Dos jogos de tabuleiro, que já foram muito mais populares do que são hoje (ainda que eu ache que esteja acontecendo um ressurgimento, junto com os videogames), os de guerra eram que os que eu mais gostava. Como Combate, por exemplo, que eu costumava ir bem.
Mas, claro, adorava mesmo era WAR, em todas suas versões (menos o 2, que tinha o recurso dos aviões, que eu achava muito injusto, às vezes aniquilando tudo em poucas rodadas). E WAR rolava até em festinhas mais sossegadas (ou fracassadas).
Mas acho que o motivo por aturar os ânimos exarcebados - que invariavelmente surgiam - talvez fosse porque eu nunca me importava muito em ter meus exércitos dizimados e ser confinado a um único território - coisa que costumava acontecer com uma frequência alarmante. Bem, sempre gostei de ser o underdog, de qualquer maneira.
Além disso meus pais também nunca foram desses que diziam que esses jogos eram imperialistas, que filme de terror era proibido e que manga com leite não pode.
Os monetários também tinham seu apelo. Monopoly, Jogo da Vida, Status. Meu sucesso neste tipo de jogo seguia o mesmo padrão observado no WAR. Mas sair cedo do jogo tinha suas vantagens. Raramente chegava no ponto de saturação, que pode ser tão chato para os participantes do evento - e então ou você se arrasta até o final do suplício ou então interrompe tudo, alternativa broxante. Outra vantagem era que já podia treinar para um proto-antropólogo e assistir o comportamento competitivo dos humanos amigos.
Mas gostava também os de conhecimentos gerais, os de detetive (Detetive, Scotland Yard), os de dado, cartas... Sempre topei entrar numa roda de jogatina (mas, devo dizer, nunca participei de um RPG, não sei direito porque. A única vez que tentei, fiquei o dia todo para fazer um personagem - um lenhador rastreador - e nunca chegamos a começar a jogar de fato).
Mas tinha um jogo que combinava algumas características de jogos distintos: Supremacia, que na época da minha terceira série, mais ou menos, virou uma febre e desbancou, ao menos por um momento (e, não é demais lembrar, no auge da guerra-fria), o WAR.
Geralmente não gosto das regras que permitem uma reviravolta completa na sorte da peleja (como os malditos aviões do WAR 2). Mas esse tinha O recurso apelão por excelência, o que proporcionava um grande apelo, exatamente por sua tosquice.
Se as vias normais da diplomacia, a disputa mercadológica e o confronto armado convencional não funcionassem, ou se a sua paciência esgotasse, você não precisava levar a bola embora, ou chutar o tabuleiro. Simplesmente você comprava uma bomba nuclear e a soltava no território cheio de tropas e estruturas do infeliz ao lado e boa, partimos pra outro tipo de recreação mais inocente.
sexta-feira, novembro 30, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
Livros
Já devo ter mencionado meu cotidiano espartano, não? No TV, no internet, no phone. Por mais que eu fique sem fazer nada, tenho tanto tempo livre que acabo lendo muito. De tudo.
Não sou muito seletivo quando se trata de leitura. Pelo menos quanto ao tipo da prosa. Se estiver bem escrito e interessante, acho que leio até bula de remédio.
Esses dias resolvi retirar um livro de casos do Conan Doyle. Sempre gostei do Sherlock e, morando a apenas uma estação de distância de Baker Street, o detetive sempre acaba aparecendo para me lembrar dessa paixão. Fora o museuzinho no 221b e trocentas bugigangas em tudo quanto é barraquinha turística, o próprio tube trata de celebrar uns de seus mais famosos personagens, com decoração, excertos dos livros, etc.
E não é todo dia que você lê algo que goste e que se passa bem onde você mora, nas mesmas ruas em que você anda. Outro dia li um caso em que Holmes e Watson têm que solucionar um mistério, a pedido do herdeiro do trono bohêmio, em St. Johns Wood, meu bairro! Segundo Doyle, não muito mais que uma periferia calma e frondosa de Londres!
Por sinal, um dia conto um pouco da história do bairro, que fazia parte da grande floresta de Middlesex, propriedade de uma ordem religiosa - os cavaleiros de Malta, ou Hospitalários, ou de São João de Jerusalém, em referência a seu santo padroeiro. Daí o nome.
*******
Já é moda há algum tempo, mas só outro dia caiu a ficha realmente - do quanto isso é engraçado, para não usar uma palavra mais forte, como "ridículo", i.e.
Romances históricos competem com romances policiais no quesito ficção nas livrarias. Templários parecem ser os preferidos, mas qualquer ordem mais obscura pode virar tema de livro (e convenhamos, quanto mais pode ser dito desses caras?). A contra-partida, já estabelecida (por exemplo, Sherlock Holmes), são os livros policiais e de aventura em série que utilizam um mesmo personagem. Dirk Pitt, Scarpetta, Brennan e por aí vai. A idéia é simples: tornar os protagonistas conhecidos e queridos, familiares.
Agora os livros "históricos" estão pegando um atalho. Simplesmente já usam um personagem conhecido de ante-mão. Poupa-tempo. Você não precisa passar um bom pedaço do livro apresentando o dito cujo.
Um dos que mais proporcionou controvérsia esses tempos foi Michelangelo, transformado em detetive renascentista.
Esses dias estava folheando os lançamentos do tipo blockbuster e achei um deveras curioso: Sigmund Freud, aquele tiozinho tão esculhambado nesta pós-modernidade (e quase vizinho meu, por sinal), em uma viagem para os EUA, deve desvendar um mistério. Um crime foi cometido. A única testemunha, traumatizada. Restam os poderes quase mágicos dessa ciência recém-nascida (então), para resgatar as pistas que levarão os bandidos para trâs das grades.
Bem, eu sugiro um próximo personagem para um romance desse tipo: Malinowski, tiozinho interessante e esquisito. Mas se o grande público não estiver muito interessado ou familiarizado com antropologia, então pode ser, sei lá, Newton ou Shakespeare, que nas horas vagas exercitam poderes de dedução científica ou artística. Ou Marx, que entre capital e manifesto, testemunhou um assassinato num parque londrino e deve usar ferramentas sociológicas para encontrar o criminoso. Para o público lusófono, Camões pode ser uma. Ou quem sabe um mistério envolvendo Colombo, ou então Cabral?
Sacou o padrão?
Não sou muito seletivo quando se trata de leitura. Pelo menos quanto ao tipo da prosa. Se estiver bem escrito e interessante, acho que leio até bula de remédio.
Esses dias resolvi retirar um livro de casos do Conan Doyle. Sempre gostei do Sherlock e, morando a apenas uma estação de distância de Baker Street, o detetive sempre acaba aparecendo para me lembrar dessa paixão. Fora o museuzinho no 221b e trocentas bugigangas em tudo quanto é barraquinha turística, o próprio tube trata de celebrar uns de seus mais famosos personagens, com decoração, excertos dos livros, etc.
E não é todo dia que você lê algo que goste e que se passa bem onde você mora, nas mesmas ruas em que você anda. Outro dia li um caso em que Holmes e Watson têm que solucionar um mistério, a pedido do herdeiro do trono bohêmio, em St. Johns Wood, meu bairro! Segundo Doyle, não muito mais que uma periferia calma e frondosa de Londres!
Por sinal, um dia conto um pouco da história do bairro, que fazia parte da grande floresta de Middlesex, propriedade de uma ordem religiosa - os cavaleiros de Malta, ou Hospitalários, ou de São João de Jerusalém, em referência a seu santo padroeiro. Daí o nome.
*******
Já é moda há algum tempo, mas só outro dia caiu a ficha realmente - do quanto isso é engraçado, para não usar uma palavra mais forte, como "ridículo", i.e.
Romances históricos competem com romances policiais no quesito ficção nas livrarias. Templários parecem ser os preferidos, mas qualquer ordem mais obscura pode virar tema de livro (e convenhamos, quanto mais pode ser dito desses caras?). A contra-partida, já estabelecida (por exemplo, Sherlock Holmes), são os livros policiais e de aventura em série que utilizam um mesmo personagem. Dirk Pitt, Scarpetta, Brennan e por aí vai. A idéia é simples: tornar os protagonistas conhecidos e queridos, familiares.
Agora os livros "históricos" estão pegando um atalho. Simplesmente já usam um personagem conhecido de ante-mão. Poupa-tempo. Você não precisa passar um bom pedaço do livro apresentando o dito cujo.
Um dos que mais proporcionou controvérsia esses tempos foi Michelangelo, transformado em detetive renascentista.
Esses dias estava folheando os lançamentos do tipo blockbuster e achei um deveras curioso: Sigmund Freud, aquele tiozinho tão esculhambado nesta pós-modernidade (e quase vizinho meu, por sinal), em uma viagem para os EUA, deve desvendar um mistério. Um crime foi cometido. A única testemunha, traumatizada. Restam os poderes quase mágicos dessa ciência recém-nascida (então), para resgatar as pistas que levarão os bandidos para trâs das grades.
Bem, eu sugiro um próximo personagem para um romance desse tipo: Malinowski, tiozinho interessante e esquisito. Mas se o grande público não estiver muito interessado ou familiarizado com antropologia, então pode ser, sei lá, Newton ou Shakespeare, que nas horas vagas exercitam poderes de dedução científica ou artística. Ou Marx, que entre capital e manifesto, testemunhou um assassinato num parque londrino e deve usar ferramentas sociológicas para encontrar o criminoso. Para o público lusófono, Camões pode ser uma. Ou quem sabe um mistério envolvendo Colombo, ou então Cabral?
Sacou o padrão?
domingo, novembro 18, 2007
Ode à biografia
Esses dias tenho ficado com a impressão que meu cérebro se transforma em geléia, minha miopia tem aumentado e tenho andado tão curvado que começo a pensar que estou virando Quasímodo.
Imagino que é o preço que tenho que pagar por meu voyerismo e essa minha intromissão. Tenho acordado fantasmas, ressuscitado conversas que há muito descansavam em silêncio. Tento demonstrar respeito, mas não é algo de se sair incólume.
Meu prazer em transformar minha bibliografia em humanos exige um sacrifício. Como se mexer neste equilíbrio passado não fosse tarefa leviana, lidar com os poderes da alquimia e do éter. Nem acho que deveria ser, de qualquer maneira.
Mas não há escapatória, eu mergulho no fluxo da recordação alheia, assumo meu papel de leitor onisciente - ou se preferir, de paranormal e vidente. Sinto o gosto do vício que corre em minhas veias como a endorfina abençoada e entro, no que é jargão corrente do meio basquetebolístico, in the zone.
E contemplo fascinado cada letra, bonita ou feia, cada erro de ortografia, cada declaração de amor, cada relacionamento insuspeito, cada desabafo, cada crítica cáustica, cada exemplo de amizade, cada tristeza e cada sucesso, cada gentileza e cada notícia, e começo a enxergar um filme do passado, em que aquelas pessoas que para mim eram nome apenas, ganham cor, cara, som. Mas então lembro que são vidas que se findaram, ciclos que, ainda que escondidos e enterrados, estão fechados. Essas vozes, tão vivas e tão vibrantes, estão mortas. Essa quase amizade que começo a estabelecer, é via de mão única, e sei que minha própria voz nunca mais chegará em seus ouvidos e que arrisco me machucar.
E chego à conclusão que nunca alguém ficou tão próximo, para então sua distância parecer tão punjente..
Tento retraçar passos e caminhos percorridos, mas estes são tortuosos e muitas vezes desaparecem, sem deixar vestígios. E então tenho que redobrar meus esforços, pensar em outros percursos, e ter que me conformar com o fato de que talvez eles não mais existam. Fico com o gosto, salgado de suor, de algo interrompido, de apenas flashbacks de histórias.
Mas ainda sim tenho que acreditar que essas mesmas vozes ainda merecem ser resgatadas. E então respiro fundo, ajeito meus óculos, estalo as costas e continuo a trabalhar.
Imagino que é o preço que tenho que pagar por meu voyerismo e essa minha intromissão. Tenho acordado fantasmas, ressuscitado conversas que há muito descansavam em silêncio. Tento demonstrar respeito, mas não é algo de se sair incólume.
Meu prazer em transformar minha bibliografia em humanos exige um sacrifício. Como se mexer neste equilíbrio passado não fosse tarefa leviana, lidar com os poderes da alquimia e do éter. Nem acho que deveria ser, de qualquer maneira.
Mas não há escapatória, eu mergulho no fluxo da recordação alheia, assumo meu papel de leitor onisciente - ou se preferir, de paranormal e vidente. Sinto o gosto do vício que corre em minhas veias como a endorfina abençoada e entro, no que é jargão corrente do meio basquetebolístico, in the zone.
E contemplo fascinado cada letra, bonita ou feia, cada erro de ortografia, cada declaração de amor, cada relacionamento insuspeito, cada desabafo, cada crítica cáustica, cada exemplo de amizade, cada tristeza e cada sucesso, cada gentileza e cada notícia, e começo a enxergar um filme do passado, em que aquelas pessoas que para mim eram nome apenas, ganham cor, cara, som. Mas então lembro que são vidas que se findaram, ciclos que, ainda que escondidos e enterrados, estão fechados. Essas vozes, tão vivas e tão vibrantes, estão mortas. Essa quase amizade que começo a estabelecer, é via de mão única, e sei que minha própria voz nunca mais chegará em seus ouvidos e que arrisco me machucar.
