segunda-feira, julho 03, 2017

Não fazem mais chocolate quente como antigamente


Há tempos eu ensaio alguma ideia para tentar retomar o blog, mas tão logo eu começo a formular algo mais concreto eu fico um pouco preguiçento e deixo a vontade de iniciativa de lado (diriam os epistemólogos, potência?), deixando isso aqui sempre naquele frustrante espaço do silêncio desconfortável do não dar o braço a torcer para o esquecimento e o abandono.

Ainda quero escrever aqui.

Então resolvi que preciso de baby steps. Nada de posts mágicos que vão fazer o turning point milagroso, chave dos caminhos destrancados do nirvana textual e da profusão de brilhantes sacadas. Pequenas crônicas cotidianas, no conforto da sentada breve, é isso! Menores do que um artigo, maiores do que um tuíte (que nunca tive e então eu não sei direito como funciona só sei que você tem que escrever o que imagino ser um aforismo de 140 caracteres cabalísticos o que deve ser mais difícil do que fazer resumo para trabalho na anpocs). E, para não descaracterizar o blog, temperadas com reminiscências arrepiantes do passado, claro.

Então vamos a isso.

Fui hoje no correio - essa instituição moribunda, com risco de extinção - mandar alguns documentos. Há uma agência relativamente perto de casa, que era até bem grandinha e recentemente encolheu de tamanho, certamente para cortar gastos e caber na exata medida da capacidade de importar das pessoas. Como uma espécie de metonímia das coisas públicas atualmente.

Na volta, com um pouco de frio e ainda não pronto para trabalhar, parei num café simpático que tenho frequentado ultimamente: atendentes simpáticas, preço muito camarada, comidas e um coado ótimos! Ao invés do cafezinho que me acostumei a pedir, resolvi me aventurar, ser rebelde e testar algo novo, um chocolate quente. Para acompanhar, um tostex, o que sempre faz bem para a alma.

Bebendo, torci o nariz ao ver que era feito de achocolatado em pó e me peguei lembrando do passado. Daydreaming na calçada perto de casa.

Filho de pais funcionários públicos, passei basicamente todas as férias da infância nas colônias de férias da associação dos funcionários públicos - jeito confortável e barato que o funcionário público orgulhoso, mas nunca rico ou preguiçoso como querem nos fazer engolir, tinha para descansar. São lugares ótimos, simples mas muito bem cuidados, em diversas cidades no Estado. E, destas idas em férias, para nós a grande maioria tomava lugar em Campos do Jordão, nosso destino favorito. Um dia eu conto um pouco mais das lembranças desse lugar - é uma espécie de hotel fazenda (ainda que perto do centrinho), de uma arquitetura meio colonial, meio germânica, feita com muita madeira e recintos grandes. Eu, que sempre gostei de romances de mistério, me sentia numa mistura de história de Agatha Christie e uma partida de Detetive (Coronel Mostarda, com o candelabro, na biblioteca).

Mas aí você me pergunta: o que o achocolatado fez para te lembrar das frias férias nas montanhas paulistanas? É que é de lá uma das lembranças mais aconchegantes da minha infância - dos anos em que começam as memórias até os intensos e apaixonados anos pré-teen, quando ia lá toda santa estação de inverno. Bebendo chocolate quente. Que não era achocolatado com gosto de nescau, mas uma coisa espessa de chocolate meio amargo derretido com suficiente leite quente apenas para poder chamar aquilo de bebida e para que se pudesse engolir.

Duas outras vezes consegui achar um chocolate quente que fizesse jus ao nome: uma vez em Bariloche, quando tinha meus 6 anos (o fato deve ter realmente me marcado, pois são poucas as imagens que guardo daquela viagem) e recebi uma barra de chocolate num copo de leite fervendo (singelamente chamado de submarino), e num Carluccio's perto da minha casa em St. Johns Wood (pessoas familiarizadas com Londres sabem da fama careira do Carluccio's, mas ninguém pode negar como aquele copinho de espesso chocolate brilhante derretido é um verdadeiro afago espiritual).

