quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Reconhecendo Belém

De volta a Belém para fazer um pouco de pesquisa. A última vez que vim foi em 2012 - e tenho memórias boas e más daqui. É um lugar bonito com pessoas muito amáveis, mas foi também aqui que eu vim parar no hospital com intoxicação alimentar. Adorei a comida paraense, mas fiz a besteira de um dia comer numa dessas redes de fast food.

Resolvi ficar no mesmo hotel que fiquei das outras vezes. Mas a lanchonete intoxicadora felizmente não está mais do lado. Agora tô saindo pra procurar restaurantes mesmo. Melhor.

As pessoas continuam incríveis - ajudam mesmo. E não só as paraenses, mas muita gente que vem de outros lugares e que deve beber da água da amabilidade daqui. Impressionante como todo mundo quer ajudar. Gosto demais daqui. Já tinha ficado impressionado antes, e as pessoas, desconhecidas, ainda dão bom dia.
Quase seis anos depois, volto para alguns lugares conhecidos. Alguns, infelizmente, com um ar abandonado. Mas o mais legal tem sido conhecer outros. Uns dias atrás fui fazer uma busca dos edifícios da época da borracha, a belle époque paraense. Encontrei uma pérola no centro da cidade, numa rua ocupada por barracas. A Paris n'America, uma loja de departamento em estilo art nouveau que hoje ainda funciona, mas vendendo tecidos agora.

Hoje conheci o Cine Olympia, que funcionando desde 1912 é o mais antigo cinema em atividade no Brasil. Em art déco, é um cinema longo e charmoso, com cara de cinema de rua mesmo. Fiquei surpreso quando descobri que não precisava pagar, era só entrar e assistir a sessão do dia, a animação La jeune fille sans mains, baseada num conto dos irmãos Grimm. Literalmente uma sucessão de quadros em forma de filme. Cada frame é um aquarela bonita. Eu, que tenho gostado cada vez mais de apreciar a liberdade da aquarela achei a experiência toda - ali, sozinho, nesse cine, em Belém - maravilhosa.

Assisti o filme maravilhado, na companhia de uns dois ou três casais e algumas outras almas sós, talvez fugidas da chuva que caía na rua no fim de tarde.

Ah, o filme era de graça.


segunda-feira, novembro 27, 2017

Algumas reflexões sobre fronteiras sociais e o Clube dos Cinco

Estava só zapeando uns canais ontem de noite, passando um tempinho pra então deitar, quando vi que ia começar O clube dos Cinco (em inglês, The Breakfast Club), escrito e dirigido pelo John Hughes e um dos clássicos dos anos 80 que marcaram minha formação como pessoa. E aí não tive como não assistir tudo, mesmo sabendo que ia terminar tarde e no dia seguinte seria segunda.

Ah, é preciso um parêntesis para contextualizar algumas coisas. Eu me dei conta que nunca tinha assistido o começo desse filme, apesar de ter algumas cenas verdadeiramente marcadas na mente (eu sabia de falas e mesmo de expressões faciais antes de acontecerem, de tanto que eu assisti o filme ao longo dos anos). Isso aconteceu com muitos filmes da adolescência, na verdade - perder o começo deles. Para a geração streaming - ou mesmo aquela que pode apertar um botão do controle remoto e fica sabendo da programação dos canais na hora - essa questão pode passar batida. Mas para quem formou sua educação cinematográfica pela Sessão da Tarde e congêneres isso é um fato da vida significativo. Você pegava o filme já começado. Normal. Claro, ao mesmo tempo, naquela época, havia locadora - e ela era muito frequentada - mas isso valia para alguns filmes e não outros. Clube dos Cinco era um filme de ver na TV, como outros que não são imediatamente lembrados hoje em dia... O fato é que, para muitos filmes importantes para mim, eu posso realmente não tê-los visto inteiros.

Bom, fiz o parêntesis porque isso tem certa relevância para esse post. Ver desde o começo aumentou meu carinho pelo filme.

O Clube dos Cinco começa com os cinco principais personagens (the brain, the athlete, the basket case, the princess, the criminal) chegando na escola, em pleno sábado, para cumprirem uma detenção (forma de punição pouco conhecida aqui em terras brasileiras, que, ao contrário, adota a suspensão). Ao fundo, toca Don't You (forget about me), do Simple Minds, que eleva o, e é elevada pelo, filme, como se verá.