E chego à conclusão que nunca alguém ficou tão próximo, para então sua distância parecer tão punjente..
Tento retraçar passos e caminhos percorridos, mas estes são tortuosos e muitas vezes desaparecem, sem deixar vestígios. E então tenho que redobrar meus esforços, pensar em outros percursos, e ter que me conformar com o fato de que talvez eles não mais existam. Fico com o gosto, salgado de suor, de algo interrompido, de apenas flashbacks de histórias.
Mas ainda sim tenho que acreditar que essas mesmas vozes ainda merecem ser resgatadas. E então respiro fundo, ajeito meus óculos, estalo as costas e continuo a trabalhar.
quarta-feira, novembro 14, 2007
5 pensamentos ignóbeis:
- Por quê os hotéis não têm décimo terceiro andares? O décimo quarto não vira o décimo terceiro então? Ou, se tem lobby, ou zero, o décimo segundo não é, na realidade, um andar acima? O que importa é o numerinho no elevador?
- Tenho certeza que todo mundo já veio com aquele papo pseudo-cabeça, reservado para a noitada no boteco, de que "celular virou uma necessidade quando antes passávamos muito bem sem", ou o lance fight club de que somos doutrinados a querer coisas que não precisamos. Mas o que significa realmente ter celular? Há 10 anos você não parava o carro, corria pro orelhão e ligava falando "estou indo pra casa".
- Por quê tudo o que é orgânico é bom e tudo o que é transgênico é ruim? O que isso significa, afinal de contas? E qual é dessa esquizofrenia dos estudos (sempre de cientistas canadenses ou alemães; essa galera não tem mais o que fazer?) que falam que o tomate é bom pro coração, mas as sementes podem dar câncer? E aí, como você prefere morrer?
- Por quê nos filmes, quando a pessoa sabe que vai morrer, o que ela realmente quer é um cigarro? Por quê não sexo? Bem, ok, às vezes é um beijo derradeiro...
- Já percebeu que os diretores já montam a cena sabendo que aquele pedaço vai virar trailer, ou pior, vinheta na apresentação dos indicados para o Oscar?
PS - Ando trabalhando tanto que chega a hora de escrever um post não tem como sair nada melhor que isso... sorry.
- Tenho certeza que todo mundo já veio com aquele papo pseudo-cabeça, reservado para a noitada no boteco, de que "celular virou uma necessidade quando antes passávamos muito bem sem", ou o lance fight club de que somos doutrinados a querer coisas que não precisamos. Mas o que significa realmente ter celular? Há 10 anos você não parava o carro, corria pro orelhão e ligava falando "estou indo pra casa".
- Por quê tudo o que é orgânico é bom e tudo o que é transgênico é ruim? O que isso significa, afinal de contas? E qual é dessa esquizofrenia dos estudos (sempre de cientistas canadenses ou alemães; essa galera não tem mais o que fazer?) que falam que o tomate é bom pro coração, mas as sementes podem dar câncer? E aí, como você prefere morrer?
- Por quê nos filmes, quando a pessoa sabe que vai morrer, o que ela realmente quer é um cigarro? Por quê não sexo? Bem, ok, às vezes é um beijo derradeiro...
- Já percebeu que os diretores já montam a cena sabendo que aquele pedaço vai virar trailer, ou pior, vinheta na apresentação dos indicados para o Oscar?
PS - Ando trabalhando tanto que chega a hora de escrever um post não tem como sair nada melhor que isso... sorry.
sábado, novembro 10, 2007
Diary
Captain's log: Today the crew started to get unsettling with the lack of women and the grogue diet. There's an eerie feeling drifting through the ship and the wind is long gone...
Ops, diário errado!
Nova entrada: Hoje avistamos novamente o leviatã. Ela parecia mais curiosa do que agressiva, espiando-nos, cada vez mais próxima, cada vez que subia à superfície. Finalmente ela emparelhou conosco, quase tocando o barco, virou levemente de lado e olhou, assustadoramente ciente, direto em meus olhos! Abriu a bocarra, como se fosse bocejar, e então chamei, convicto de obter uma resposta: "Jonas"? E, um momento depois, certo de que cometi um engano: "Gepeto"?
Affe, qual é dessa temática náutica?
Vamos de novo. Dessa vez vai.
Querido diário: Conheci um dos lugares mais tradicionais da cena musical londrina, o Roundhouse. Há décadas que esta antiga estação transformou-se em um lugar em que as bandas apresentam seu repertório. Hoje o espaço está mais trend do que costumava ser na década de 70, durante o apogeu da cena brit de renovação, mas ainda sim muito divertido, na borda de Camden Town.
Para os filhos do New Wave, o show foi histórico. O público empolgadíssimo (e engraçadíssimo; vocês não imaginam as figuras presentes...) garantiu uma atmosfera animada e leve. Pena que eu estava quase em estado de comatose de tão cansado. ELA, divina e mesmerizante (essa palavra existe?), parece que congelou no tempo. A voz ainda tem potência e o visual ainda fascina.
Só pensei nisso agora, mas acho que o segredo sempre foi misturar a aura femme fatale e o mistério à la Mata Hari com uma fragilidade que inspira caridade (como a vontade de pegar um bichinho abandonado), sempre com os movimentos insinuantes de uma odalisca. Isso faz algum sentido?
Ops, diário errado!
Nova entrada: Hoje avistamos novamente o leviatã. Ela parecia mais curiosa do que agressiva, espiando-nos, cada vez mais próxima, cada vez que subia à superfície. Finalmente ela emparelhou conosco, quase tocando o barco, virou levemente de lado e olhou, assustadoramente ciente, direto em meus olhos! Abriu a bocarra, como se fosse bocejar, e então chamei, convicto de obter uma resposta: "Jonas"? E, um momento depois, certo de que cometi um engano: "Gepeto"?
Affe, qual é dessa temática náutica?
Vamos de novo. Dessa vez vai.
Querido diário: Conheci um dos lugares mais tradicionais da cena musical londrina, o Roundhouse. Há décadas que esta antiga estação transformou-se em um lugar em que as bandas apresentam seu repertório. Hoje o espaço está mais trend do que costumava ser na década de 70, durante o apogeu da cena brit de renovação, mas ainda sim muito divertido, na borda de Camden Town.
Para os filhos do New Wave, o show foi histórico. O público empolgadíssimo (e engraçadíssimo; vocês não imaginam as figuras presentes...) garantiu uma atmosfera animada e leve. Pena que eu estava quase em estado de comatose de tão cansado. ELA, divina e mesmerizante (essa palavra existe?), parece que congelou no tempo. A voz ainda tem potência e o visual ainda fascina.
Só pensei nisso agora, mas acho que o segredo sempre foi misturar a aura femme fatale e o mistério à la Mata Hari com uma fragilidade que inspira caridade (como a vontade de pegar um bichinho abandonado), sempre com os movimentos insinuantes de uma odalisca. Isso faz algum sentido?
quinta-feira, novembro 08, 2007
Busy
Fico um tempo sem escrever por aqui, os assuntos acumulam, as idéias brotam e a vontade de "contar pros amigos" vem. Mas quando finalmente tenho internet na frente da fuça, dá um branco...
Ando correndo muito esse final de ano. E acho que o ritmo não diminui até eu voltar. Tenho passado horas em bibliotecas, todos os dias, pegando todo o material que eu consigo. Já desisti de começar a escrever por aqui. Agora minha missão é coletar dados, dados. Mas as coisas parecem promissoras...
Depois eu dou um relato mais minucioso sobre meus achados, verdadeiras pérolas, devo dizer!
Os arquivos que tenho mexido são bem recentes, coisa de 60, 70 anos (a vantagem de fazer "história da antropologia" é essa). Mas já me deparei com cada coisa... tenho que me concentrar, respirar fundo, e não sair estudando outros arquivos só porque tudo parece tão fasciante e emocionante! Algumas coisas são da época em que do outro lado da poça existiam apenas indiozinhos e uns vikings...
Ando correndo muito esse final de ano. E acho que o ritmo não diminui até eu voltar. Tenho passado horas em bibliotecas, todos os dias, pegando todo o material que eu consigo. Já desisti de começar a escrever por aqui. Agora minha missão é coletar dados, dados. Mas as coisas parecem promissoras...
Depois eu dou um relato mais minucioso sobre meus achados, verdadeiras pérolas, devo dizer!
Os arquivos que tenho mexido são bem recentes, coisa de 60, 70 anos (a vantagem de fazer "história da antropologia" é essa). Mas já me deparei com cada coisa... tenho que me concentrar, respirar fundo, e não sair estudando outros arquivos só porque tudo parece tão fasciante e emocionante! Algumas coisas são da época em que do outro lado da poça existiam apenas indiozinhos e uns vikings...
quinta-feira, novembro 01, 2007
Pequeno update
Queridos (considerem distinções de gênero anuladas) amigos antropólogos ou cientistas sociais, não vou ficar falando muito aqui contando como as coisas aqui são diferentes, em termos de recursos, prestígio e oportunidades de pesquisa. Isso porque nem estou no eixo Oxbridge, realmente OUTRO nível (notícia, aliás: Marilyn Strathern está se aposentando e quem vai ocupar sua cadeira em Cambridge é nosso conterrâneo Viveiros de Castro). Ou alguns lugares da Ivy league gringa. Mas ainda sim...
Mas uma das coisas que eu acho realmente incrível é ver e conversar com sua bibliografia! Ontem vi uma palestra interessante do Tim Ingold que, suspeito, já tem cacife suficiente para ser um pouco... excêntrico... nas suas pesquisas. Eu que achava que todo o papo eco-viajante era uma grande metáfora para, sei lá, método biográfico, diferença entre sociologia e antropologia... vi que ele falava exatamente do que ele parecia falar.
Mas, enfim, rolam palestras muito legais por aqui.
Para muitos de meus colegas Judith Butler é um alento para o que pode ser muitas vezes a árida planice teórica moderna. E nada mais chique que assistir uma palestra da moça na LSE! E, devo acrescentar, ela é muito irônica e com ótimo senso de humor! Como diria um professor, um luxo!
Ah, olha que legal! E que faz bem pro ego: o Edson, escritor do blog cujo endereço coloquei aí do lado, publicou um post meu sobre o filme do Joe Strummer! O blog é muito legal, com inúmeros cometários sobre montes de filmes!
Última notícia: agora é contagem regressiva mesmo! Segui conselhos e voltarei no Natal!
Mas uma das coisas que eu acho realmente incrível é ver e conversar com sua bibliografia! Ontem vi uma palestra interessante do Tim Ingold que, suspeito, já tem cacife suficiente para ser um pouco... excêntrico... nas suas pesquisas. Eu que achava que todo o papo eco-viajante era uma grande metáfora para, sei lá, método biográfico, diferença entre sociologia e antropologia... vi que ele falava exatamente do que ele parecia falar.
Mas, enfim, rolam palestras muito legais por aqui.
Para muitos de meus colegas Judith Butler é um alento para o que pode ser muitas vezes a árida planice teórica moderna. E nada mais chique que assistir uma palestra da moça na LSE! E, devo acrescentar, ela é muito irônica e com ótimo senso de humor! Como diria um professor, um luxo!
Ah, olha que legal! E que faz bem pro ego: o Edson, escritor do blog cujo endereço coloquei aí do lado, publicou um post meu sobre o filme do Joe Strummer! O blog é muito legal, com inúmeros cometários sobre montes de filmes!
Última notícia: agora é contagem regressiva mesmo! Segui conselhos e voltarei no Natal!
domingo, outubro 28, 2007
Praga II - O Retorno
É fato universalmente aceito por todos os seres cientes e dotados de um mínimo senso estético, daqui (seja onde for aqui) até Timbuktu, que as sequências nunca são melhores que os originais. Não têm nem mesmo qualidade semelhante. Exceções, dignas de nota, vão para O Império Contra-Ataca, para As Invasões Bárbaras e possivelmente para Shrek 2.
Mas via de regra, continuações raramente trazem algo de inovador, limitando-se a emular a estrutura de algo que funcionou uma primeira vez. Inevitavelmente vem aquele gosto acre de paródia, de farsa, de que seja lá o que de bom havia pra começo de conversa na história agora acabou em detrimento da lógica caça-níquel cada vez mais em voga e que se ferrem os espectadores porque no fundo são todos uns deslumbrados que têm a mesma mentalidade de viciados em heroína sempre atrás daquela euforia primeva cada vez mais distante e longínqua mas sempre santificada como o graal dos peregrinos.
Mas, enfim, conto que voltei para Praga! E não quero dizer que foi melhor que da outra vez, porque a aventura com Dani e Malu pela terra das consoantes foi demais! Essa vez foi apenas... diferente. Fiz coisas que não fiz da outra vez, então não sei se é justo comparar.
A Praga que vi esse final de semana nem é a mesma Praga de três meses atrás, ensolarada e opressivamente quente. Cheguei num frio, com neblina e chuva, que proporcionaram um cenário todo distinto.
E ao invés do hostel que tremia toda vez que o metrô passava zunindo do lado e que me dava medo de pegar piolho ao dormir na cama, dessa vez tive tratamento vip! Não entrarei em detalhes, mas conto que comi pela primeira vez num restaurante listado no guia Michelin!