Desde então minha busca por bons chocolates quentes se tornou um exercício frustrante de comparações com o passado, que encontra paralelo com o mundo musical e o cinematográfico (ninguém mais faz filme bom como Goonies, isso não é música!), na minha rabugentice crônica que parece apenas piorar com o tempo, na igual medida que percebo que tudo isso se tornou uma metáfora para minha percepção do mundo - tudo o que era antes se perdeu e era melhor.

Até mesmo o cafezinho bom da esquina, iniciativa resistente à lógica das grandes redes e que merece ser frequentada, não consegue fazer um bom chocolate quente. Vou continuar aparecendo por lá, mas não peço mais o "coco" deles. Mas ao mesmo tempo fico morrendo de medo de voltar para Campos do Jordão, para onde não vou há umas duas décadas e desde então tornada refúgio de uma paulistandade barulhenta atrás de fondue inflacionado e cerveja encorpada (e que no verão migra em bando pra Riviera). Se lá encontrar achocolatado, fodeu.


Edição na postagem: o desenho que estava no final foi para o começo do texto! Desejo da querida Karina Kuschnir, que tem um maravilhoso blog, que lida tão bem com essa parceria texto-desenho!

Desenhar tem sido uma das grandes alegrias atuais - quero ver se escrevo mais sobre isso aqui, bem como mostrar umas aquarelas! Nesse desenho aqui, o cafezinho perto de casa.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Dez anos atrás...

Há 10 anos eu aportava em Londres, para fazer parte - a mais importante - da pesquisa que acabou virando meu doutorado. Na época esse blog já existia, mas ele ganhou mesmo fôlego e uma certa identidade justamente naquele longínquo ano de 2007, quando escrevi com mais urgência, quase compulsivamente.

O blog foi fundamental para eu conseguir lidar com longos períodos de solidão, mas também para dar alguma forma à uma experiência que foi formadora e fundamental pra mim. Escrever em crônica os grandes acontecimentos da minha estadia, mas também narrar e registrar os detalhes do cotidiano mais medíocre, me possibilitaram algo muito especial e que eu acho que nunca mais consegui reproduzir: um vislumbre, dos mais sinceros e doados, do meu vivido e o impacto disso no meu ser. Ter tornado público (mesmo que com pouquíssimos leitores) aquelas dores e alegrias me fez descentrar-me e me enxergar num primeiro momento, mas também conectar-me com outras pessoas - mesmo que eu apenas as imaginasse, sendo minhas leitoras, e nada mais. A potência de um leitor e de uma leitora.

Eu sabia, mesmo naquela época, que aquele ano seria especial. Mas o significado real daquela viagem só começou a ficar claro com a lembrança do que foi, criando uma espécie de verniz emocional com que cobria minhas aventuras e recriava na cabeça minhas andanças, angústias e sucessos. A força com que essa memória vinha à tona é um elogio àqueles dias tão importantes. Ainda que eu suspeite que boa parte dessa importância não esteja presa somente pela boniteza do meu encantamento com aquele lugar. Aquelas ruas me inspiraram a escrever, mas a escrita da lembrança e depois a lembrança da escrita pintaram daquela mesma cor diáfana, que só existe no ar e no céu de Londres, aquela minha experiência (lembro bem quando uma amiga de chamou a atenção para o céu daquelas paragens... "nossa, o azul do céu não é o mesmo!").

E de fato, se escrevinhar cotidianamente naquele 2007 foi crucial para dar forma a uma lembrança da viagem, esses pensamentos continuaram a correr soltos muito tempo depois de não ter mais escrito essa espécie de diário de viagem. Logo depois de voltar eu costumava lembrar, "puxa, uma semana atrás eu estava em Londres"; "nossa, há um mês eu estaria pensando onde sair para beber uma guinness e ver um show". Depois de um tempo passei a contar o tempo pelo começo da estadia, lembrando talvez do impacto que tiveram aqueles primeiros dias em Londres: "caramba, há um ano eu estava chegando, inocente, bobo e besta", "quem diria que há 2 anos eu chegava com duas malas na mão e apenas uma vaga ideia do que eu faria nos próximos 12 meses".