Os adolescentes chegam de carro, deixados por seus pais. Brian, o nerd interpretado por Anthony Michael Hall, é deixado por sua mãe, que lhe adverte "essa será a primeira ou a última vez que te deixo aqui?" (ah, outra coisa, os diálogos são genialmente econômicos - não é preciso muito mais do que isso para sabermos muito sobre a relação de Brian com sua família. Como acontece com as outras famílias, que vemos muito pouco ou não vemos nada, mas que temos bem claras na cabeça como são); Claire, interpretada pela eterna menina ruiva dos anos 80, Molly Ringwald, é deixada por seu pai, que parece não se importar muito com o motivo de sua punição, matar aula para fazer compras; Andrew, o esportista interpretado por Emilio Estevez, chega na camionete de seu pai, que apenas lhe oferece como reprimenda o fato de ter sido pego fazendo o que fez - e não pelo ato que, conheceremos adiante, é um bullying odioso; Allison, a garota calada, meio estranha, interpretada por Ally Sheed, apenas aparece saindo do carro - ela faz menção de falar algo com alguém de sua família que está na parte da frente do carro apenas para ver este arrancando e a deixando só, com algum "até logo" nunca dito de fato. Somente Bender, o encrenqueiro interpretado por Nelson Judd - que está ótimo no papel - chega a pé. Sobretudo, coturno aberto, postura de desafio ao mundo, é o personagem através do qual as reflexões mais profundas feitas pelos cinco serão possíveis.

Os cinco são levados pelo professor Vernon, interpretado por Paul Gleason, para mesas na biblioteca da escola. São instruídos a ficarem sentados e escrever sobre si mesmos durante aquelas horas de detenção, quando pensarão sobre si mesmos e os motivos que os levaram ali. Suas carreiras estão em jogo, logo entendemos. Tudo começa com uma falta besta e simples, mas esse é o futuro para o resto de suas vidas. Na verdade, a certa altura do filme, em uma conversa com o zelador Carl (interpretado por John Kapelos), Vernon se mostra em um de seus momentos de maior sinceridade - e até vulnerabilidade - e confessa que morre de medo desse futuro: essas crianças, quando crescerem, serão os adultos no mundo. Esse é um pensamento que o acorda de noite, admite. Serão essas pessoas que cuidarão dele quando ficar velho. Ao que Carl responde, advertindo: "eu não contaria com isso". Frase ominosa que alerta Vernon para o fato de que ele próprio, mesmo talvez argumentando que educa rigidamente para formar boas pessoas, exagera na forma como pune os alunos (Carl propõe a reflexão: "o que o seu eu jovem diria sobre você agora?").

E Vernon é um idiota. Alguém medíocre que se afirma no exercício de uma autoridade que vira abuso e humilhação. Mas há algo mais etéreo e perigoso no aviso, quase ameaça, de Carl. Vindo de uma visão nebulosa de um mundo em que a empatia é insuficiente. Individualista. De oportunidades desperdiçadas, ou de oportunidades que impossibilitam relações sinceras.

Carl tem um papel importante, ainda que pequeno. Em outro momento do filme Bender conversa com Carl e pergunta como alguém vira um zelador. Na verdade ele queria provocar Andrew, insinuando que este pensava em seguir essa carreira. Mas, inconsequente como é, Bender acaba por humilhar Carl, que lhe responde que não sabia como alguém vira um zelador, que talvez esses adolescentes pensassem que ele é como alguém intocável, um servo, um peão. E que talvez fosse isso mesmo, mas que ao mesmo tempo, nesses anos todos varrendo, passando despercebido, sabia uma coisa ou outra sobre todos eles: ouve suas conversas, sabe o que há em seus registros. Carl é um personagem curioso. Bender é revoltado, ganha de natal um pacote de cigarros - mas para ele ainda há um vislumbre de futuro aos olhos da instituição. E estuda em um colégio evidentemente rico, de elite. O único personagem da classe trabalhadora é de fato Carl. Como talvez Vernon, à sua maneira, ainda que se vanglorie de receber 31 mil dólares ao ano. Mas aquele poder silencioso, daqueles que controlam a própria maquinaria social, apenas Carl pode exercer. De forma significativa, na conversa com Vernon, quando este pergunta o que Carl gostaria de ser quando era criança, esse responde que queria ser John Lennon. Uma resposta besta, aos olhos de Vernon.

Mas Vernon também tem um lugar importante no filme. Extremamente duro, arrogante, baixa a guarda duas vezes no filme. Quando confessa seu medo a Carl e em uma outra cena extremamente tensa e bem feita. Em certo momento do filme Bender retruca a uma bronca e Vernon lhe dá mais um sábado de detenção. A tensão aumenta, as punições também, até que Bender termina com mais dois meses de detenção e a predição cruel de que em cinco anos não será ninguém. Vernon enfim sai do recinto e fecha a porta. Logo em seguida Bender xinga alto, com raiva. A câmera corta para Vernon, que ouviu o grito, mas não voltou para continuar a briga e aplicar mais uma punição. Apenas suspira, triste. Nada é dito, mas ali ficou claro que nenhum dos dois podia recuar na frente dos outros adolescentes. As fachadas têm que ser mantidas, ninguém pode recuar, mesmo que estejam se destruindo no processo. Outra coisa que quem não cresceu nos anos 80 não lembra: a corrida armamentista nuclear como paradigma mais contundente dessa autodestruição agonística entre as pessoas.