Subi os tais 287 degraus da catedral de St. Vitus (e quase sucumbi como resultado), como prometi à minha amiga Ju, fui ver os vitrais e os afrescos do Mucha, fiz uma oração (encomenda de minha avó) na igreja do Menino Jesus de Praga, fiz degustação de cervejas tchecas (maravilhosas e baratíssimas) e camelei muito!
Mas agora, olha que estranho: estava esperando no lobby do hotel a hora do jantar quando chega um dos médicos do grupo e me pergunta "como vai a velhinha, sua vizinha? E aquela história, como ficou?". Demorou até cair a ficha e entender sobre o que ele estava falando...
Mas via de regra, continuações raramente trazem algo de inovador, limitando-se a emular a estrutura de algo que funcionou uma primeira vez. Inevitavelmente vem aquele gosto acre de paródia, de farsa, de que seja lá o que de bom havia pra começo de conversa na história agora acabou em detrimento da lógica caça-níquel cada vez mais em voga e que se ferrem os espectadores porque no fundo são todos uns deslumbrados que têm a mesma mentalidade de viciados em heroína sempre atrás daquela euforia primeva cada vez mais distante e longínqua mas sempre santificada como o graal dos peregrinos.
Mas, enfim, conto que voltei para Praga! E não quero dizer que foi melhor que da outra vez, porque a aventura com Dani e Malu pela terra das consoantes foi demais! Essa vez foi apenas... diferente. Fiz coisas que não fiz da outra vez, então não sei se é justo comparar.
A Praga que vi esse final de semana nem é a mesma Praga de três meses atrás, ensolarada e opressivamente quente. Cheguei num frio, com neblina e chuva, que proporcionaram um cenário todo distinto.
E ao invés do hostel que tremia toda vez que o metrô passava zunindo do lado e que me dava medo de pegar piolho ao dormir na cama, dessa vez tive tratamento vip! Não entrarei em detalhes, mas conto que comi pela primeira vez num restaurante listado no guia Michelin!
Subi os tais 287 degraus da catedral de St. Vitus (e quase sucumbi como resultado), como prometi à minha amiga Ju, fui ver os vitrais e os afrescos do Mucha, fiz uma oração (encomenda de minha avó) na igreja do Menino Jesus de Praga, fiz degustação de cervejas tchecas (maravilhosas e baratíssimas) e camelei muito!
Mas agora, olha que estranho: estava esperando no lobby do hotel a hora do jantar quando chega um dos médicos do grupo e me pergunta "como vai a velhinha, sua vizinha? E aquela história, como ficou?". Demorou até cair a ficha e entender sobre o que ele estava falando...
domingo, outubro 21, 2007
Ratinho em Londres
Quem me conhece sabe que meu modus vivendi não é compatível com barraco. Nunca gostei, nunca vou gostar. Certamente nunca vou fazer (a menos que você me encha o saco! - Já que também não sou dado a contradições. Ou ironia, pelo que me consta).
Enquanto escrevo isso, um barraco está rolando na casa ao lado. Ouço os gritos e reconheço algumas ameaças, suaves e veladas: "You fucking bastard, I'll kill you", "Shut up you fucking slut", bem como uns sons gruturais que impressionantemente estão saindo de gargantas humanas, o rufar de pés correndo e o estrondo de objetos atirados e consequentemente quebrados.
Mas esses vizinhos são escandalosos mesmo. Desde que me mudei pra cá eu ouço berros e promessas de espancamentos e morte. Geralmente é a mãe, quando tenta fazer os filhos irem para a escola de manhã. Ela alcança uma oitava que qualquer cantora sentiria inveja. Aquela que racha cristais e atiça os cães da vizinhança. Nessas ocasiões, a coisa vai esquentando por uns vinte minutos, até que finalmente ela consegue arrastar os fedelhos pra fora (a menos que algum se tranque no banheiro, quando então promessas de arrombamento e aniquilação da porta a pontapés afloram). Mas de vez em quando é o pai que esbraveja e me faz lembrar do lobo mau, assoprando a casa dos porquinhos.
Não sei como ninguém chamou a polícia até agora. Ou pelo menos a super nanny (ou a Trisha, a equivalente da Márcia Goldsmith daqui).
Mas esse é o problema de se morar em apartamento: a chance de você ter um pirado morando perto o suficiente para você ouví-lo, é estatisticamente suficiente para você de fato ter um.
No meu prédio, no Brasil, tenho vizinhos que jogam lixo pela janela, ouvem sertanejo no som da sala imaginando que estão num trio elétrico, ou deixam a tv num volume tão alto que você pode concluir que ou a terceira guerra mundial começou do outro lado da parede ou então alguém está vendo um filme de guerra. Como disse uma vez Palahniuk: "these sound-oholics, these quiet-ophobics".
O prédio em frente (no Brasil) é ainda pior. No apartamento logo em frente, do outro lado da rua, vira e mexe a mulher começa a jogar tudo ao alcance das mãos no marido (uma vez presenciei um chute tão certeiro e espetacular, com uma bola de futebol que marcava por lá, e que tinha como alvo a cabeça do sujeito, que se fosse um olheiro de algum time a convidaria na hora pra fazer um teste no meu clube), ao mesmo tempo que demonstra a excelente forma pulmonar.
Uma vez, um amigo e sua então namorada vieram fazer uma visita. Domingão. No terraço do prédio da frente, que imagino seja a área social, rolava um churrasco básico. De repente, do burburinho das conversas e das ébrias risadas usuais, irrompe um "vou te matar, filha da puta" e a típica sonoplastia da cizânia que normalmente segue tal declaração. Aí ouço uma mulher gritando, histericamente, pra alguém chamar a polícia. Em alguns minutos o terraço fica silencioso e não sei se alguém possuído por completo por um frenesi assassino acabou matando todo mundo capaz de emitir ruídos, ou se a galera começou a se digladiar em outro lugar, mais reservado. Claro que enquanto isso, do nosso lado da rua, havíamos parado de conversar e passamos a apreciar a rusga, com aquela curiosidade macabra que Deus concebeu a todos os primatas deste planeta.
Isso porque meu bairro é considerado de "alto nível". Tem associação de bairro, jornalzinho local, manicure canina, empório, e frutarias orgânico-maníacas caríssimas.
Mas esses vizinhos aqui do lado são diferentes. São também judeus ortodoxos. Não digo isso depreciativamente, como um comentário anti-semita. Pelo contrário, imaginava que aquela galera que vejo toda semana saindo de terninho e de vestido chique da sinagoga, como se todo domingo rolasse um casamento por lá (tem duas sinagogas grandes aqui no bairro) fosse mais civilizado (mas aqui estou em terreno perigoso; não importa o quanto eu profira tolerância, quando o assunto entra por essas bandas identitárias, alguém sempre vai levar pelo lado errado. Como gente muito mais inteligente do que eu já percebeu, nada pior do que o complexo de culpa liberal que tenta balbuciar desculpas pelas injustiças cometidas. Mas, claro, o melhor mesmo é ter cuidado).
Umas semanas atrás eles ergueram uma barraca no jardim (do lado da minha janela). Tipo uma daquelas cabanas de poder que alguns grupos xamanísticos gostam de montar para os rituais de auto-conhecimento. Tinha uma mesinha, um monte de badulaque pendurado (pra mim parecia vudu) e uns canapés - kosher, imagino. A família convidava seus amigos israelitas e ficavam cantando musiquinhas religiosas a plenos pulmões - às 10 horas da noite! O equilavente hebreu das rodinhas de praia, em que algum chato pega o violão e começa a tocar músicas do Legião.
Mas seja lá qual for a data especial (que durou algumas semanas) que suscitou a cantoria no jardim, agora passou, e a oca foi desmontada. Agora, não sei se na verdade sinto saudades dessa época, já que enquanto eles cantavam, pelo menos não se matavam como personagens de um filme do Spike Lee.
Enquanto escrevo isso, um barraco está rolando na casa ao lado. Ouço os gritos e reconheço algumas ameaças, suaves e veladas: "You fucking bastard, I'll kill you", "Shut up you fucking slut", bem como uns sons gruturais que impressionantemente estão saindo de gargantas humanas, o rufar de pés correndo e o estrondo de objetos atirados e consequentemente quebrados.
Mas esses vizinhos são escandalosos mesmo. Desde que me mudei pra cá eu ouço berros e promessas de espancamentos e morte. Geralmente é a mãe, quando tenta fazer os filhos irem para a escola de manhã. Ela alcança uma oitava que qualquer cantora sentiria inveja. Aquela que racha cristais e atiça os cães da vizinhança. Nessas ocasiões, a coisa vai esquentando por uns vinte minutos, até que finalmente ela consegue arrastar os fedelhos pra fora (a menos que algum se tranque no banheiro, quando então promessas de arrombamento e aniquilação da porta a pontapés afloram). Mas de vez em quando é o pai que esbraveja e me faz lembrar do lobo mau, assoprando a casa dos porquinhos.
Não sei como ninguém chamou a polícia até agora. Ou pelo menos a super nanny (ou a Trisha, a equivalente da Márcia Goldsmith daqui).
Mas esse é o problema de se morar em apartamento: a chance de você ter um pirado morando perto o suficiente para você ouví-lo, é estatisticamente suficiente para você de fato ter um.
No meu prédio, no Brasil, tenho vizinhos que jogam lixo pela janela, ouvem sertanejo no som da sala imaginando que estão num trio elétrico, ou deixam a tv num volume tão alto que você pode concluir que ou a terceira guerra mundial começou do outro lado da parede ou então alguém está vendo um filme de guerra. Como disse uma vez Palahniuk: "these sound-oholics, these quiet-ophobics".
O prédio em frente (no Brasil) é ainda pior. No apartamento logo em frente, do outro lado da rua, vira e mexe a mulher começa a jogar tudo ao alcance das mãos no marido (uma vez presenciei um chute tão certeiro e espetacular, com uma bola de futebol que marcava por lá, e que tinha como alvo a cabeça do sujeito, que se fosse um olheiro de algum time a convidaria na hora pra fazer um teste no meu clube), ao mesmo tempo que demonstra a excelente forma pulmonar.
Uma vez, um amigo e sua então namorada vieram fazer uma visita. Domingão. No terraço do prédio da frente, que imagino seja a área social, rolava um churrasco básico. De repente, do burburinho das conversas e das ébrias risadas usuais, irrompe um "vou te matar, filha da puta" e a típica sonoplastia da cizânia que normalmente segue tal declaração. Aí ouço uma mulher gritando, histericamente, pra alguém chamar a polícia. Em alguns minutos o terraço fica silencioso e não sei se alguém possuído por completo por um frenesi assassino acabou matando todo mundo capaz de emitir ruídos, ou se a galera começou a se digladiar em outro lugar, mais reservado. Claro que enquanto isso, do nosso lado da rua, havíamos parado de conversar e passamos a apreciar a rusga, com aquela curiosidade macabra que Deus concebeu a todos os primatas deste planeta.
Isso porque meu bairro é considerado de "alto nível". Tem associação de bairro, jornalzinho local, manicure canina, empório, e frutarias orgânico-maníacas caríssimas.
Mas esses vizinhos aqui do lado são diferentes. São também judeus ortodoxos. Não digo isso depreciativamente, como um comentário anti-semita. Pelo contrário, imaginava que aquela galera que vejo toda semana saindo de terninho e de vestido chique da sinagoga, como se todo domingo rolasse um casamento por lá (tem duas sinagogas grandes aqui no bairro) fosse mais civilizado (mas aqui estou em terreno perigoso; não importa o quanto eu profira tolerância, quando o assunto entra por essas bandas identitárias, alguém sempre vai levar pelo lado errado. Como gente muito mais inteligente do que eu já percebeu, nada pior do que o complexo de culpa liberal que tenta balbuciar desculpas pelas injustiças cometidas. Mas, claro, o melhor mesmo é ter cuidado).
Umas semanas atrás eles ergueram uma barraca no jardim (do lado da minha janela). Tipo uma daquelas cabanas de poder que alguns grupos xamanísticos gostam de montar para os rituais de auto-conhecimento. Tinha uma mesinha, um monte de badulaque pendurado (pra mim parecia vudu) e uns canapés - kosher, imagino. A família convidava seus amigos israelitas e ficavam cantando musiquinhas religiosas a plenos pulmões - às 10 horas da noite! O equilavente hebreu das rodinhas de praia, em que algum chato pega o violão e começa a tocar músicas do Legião.
Mas seja lá qual for a data especial (que durou algumas semanas) que suscitou a cantoria no jardim, agora passou, e a oca foi desmontada. Agora, não sei se na verdade sinto saudades dessa época, já que enquanto eles cantavam, pelo menos não se matavam como personagens de um filme do Spike Lee.
This is Halloween

Acho interessante observar algumas diferenças culturais, que não são tão diferentes assim - como datas comemorativas, por exemplo. Explico melhor: temos Natal no Brasil, sabemos o que é Halloween. Mas comemoramos e compreendemos essas datas de outra maneira. São estruturas análogas, mas simbólica e processualmente muito distintas. Inteligíveis, mas historicamente separadas. Mesmo quando são imitadas aparentemente fielmente, o ritual sempre muda.
Quando estudava inglês no In Touch, na era mesozóica, existiam várias atividades culturais extra-classe: teatro, festas, excursões. E no Halloween, como toda escola de inglês que se preze, mergulhávamos na preparação da decoração, as aulas eram em torno do tema, tínhamos festas à fantasia temáticas, por aí vai. E saíamos de monstros e vampiros, pedindo doces pelas casas. Os moradores das redondezas já estavam acostumados, então já não eram pegos de calças arriadas, e sempre tinham um estoque de doces nessa época do ano.