Costumo lembrar, admirado comigo mesmo, como fiz dar certo aquele começo de viagem. Chegar e procurar um lugar para ficar, subjugar a burocracia britânica e abrir uma conta, fazer contatos quando eles não existem em absoluto, flanar pela cidade em reconhecimento e descobrimento. Coisas que não são simples, quando você está em um lugar estranho. Acho que apenas a inocência e a ignorância do que poderia dar errado, alimentadas pela empolgação de tudo aquilo novo, permitiram que eu não paralisasse de pavor. Canso e fico com medo apenas relembrando. Mas como eu me sentia vivo! Dava certo. E fiz dar certo sozinho. Talvez pela primeira vez na vida, realmente sozinho. O mérito daquele ano, o que foi aquele ano - todos os sucessos, todos os excessos, todos os desperdícios, todas as escolhas, são minha responsabilidade. Isso é assustador, mas bonito e poderoso também. E tudo bem que nunca mais tenha isso. Aquela vez foi bom demais.

Me intriga que aquele ano tenha sido tão importante para minha tese, para minha formação, e que pouca gente saiba disso - ou entenda isso. E também me espanta que talvez a forma menos complicada de explicar isso para alguém seja através desse blog e os textos que escrevi em 2007 - ainda que nada, ou quase nada, da pesquisa tenha sido contada no blog. Mas talvez eu devesse ter tentado trazer um pouco dele para o texto com que eu defendi a tese, dois anos depois de voltar para o Brasil, mesmo que trouxesse apenas histórias nada acadêmicas. Acho que ganharia pontos pelo menos por ter vivido como os nativos, com um pint na mão e com o cultivo daquele senso de auto-ridicularização tão característico dos ingleses e seu peculiar senso de humor. E que apenas os etnógrafos gonzo mais confiantes na sabedoria da entrega ao acaso e à chance parecem ter - o que costuma, se não resultar necessariamente em boa antropologia, ao menos em uma menos caxias.

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Cultivando pequenezas

Acabei não escrevendo tanto aqui quanto gostaria esse ano. Vou tentar ser um pouco mais assíduo em 2017, até porque esse é um momento de escapar um pouco, desabafar um pouco, às vezes me divertir, tirar um pouco o peso da correria cotidiana. Falar de algo que pode não ter muita importância no grande esquema das coisas.

Nesses meses sem escrever muito eu acumulei algumas histórias da academia - algumas depois eu posso contar. Mas queria muito escrever algo ainda esse ano, e termina-lo com um post des-academizado (bem, talvez só um pouquinho de academia mais para o final - mas prometo que é algo secundário no texto). Também pensei em umas histórias engraçadinhas - mas hoje me sinto um pouco melancólico e me sentiria forçando a barra contando algo engraçado. Histórias mais leves para o ano que vem, ok?

Esse foi um ano muito difícil - disseram todo mundo. Cada um teve sua cota de angústias pessoais, mas todas alimentadas por um clima de descrença, de medo, ou mesmo de raiva generalizado. Coisas que parecem se materializar num desgosto do dia a dia.

Gosto muito do meu bairro, mas ele abriga também a pior elite metropolitana que existe atualmente. Gente que camufla (ou nem tanto, license to kill, license do spill) preconceitos através do hoje liberado e sancionado ódio à corrupção e ao banditismo institucionalizado. Gente que bateu panela, exercitou seu classismo, seu racismo e seu sexismo numa espécie de loucura coletiva e que agora, defenestrada a figura preferida de todos para malhar, precisa encontrar outro alvo para extravasar as frustrações que, surpresa surpresa, não acabaram num passe de mágica. Não que já não exercessem cotidianamente seus micro-poderes, mas agora vejo pessoas que continuam amarguradas, sem ter mais um bode expiatório para canalizar tanta energia. Algo que a história já cansou de nos mostrar, evidentemente (sempre existem grupos para perseguir, certo?).