Ao longo do filme seguimos os adolescentes que começam como estereótipos e revelam-se como pessoas fraturadas, pela pressão dos amigos, da família. A popular que tem que admitir uma sinceridade cruel de que, na segunda, provavelmente não falará com aquelas pessoas que apenas a ocasião juntou; o "jock" que lembrou, horrorizado, como foi cruel com um menino para que seu pai tivesse orgulho do filho descolado; o nerd que não suporta a ideia de tirar um zero e traz uma arma para a escola; a moça calada que mente compulsivamente e que é ignorada pela família; o encrenqueiro que lembra ao mundo da hipocrisia que lhe faz sofrer, objetivada na figura de um pai abusivo e violento em casa.

E ficamos com a dúvida - será que aquele dia juntos, tendo descoberto tanto sobre si e sobre os outros, os fará serem amigos de fato? Parece haver a promessa e o desejo de que esse momento de passagem possa superar as fronteiras que suas pertenças sociais estabelecem. Ao final Allison beija Andrew, Claire beija Bender, que lhe havia infernizado por boa parte do dia. Brian parece ser aquele que realmente tentará não reproduzir as clivagens - mas a ele parece não haver muito poder de barganha. Faz parte apenas do desprestigiado (na perspectiva do establishment escolar) clube de física - ainda que, por sua vez, tenha rebaixado o clube de modelagem, exemplo de algo manual e menor, não intelectual; como era manual a tarefa que falhou, de acender uma lâmpada num experimento.

Afinal, depois da separação e da liminaridade a estrutura é reafirmada na integração social novamente.

Outros filmes de John Hughes revelam algumas pérolas doídas para reflexão - em Curtindo a Vida Adoidado, Ferris prevê, ao lado do amigo Cameron catatônico, que este provavelmente se casará com a primeira mulher com quem transar - e não terá respeito próprio e não será respeitado. E outros filmes dos anos 80, a despeito do humor banal e exagerado, da história irreverente, misturam algumas angústias existenciais. O Último Americano Virgem tem um final anti clímax que frustra expectativas (de que o protagonista ficará com a moça no final, provando seu valor e mostrando que o descolado é na verdade um imbecil - quando ocorre justamente o oposto) e é o que torna a história poderosa e memorável. Mas acho que é no Clube dos Cinco que essas mensagens são mais centrais à história.

Não temos certeza de que a força das posições sociais prevalecerá. As expectativas sobre como viver, com quem se relacionar, ficam evidentes. Mas a promessa da tentativa, dolorida, é o que temos ao final. Espelhando o começo, Brian, Claire, Allison e Andrew saem da escola e entram nos carros dos familiares. Bender, como no início, vai embora a pé, só. Talvez seja significativo que seja o personagem que o diretor mais tentou tornar simpático aos olhos do público, que nutre empatia com seu tormento e sua, por vezes, crueldade.

A música, novamente, pede para que "você não me esqueça". Mas talvez isso não seja suficiente: algumas coisas deixam de funcionar quando voltam ao normal. Há um sentimento que pode ser mantido dentro das pessoas, com suas boas intenções. Mas e a separação, o fato de que a outra pessoa pode, ao contrário, nem olhar para você na rua no dia seguinte?

Às pessoas são dadas armadilhas como opções. Um pouco antes no filme Allison lembra a Claire, que admite ser virgem: se você diz que não transou é uma pudica, se diz que transou é uma piranha. Uma sociedade feita de ilhas de solidão, transpostas de forma efêmera pelas relações ao longo da vida - e sobre as quais lembramos com dor, inconformados com sua perda e incapazes de mantê-las ou então enterrá-las de vez.

Won't you come see about me
I'll be alone dancing, you know it, baby
Tell me your troubles and doubts
Giving me everything inside and out
And love's strange: so real in the dark
Think of the tender things
That we were working on
Slow change may pull us apart
When the light gets into your heart, baby

Don't you forget about me
I'll be alone dancing, you know it, baby
Going to take you apart
I'll build us back together at heart, baby

quinta-feira, agosto 10, 2017

Da inércia da felicidade


Talvez seja algo sintomático da lama atual...

Tenho percebido o quanto demora para ficar bem de fato. Digo, feliz mesmo. Porque, claro, momentos alegres temos sempre: por menor que sejam, descobri há muito que basta apreciá-los e aí a plenitude pode vir do singelo e do minúsculo.

Mas ficar feliz mesmo, daquele jeito de andar sorrindo e alguém te dizer, do nada, "nossa, como você está bem!", não é tão comum. Na verdade a gente pode até sempre sorrir, mas esse elogio só nos dão quando estamos brilhando.

Pelo menos é assim pra mim.

Mas eu estava feliz, até hoje de noitinha. Muito feliz - daquele nível de ficar quase eufórico. E sei bem como foi o processo: foi uma boa notícia aqui, outra ali, um elogio, uma realização, um projeto que parece que vai dar certo, o prazer que comecei a sentir desenhando... apesar de todo o resto acontecendo ao redor, pessoalmente estava bem. Fui juntando belezuras, colecionando bons momentos.