Agora, não quero nem ouvir falar de imperialismo americano e dizer que é uma data que não tem significado no Brasil. Não me venham com uma de Suassuna, porque daí vai ser complicado achar alguém que siga costumes estritamente tupinambá, anauê ou o que seja. O fato é que era divertido, ainda mais porque eu sempre tive uma queda pelo que é gótico, pelo horror, pelo fantástico.
Mas é certo também que Halloween não é de fato muito relevante no Brasil. Pelo menos não tem a mesma importância que tem nos EUA.
Estando em um país anglo-saxão, agora eu vejo como alguns feriados têm mesmo um sabor novo. E a noite das bruxas deixa isso muito explícito. Nos supermercados, nas bancas de frutas da rua, nas delicatessen, você encontra enormes abóboras para se transformarem em Jack-O-Lantern. As lojas vendem máscaras, presas postiças e capas pretas. O comércio se maquia de branco, negro e vermelho, e teias de aranha são penduradas nas vitrines.
Eu acho demais. Quando eu ver como é o Natal eu volto pra contar mais diferenças...
PS - A foto é de autoria de Dan Haskell, que deixou links nos comentários deste post. Sorry about that Dan, but here it is! Cheers!
sábado, outubro 20, 2007
Minhas paranóias
Já parou para pensar sobre aqueles "papagaios de pirata" que saem ao fundo, na sua foto? Alguns se dissolvem na paisagem, mas alguns você acaba reparando. Porque são bonitos, porque estão com uma roupa chamativa, porque estão em foco, na mesa de trás, junto ao monumento sempre lotado... Você nunca mais vai ver essa pessoa. Talvez até passe do lado de alguém que viu, que conheceu, ou que viu ou conheceu alguém que viu ou conheçou (pensando sobre os 6 graus). Mas nunca vai ficar sabendo. As robinsonadas de que falava Marx são mais fortes. Você não é exatamente uma ilha, mas sua vida como você a concebe muitas vezes é. O reconhecimento que algo mais além da mera presença neste planeta e da posse de um polegar opositor liga você a um desconhecido, nem que seja um simples vislumbre, na rua, não é uma opção.
E mais: a chance de você estar inadvertidamente no álbum de fotos de alguém é muito grande. Afinal, todo mundo hoje em dia tem uma câmera digital que leva na viagem ou na festa de aniversário no boteco, ou tem um celular que tira foto, etc. A idéia de que eu permaneço anônimo e congelado, nas lembranças e alegrias de outras pessoas, é assustadora. Só de fotos de viagem para Londres, devo ser residente de dezenas de pastas de imagens; todas, como um fantasma que assombra a famosa faixa de pedestres, atravessando a Abbey Road.
E mais: a chance de você estar inadvertidamente no álbum de fotos de alguém é muito grande. Afinal, todo mundo hoje em dia tem uma câmera digital que leva na viagem ou na festa de aniversário no boteco, ou tem um celular que tira foto, etc. A idéia de que eu permaneço anônimo e congelado, nas lembranças e alegrias de outras pessoas, é assustadora. Só de fotos de viagem para Londres, devo ser residente de dezenas de pastas de imagens; todas, como um fantasma que assombra a famosa faixa de pedestres, atravessando a Abbey Road.
quinta-feira, outubro 18, 2007
"Intelectualmente desfavorecidos?"
Junto com o miguxês e o gerundismo-telemarketeiro, uma das piores pragas do meio comunicativo moderno é o politicamente-corretês.
Mas o politicamente correto está se transformando. Se refinando, diria. A arte de pisar em ovos e não ferir (demais) os sentimentos alheios se desenvolve paralelamente com as crescentes políticas diferenciais voltadas para... bem, para as diferenças (etnia, preferência sexual, credo, aparência, time de futebol...) (o efeito, na prática, é geralmente o oposto, claro: vide imigração, xenofobia, etc).
Se você gosta de jiló vai acabar conseguindo provar que é uma minoria perseguida no meio gastronômico, e tem o direito de comer jiló em paz junto com seus colegas comedores de jiló (e se bobear, conseguir reparações materiais dos comedores de quiabo).
Cada um na sua guilda ou no seu feudo encantados e ai de quem trespassar!
Esse politicamente correto do novo milênio está, de certa forma, se cristalizando na fala e pensamento das pessoas - o que, convenhamos, é um pé no saco. Mas enfim, tem lá seu mérito... o mundo não está mais justo e tolerante, mas pelo menos está mais... polido, ponhamos assim (e talvez mais hipócrita também).
Veja alguns exemplos das expressões e eufemismos que estão se tornando correntes no mundo profissional e que foram compilados por um maluco aqui. Variam do puramente engraçado ao estupidamente cruel:
- Generously proportioned (gordo)
- Wardrobe malfunction (brega)
- Memory failure (mentindo)
- Negative investment return (prejuízo)
Para demitir, essa coisa chatíssima para quem tem que por ventura fazer com algum funcionário (mais chato ainda para esse último), existem vários exemplos. Os membros da equipe que ficaram com o palitinho menor podem ser: "thinned out", "redeployed", "restructured", ou serem passíveis de "headcount management", "personnel ceiling reductions", ou ainda serem aconselhados a "further their career" ou "cut the pigtail". Não é uma graça? O segredo consiste em ferrar com alguém e se sair bem na fita, como se tivesse feito um favor em iluminar o caminho do infeliz.
Você se fodeu de verde e amarelo, mas sai do escritório achando que seu chefe é uma boa pessoa, um cara sensível e decente.
Daqui a pouco chegaremos a um tal nível de refinamento que você vai poder chamar a mãe do outro de biscate e sair ileso. Algo como "sua progenitora é sexualmente caridosa". É. Algo por aí.
Mas o politicamente correto está se transformando. Se refinando, diria. A arte de pisar em ovos e não ferir (demais) os sentimentos alheios se desenvolve paralelamente com as crescentes políticas diferenciais voltadas para... bem, para as diferenças (etnia, preferência sexual, credo, aparência, time de futebol...) (o efeito, na prática, é geralmente o oposto, claro: vide imigração, xenofobia, etc).
Se você gosta de jiló vai acabar conseguindo provar que é uma minoria perseguida no meio gastronômico, e tem o direito de comer jiló em paz junto com seus colegas comedores de jiló (e se bobear, conseguir reparações materiais dos comedores de quiabo).
Cada um na sua guilda ou no seu feudo encantados e ai de quem trespassar!
Esse politicamente correto do novo milênio está, de certa forma, se cristalizando na fala e pensamento das pessoas - o que, convenhamos, é um pé no saco. Mas enfim, tem lá seu mérito... o mundo não está mais justo e tolerante, mas pelo menos está mais... polido, ponhamos assim (e talvez mais hipócrita também).
Veja alguns exemplos das expressões e eufemismos que estão se tornando correntes no mundo profissional e que foram compilados por um maluco aqui. Variam do puramente engraçado ao estupidamente cruel:
- Generously proportioned (gordo)
- Wardrobe malfunction (brega)
- Memory failure (mentindo)
- Negative investment return (prejuízo)
Para demitir, essa coisa chatíssima para quem tem que por ventura fazer com algum funcionário (mais chato ainda para esse último), existem vários exemplos. Os membros da equipe que ficaram com o palitinho menor podem ser: "thinned out", "redeployed", "restructured", ou serem passíveis de "headcount management", "personnel ceiling reductions", ou ainda serem aconselhados a "further their career" ou "cut the pigtail". Não é uma graça? O segredo consiste em ferrar com alguém e se sair bem na fita, como se tivesse feito um favor em iluminar o caminho do infeliz.
Você se fodeu de verde e amarelo, mas sai do escritório achando que seu chefe é uma boa pessoa, um cara sensível e decente.
Daqui a pouco chegaremos a um tal nível de refinamento que você vai poder chamar a mãe do outro de biscate e sair ileso. Algo como "sua progenitora é sexualmente caridosa". É. Algo por aí.
terça-feira, outubro 16, 2007
Abulafia
Ultimamente estou ratinho de biblioteca. Não que isso seja algo difícil, ou mesmo ruim, na verdade, dada a natureza das bibliotecas aqui... na já referida do meu bairro, eu encontro até mesmo um Giddens... bem, isso não é tão surpreendente assim, ainda mais aqui na Inglaterra. Mas engraçado que tem um monte de livro do Castells também. mmm, vou até pesquisar melhor o perfil "ciências sociais" das bibliotecas públicas (são literalmente centenas).
Bem, mas as jóias da coroa são evidentemente a British Library e a Senate House. A British Library recebe uma cópia de todo livro impresso no Reino Unido. É lei. É claro que eles têm muita coisa de outros países, além de periódicos, imagens, vídeos, mapas, manuscritos... mas acho que já falei dela, não?
Enfim, é linda, mas não muito prática para minha tática de estudo, que consiste em percorrer as estantes, fuçar os livros em volta daquele que iniciou a pesquisa, ter contato direto com eles. Na BL você acha a referência no computador e faz o pedido. Um funcionário então traz o dito cujo na sua mesa. Um drive thru intelectual, por assim dizer. Meio esterilizado. Provavelmente você encontrará o que está procurando, mas é difícil topar com alguma boa surpresa, ao acaso. No esquema graus de separação transladado à pesquisa bibliográfica, digo.
Mas a Senate House, a biblioteca da Universidade de Londres (que é o colegiado de várias universidades) é diferente. O prédio pra começo de conversa, mais antigo, em forma de lança, parece uma versão menor do Empire State Bulding no coração de Bloomsbury, o bairro intelectual daqui. Vários andares, corredores, alas, sessões, escadas, rampas e elevadores pré-históricos, dos mais variados tamanhos (o que sobe para o sexto andar, o de antropologia, sai da sessão de periódicos do quarto andar e não permite mais que duas pessoas, apertadas), com milhões de livros e revistas adornando as paredes à sua volta. Não tem tantos exempares como na BL, mas ainda sim é a maior biblioteca de Ciências Sociais do Reino Unido!
E cada raridade que se acha... Pimba, pego um livro de 1900 e bolinha e vejo que ninguém o retirou por décadas (bem, isso acontece no ifch também). Acho isso tão legal. Eu resgatei o coitado daquela estante, onde repousou imóvel por anos, quando alguém, que provavelmente não é nem mais um estudante e, quiçá, nem está mais entre nós, e que se interessou pelo mesmo assunto, o usou pela última vez. E eu sei que ninguém vai rasgar o coitado, roubá-lo ou sublinhá-lo, então é bem provável que eu acabe sendo uma pequena parte de sua longa história.
E é divertido que você começa a pegar a lógica e conhecer o lugar apenas depois de ter ido lá umas 10 vezes. Porque fica tudo espalhado. Eu me sinto William (ou Sean Connery) no Nome da Rosa, percorrendo a biblioteca da abadia, bestificado com a enormidade da experiência.
E a sensação de que uma lógica hermenêutica perpassa a biblioteca e seu modo de funcionamento é real e paupável. Como se fosse necessária uma chave cabalística para decifrar o lugar. Ou, fazendo referência a outro maravilhoso livro do Eco, um Abulafia para destrancar os mistérios e as maravilhas do conhecimento, que estão ali esperando quem realmente quiser procurar.
Bem, mas as jóias da coroa são evidentemente a British Library e a Senate House. A British Library recebe uma cópia de todo livro impresso no Reino Unido. É lei. É claro que eles têm muita coisa de outros países, além de periódicos, imagens, vídeos, mapas, manuscritos... mas acho que já falei dela, não?
Enfim, é linda, mas não muito prática para minha tática de estudo, que consiste em percorrer as estantes, fuçar os livros em volta daquele que iniciou a pesquisa, ter contato direto com eles. Na BL você acha a referência no computador e faz o pedido. Um funcionário então traz o dito cujo na sua mesa. Um drive thru intelectual, por assim dizer. Meio esterilizado. Provavelmente você encontrará o que está procurando, mas é difícil topar com alguma boa surpresa, ao acaso. No esquema graus de separação transladado à pesquisa bibliográfica, digo.
Mas a Senate House, a biblioteca da Universidade de Londres (que é o colegiado de várias universidades) é diferente. O prédio pra começo de conversa, mais antigo, em forma de lança, parece uma versão menor do Empire State Bulding no coração de Bloomsbury, o bairro intelectual daqui. Vários andares, corredores, alas, sessões, escadas, rampas e elevadores pré-históricos, dos mais variados tamanhos (o que sobe para o sexto andar, o de antropologia, sai da sessão de periódicos do quarto andar e não permite mais que duas pessoas, apertadas), com milhões de livros e revistas adornando as paredes à sua volta. Não tem tantos exempares como na BL, mas ainda sim é a maior biblioteca de Ciências Sociais do Reino Unido!
E cada raridade que se acha... Pimba, pego um livro de 1900 e bolinha e vejo que ninguém o retirou por décadas (bem, isso acontece no ifch também). Acho isso tão legal. Eu resgatei o coitado daquela estante, onde repousou imóvel por anos, quando alguém, que provavelmente não é nem mais um estudante e, quiçá, nem está mais entre nós, e que se interessou pelo mesmo assunto, o usou pela última vez. E eu sei que ninguém vai rasgar o coitado, roubá-lo ou sublinhá-lo, então é bem provável que eu acabe sendo uma pequena parte de sua longa história.