Frequento uma padaria do lado de casa - e tive que dominar a habilidade de não prestar atenção naqueles tiozinhos brancos de classe média com seus carrões que gostam de tomar um pingado e achar que são root. Mas de vez em quando não dá para não escutar. E vejo eles exercitando um sadismo classista, sobretudo com as atendentes mais humildes que lhes servem café e pão na chapa. Fazendo piadas escrotas e sabendo que terão aquela risadinha amarela em deferimento a um poderzinho podre que faz de refém quem não se pode dar ao luxo de mandar pastar. "Sim, é isso mesmo doutor", "que engraçado, doutor", "é, aonde já se viu tanta sem vergonhice e roubalheira, doutor". Fórmulas centenárias de sujeição, de classe, de raça e de gênero. É um exercício do prazer da submissão formal às maiores barbaridades e opiniões reacionárias que sentem-se a vontade de proferir - mesmo que no fundo saibam que a outra pessoa pense "que babaca". Praticam sua escrotidão e depois deixam uma nota de dois reais na caixinha dos funcionários.

E não é só na padaria. Existem os butecos, onde o mesmo acontece, mas agora com garçons. É que buteco eu já não frequento mais, desde que a cerveja passou a me fazer mal.

E tem o clássico supermercado - outra zona intersticial, em que esses mundos se encontram - mas também em um ambiente controlado (quando as fronteiras ameaçam ruir, quando as pessoas teimam em não se conformar aos seus espaços ou aos seus papéis atribuídos, como nos rolezinhos, a maledicência e o policiamento entram em ação rapidamente). Ontem mesmo, presenciei triste uma mulher com sua Louis Vuitton a tira colo ameaçando falar com o gerente para despedir a caixa que apenas tinha falado que não a atenderia porque aquela fila era para compras de até 10 itens. O que leva alguém a não apenas esquecer sua cruzada anti-corrupção anunciada para quem quiser ouvir (com seus ídolos, judiciários), para reclamar sua distinção como alguém que na prática está acima dessas regras mortais, mas também aterrorizar alguém que provavelmente mora num bairro distante e tem que aturar essas coisas todos os dias, com um sorriso "que madame idiota"?

Sinto que, se esses micropoderes sempre existiram, eles se tornarão mais frequentes no futuro próximo. Mais frequentes e mais cruéis. É uma espécie de catarse mesquinha, de transferência de angústia. Do mesmo tipo presente na turba justiceira que gostaria de linchar dois assassinos (que, entretanto, agiram sem que ninguém interferisse). Ou do gozo sádico com as imagens de um ex-governador esperneando ao ser preso.

Mas é também em momentos como esses, em que temos que pesar e lamentar, que as pessoas mostram o que têm de melhor, por outro lado. Há dois dias uma querida professora, que tanto me ajudou, faleceu - apenas dois meses após o marido, que também foi meu professor. Suspeito que de tristeza. Dei e recebi abraços sinceros em quem foi ao cemitério se despedir; de quem se uniu para se confortar. E ouvi emocionado um dos fundadores do departamento do qual faço parte, que recebeu essa professora no primeiro ano do funcionamento desse departamento, se desculpar por alguns pensamentos confusos, mas guiados pela certeza de que esse casal que ajudou a criar algo do nada (literalmente, como atestam as fotografias de 45 anos atrás, de uma unicamp cheia de terra e mato) tinha que ser lembrado. Como tinha que ser lembrada a ideia que originou uma faculdade, possibilitada apenas por um companheirismo e uma colaboração verdadeira, em condições terríveis, no meio de uma ditadura - apenas com a vontade de criar algo bonito. Uma ideia para ser lembrada, celebrada e defendida.

Aqui estou eu, herdeiro dessa ideia. Assustado com o desmonte que se anuncia e já é sentido, a toque de caixa, alimentado por esse mesmo ódio e uma intransigência que busca culpados - preferencialmente naquilo que é público, de um bem comum, um cuidar comum, que agora é acusado de expropriar aquilo que já é privilégio de poucos, que virou, num discurso injusto e preguiçoso, algo confundido com assistencialismo e com ineficiência. Mas isso tudo só me dá a certeza de que lado devo estar, com quem quero estar abraçado, com quem quero continuar uma ideia tão bonita que se aproxima de uma metade de século agora. Mas também de outras coisas que valem a pena - os amores e as amizades.