É um processo de vários dias. Talvez semanas. Em que as coisinhas bacanas vão se amalgamando em um arzinho de júbilo que esquenta o corpo. E então, assim, de repente, basta uma coisa ruim acontecer, um sofrimento injusto te recordar que o mistério parece ser mesmo ter que saber como lidar com as dificuldades, que tudo parece tomar outra cor. O mundo muda. Os cheiros, os tons, o éter.

E como fazer quando todos à sua volta vêm notícias ruins umas atrás de outras?

Eu tenho tentando fazer bem, também me ouvir sobre o que me faz feliz. É difícil no meio da situação atual, mas acho que tenho conseguido mais ou menos. Mas hoje veio um baque. Daqueles de ter que se recolher um pouco. E aí, aquela vontade de expandir, de abraçar, fica um pouco murcha.

Pelo menos tive uma boa sequência.



Sobre o desenho - eu quero tentar escrever mais aqui e colocar sempre um desenho que fiz pra acompanhar (ou vice-versa). Uma das grandes alegrias ultimamente, um processo terapêutico mesmo, é desenhar. Totalmente inspirado nas coisas lindas que a Karina Kuschnir faz. O blog dela, https://karinakuschnir.wordpress.com/, é maravilhoso, e pensei em fazer algo assim por aqui: um texto de parzinho com um desenho. Até mesmo porque isso pode me estimular a habitar mais esse espaço aqui - algo que venho falando que vou fazer há tempos. Shame on me. E tenho desenhado bastante, alguns eu tenho gostado do resultado e quero mostrar aqui. Mas hoje resgatei um que fiz já há alguns meses, quando minha mãe começou o tratamento de quimio dela. Hoje até que não gosto tanto do desenho, mas achei que não faria muito sentido colocar um desenho muito feliz agora. Lembrei desse, que fiz num dia com sentimentos ambíguos, na primeira visita ao centro de oncologia: um pouco de medo, de revolta, mas também de admiração pela resiliência das pessoas e a capacidade de ajudar e ser solidário. É um pouco como estou me sentido agora. Espero que da próxima vez eu possa colocar um desenho mais feliz (ainda que um amigo tenha me falado que os meus rabiscos expressam uma tristeza profunda... não sei, preciso ver se mais gente sente isso e aí tentar pensar mais...).

segunda-feira, julho 03, 2017

Não fazem mais chocolate quente como antigamente


Há tempos eu ensaio alguma ideia para tentar retomar o blog, mas tão logo eu começo a formular algo mais concreto eu fico um pouco preguiçento e deixo a vontade de iniciativa de lado (diriam os epistemólogos, potência?), deixando isso aqui sempre naquele frustrante espaço do silêncio desconfortável do não dar o braço a torcer para o esquecimento e o abandono.

Ainda quero escrever aqui.

Então resolvi que preciso de baby steps. Nada de posts mágicos que vão fazer o turning point milagroso, chave dos caminhos destrancados do nirvana textual e da profusão de brilhantes sacadas. Pequenas crônicas cotidianas, no conforto da sentada breve, é isso! Menores do que um artigo, maiores do que um tuíte (que nunca tive e então eu não sei direito como funciona só sei que você tem que escrever o que imagino ser um aforismo de 140 caracteres cabalísticos o que deve ser mais difícil do que fazer resumo para trabalho na anpocs). E, para não descaracterizar o blog, temperadas com reminiscências arrepiantes do passado, claro.

Então vamos a isso.

Fui hoje no correio - essa instituição moribunda, com risco de extinção - mandar alguns documentos. Há uma agência relativamente perto de casa, que era até bem grandinha e recentemente encolheu de tamanho, certamente para cortar gastos e caber na exata medida da capacidade de importar das pessoas. Como uma espécie de metonímia das coisas públicas atualmente.

Na volta, com um pouco de frio e ainda não pronto para trabalhar, parei num café simpático que tenho frequentado ultimamente: atendentes simpáticas, preço muito camarada, comidas e um coado ótimos! Ao invés do cafezinho que me acostumei a pedir, resolvi me aventurar, ser rebelde e testar algo novo, um chocolate quente. Para acompanhar, um tostex, o que sempre faz bem para a alma.

Bebendo, torci o nariz ao ver que era feito de achocolatado em pó e me peguei lembrando do passado. Daydreaming na calçada perto de casa.

Filho de pais funcionários públicos, passei basicamente todas as férias da infância nas colônias de férias da associação dos funcionários públicos - jeito confortável e barato que o funcionário público orgulhoso, mas nunca rico ou preguiçoso como querem nos fazer engolir, tinha para descansar. São lugares ótimos, simples mas muito bem cuidados, em diversas cidades no Estado. E, destas idas em férias, para nós a grande maioria tomava lugar em Campos do Jordão, nosso destino favorito. Um dia eu conto um pouco mais das lembranças desse lugar - é uma espécie de hotel fazenda (ainda que perto do centrinho), de uma arquitetura meio colonial, meio germânica, feita com muita madeira e recintos grandes. Eu, que sempre gostei de romances de mistério, me sentia numa mistura de história de Agatha Christie e uma partida de Detetive (Coronel Mostarda, com o candelabro, na biblioteca).

