. Aquela famosa, do "quando vieram pelos judeus (...) quando me levaram não havia mais ninguém".
Sim, porque na Alemanha nacional-socialista também vieram comendo pelas beiradas. Até chegar o momento em que se você não fosse determinada pessoa, uma estrela lhe era conferida na lapela.
Exagero? Talvez sim. Mas o ponto é que a questão não é sequer problematizada.

Conversava com meu amigo Gustavo sobre a estigmatização legalizada. Se ainda não etnicizada ou racializada (porque aí é politicamente incorreto e dá cadeia), ainda sim significativa de um comportamento social vigiado e condenado. O que, paradoxalmente, coloca o fumante na categoria de minoria, não é? Brinquei que chegará o momento, pelo menos, em que o tabagista poderá pleitear uma daquelas vagas reservadas a deficientes...

O que me irrita mais é a maneira como isso não é sequer discutido, mas imposto, sob o argumento dúbil de que o fumante representa um rombo no orçamento do estado. Que o passivo possa ter o direito de não receber uma fumaçada alheia, concordo plenamente. Mas não é isso que está em questão, já que não existe sequer a possibilidade de um ambiente segregado.
O Gustavo me autorizou a reproduzir umas pérolas que ele coletou desde ontem, quando, movido por uma angústia e revolta, pensou sobre o absurdo da coisa:

Na entrada, a revista recolhe os cigarros e os devolve somente na saída. "Quem quiser fumar poderá colocar a pulseira e sair, mas antes tem que pagar a comanda. Quando acabar, é só pegar outra e entrar". (MAYRA MALDJIAN, especial para a Folha online)

Isso é uma maneira de humilhar o fumante ou o quê?

Pela nova lei, as multas também poderão ser aplicadas mesmo que não seja encontrado um fumante em ação. Basta vestígios de que se fumou por ali, como bitucas e cinzeiros. (VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO, especial para a Folha online)

Agora, a melhor. Chega a ser tragicômico:
No O'Malley's (região oeste da cidade de São Paulo), os seguranças estarão munidos de pistolas d'água "para apagar, subitamente, o fumígeno ofensivo", como conta o proprietário do pub, Ali Visserman. A intenção é jogar água somente no cigarro, e não no rosto das pessoas. (FABIANA SERAGUSA, especial para a Folha online)

O pior é que, numa dessas, não dá nem pra processar a pessoa por agressão, já que o fumante é que é o meliante.

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

fumaça...

Ontem foi o último dia de fumo dentro de bar.
Eu não acho que isso vá funcionar. De qualquer maneira é mais um sinal da careticização hiprócrita que só vem aumentando e aumentando. Daqui a pouco vão tentar uma lei parecida com bebida. Se aprovarem o porte de armas e casamento polígamo, pronto, viramos Utah.
Na verdade, o embate entre sociedade e as autoridades sanitárias causa rusgas e enfrentamentos que não são de hoje. Que o diga Oswaldo Cruz. É a velha política de "fazer o bem" goela abaixo. A diferença do que aconteceu 100 anos atrás é que agora nenhum fumante vai se armar de pedras e paus pra atacar os fiscais da vigilância sanitária. Porque junto com a careticização progressiva, ocorre outro fenônemo: a bundalização galopante. Que o digam os Sarneys da vida que confortavelmente dizem que não saem e fica por isso mesmo. Que o digam os Serras da vida que estão acabando com as universidades públicas e saem impunes.
Mas isso é outra história.
Eu assisti à duas proibições de tabaco. Uma agora. E outra em Londres, agosto de 2007, quando lá estava residindo (sim, é um padrão mundial). Um mês depois da proibição, os ingleses - talvez não tão conhecidos por seguir as leis quanto os alemães, mas ainda sim bastante caxias em comparação aos brasileiros - voltaram a fumar. Dentro dos pubs. Não tem jeito. As coisas vão se acoxambrando e, depois de uns litros de cerveja na cabeça, a pessoa não tá nem aí em acender um cigarro (e mesmo os alemães já conseguiram burlar a lei, com algumas medidas simples, como a caixinha do fumante, para pagar a multa).
Isso tudo na minha opinião, claro.
Sinto pelos passivos, injustamente fodidos pelos ativos, mas rumamos para um mundo cinza e sem graça (ainda que sem fumaça - mas ninguém faz uma lei anti-usar mangueira de água por 2 horas para varrer folhas na calçada, faz? O mundo continua indo pro buraco, com ou sem fumante).

Em tempo: a Dani achou um vídeo de uma das minhas bandas preferidas, no meu bar preferido, em Londres. Ganha um parabéns quem me achar, filmando o show, atrás de um pint de cerveja e... tã tã tã tã: um cigarro.