Fiquei pensando muito, nesses dias, em algo que já tem uma profundidade histórica suficiente - e talvez ideal - para perceber como são pessoas reais que fazem algo maior do que elas. E acho que não precisa de muito para isso. Basta cultivar gentilezas e afetos no dia a dia, perceber que não é legal transferir frustrações aos outros - de ter consciência de quando se está fazendo isso e parar. A outros que podem ser conhecidos, mas sobretudo aos desconhecidos.

Hoje em dia me emociono com pouco. Com um motorista que pára o fluxo do trânsito para alguém passar. Com alguém que segura a porta do elevador. Com alguém que dá bom dia. Com as iniciativas e projetos de caridade.

Com aquilo que não cria ilhas.

Liçõeszinhas para 2017. Tentarei contar por aqui um pouco como as aprendo.

sexta-feira, novembro 04, 2016

Tchau, Nina

Ela chegou na nossa vida 15 anos atrás.

Eu e a Dani, ainda namorandívoros que éramos, estávamos nos preparando para um grande passo em nossas vidas: morar juntos. Compramos o que nosso pouco dinheirinho permitia, ganhamos outras coisas dos amigos e da família, e montamos uma casinha - a mesma onde estamos até hoje.

E resolvemos que seríamos uma família de mais de dois. Fomos na casa de uma criadora de gatos e escolhemos um lindo gatinho marrom, de olhos grandes e amendoados, de nome Lion - que logo mudamos para um que achávamos que combinava com ele: Puskas, em homenagem ao jogador húngaro. Aí depois que estava grandinho o suficiente fomos pegá-lo para levar para casa. Mas ali, meio ignorada pelos outros pretendentes de humanos cuidadores, estava uma gatinha mirradinha, de língua pra fora, com dois dentinhos que não cabiam na boca (de vez em quando a chamávamos de "gatinha javali"). Não precisou de muito encorajamento da dona para que nosso coração derretesse e resolvêssemos abrir mais uma vaga na família e levá-la junto. Já tivemos uma outra Nina antes, que ficou com uma amiga nossa, mas resolvemos repetir o nome, que combinava tanto com aquela gata pequenina e totalmente branca. Ao longo do tempo ela ganharia outros apelidos: Ninalina, Gata Branca, Sagatiba, Sagatibinha Branquinha do Natal... mas para ela, Niiinaaaa - aquele som que ouvia e que sabia que estávamos chamando e que significava que poderia produzir um pouquinho de amor por dia.

E lá se foram 15 anos de algo que me fez descobrir o que era esse "amor incondicional" de que ouvia falar. Aquele olhar apaixonado, de quando subia no meu peito, deitava o queixo e se colocava a ronronar sem parar; sempre olhando nos meus olhos. Sempre que estava sentado na cadeira do escritório, ou no sofá da sala, ela vinha e pulava no colo. Se não vinha e pulava, eu chamava "Niiinaaaa", e zás, ela vinha correndo!

15 anos de muito companheirismo. Aquelas horas na frente do computador, escrevendo tese, lá vinha ela, chamando a atenção, sentar no teclado e me falar que havia outras coisas importantes na vida, para eu não me esquecer disso. Lição que acho que nunca aprendi de fato nesses anos todos. Talvez agora, quem sabe. Uma última coisa que a Nina fez por mim. A real medida das coisas, sabe?

Pois as últimas semanas foram as mais difíceis da minha vida. Acho que nunca sofri tanto. Vendo aquela gatinha intrépida e acrobata ficar cada vez mais magrinha, mais fraquinha. Não sabia que tinha tantas lágrimas, ou que o coração podia realmente se partir. No final ela deixou de andar, tínhamos que dar água e comida na boca, dar um banhinho porque ela não conseguia mais ir no banheiro sozinha. E mesmo assim ela não sofreu. Só parecia que estava parando de funcionar. Mas até hoje de manhã ainda ronronava, feliz com pouca coisa. Um cafuné, uma gotinha de água, uma conversa e um pouco de atenção. Ela não sofreu, mas eu e a Dani ficamos com nossos corações pequenos, apertados. O Puskas sabia que algo acontecia, respeitava e dava distância.