E é divertido que você começa a pegar a lógica e conhecer o lugar apenas depois de ter ido lá umas 10 vezes. Porque fica tudo espalhado. Eu me sinto William (ou Sean Connery) no Nome da Rosa, percorrendo a biblioteca da abadia, bestificado com a enormidade da experiência.
E a sensação de que uma lógica hermenêutica perpassa a biblioteca e seu modo de funcionamento é real e paupável. Como se fosse necessária uma chave cabalística para decifrar o lugar. Ou, fazendo referência a outro maravilhoso livro do Eco, um Abulafia para destrancar os mistérios e as maravilhas do conhecimento, que estão ali esperando quem realmente quiser procurar.
segunda-feira, outubro 15, 2007
Egotrip
Trocando e-mails com uma querida amiga, resolvi escrever algo sobre essa minha experiência em Londres. Falávamos de solidão, a vida numa cidade nova e a necessidade de descobrir até que ponto gostamos de nós mesmos.
Digo, apesar das visitas que tive e das amigas que tenho aqui, passo a maior parte do tempo sozinho. Dias se passam sem que eu fale com viva alma às vezes. E quando falo é em inglês... Não tenho tv, nem mais a precária internet de antes. Telefone idem (ok, tenho um celular, mas aí não é mais algo da casa; celular está virando um apêndice humano; é tão absurdo sair sem ele como seria sair descalço). As distrações de casa são livros, meu laptop e a cozinha (e não é que aprendi a fazer algumas coisas mais elaboradas que omelete?!).
Nesse ambiente espartano inevitavelmente tenho muito tempo para prestar atenção em mim mesmo, de uma maneira que, arrisco a comparação, carinha que sai andando semanas até Santiago também deve ter. Bem, a capital britânica não deve proporcionar o mesmo tipo de iluminação transcendental que as paragens bascas, e não tive nenhum tipo de epifania ou recebi um chamado. Mas descobri que eu posso me aguentar por um longo tempo. E foi bom saber disso.
Claro, tudo aqui é temporário, sei bem disso. Estou chegando no ponto de saturação, e se não soubesse que logo vou voltar, provavelmente pediria pra passar a régua e cruzaria o oceano novamente. Gostar muito de mim mesmo não basta, logicamente. Essa é a conclusão a que cheguei.
Londres tem seus medos e ameaças, diferentes dos encontrados na terrinha. E nem sei se são mesmo comparáveis, como é inevitável acabar fazendo, ao contar as experiências vividas (alguém poderia argumentar, com certeza com razão, que estatisticamente um lugar é mais seguro que outro, mas não é bem disso que estou falando).
Os loucos, esse medo meio esquisito de ser explodido durante sua viagem pelo transporte público (sacolas e bolsas largadas assumem outra perspectiva), as histórias dos psicopatas que empurram gente no metrô, os que pulam no metrô. Os esmagados no trânsito (geralmente turistas que esquecem da mão inversa). Os vigaristas. Os que são esfaqueados (e, tremei, os londrinos começam a descobrir o que é o medo de arma de fogo). O fato de não saber os sinais, não ajuda, claro. Mas quando você começa a compreender a diferente semântica cotidiana, sua grandiosidade, o absurdo imanente que afinal de contas a define como uma ameaça, este verdadeiro significado de perigo começa a trabalhar em um nível diferente de medo.
Antes que alguém me dedure para a embratur inglesa, me apresso em dizer: me sinto muito mais seguro aqui, sem dúvida. Andar sozinho na rua às 2 da manhã não é uma aventura...
Estou lendo um livro que a Dani encomendou para a pesquisa dela, o já famoso "Muscle" de Sam Fussell. Camille Paglia (essa pessoa, digamos, controversa) tem razão, na orelha do livro: ele parece um relato atual de Alice. Mas, completo, possui também uma pitada de Hunter Thompson e muita, mas muita ironia, humor e graça. Graça que, entretanto, apenas expõe e amplifica o fato de que tudo o que Fussell fala é extremamente assustador. Quem é você senão uma construção esquizóide em face de como você encara as coisas ao seu redor? E, claro, o medo do mundo tem sua parcela de contribuição em como você se faz ser visto pelo outros. A tal ponto que não é risível perguntar se este, mutatis mutandis, não se trata de você mesmo.
Apenas, acho, algumas pessoas se rendem mais absolutamente a maneiras extremas de se proteger.
Enfim, começo a divagar, pra variar. Termino com um lindo e, de certa forma, encorajador verso de Robert Frost que, não tenho dúvidas, teve sua parcela de experiências por vezes assustadoras para descrever esses sentimentos:
The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep.
And miles to go before I sleep...
And miles to go before I sleep.
Digo, apesar das visitas que tive e das amigas que tenho aqui, passo a maior parte do tempo sozinho. Dias se passam sem que eu fale com viva alma às vezes. E quando falo é em inglês... Não tenho tv, nem mais a precária internet de antes. Telefone idem (ok, tenho um celular, mas aí não é mais algo da casa; celular está virando um apêndice humano; é tão absurdo sair sem ele como seria sair descalço). As distrações de casa são livros, meu laptop e a cozinha (e não é que aprendi a fazer algumas coisas mais elaboradas que omelete?!).
Nesse ambiente espartano inevitavelmente tenho muito tempo para prestar atenção em mim mesmo, de uma maneira que, arrisco a comparação, carinha que sai andando semanas até Santiago também deve ter. Bem, a capital britânica não deve proporcionar o mesmo tipo de iluminação transcendental que as paragens bascas, e não tive nenhum tipo de epifania ou recebi um chamado. Mas descobri que eu posso me aguentar por um longo tempo. E foi bom saber disso.
Claro, tudo aqui é temporário, sei bem disso. Estou chegando no ponto de saturação, e se não soubesse que logo vou voltar, provavelmente pediria pra passar a régua e cruzaria o oceano novamente. Gostar muito de mim mesmo não basta, logicamente. Essa é a conclusão a que cheguei.
Londres tem seus medos e ameaças, diferentes dos encontrados na terrinha. E nem sei se são mesmo comparáveis, como é inevitável acabar fazendo, ao contar as experiências vividas (alguém poderia argumentar, com certeza com razão, que estatisticamente um lugar é mais seguro que outro, mas não é bem disso que estou falando).
Os loucos, esse medo meio esquisito de ser explodido durante sua viagem pelo transporte público (sacolas e bolsas largadas assumem outra perspectiva), as histórias dos psicopatas que empurram gente no metrô, os que pulam no metrô. Os esmagados no trânsito (geralmente turistas que esquecem da mão inversa). Os vigaristas. Os que são esfaqueados (e, tremei, os londrinos começam a descobrir o que é o medo de arma de fogo). O fato de não saber os sinais, não ajuda, claro. Mas quando você começa a compreender a diferente semântica cotidiana, sua grandiosidade, o absurdo imanente que afinal de contas a define como uma ameaça, este verdadeiro significado de perigo começa a trabalhar em um nível diferente de medo.
Antes que alguém me dedure para a embratur inglesa, me apresso em dizer: me sinto muito mais seguro aqui, sem dúvida. Andar sozinho na rua às 2 da manhã não é uma aventura...
Estou lendo um livro que a Dani encomendou para a pesquisa dela, o já famoso "Muscle" de Sam Fussell. Camille Paglia (essa pessoa, digamos, controversa) tem razão, na orelha do livro: ele parece um relato atual de Alice. Mas, completo, possui também uma pitada de Hunter Thompson e muita, mas muita ironia, humor e graça. Graça que, entretanto, apenas expõe e amplifica o fato de que tudo o que Fussell fala é extremamente assustador. Quem é você senão uma construção esquizóide em face de como você encara as coisas ao seu redor? E, claro, o medo do mundo tem sua parcela de contribuição em como você se faz ser visto pelo outros. A tal ponto que não é risível perguntar se este, mutatis mutandis, não se trata de você mesmo.
Apenas, acho, algumas pessoas se rendem mais absolutamente a maneiras extremas de se proteger.
Enfim, começo a divagar, pra variar. Termino com um lindo e, de certa forma, encorajador verso de Robert Frost que, não tenho dúvidas, teve sua parcela de experiências por vezes assustadoras para descrever esses sentimentos:
The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep.
And miles to go before I sleep...
And miles to go before I sleep.
domingo, outubro 14, 2007
Esse final de semana
Esse final de semana tive um programa diferente, mas ao mesmo tempo muito familiar. Fui num bar brasileiro, com a Si, o Chris e a Carol, beber brahma e ouvir DJ Paulão discotecando! Antes de vir para cá parece que era só o que fazia - ouvir black music do DJ Paulão ou seus discípulos nas baladas. Mas eu gosto da ironia de vir para Londres e... ouvir DJ Paulão!
E dessa vez foi diferente. A brasilidade no exterior é diferente. Extremamente mais caricaturizada, mas com um outro apelo. Não sei se é a saudade de casa, uma válvula de escape para toda a estranheza de uma vida num país que não é o seu... e nem é toda hora. Aliás, pra falar a verdade, eu fujo de tudo o que é brasileiro aqui...
De qualquer maneira, adoro dançar (não que eu saiba, mas não precisamos entrar nesse mérito), e gostei muito da noite, bem como do lugar (Guanabara, lá em Holborn, lugar composto metade por brazucas e metade por gringos empolgados que são, por sinal, os mais engraçados que existem). Até relevei o fato de estar pagando 14 reais por cada long neck de brahma (!?) que tomava (e foram muitas). Bem como o fato de que o repertório é decidamente mais comercial que o normal (mas é o que os gringos e os brasileiros migrantes querem ouvir: o samba mais manjado e reconhecível possível) - claro que o Paulão sabia disso.
Fiquei tão passado que quase não consigo ir no Undertones no dia seguinte! Digo quase, porque no final decidi que ia me arrastando mesmo, mas não ia perder o show, que foi muito bom! O resultado é que peguei uma gripe e tenho que apertar o cinto até a próxima bolsa, mas acho que valeu a pena.
Outro efeito colateral foram sonhos esquisitíssimos. Exemplo de um:
Me vejo na tv, de esquis, câmera estilo enduro de corrida, deslizando pra cá e pra lá no gelo, seguindo um pinguim, que é entrevisto por breves momentos, escorregando adiante. Ele me leva até uma competição de off-road - de fiat unos. Eu e um amigo entramos na competição e somos melhores do que imaginávamos. Eu completei o percurso em 1 minuto e 15 segundos, ele um segundo mais rápido. Mudo de canal e finalmente posso ver de onde estou assistindo. É minha casa, e estou assistindo tv com minha prima Ju. Ela come uma pizza e eu um big mac requentado. Na tela agora é a nova novela das oito: descubro que uma personagem, a da Malu Mader, é uma ricaça que é culpada de fraude fiscal nos EUA e foge pro Brasil, mas não conta nada disso pra família, que acha que ela veio de férias. Outro personagem na novela é o Gianfrancesco Guarnieri, que faz um homem que está fugindo de algo. O caseiro do lugar onde ele está escondido, chamado Sebastião, protagonizado por um desses atores clichês (no caso, porteiro, caseiro, motorista), sabe que o cara tem algo a esconder e suborna o coitado do Guarnieri por 400 libras. Ele diz "eu sei que você deve no cartório. Mas pode deixar que o tio Sebastião vai proteger seu segredo direitinho" e dá uma risadinha irônica, ao que o outro replica, ao perceber que estaria constantemente à mercê do safado se não tomasse uma providência "na verdade, eu já tenho um amigo para me proteger", a típica fala de um filme do Jerry Bruckheimer. O sorriso de Sebastião desaparece, substituído por uma expressão de quem não entendeu. E então seu rosto congela, ao perceber que Guarnieri tira um .38 da cintura. Aponta e atira. Eu viro para minha prima e digo "essa novela nova é malvada, mas ainda sim barata".
Vai entender a mente convalescente...
E dessa vez foi diferente. A brasilidade no exterior é diferente. Extremamente mais caricaturizada, mas com um outro apelo. Não sei se é a saudade de casa, uma válvula de escape para toda a estranheza de uma vida num país que não é o seu... e nem é toda hora. Aliás, pra falar a verdade, eu fujo de tudo o que é brasileiro aqui...
De qualquer maneira, adoro dançar (não que eu saiba, mas não precisamos entrar nesse mérito), e gostei muito da noite, bem como do lugar (Guanabara, lá em Holborn, lugar composto metade por brazucas e metade por gringos empolgados que são, por sinal, os mais engraçados que existem). Até relevei o fato de estar pagando 14 reais por cada long neck de brahma (!?) que tomava (e foram muitas). Bem como o fato de que o repertório é decidamente mais comercial que o normal (mas é o que os gringos e os brasileiros migrantes querem ouvir: o samba mais manjado e reconhecível possível) - claro que o Paulão sabia disso.
Fiquei tão passado que quase não consigo ir no Undertones no dia seguinte! Digo quase, porque no final decidi que ia me arrastando mesmo, mas não ia perder o show, que foi muito bom! O resultado é que peguei uma gripe e tenho que apertar o cinto até a próxima bolsa, mas acho que valeu a pena.