Mas aí você me pergunta: o que o achocolatado fez para te lembrar das frias férias nas montanhas paulistanas? É que é de lá uma das lembranças mais aconchegantes da minha infância - dos anos em que começam as memórias até os intensos e apaixonados anos pré-teen, quando ia lá toda santa estação de inverno. Bebendo chocolate quente. Que não era achocolatado com gosto de nescau, mas uma coisa espessa de chocolate meio amargo derretido com suficiente leite quente apenas para poder chamar aquilo de bebida e para que se pudesse engolir.

Duas outras vezes consegui achar um chocolate quente que fizesse jus ao nome: uma vez em Bariloche, quando tinha meus 6 anos (o fato deve ter realmente me marcado, pois são poucas as imagens que guardo daquela viagem) e recebi uma barra de chocolate num copo de leite fervendo (singelamente chamado de submarino), e num Carluccio's perto da minha casa em St. Johns Wood (pessoas familiarizadas com Londres sabem da fama careira do Carluccio's, mas ninguém pode negar como aquele copinho de espesso chocolate brilhante derretido é um verdadeiro afago espiritual).

Desde então minha busca por bons chocolates quentes se tornou um exercício frustrante de comparações com o passado, que encontra paralelo com o mundo musical e o cinematográfico (ninguém mais faz filme bom como Goonies, isso não é música!), na minha rabugentice crônica que parece apenas piorar com o tempo, na igual medida que percebo que tudo isso se tornou uma metáfora para minha percepção do mundo - tudo o que era antes se perdeu e era melhor.

Até mesmo o cafezinho bom da esquina, iniciativa resistente à lógica das grandes redes e que merece ser frequentada, não consegue fazer um bom chocolate quente. Vou continuar aparecendo por lá, mas não peço mais o "coco" deles. Mas ao mesmo tempo fico morrendo de medo de voltar para Campos do Jordão, para onde não vou há umas duas décadas e desde então tornada refúgio de uma paulistandade barulhenta atrás de fondue inflacionado e cerveja encorpada (e que no verão migra em bando pra Riviera). Se lá encontrar achocolatado, fodeu.


Edição na postagem: o desenho que estava no final foi para o começo do texto! Desejo da querida Karina Kuschnir, que tem um maravilhoso blog, que lida tão bem com essa parceria texto-desenho!

Desenhar tem sido uma das grandes alegrias atuais - quero ver se escrevo mais sobre isso aqui, bem como mostrar umas aquarelas! Nesse desenho aqui, o cafezinho perto de casa.

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Dez anos atrás...

Há 10 anos eu aportava em Londres, para fazer parte - a mais importante - da pesquisa que acabou virando meu doutorado. Na época esse blog já existia, mas ele ganhou mesmo fôlego e uma certa identidade justamente naquele longínquo ano de 2007, quando escrevi com mais urgência, quase compulsivamente.

O blog foi fundamental para eu conseguir lidar com longos períodos de solidão, mas também para dar alguma forma à uma experiência que foi formadora e fundamental pra mim. Escrever em crônica os grandes acontecimentos da minha estadia, mas também narrar e registrar os detalhes do cotidiano mais medíocre, me possibilitaram algo muito especial e que eu acho que nunca mais consegui reproduzir: um vislumbre, dos mais sinceros e doados, do meu vivido e o impacto disso no meu ser. Ter tornado público (mesmo que com pouquíssimos leitores) aquelas dores e alegrias me fez descentrar-me e me enxergar num primeiro momento, mas também conectar-me com outras pessoas - mesmo que eu apenas as imaginasse, sendo minhas leitoras, e nada mais. A potência de um leitor e de uma leitora.

Eu sabia, mesmo naquela época, que aquele ano seria especial. Mas o significado real daquela viagem só começou a ficar claro com a lembrança do que foi, criando uma espécie de verniz emocional com que cobria minhas aventuras e recriava na cabeça minhas andanças, angústias e sucessos. A força com que essa memória vinha à tona é um elogio àqueles dias tão importantes. Ainda que eu suspeite que boa parte dessa importância não esteja presa somente pela boniteza do meu encantamento com aquele lugar. Aquelas ruas me inspiraram a escrever, mas a escrita da lembrança e depois a lembrança da escrita pintaram daquela mesma cor diáfana, que só existe no ar e no céu de Londres, aquela minha experiência (lembro bem quando uma amiga de chamou a atenção para o céu daquelas paragens... "nossa, o azul do céu não é o mesmo!").