Foi a coisa mais dura que já fiz, vê-la partir e dar o último suspirinho, quase imperceptível, deitadinha na cama conosco. Já perdi outros bichinhos, mas nunca assim. E que injustiça, devem pensar "que drama, que maluco, tanta desgraça no mundo, tanta gente precisando de ajuda e faz esse chororô todo por uma gata". Só que eu não me arrependo de ter dado a maior parte de mim nessas últimas semanas. Vivi o resto no modo básico, aquele suficiente. Deixei os prazos estourarem. Os preciosos e vitais e-mails sem responder. A incontornável arena política das redes sociais esbravejando sozinha. Pelo menos por um tempo, o tempo dela.

O caso é que nesses últimos dias eu me dei conta de algumas coisas. Talvez a principal é que o mundo é pequeno. E é essa pequenez que importa. Uma vidinha felina, que talvez não importe muito no grande esquema das coisas. Pouca gente a conheceu. Ela não inventou nenhuma vacina, ou liderou uma revolução. Mas era a criatura mais carinhosa e doce que podia existir. E, ainda que pequena, levinha e frágil, também corajosa e destemida. Por um mês ela ficou ainda conosco, nos dando chance de nos despedir aos poucos. E sua passagem por aqui, um cuidado mútuo - ela da gente, nós dela - valeu tudo. E digo, tudo. Colocamos as coisas em perspectiva. Nos salvamos - e, fazendo esse pequeno ato particular, todo o universo ficou mais bonito. E demos e ganhamos sentido. Aquela coisa paradoxalmente estranha, que só dá para entender nessas horas. Quando tudo é salvo nos pequenos amores, não importa qual seja. Afinal, o mundo é pequeno, você sabia? Nos resta entender que não é preciso muito de nós para povoá-lo, e que é um desperdício nos esgarçarmos muito. Cultive seus pequenos-grandes amores. Eles são raros e vale a pena cuidar. Mesmo que a saudade, depois, doa.

Lá foi sentar em outros teclados de computador. Lá foi caçar bichinhos nos sonhos.

terça-feira, julho 05, 2016

A educação pública, ou a alegria da primeira pesquisa

O dia que sai a lista de bolsas aprovadas de Iniciação Científica da universidade é um dos mais felizes. Já há alguns anos que eu abro o documento nesse dia e vou vendo todo mundo que é do meu instituto. Algumas pessoas foram meus alunos, alguns não, mas é uma felicidade enorme mesmo.

Já deve ter acontecido com todo mundo uma coisa realmente incrível e que lava a alma: de descobrir, com surpresa, que algo muito bacana existe. O inesperado mesmo! A gente vive em uma lógica tão inescapável do serviço, que é fácil esquecer que existem políticas sociais desse tipo. Porque é algo acadêmico, mas é política social. E não tem nada a ver com caridade, mesmo sendo público e gratuito. É o que impulsiona a ciência e a cidadania em um país. É preciso esquecer de vez em quando as metáforas produtivistas, mas vai lá: nunca um investimento tão pequeno produziu tanto.

Porque são bolsas muito humildes, insuficientes na verdade. Mas as pessoas ficam felizes demais - e têm um impacto enorme sobre suas vidas! Não canso de me emocionar vendo isso no que meus orientandos falam e demonstram.

Isso é importantíssimo para a grande maioria dos estudantes que são contemplados com essa bolsa. Financeiramente, claro, para a maioria. Mas há algo ainda mais fundamental, ainda mais fascinante, ao mesmo tempo que intangível: a oportunidade de fazer a primeira pesquisa. A primeira pesquisa, provavelmente, é uma das primeiras coisas autorais que fazemos academicamente. E isso não pode ser subestimado.

Eu adoro fazer pesquisa. Mas a primeira tem um lugarzinho especial. Lembro daquela sensação de descoberta, de começar a entender alguma coisa, de produzir uma interpretação sobre aquilo que, por mais que você tenha ajuda de colegas, orientadores ou orientadoras, é seu e que mais ninguém fez daquela maneira. É isso arte? Talvez sim. Gosto de acreditar que sim, pelo menos em parte, essa que eu estou dizendo que é tão bonita. É difícil precisar o que isso faz por uma pessoa, mas sei que é grande.