Outro efeito colateral foram sonhos esquisitíssimos. Exemplo de um:
Me vejo na tv, de esquis, câmera estilo enduro de corrida, deslizando pra cá e pra lá no gelo, seguindo um pinguim, que é entrevisto por breves momentos, escorregando adiante. Ele me leva até uma competição de off-road - de fiat unos. Eu e um amigo entramos na competição e somos melhores do que imaginávamos. Eu completei o percurso em 1 minuto e 15 segundos, ele um segundo mais rápido. Mudo de canal e finalmente posso ver de onde estou assistindo. É minha casa, e estou assistindo tv com minha prima Ju. Ela come uma pizza e eu um big mac requentado. Na tela agora é a nova novela das oito: descubro que uma personagem, a da Malu Mader, é uma ricaça que é culpada de fraude fiscal nos EUA e foge pro Brasil, mas não conta nada disso pra família, que acha que ela veio de férias. Outro personagem na novela é o Gianfrancesco Guarnieri, que faz um homem que está fugindo de algo. O caseiro do lugar onde ele está escondido, chamado Sebastião, protagonizado por um desses atores clichês (no caso, porteiro, caseiro, motorista), sabe que o cara tem algo a esconder e suborna o coitado do Guarnieri por 400 libras. Ele diz "eu sei que você deve no cartório. Mas pode deixar que o tio Sebastião vai proteger seu segredo direitinho" e dá uma risadinha irônica, ao que o outro replica, ao perceber que estaria constantemente à mercê do safado se não tomasse uma providência "na verdade, eu já tenho um amigo para me proteger", a típica fala de um filme do Jerry Bruckheimer. O sorriso de Sebastião desaparece, substituído por uma expressão de quem não entendeu. E então seu rosto congela, ao perceber que Guarnieri tira um .38 da cintura. Aponta e atira. Eu viro para minha prima e digo "essa novela nova é malvada, mas ainda sim barata".
Vai entender a mente convalescente...
domingo, outubro 07, 2007
Natalidades
Ontem fui numa festinha de aniversario, da linda e sorridente Letícia, que fez seu primeiro aninho de vida aqui na terra da rainha. Brigadeiro, pão de queijo, beijinho e cachorro quente! Como adoro festa de criança...
Aliás, ultimamente parece que só tenho comprado presente pra crianca, indo pra festa de criança... todo mundo está tendo filho! Por um lado isso é meio assustador... quem vai sobrar pra ir pro boteco comigo em breve?!
Aliás, ultimamente parece que só tenho comprado presente pra crianca, indo pra festa de criança... todo mundo está tendo filho! Por um lado isso é meio assustador... quem vai sobrar pra ir pro boteco comigo em breve?!
terça-feira, outubro 02, 2007
Redencao, ou como todas as cagadas sao perdoadas no tiroteio final
Ok amigos, estão com o chocolate quente em mãos e a coberta ao redor dos ombros? Estão preparados para ouvir uma história verdadeiramente assustadora? A história, esta que está para ser narrada, é, entre outras coisas, sobre um assassino arrependido em busca de uma figura paterna. Mas antes do dobrar dos sinos, por assim dizer; antes do desfecho desta saga repleta de falso glamour e segredos assombrosos, saberemos algo sobre alguns dos mais conhecidos artistas cujas alcunhas adornam as estrelas nas calçadas hollywoodianas, um ensandecido-mas-de-bom-coração escritor de screenplay, bem como sobre um complô internacional de proporções gigantescas e outras besteiras.
Encontramos nosso primeiro protagonista reclinado sobre uma perna num ângulo improvável. Sua perna. Completamente inconsciente, quebrada, inútil. Se aproximarmos, zoom!, close up!, e dissiparmos um pouco da escuridão que, de outra maneira deixa os detalhes completamente invisíveis, é possível perceber que ele está ensopado. Um líquido viscoso. Como ouvimos um arfar resignado, aliviado, mas alto o suficiente para perceber dor, somamos um mais um e, voilá, está sangrando. Muito. Estará morrendo?
Se pudéssemos nos valer do olfato agora, saberíamos que além do cheiro de mofo que impregna o recinto escuro, tiros foram disparados. Aquele fedor de pólvora que se dissipará em breve, deixando apenas o cheiro de medo. E morte. Mas como vocês não podem sentir estes odores, terão que confiar em mim neste ponto. Mas sou um narrador honesto. Tanto quanto narradores podem ser, de qualquer maneira.
O zoom agora é o suficiente para discernirmos alguns traços. O cabelo empastado no rosto, o terno elegante-ainda-que-arruinado, o sorriso. Nosso protagonista sorri, apesar do óbvio tormento. E então uma voz sai do negrume de um canto insuspeito, alguns metros à esquerda. Não está só. Ele volta seu rosto para a direção da voz, ainda fraca e indistinta para entendermos algo.
- Maldito complexo de Cluster de vocês americanos. De onde vem essa idéia de morrer... como vocês dizem... "in a blaze of glory"? Esse derradeiro sacrifício grandioso que vocês anseiam para o apagar das luzes? Há algo de realmente nobre em ir dessa maneira? Todos os pecados são perdoados no tiroteio final?
- Que merda você falando? Responde a voz, finalmente forte o suficiente para se fazer ouvida. Uma tosse atormentada.
- Estou falando de Butch Cassidy e Sundance Kid. De Dirty Dozen. Da porra do Young Guns. De Magnificent Seven. Bem... esse aí vem do Kurosawa... mas você sabe do que estou falando, mate.
- Você poderia estar falando de você, não é chapa? O que você acha que acabou de acontecer por aqui além de uma cena saída de um filme do John Woo?
- Sim, mas não tínhamos alternativa. E não acho tudo isso poético, ou mesmo grandioso... Ainda que ache tudo estranhamente engraçado agora que aconteceu...
Risos entrecortados com uma tosse excruciante.
- Para sua informação, nunca gostei desses filmes.
- Ah, blasfêmia.
- Vai se foder. É verdade.
Silêncio de alguns segundos. Insuportáveis.
- O que você está pensando? Não acredita que exista um americano que escape dessa sua grande teoria sociológica?
- Não, estava pensando no meu tio, Alzheimer.
- Seu tio tem Alzheimer?
- Ele se chamava Alzheimer.
- Como a doença?
- Ele era filho do homem que diagnosticou a síndrome.
- Como as doenças têm nome de pessoas, afinal de contas?
- Ei, pode não ser tão glamouroso como batizar cometas ou alguma porcaria de fórmula, mas se você trabalhou duro para descobrir algo científico, não gostaria de entrar para a história, mesmo que seu nome seja odiado e temido toda vez que fosse pronunciado?
- Não sei. Acho que não. A idéia não me agrada nem um pouco. E não é que vão lembrar de mim, de qualquer maneira. Apenas uma palavra, um nome descarnado. Lou-Gehrig. Parkinson. Cushing. Você sabe algo sobre esses tipos?
- Não. Você tem um ponto aí. Mas eu também não gostaria de ser lembrado assim. Apenas lembrei de meu tio agora.
- O que ele te disse afinal?
- Quando eu era apenas uma criança ele já era muito velho. Morava perto da minha escola, então eu costumava ir para lá depois da aula e lhe fazer companhia até minha mãe vir me buscar. Normalmente ele ficava ali, apenas olhando pela janela, sem dizer muita coisa, e eu me acostumei a brincar sozinho na sua sala. Um dia, me lembro como se fosse ontem, estava imaginando uma aventura de índios e cowboys quando ele saiu do seu transe usual, olhou para mim e fez um sinal para que me aproximasse. Esperou até que eu estivesse muito perto e sussurrou "nunca confie num escritor de screenplay".
- O que ele quis dizer com isso?
- Não sei. Ele tinha Alzheimer. Ele não falava nada com nada.
- Vai se foder. Você está zoando comigo.
- Ei, história verdadeira. Mas fico pensando se ele não tinha razão. Veja onde nós paramos. Tudo por culpa daquele filha da puta.
A segunda voz pareceu concordar com um suspiro e novamente fizeram silêncio solene, antes da escuridão aumentar. Inexorável.
Fade out.
Mas agora já nos aproximamos do final de nossa história. Deixe-me voltar alguns dias, longe da ensolarada Los Angeles, para a úmida e fria Londres...
continua...
Encontramos nosso primeiro protagonista reclinado sobre uma perna num ângulo improvável. Sua perna. Completamente inconsciente, quebrada, inútil. Se aproximarmos, zoom!, close up!, e dissiparmos um pouco da escuridão que, de outra maneira deixa os detalhes completamente invisíveis, é possível perceber que ele está ensopado. Um líquido viscoso. Como ouvimos um arfar resignado, aliviado, mas alto o suficiente para perceber dor, somamos um mais um e, voilá, está sangrando. Muito. Estará morrendo?
Se pudéssemos nos valer do olfato agora, saberíamos que além do cheiro de mofo que impregna o recinto escuro, tiros foram disparados. Aquele fedor de pólvora que se dissipará em breve, deixando apenas o cheiro de medo. E morte. Mas como vocês não podem sentir estes odores, terão que confiar em mim neste ponto. Mas sou um narrador honesto. Tanto quanto narradores podem ser, de qualquer maneira.
O zoom agora é o suficiente para discernirmos alguns traços. O cabelo empastado no rosto, o terno elegante-ainda-que-arruinado, o sorriso. Nosso protagonista sorri, apesar do óbvio tormento. E então uma voz sai do negrume de um canto insuspeito, alguns metros à esquerda. Não está só. Ele volta seu rosto para a direção da voz, ainda fraca e indistinta para entendermos algo.
- Maldito complexo de Cluster de vocês americanos. De onde vem essa idéia de morrer... como vocês dizem... "in a blaze of glory"? Esse derradeiro sacrifício grandioso que vocês anseiam para o apagar das luzes? Há algo de realmente nobre em ir dessa maneira? Todos os pecados são perdoados no tiroteio final?
- Que merda você falando? Responde a voz, finalmente forte o suficiente para se fazer ouvida. Uma tosse atormentada.
- Estou falando de Butch Cassidy e Sundance Kid. De Dirty Dozen. Da porra do Young Guns. De Magnificent Seven. Bem... esse aí vem do Kurosawa... mas você sabe do que estou falando, mate.
- Você poderia estar falando de você, não é chapa? O que você acha que acabou de acontecer por aqui além de uma cena saída de um filme do John Woo?
- Sim, mas não tínhamos alternativa. E não acho tudo isso poético, ou mesmo grandioso... Ainda que ache tudo estranhamente engraçado agora que aconteceu...
Risos entrecortados com uma tosse excruciante.
- Para sua informação, nunca gostei desses filmes.
- Ah, blasfêmia.
- Vai se foder. É verdade.
Silêncio de alguns segundos. Insuportáveis.
- O que você está pensando? Não acredita que exista um americano que escape dessa sua grande teoria sociológica?
- Não, estava pensando no meu tio, Alzheimer.
- Seu tio tem Alzheimer?
- Ele se chamava Alzheimer.
- Como a doença?
- Ele era filho do homem que diagnosticou a síndrome.
- Como as doenças têm nome de pessoas, afinal de contas?
- Ei, pode não ser tão glamouroso como batizar cometas ou alguma porcaria de fórmula, mas se você trabalhou duro para descobrir algo científico, não gostaria de entrar para a história, mesmo que seu nome seja odiado e temido toda vez que fosse pronunciado?
- Não sei. Acho que não. A idéia não me agrada nem um pouco. E não é que vão lembrar de mim, de qualquer maneira. Apenas uma palavra, um nome descarnado. Lou-Gehrig. Parkinson. Cushing. Você sabe algo sobre esses tipos?
- Não. Você tem um ponto aí. Mas eu também não gostaria de ser lembrado assim. Apenas lembrei de meu tio agora.
- O que ele te disse afinal?
- Quando eu era apenas uma criança ele já era muito velho. Morava perto da minha escola, então eu costumava ir para lá depois da aula e lhe fazer companhia até minha mãe vir me buscar. Normalmente ele ficava ali, apenas olhando pela janela, sem dizer muita coisa, e eu me acostumei a brincar sozinho na sua sala. Um dia, me lembro como se fosse ontem, estava imaginando uma aventura de índios e cowboys quando ele saiu do seu transe usual, olhou para mim e fez um sinal para que me aproximasse. Esperou até que eu estivesse muito perto e sussurrou "nunca confie num escritor de screenplay".
- O que ele quis dizer com isso?
- Não sei. Ele tinha Alzheimer. Ele não falava nada com nada.
- Vai se foder. Você está zoando comigo.
- Ei, história verdadeira. Mas fico pensando se ele não tinha razão. Veja onde nós paramos. Tudo por culpa daquele filha da puta.
A segunda voz pareceu concordar com um suspiro e novamente fizeram silêncio solene, antes da escuridão aumentar. Inexorável.
Fade out.
Mas agora já nos aproximamos do final de nossa história. Deixe-me voltar alguns dias, longe da ensolarada Los Angeles, para a úmida e fria Londres...
continua...
sábado, setembro 29, 2007
Ando meio sem vontade (e recursos) para atualizar o blog ultimamente. Não por falta de coisas acontecendo. Shows, passeios, visitas... por exemplo, desvendei o mistério da velhinha do flat 1! Fui vítima de um pickpocket do mal! Vou ver um show da Siouxie, diva de punks e góticos de plantão! Um outro dia eu conto melhor.