E de fato, se escrevinhar cotidianamente naquele 2007 foi crucial para dar forma a uma lembrança da viagem, esses pensamentos continuaram a correr soltos muito tempo depois de não ter mais escrito essa espécie de diário de viagem. Logo depois de voltar eu costumava lembrar, "puxa, uma semana atrás eu estava em Londres"; "nossa, há um mês eu estaria pensando onde sair para beber uma guinness e ver um show". Depois de um tempo passei a contar o tempo pelo começo da estadia, lembrando talvez do impacto que tiveram aqueles primeiros dias em Londres: "caramba, há um ano eu estava chegando, inocente, bobo e besta", "quem diria que há 2 anos eu chegava com duas malas na mão e apenas uma vaga ideia do que eu faria nos próximos 12 meses".

Costumo lembrar, admirado comigo mesmo, como fiz dar certo aquele começo de viagem. Chegar e procurar um lugar para ficar, subjugar a burocracia britânica e abrir uma conta, fazer contatos quando eles não existem em absoluto, flanar pela cidade em reconhecimento e descobrimento. Coisas que não são simples, quando você está em um lugar estranho. Acho que apenas a inocência e a ignorância do que poderia dar errado, alimentadas pela empolgação de tudo aquilo novo, permitiram que eu não paralisasse de pavor. Canso e fico com medo apenas relembrando. Mas como eu me sentia vivo! Dava certo. E fiz dar certo sozinho. Talvez pela primeira vez na vida, realmente sozinho. O mérito daquele ano, o que foi aquele ano - todos os sucessos, todos os excessos, todos os desperdícios, todas as escolhas, são minha responsabilidade. Isso é assustador, mas bonito e poderoso também. E tudo bem que nunca mais tenha isso. Aquela vez foi bom demais.

Me intriga que aquele ano tenha sido tão importante para minha tese, para minha formação, e que pouca gente saiba disso - ou entenda isso. E também me espanta que talvez a forma menos complicada de explicar isso para alguém seja através desse blog e os textos que escrevi em 2007 - ainda que nada, ou quase nada, da pesquisa tenha sido contada no blog. Mas talvez eu devesse ter tentado trazer um pouco dele para o texto com que eu defendi a tese, dois anos depois de voltar para o Brasil, mesmo que trouxesse apenas histórias nada acadêmicas. Acho que ganharia pontos pelo menos por ter vivido como os nativos, com um pint na mão e com o cultivo daquele senso de auto-ridicularização tão característico dos ingleses e seu peculiar senso de humor. E que apenas os etnógrafos gonzo mais confiantes na sabedoria da entrega ao acaso e à chance parecem ter - o que costuma, se não resultar necessariamente em boa antropologia, ao menos em uma menos caxias.

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Cultivando pequenezas

Acabei não escrevendo tanto aqui quanto gostaria esse ano. Vou tentar ser um pouco mais assíduo em 2017, até porque esse é um momento de escapar um pouco, desabafar um pouco, às vezes me divertir, tirar um pouco o peso da correria cotidiana. Falar de algo que pode não ter muita importância no grande esquema das coisas.

Nesses meses sem escrever muito eu acumulei algumas histórias da academia - algumas depois eu posso contar. Mas queria muito escrever algo ainda esse ano, e termina-lo com um post des-academizado (bem, talvez só um pouquinho de academia mais para o final - mas prometo que é algo secundário no texto). Também pensei em umas histórias engraçadinhas - mas hoje me sinto um pouco melancólico e me sentiria forçando a barra contando algo engraçado. Histórias mais leves para o ano que vem, ok?

Esse foi um ano muito difícil - disseram todo mundo. Cada um teve sua cota de angústias pessoais, mas todas alimentadas por um clima de descrença, de medo, ou mesmo de raiva generalizado. Coisas que parecem se materializar num desgosto do dia a dia.

Gosto muito do meu bairro, mas ele abriga também a pior elite metropolitana que existe atualmente. Gente que camufla (ou nem tanto, license to kill, license do spill) preconceitos através do hoje liberado e sancionado ódio à corrupção e ao banditismo institucionalizado. Gente que bateu panela, exercitou seu classismo, seu racismo e seu sexismo numa espécie de loucura coletiva e que agora, defenestrada a figura preferida de todos para malhar, precisa encontrar outro alvo para extravasar as frustrações que, surpresa surpresa, não acabaram num passe de mágica. Não que já não exercessem cotidianamente seus micro-poderes, mas agora vejo pessoas que continuam amarguradas, sem ter mais um bode expiatório para canalizar tanta energia. Algo que a história já cansou de nos mostrar, evidentemente (sempre existem grupos para perseguir, certo?).

Frequento uma padaria do lado de casa - e tive que dominar a habilidade de não prestar atenção naqueles tiozinhos brancos de classe média com seus carrões que gostam de tomar um pingado e achar que são root. Mas de vez em quando não dá para não escutar. E vejo eles exercitando um sadismo classista, sobretudo com as atendentes mais humildes que lhes servem café e pão na chapa. Fazendo piadas escrotas e sabendo que terão aquela risadinha amarela em deferimento a um poderzinho podre que faz de refém quem não se pode dar ao luxo de mandar pastar. "Sim, é isso mesmo doutor", "que engraçado, doutor", "é, aonde já se viu tanta sem vergonhice e roubalheira, doutor". Fórmulas centenárias de sujeição, de classe, de raça e de gênero. É um exercício do prazer da submissão formal às maiores barbaridades e opiniões reacionárias que sentem-se a vontade de proferir - mesmo que no fundo saibam que a outra pessoa pense "que babaca". Praticam sua escrotidão e depois deixam uma nota de dois reais na caixinha dos funcionários.