Não deixo de me surpreender com essas coisas. Ainda mais porque estamos acostumados com a lógica do "pago", do "serviço". Nunca fiz IC. Comecei no mestrado mesmo. Mas lembro até hoje quando a secretária da pós ligou em casa e me disse que eu teria uma bolsa de estudos. Achei aquilo tão surreal que por pouco eu fico sem, porque eu não sabia que era tudo bem aceitar.

Minha família tem origens muito humildes. Certamente por isso fizeram questão de me proporcionar estudo. Infelizmente, na minha época, um bom estudo era sinônimo de escola particular - algo que meus pais não tiveram, mas achavam que valia a pena proporcionar aos filhos. Minha formação começou aí, mas ao mesmo tempo eu nunca deixei de me espantar de fato com o que há de público e gratuito - e o bem que isso faz. Essas oportunidades, para muita gente, começam na universidade pública. E, para muitas dessas pessoas, são coisas como uma bolsa de IC para pesquisa que viabilizam - em todos os sentidos - a educação e a formação para suas vidas. Para mim, que estou há mais de 20 anos em uma universidade dessas, é certamente minha vida. E, nessas horas, essa surpresa, do algo bonito que existe e merece ser defendido, faz um bem tremendo.

terça-feira, junho 14, 2016

Navegando

Hoje me peguei pensando no longo caminho que eu fazia, impulsionado por um namorico daqueles quase não mais adolescentes, entre Campo Grande e Niterói. Quase namorava uma moça que fazia economia na UFF.

Ia ao Rio, ficar na casa dos meus primos em Campo Grande, para de lá ficar algumas horas, as vezes alguns dias, com ela, em terras fluminenses. O longo, longo... longo e estranho percurso pela Brasil, naqueles ônibus lotados, suados, quase tombando em curvas rebeldes e teatrais. A perambulação pela Praça XV, o desviar das bisnagas de urina, da memória em fuga. E então os longos minutos embalado pelo balançar lento da barca, que avançava com preguiça, como uma grande lesma marinha, ruminando a água verde da baía e expelindo espuma branca como rastro. E, depois, toda a volta, com a testa encostada no vidro tremelizente do coletivo vazio, carregando as almas esgotadas, olhando para o escuro de fora com os olhos desfocados e baixos.

Como achava aquilo tudo esquisitamente mágico... as ruas feias, as pessoas de colarinho aberto andando apressadas... o mar lindo - ao Rio nunca faltou o sucesso do casamento com a natureza.

Vi o museu espaçonave de Niemeyer ser construído. Fui lá quando abriu, olhar aquela linda paisagem, mas duvidoso se ela não teria sido de alguma maneira estragada (quem lembra do mirante sem todo aquele concreto modernista? Há ali um tipo de mais valia bizarra, em que aquilo que sempre esteve ali começou a ser apreciado por detrás de um vidro pretensioso).

Daqueles tempos só guardei as lembranças das travessias. Da água salgada, dos malucos, das arquiteturas bonitas do Centro, daquelas ilhas de namorados, espalhadas pela Guanabara. Da moça, uma amargura rala, que nem se presta a ser trauma daqueles que você confidencia com uma garrafa de vinho, um vazio que só as medidas melodramáticas pode construir: queima tudo! Vidas outras, passageiras. O Rio, este fica. Sans dramas pessoais, mas com todos os dramas pessoais do mundo, reunidos mas nunca a se encontrar. As vezes alguns esbarrões, vislumbres das dores e amores alheios. Capturados de forma tão fugidia que não se espreme nem uma história contada - talvez uma imaginada, inventada. Mas que condensam um algo a mais, que se reproduz ao longo das gerações, mudando apenas de vestidos, de ternos e vestimentas.

Uma boniteza que não precisa ser bonita de fato. Pois está lá ainda.


PS - Este é o post de número 500! Puxa vida...

domingo, junho 12, 2016

Passeando fora do tempo

Nas rebarbas do congresso em Coimbra, para onde fui na semana passada, passei dois dias em Lisboa, relembrando como gosto daquela cidade.