Como estou meio enferrujado, escreverei um pequeno post apenas. Coloco então duas novas fotinhos de graffiti do Banksy. O ratinho fica perto da minha imobiliária. O cara aparentemente adora ratinhos. São subversivos por natureza, imagino. Uma curiosidade: um trabalho dele sobre um ratinho guerrilheiro urbano que adverte que o tempo deles está chegando ficou exposto no National History Museum por algumas horas até alguém perceber que aquilo não fazia parte do acervo normal!
Coloco também uma nova foto daquele mesmo muro em Chalk Farm. Engraçado, não só ninguém apagou o desenho, como estão mantendo-o intacto e conservado. Até restauraram a cara da empregada, ora bolas!
Enfim, continuo sempre esperto pra novos exemplos de arte na rua. Existem coisas realmente impressionantes. Artistas e escultores talentosíssimos, que escolheram tornar sua arte realmente pública, de graça e perecível.
quarta-feira, setembro 12, 2007
Tocaia
Há mais de um mês, mudou-se uma senhora para o apartamento do lado. Bem, na verdade eu não posso fazer mais do presumir que isso é o que está por detrás das vozes e toda sorte de barulhos que tenho ouvido nas últimas semanas.
Mas o fato é que eu nunca vi a tal senhora.
Vi uma enfermeira uma vez. Ela estava sem a chave e a senhora não ouvia a campainha - chovia muito - então ela (a enfermeira) tocou em casa. Isso às 8 da manhã, mas ok, lá fui eu abrir a porta e ver a dita cuja desaparecer flat 1 adentro.
Sei que vêm outras enfermeiras (são vozes diferentes e dia desses uma outra bateu na minha porta - às 8, claro).
Mas a senhora não sai de casa. Não abre a janela, não levanta a cortina. Nem vai ao banheiro.
O que me faz pensar. E se for alguma farsa? Tipo uma Sra. Kaplan saída de North by Northwest ou algo do gênero? Ela nunca existiu. É apenas o resultado de um ardil muito bem elaborado por agentes secretos que na verdade estão usando o lugar para monitorar suspeitos no prédio em frente. Ou um marido que matou a esposa e agora está criando um álibi, a impressão que ela está viva e ferrar com aquelas elucubrações policiais sobre hora da morte, momento do desaparecimento, esse tipo de coisa. Dubla-se uma segunda voz, faz-se uma movimentação, finge-se que a tal senhora pediu uma encomenda. Mas nunca ninguém viu, apenas presumem que os outros viram. Ora, se até pro Macauley Culkin deu certo...
E como explicar a trupe de saltimbancos que eu vi saindo de lá um dia, se despedindo da Sra Kaplan?
Heim? Como assim? Volte a fita!
E pior, eles se despediram de uma tal Sra. Caballo! Mas afinal, quantas senhoras de idade estão vivendo naquele cubículo que é o apartamento 1? Serão irmãs? Comparsas? Um erro de comunicação entre os agentes? Será que seu nome é Kaplan-Caballo? Caballo-Kaplan?
Um dia resolvi seguir uma das enfermeiras, que sempre vão embora por volta das 10. Não era a moça bonita que salvei da chuva, ou a outra mulher enorme que me despertou num sábado de manhã por ter se enganado de porta. Essa tinha barba. Maior que a minha. Suíças que fariam o Rei (não o Roberto, não o Pelé. O outro Rei) corar de inveja. O bigode era menos imponente, mas o restante da barba parecia saída de uma charge do Sunday sobre novos desdobramentos da política internacional afegã. Um cavanhaque em tranças coroava o prodígio capilar - pendia por quase um palmo em direção aos peitos enormes, que respiravam assanhados num decote imodesto.
E ela parecia uma Helena de Tróia dada. Exibia um vestido cetinado avermelhado e uma tiara dourada. Sandálias de tiras e brincos em forma de gigantescas argolas de ouro.
A segui até uma região que nunca havia ido. O ônibus que pegou foi até o ponto final e de lá pegamos ainda outro. A ordem e a atmosfera georgiana - vitoriana a que estou acostumado deu lugar a uma mistura de Harlem e Modadíscio.
Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore.
Então ela entrou em uma cabana que exibia o seguinte letreiro: Exotic dancing - adult massages - phone cards - shoe polishing.
Decidi que não queria entrar e me arrepender, depois de ser abordado por um niilista vestido com vinil preto ou descobrir que infiltrei uma segunda tocaia do serviço secreto inglês.
Ok, a maior parte do relato consiste de devaneios febris de uma mente doente. Mas que tem uma senhora X que vive como um vampiro no apartamento do lado, isso tem.
Mas o fato é que eu nunca vi a tal senhora.
Vi uma enfermeira uma vez. Ela estava sem a chave e a senhora não ouvia a campainha - chovia muito - então ela (a enfermeira) tocou em casa. Isso às 8 da manhã, mas ok, lá fui eu abrir a porta e ver a dita cuja desaparecer flat 1 adentro.
Sei que vêm outras enfermeiras (são vozes diferentes e dia desses uma outra bateu na minha porta - às 8, claro).
Mas a senhora não sai de casa. Não abre a janela, não levanta a cortina. Nem vai ao banheiro.
O que me faz pensar. E se for alguma farsa? Tipo uma Sra. Kaplan saída de North by Northwest ou algo do gênero? Ela nunca existiu. É apenas o resultado de um ardil muito bem elaborado por agentes secretos que na verdade estão usando o lugar para monitorar suspeitos no prédio em frente. Ou um marido que matou a esposa e agora está criando um álibi, a impressão que ela está viva e ferrar com aquelas elucubrações policiais sobre hora da morte, momento do desaparecimento, esse tipo de coisa. Dubla-se uma segunda voz, faz-se uma movimentação, finge-se que a tal senhora pediu uma encomenda. Mas nunca ninguém viu, apenas presumem que os outros viram. Ora, se até pro Macauley Culkin deu certo...
E como explicar a trupe de saltimbancos que eu vi saindo de lá um dia, se despedindo da Sra Kaplan?
Heim? Como assim? Volte a fita!
E pior, eles se despediram de uma tal Sra. Caballo! Mas afinal, quantas senhoras de idade estão vivendo naquele cubículo que é o apartamento 1? Serão irmãs? Comparsas? Um erro de comunicação entre os agentes? Será que seu nome é Kaplan-Caballo? Caballo-Kaplan?
Um dia resolvi seguir uma das enfermeiras, que sempre vão embora por volta das 10. Não era a moça bonita que salvei da chuva, ou a outra mulher enorme que me despertou num sábado de manhã por ter se enganado de porta. Essa tinha barba. Maior que a minha. Suíças que fariam o Rei (não o Roberto, não o Pelé. O outro Rei) corar de inveja. O bigode era menos imponente, mas o restante da barba parecia saída de uma charge do Sunday sobre novos desdobramentos da política internacional afegã. Um cavanhaque em tranças coroava o prodígio capilar - pendia por quase um palmo em direção aos peitos enormes, que respiravam assanhados num decote imodesto.
E ela parecia uma Helena de Tróia dada. Exibia um vestido cetinado avermelhado e uma tiara dourada. Sandálias de tiras e brincos em forma de gigantescas argolas de ouro.
A segui até uma região que nunca havia ido. O ônibus que pegou foi até o ponto final e de lá pegamos ainda outro. A ordem e a atmosfera georgiana - vitoriana a que estou acostumado deu lugar a uma mistura de Harlem e Modadíscio.
Toto, I have a feeling we're not in Kansas anymore.
Então ela entrou em uma cabana que exibia o seguinte letreiro: Exotic dancing - adult massages - phone cards - shoe polishing.
Decidi que não queria entrar e me arrepender, depois de ser abordado por um niilista vestido com vinil preto ou descobrir que infiltrei uma segunda tocaia do serviço secreto inglês.
Ok, a maior parte do relato consiste de devaneios febris de uma mente doente. Mas que tem uma senhora X que vive como um vampiro no apartamento do lado, isso tem.
segunda-feira, agosto 27, 2007
Descarrego
Lendo um bonito e iluminado texto esses dias (uma estrela pra quem descobrir de quem falo), fiquei aqui com meus botões, matutando umas idéias (essa imagem meio autista de mexer com os próprios botões sempre me agradou).
O verão desse ano não foi muito veranil, mas, enfim, foi a época dos grandes festivais, inspirados evidentemente nos míticos dias de lama numa fazenda americana 40 anos atrás, e que, sai ano entra ano, vão acontecer com a mesma certeza que o Emmy, o Oscar ou o SPFW.
Glastonbury, Reeding, Wight, Man, por aí vai. São vários e eu esqueço os nomes. Todos com a promessa de serem A reunião definitiva, num blend "democrático" e "eclético" entre os dinossauros sagrados do rock, as bandas cool do momento e a possibilidade de testemunhar o nascimento de algum outro conjunto que será grande muito em breve (afinal, tal possibilidade é real - você pode contar anos depois que viu aquele primeiro show daquela banda antes que qualquer outro conhecesse sem se dar conta que são milhares como você que fazem essa banda ser conhecida pra começo de conversa e então torcer o nariz porque "eles viraram muito comerciais" e então sair caçando novas borboletas underground e alternativas de novidade obscuras - já que de alguma maneira, o que garante a inclusão dessas bandas num line-up desse tipo de evento não é tanto o som, mas o que eu denominaria de "perfil vencedor", o que leva, creio eu, a uma celebração de mesmices que dão certo e que apenas reificam essa certeza: uma boa dose de esquisitice, polêmica, comportamento destrutivo e errático e misterioso e um som que recicla o estilo da geração ante-anterior - sempre pulando uma, numa espécie de elipse do eterno retorno alternada, uma repetição cabalística do showbiz - que deverá ser revolucionário, mas que no fundo é míope e autoritário e não admite sequer a existência de inteligência musical antes do quarteto de Liverpool). A infinita busca pelo novo som genial.
Que nos três dias (este parece ser o número mágico - você nem morre de vez nem acha que foi muito efêmera a experiência) esteja chovendo torrencialmente e que a possibilidade de se afogar em algum rio que transborda, pegar alguma micose pela umidade ou ao menos um resfriado básico, seja real, não importa. Ou melhor, apenas faz a provação ser mais significativa: a idéia de que, não importa quem você ouviu, mas que você fez parte daquele capítulo dourado fadado a entrar nos anais da história musical (lembrado apenas em termos de quem foi ouvido), e reconhece como irmão alguma outra alma aventureira que também lá esteve e lembra a hora que aquele amplificador caiu no meio do show daqueles caras e daquele maluco que subiu no poste de alta tensão e tal como você voltou para casa sentindo como se tivesse participado de uma batalha e... bem, você entendeu. Como uma ordem secreta em que apenas os iniciados COMPREENDEM.
Mas até aí nada muito diferente de você usar uma camiseta "Rock in Rio - eu fui". O que tem de diferente neste tipo de comunidade neo-hippie sazonal nos campos ingleses é que você acha que faz parte de algo maior do que a música, quase uma experiência transcendental que se esforça para atingir algo que nem em sua matriz histórica deu muito certo: a certeza de que você está lutando contra a opressão e a homogeneização cultural, de que você é a favor das causas justas por mais quixotescas que se mostrem, ao mesmo tempo em que constrói uma imagem de pessoa descolada e esclarecida junto aos seus pares e ao seu espelho.
Claro que vão para essas arenas, que rescendem a malte, maconha, suor e amônia, muita gente com a intenção legítima de se divertir, ter um momento bom pra variar - ei, se você não acreditasse nisso, a alternativa seria muito mais hipócrita do que eu estou delineando aqui. Mas as coisas já não são tão simples (já foram?). Você leva sua barraca de mil libras e vai fazer a diferença, ao deixar a parafernália para trás (como uma árvore de Natal, ano que vem você compra outra) e confiar que a organização vai mandar lona, paus e fios para alguma família necessitada na Somália, Etiópia ou um outro buraco esquecido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó e pelo clube dos 7 (ou 8, ou sei lá em que número está). A versão primeiro mundo do levar um quilo de alimento não perecível (feijão e lugar pra dormir essa gente já tem. Posso dormir agora?).
Se enquanto o mundo enquanto o conhecemos está sendo transformado em um lugar melhor, bandas medíocres e - principalmente - produtores anônimos estão alguns milhões mais ricos e, zás, o ciclo se fecha e tudo faz sentido, podem bancar os magnânimos e doar alguns trocados ou falar que tomam banho de dois minutos e tiram a tomada sempre que acabam de usar um eletrodoméstico em seus lares ou adotar uma criança vietnamita e batizá-la com algum nome de remédio, enfim, isso é apenas efeito colateral (sem contar os produtores de barracas e badulaques de acampamento que também agradecem). Ei, não é legal eleger o Bono como um cara batuta, comprar o i-pod do U2, e proferir, cheio de certeza condescendente, aos seus amigos, no bar: "se deixassem o cara virar presidente do banco mundial as coisas iam melhorar"? Esqueça o fato que essa banda não faz um disco bom há mais de uma década (e de que pensávamos a mesma coisa a respeito de outra figura pública hoodesca).