E não é só na padaria. Existem os butecos, onde o mesmo acontece, mas agora com garçons. É que buteco eu já não frequento mais, desde que a cerveja passou a me fazer mal.

E tem o clássico supermercado - outra zona intersticial, em que esses mundos se encontram - mas também em um ambiente controlado (quando as fronteiras ameaçam ruir, quando as pessoas teimam em não se conformar aos seus espaços ou aos seus papéis atribuídos, como nos rolezinhos, a maledicência e o policiamento entram em ação rapidamente). Ontem mesmo, presenciei triste uma mulher com sua Louis Vuitton a tira colo ameaçando falar com o gerente para despedir a caixa que apenas tinha falado que não a atenderia porque aquela fila era para compras de até 10 itens. O que leva alguém a não apenas esquecer sua cruzada anti-corrupção anunciada para quem quiser ouvir (com seus ídolos, judiciários), para reclamar sua distinção como alguém que na prática está acima dessas regras mortais, mas também aterrorizar alguém que provavelmente mora num bairro distante e tem que aturar essas coisas todos os dias, com um sorriso "que madame idiota"?

Sinto que, se esses micropoderes sempre existiram, eles se tornarão mais frequentes no futuro próximo. Mais frequentes e mais cruéis. É uma espécie de catarse mesquinha, de transferência de angústia. Do mesmo tipo presente na turba justiceira que gostaria de linchar dois assassinos (que, entretanto, agiram sem que ninguém interferisse). Ou do gozo sádico com as imagens de um ex-governador esperneando ao ser preso.

Mas é também em momentos como esses, em que temos que pesar e lamentar, que as pessoas mostram o que têm de melhor, por outro lado. Há dois dias uma querida professora, que tanto me ajudou, faleceu - apenas dois meses após o marido, que também foi meu professor. Suspeito que de tristeza. Dei e recebi abraços sinceros em quem foi ao cemitério se despedir; de quem se uniu para se confortar. E ouvi emocionado um dos fundadores do departamento do qual faço parte, que recebeu essa professora no primeiro ano do funcionamento desse departamento, se desculpar por alguns pensamentos confusos, mas guiados pela certeza de que esse casal que ajudou a criar algo do nada (literalmente, como atestam as fotografias de 45 anos atrás, de uma unicamp cheia de terra e mato) tinha que ser lembrado. Como tinha que ser lembrada a ideia que originou uma faculdade, possibilitada apenas por um companheirismo e uma colaboração verdadeira, em condições terríveis, no meio de uma ditadura - apenas com a vontade de criar algo bonito. Uma ideia para ser lembrada, celebrada e defendida.

Aqui estou eu, herdeiro dessa ideia. Assustado com o desmonte que se anuncia e já é sentido, a toque de caixa, alimentado por esse mesmo ódio e uma intransigência que busca culpados - preferencialmente naquilo que é público, de um bem comum, um cuidar comum, que agora é acusado de expropriar aquilo que já é privilégio de poucos, que virou, num discurso injusto e preguiçoso, algo confundido com assistencialismo e com ineficiência. Mas isso tudo só me dá a certeza de que lado devo estar, com quem quero estar abraçado, com quem quero continuar uma ideia tão bonita que se aproxima de uma metade de século agora. Mas também de outras coisas que valem a pena - os amores e as amizades.

Fiquei pensando muito, nesses dias, em algo que já tem uma profundidade histórica suficiente - e talvez ideal - para perceber como são pessoas reais que fazem algo maior do que elas. E acho que não precisa de muito para isso. Basta cultivar gentilezas e afetos no dia a dia, perceber que não é legal transferir frustrações aos outros - de ter consciência de quando se está fazendo isso e parar. A outros que podem ser conhecidos, mas sobretudo aos desconhecidos.

Hoje em dia me emociono com pouco. Com um motorista que pára o fluxo do trânsito para alguém passar. Com alguém que segura a porta do elevador. Com alguém que dá bom dia. Com as iniciativas e projetos de caridade.

Com aquilo que não cria ilhas.

Liçõeszinhas para 2017. Tentarei contar por aqui um pouco como as aprendo.

sexta-feira, novembro 04, 2016

Tchau, Nina

Ela chegou na nossa vida 15 anos atrás.

Eu e a Dani, ainda namorandívoros que éramos, estávamos nos preparando para um grande passo em nossas vidas: morar juntos. Compramos o que nosso pouco dinheirinho permitia, ganhamos outras coisas dos amigos e da família, e montamos uma casinha - a mesma onde estamos até hoje.