Na primeira vez que fui, lá pelos idos de 1997, não tinha gostado, na verdade. Era véspera da Expo 98 - aquela coisa esquisita que fizeram com Lisboa - e tudo me parecia um grande canteiro de obras. De bom, mesmo, eu só lembro que se podia fumar em qualquer lugar. Nem queria acender um cigarro no cinema, mas já que podia...

Sobre a Expo, aliás, fico pensando, dá pra se falar muito. É o tipo de remodelagem radical que se faz em uma urbe, que aparentemente deveria revitalizá-la, mas que no fundo é uma forma de algumas pessoas ganharem muito dinheiro e exacerbar as desigualdades urbanas de uma maneira brutal. Sempre é o mesmo discurso, normalmente em Olimpíadas ou grandes eventos: aproveita-se o grande fluxo de capital e de vontade política e investe-se em infra-estrutura. Bem, já vimos que na prática a coisa é bem menos bonita. Descontando-se os superfaturamentos (sempre rondando os grandes empreendimentos), o fato é que é uma oportunidade de ouro pra especulação imobiliária, para a gentrificação progressiva que separa os cada vez mais endinheirados (e ciosos de suas vizinhanças e fronteiras) e aqueles empurrados para as periferias reais e simbólicas da vida. Há algo de muito violento no tipo de rápida transformação citadina que me deixa horrorizado.

Demoraria 15 anos para voltar a Lisboa, para um congresso, justamente. E a mudança foi impressionante. Havia toda uma parte da cidade que antes não existia! Para um lugar tão antigo, onde as construções são as mesmas por décadas ou séculos, isso é ainda mais estranho.

E agora novamente, 5 anos depois dessa penúltima visita, voltei a perambular por Lisboa. Mas evitei toda aquela região do Parque das Nações, insípida, planejada, cheia de shoppings e pavilhões que lembram - certamente não manifestadamente, mas provavelmente não à toa - a megalomania colonial salazariana. Algo com que os portugueses certamente não querem mais fazer associações, mas que está sempre presente, nos pequenos e nos grandes detalhes, incrustado na arquitetura e na paisagem.

Lisboa é uma cidade muitíssimo agradável para andar, a esmo. Para passear, no sentido promenade mesmo. Quando a tarde cai e as luzes (que nunca parecem iluminar de fato) começam a acender eu tenho a impressão de estar em outra época. Os fantasmas que perambulavam por ali ficam mais densos, menos esvoaçantes sob o amarelado dos postes e das grandes lanternas dependuradas e espalhadas pelas ruas.

Eu fico com a impressão de estar em algum quadro pós-impressionista. Daqueles que comentam os costumes da modernidade que chega de repente e que vem substituir o que quer que seja que guardava aqueles espaços que se pode identificar como antigos, velhos mesmo - ainda que teimosos por ir por completo (de onde a tragédia das regiões ultra planejadas). Quadros que anunciam o fim do século XIX, a transição do campo para a cidade, o começo dos estilos modernos. Da vida em movimento quase maníaco de tão constante. Um quadro de Toulouse-Lautrec em alguns momentos, ao pé do castelo de São Jorge, sempre mais cheio de sombras e de recantos mais escuros, de espaços sem muita gente. Ou então um de Degas, junto às pessoas na Alfama e seus vermelhos todos, ou a agitação e boemia da Mouraria. A parte baixa e o Chiado são pintados por outras mãos. Mas talvez por sua movimentação ininterrupta não sejam tão apetitosas ao flâneur que busca essa mediunidade ambulante. Para isso é preciso, precisamente, pausar. Mesmo que rapidamente.



E dessa vez conheci o outro lado do Tejo, o sul, em Cacilhas. Com suas docas decrépitas, os pescadores noturnos, as paredes com os azulejos roídos e progressivamente roubados, não exatamente apagando seu passado, mas paradoxalmente conferindo um ar ainda mais forte, pela ausência cada vez mais presente daquilo que teria existido e que se esvai ano após ano. E de lá, em uma tasca a beira rio, tomando um vinho, comendo um arroz de Tamboril, depois bebericando uma bagaceira que desce rasgando sem queimar, ver o anoitecer me deu a chance de pensar tudo isso, de longe mas não tanto, sobre essa bonita, singular mas familiar e acolhedora cidade.