Numa era em que criminosos vestem um terno e são eleitos para nos governar - e tudo parece natural, como é natural a corrupção que disso advém - nossos heróis são músicos, atletas, modelos e atores, não importa o quão medíocres sejam (ou sua arte, o que é mais trágico), pois eles são o que queremos que sejam e ninguém pode dizer nada em contrário. Nem mesmo eles (o que leva a outra questão - essas pessoas que são adoradas como profetas da verdade pós-moderna e que podem fazer o que quiserem que continuarão a ser idealizados sem restrições, não podem sentir outra coisa que desprezo aos demais infelizes aduladores. Logo a arrogância de muitas dessas superpersonalidades sem caráter, que continuam a ter apoio religioso e podem se comportar como verdadeiros aliens. Ou o que você me diz sobre Michael Jackson? Ou, usando um exemplo aqui da Inglaterra, o cara que está pouco se fodendo pro mundo, Pete Doherty, que, sinceramente, me cansou. Mas isso é uma outra história).
A salvação, a solução DO Problema é vendida nas mensagens eco-amigáveis e conscientes da miséria do Terceiro Mundo. Uma nobreza que é uma cópia apagada de si mesma. Se você "cansou" ou se você, o que é mais econômico e prático, quer fazer a "diferença por um dia", bem, é alguma coisa (aqui existe esse equivalente, o comic relief, que é suportado apenas uma vez por ano, como uma vacina amarga - é importante pra saúde mas é um saco).
Melhor do que nada, certo? Quem aí está pensando "se cada um fizesse sua parte o mundo seria melhor, blá, blá, blá"? Mas enquanto você enfia o dedo na rachadura da represa das tragédias, motivado por algum mantra benevolente da nova era, alguém que percebeu que frases inspiradoras desse tipo são a nova consciência coletiva - esqueça análise, se você jogar na mega-sena e tiver a fantasia de ganhar milhões, mas se não der, ok, pelo menos parte do dinheiro vai para alguma instituição de caridade, mas ei, você não doa para a instituição, você quer os milhões - e que ela, como todo o resto da existência, virou vendável, esse alguém vai se dar muito bem na fita, e não os pandas e gorilas em extinção, não o carinha que perdeu tudo na última enchente. Quem se contenta com sobrevivência? O ditado fala de um lugar ao sol, não na sombra...
A verdade, se há alguma nessa trapalhada toda, é que ninguém mais sabe o que é importante. Ou pelo menos não tem mais aquela certeza, que você descobre bem dentro de você, de que aquilo importa, aquilo vale a pena se lutar por. A certeza de quando você simplesmente Sabe. E quem é que sabe esses dias? Sabedoria é produto perigoso, é passível de ilusão.
E quem pensa que a seriedade é produto em falta no mercado, está enganado. Ela impera e ela castra. Mas é uma seriedade errada, que deixa as pessoas com medo de pensar diferente. Quem acredita que o politicamente incorreto morreu? Quando tudo o que você diz tem que ser pensado, analisado, escrutinado, dissecado, ponderado, criticado, relativizado, sob o risco de você ser taxado de alguma-coisa-ista? Os sentimentos andam mais sensíveis do que nunca. Todos podem ser feridos e ofendidos, todos são potencialmente minorias perseguidas, e você tem a impressão de que pisa num asfalto de ovos e pode tropeçar em algum nervo inflamado e exposto.
Mas então as pessoas ficam bravas porque as barracas não estão sendo mandadas a tempo para onde quer que elas tivessem que ir e estão apodrecendo nos escombros e nas ruínas da folia rockeira. Mas por quê ficam bravas? Por quê o mundo perdeu A chance de se redimir e ser salvo, por quê elas deixaram sua barraca à toa? Ou por quê agora elas vão ter que pensar em outra boa ação para contrabalançar o karma negativo?
A caridade hoje é mais uma desculpa "não vai dizer que eu não fiz a minha parte, o meu está fora da reta", que funciona melhor que Valium na hora de deitar a cabeça no travesseiro.
Quando uma multidão de jovens - que estão se matando a facadas todos os dias e em taxas alarmantes - vão protestar na frente da número 10, Downing Street, não por melhor escolas, ou por menos censura, ou por mais inserção no mercado, mas por não saber o que fazer - O Lord, please guide us and deliver us from evil -, bem, aí, pessoas, está na hora de olhar por cima do ombro e ver onde é que tudo foi pra merda.
Ou estou sendo muito pessimista?
PS - Não sou contra os festivais.
O verão desse ano não foi muito veranil, mas, enfim, foi a época dos grandes festivais, inspirados evidentemente nos míticos dias de lama numa fazenda americana 40 anos atrás, e que, sai ano entra ano, vão acontecer com a mesma certeza que o Emmy, o Oscar ou o SPFW.
Glastonbury, Reeding, Wight, Man, por aí vai. São vários e eu esqueço os nomes. Todos com a promessa de serem A reunião definitiva, num blend "democrático" e "eclético" entre os dinossauros sagrados do rock, as bandas cool do momento e a possibilidade de testemunhar o nascimento de algum outro conjunto que será grande muito em breve (afinal, tal possibilidade é real - você pode contar anos depois que viu aquele primeiro show daquela banda antes que qualquer outro conhecesse sem se dar conta que são milhares como você que fazem essa banda ser conhecida pra começo de conversa e então torcer o nariz porque "eles viraram muito comerciais" e então sair caçando novas borboletas underground e alternativas de novidade obscuras - já que de alguma maneira, o que garante a inclusão dessas bandas num line-up desse tipo de evento não é tanto o som, mas o que eu denominaria de "perfil vencedor", o que leva, creio eu, a uma celebração de mesmices que dão certo e que apenas reificam essa certeza: uma boa dose de esquisitice, polêmica, comportamento destrutivo e errático e misterioso e um som que recicla o estilo da geração ante-anterior - sempre pulando uma, numa espécie de elipse do eterno retorno alternada, uma repetição cabalística do showbiz - que deverá ser revolucionário, mas que no fundo é míope e autoritário e não admite sequer a existência de inteligência musical antes do quarteto de Liverpool). A infinita busca pelo novo som genial.
Que nos três dias (este parece ser o número mágico - você nem morre de vez nem acha que foi muito efêmera a experiência) esteja chovendo torrencialmente e que a possibilidade de se afogar em algum rio que transborda, pegar alguma micose pela umidade ou ao menos um resfriado básico, seja real, não importa. Ou melhor, apenas faz a provação ser mais significativa: a idéia de que, não importa quem você ouviu, mas que você fez parte daquele capítulo dourado fadado a entrar nos anais da história musical (lembrado apenas em termos de quem foi ouvido), e reconhece como irmão alguma outra alma aventureira que também lá esteve e lembra a hora que aquele amplificador caiu no meio do show daqueles caras e daquele maluco que subiu no poste de alta tensão e tal como você voltou para casa sentindo como se tivesse participado de uma batalha e... bem, você entendeu. Como uma ordem secreta em que apenas os iniciados COMPREENDEM.
Mas até aí nada muito diferente de você usar uma camiseta "Rock in Rio - eu fui". O que tem de diferente neste tipo de comunidade neo-hippie sazonal nos campos ingleses é que você acha que faz parte de algo maior do que a música, quase uma experiência transcendental que se esforça para atingir algo que nem em sua matriz histórica deu muito certo: a certeza de que você está lutando contra a opressão e a homogeneização cultural, de que você é a favor das causas justas por mais quixotescas que se mostrem, ao mesmo tempo em que constrói uma imagem de pessoa descolada e esclarecida junto aos seus pares e ao seu espelho.
Claro que vão para essas arenas, que rescendem a malte, maconha, suor e amônia, muita gente com a intenção legítima de se divertir, ter um momento bom pra variar - ei, se você não acreditasse nisso, a alternativa seria muito mais hipócrita do que eu estou delineando aqui. Mas as coisas já não são tão simples (já foram?). Você leva sua barraca de mil libras e vai fazer a diferença, ao deixar a parafernália para trás (como uma árvore de Natal, ano que vem você compra outra) e confiar que a organização vai mandar lona, paus e fios para alguma família necessitada na Somália, Etiópia ou um outro buraco esquecido pelo Deus de Abraão, Isaac e Jacó e pelo clube dos 7 (ou 8, ou sei lá em que número está). A versão primeiro mundo do levar um quilo de alimento não perecível (feijão e lugar pra dormir essa gente já tem. Posso dormir agora?).
Se enquanto o mundo enquanto o conhecemos está sendo transformado em um lugar melhor, bandas medíocres e - principalmente - produtores anônimos estão alguns milhões mais ricos e, zás, o ciclo se fecha e tudo faz sentido, podem bancar os magnânimos e doar alguns trocados ou falar que tomam banho de dois minutos e tiram a tomada sempre que acabam de usar um eletrodoméstico em seus lares ou adotar uma criança vietnamita e batizá-la com algum nome de remédio, enfim, isso é apenas efeito colateral (sem contar os produtores de barracas e badulaques de acampamento que também agradecem). Ei, não é legal eleger o Bono como um cara batuta, comprar o i-pod do U2, e proferir, cheio de certeza condescendente, aos seus amigos, no bar: "se deixassem o cara virar presidente do banco mundial as coisas iam melhorar"? Esqueça o fato que essa banda não faz um disco bom há mais de uma década (e de que pensávamos a mesma coisa a respeito de outra figura pública hoodesca).
Numa era em que criminosos vestem um terno e são eleitos para nos governar - e tudo parece natural, como é natural a corrupção que disso advém - nossos heróis são músicos, atletas, modelos e atores, não importa o quão medíocres sejam (ou sua arte, o que é mais trágico), pois eles são o que queremos que sejam e ninguém pode dizer nada em contrário. Nem mesmo eles (o que leva a outra questão - essas pessoas que são adoradas como profetas da verdade pós-moderna e que podem fazer o que quiserem que continuarão a ser idealizados sem restrições, não podem sentir outra coisa que desprezo aos demais infelizes aduladores. Logo a arrogância de muitas dessas superpersonalidades sem caráter, que continuam a ter apoio religioso e podem se comportar como verdadeiros aliens. Ou o que você me diz sobre Michael Jackson? Ou, usando um exemplo aqui da Inglaterra, o cara que está pouco se fodendo pro mundo, Pete Doherty, que, sinceramente, me cansou. Mas isso é uma outra história).
A salvação, a solução DO Problema é vendida nas mensagens eco-amigáveis e conscientes da miséria do Terceiro Mundo. Uma nobreza que é uma cópia apagada de si mesma. Se você "cansou" ou se você, o que é mais econômico e prático, quer fazer a "diferença por um dia", bem, é alguma coisa (aqui existe esse equivalente, o comic relief, que é suportado apenas uma vez por ano, como uma vacina amarga - é importante pra saúde mas é um saco).
Melhor do que nada, certo? Quem aí está pensando "se cada um fizesse sua parte o mundo seria melhor, blá, blá, blá"? Mas enquanto você enfia o dedo na rachadura da represa das tragédias, motivado por algum mantra benevolente da nova era, alguém que percebeu que frases inspiradoras desse tipo são a nova consciência coletiva - esqueça análise, se você jogar na mega-sena e tiver a fantasia de ganhar milhões, mas se não der, ok, pelo menos parte do dinheiro vai para alguma instituição de caridade, mas ei, você não doa para a instituição, você quer os milhões - e que ela, como todo o resto da existência, virou vendável, esse alguém vai se dar muito bem na fita, e não os pandas e gorilas em extinção, não o carinha que perdeu tudo na última enchente. Quem se contenta com sobrevivência? O ditado fala de um lugar ao sol, não na sombra...
A verdade, se há alguma nessa trapalhada toda, é que ninguém mais sabe o que é importante. Ou pelo menos não tem mais aquela certeza, que você descobre bem dentro de você, de que aquilo importa, aquilo vale a pena se lutar por. A certeza de quando você simplesmente Sabe. E quem é que sabe esses dias? Sabedoria é produto perigoso, é passível de ilusão.
E quem pensa que a seriedade é produto em falta no mercado, está enganado. Ela impera e ela castra. Mas é uma seriedade errada, que deixa as pessoas com medo de pensar diferente. Quem acredita que o politicamente incorreto morreu? Quando tudo o que você diz tem que ser pensado, analisado, escrutinado, dissecado, ponderado, criticado, relativizado, sob o risco de você ser taxado de alguma-coisa-ista? Os sentimentos andam mais sensíveis do que nunca. Todos podem ser feridos e ofendidos, todos são potencialmente minorias perseguidas, e você tem a impressão de que pisa num asfalto de ovos e pode tropeçar em algum nervo inflamado e exposto.
Mas então as pessoas ficam bravas porque as barracas não estão sendo mandadas a tempo para onde quer que elas tivessem que ir e estão apodrecendo nos escombros e nas ruínas da folia rockeira. Mas por quê ficam bravas? Por quê o mundo perdeu A chance de se redimir e ser salvo, por quê elas deixaram sua barraca à toa? Ou por quê agora elas vão ter que pensar em outra boa ação para contrabalançar o karma negativo?
A caridade hoje é mais uma desculpa "não vai dizer que eu não fiz a minha parte, o meu está fora da reta", que funciona melhor que Valium na hora de deitar a cabeça no travesseiro.
Quando uma multidão de jovens - que estão se matando a facadas todos os dias e em taxas alarmantes - vão protestar na frente da número 10, Downing Street, não por melhor escolas, ou por menos censura, ou por mais inserção no mercado, mas por não saber o que fazer - O Lord, please guide us and deliver us from evil -, bem, aí, pessoas, está na hora de olhar por cima do ombro e ver onde é que tudo foi pra merda.
Ou estou sendo muito pessimista?
PS - Não sou contra os festivais.
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