E resolvemos que seríamos uma família de mais de dois. Fomos na casa de uma criadora de gatos e escolhemos um lindo gatinho marrom, de olhos grandes e amendoados, de nome Lion - que logo mudamos para um que achávamos que combinava com ele: Puskas, em homenagem ao jogador húngaro. Aí depois que estava grandinho o suficiente fomos pegá-lo para levar para casa. Mas ali, meio ignorada pelos outros pretendentes de humanos cuidadores, estava uma gatinha mirradinha, de língua pra fora, com dois dentinhos que não cabiam na boca (de vez em quando a chamávamos de "gatinha javali"). Não precisou de muito encorajamento da dona para que nosso coração derretesse e resolvêssemos abrir mais uma vaga na família e levá-la junto. Já tivemos uma outra Nina antes, que ficou com uma amiga nossa, mas resolvemos repetir o nome, que combinava tanto com aquela gata pequenina e totalmente branca. Ao longo do tempo ela ganharia outros apelidos: Ninalina, Gata Branca, Sagatiba, Sagatibinha Branquinha do Natal... mas para ela, Niiinaaaa - aquele som que ouvia e que sabia que estávamos chamando e que significava que poderia produzir um pouquinho de amor por dia.

E lá se foram 15 anos de algo que me fez descobrir o que era esse "amor incondicional" de que ouvia falar. Aquele olhar apaixonado, de quando subia no meu peito, deitava o queixo e se colocava a ronronar sem parar; sempre olhando nos meus olhos. Sempre que estava sentado na cadeira do escritório, ou no sofá da sala, ela vinha e pulava no colo. Se não vinha e pulava, eu chamava "Niiinaaaa", e zás, ela vinha correndo!

15 anos de muito companheirismo. Aquelas horas na frente do computador, escrevendo tese, lá vinha ela, chamando a atenção, sentar no teclado e me falar que havia outras coisas importantes na vida, para eu não me esquecer disso. Lição que acho que nunca aprendi de fato nesses anos todos. Talvez agora, quem sabe. Uma última coisa que a Nina fez por mim. A real medida das coisas, sabe?

Pois as últimas semanas foram as mais difíceis da minha vida. Acho que nunca sofri tanto. Vendo aquela gatinha intrépida e acrobata ficar cada vez mais magrinha, mais fraquinha. Não sabia que tinha tantas lágrimas, ou que o coração podia realmente se partir. No final ela deixou de andar, tínhamos que dar água e comida na boca, dar um banhinho porque ela não conseguia mais ir no banheiro sozinha. E mesmo assim ela não sofreu. Só parecia que estava parando de funcionar. Mas até hoje de manhã ainda ronronava, feliz com pouca coisa. Um cafuné, uma gotinha de água, uma conversa e um pouco de atenção. Ela não sofreu, mas eu e a Dani ficamos com nossos corações pequenos, apertados. O Puskas sabia que algo acontecia, respeitava e dava distância.

Foi a coisa mais dura que já fiz, vê-la partir e dar o último suspirinho, quase imperceptível, deitadinha na cama conosco. Já perdi outros bichinhos, mas nunca assim. E que injustiça, devem pensar "que drama, que maluco, tanta desgraça no mundo, tanta gente precisando de ajuda e faz esse chororô todo por uma gata". Só que eu não me arrependo de ter dado a maior parte de mim nessas últimas semanas. Vivi o resto no modo básico, aquele suficiente. Deixei os prazos estourarem. Os preciosos e vitais e-mails sem responder. A incontornável arena política das redes sociais esbravejando sozinha. Pelo menos por um tempo, o tempo dela.

O caso é que nesses últimos dias eu me dei conta de algumas coisas. Talvez a principal é que o mundo é pequeno. E é essa pequenez que importa. Uma vidinha felina, que talvez não importe muito no grande esquema das coisas. Pouca gente a conheceu. Ela não inventou nenhuma vacina, ou liderou uma revolução. Mas era a criatura mais carinhosa e doce que podia existir. E, ainda que pequena, levinha e frágil, também corajosa e destemida. Por um mês ela ficou ainda conosco, nos dando chance de nos despedir aos poucos. E sua passagem por aqui, um cuidado mútuo - ela da gente, nós dela - valeu tudo. E digo, tudo. Colocamos as coisas em perspectiva. Nos salvamos - e, fazendo esse pequeno ato particular, todo o universo ficou mais bonito. E demos e ganhamos sentido. Aquela coisa paradoxalmente estranha, que só dá para entender nessas horas. Quando tudo é salvo nos pequenos amores, não importa qual seja. Afinal, o mundo é pequeno, você sabia? Nos resta entender que não é preciso muito de nós para povoá-lo, e que é um desperdício nos esgarçarmos muito. Cultive seus pequenos-grandes amores. Eles são raros e vale a pena cuidar. Mesmo que a saudade, depois, doa.

Lá foi sentar em outros teclados de computador. Lá foi caçar bichinhos nos sonhos.