terça-feira, julho 05, 2016

A educação pública, ou a alegria da primeira pesquisa

O dia que sai a lista de bolsas aprovadas de Iniciação Científica da universidade é um dos mais felizes. Já há alguns anos que eu abro o documento nesse dia e vou vendo todo mundo que é do meu instituto. Algumas pessoas foram meus alunos, alguns não, mas é uma felicidade enorme mesmo.

Já deve ter acontecido com todo mundo uma coisa realmente incrível e que lava a alma: de descobrir, com surpresa, que algo muito bacana existe. O inesperado mesmo! A gente vive em uma lógica tão inescapável do serviço, que é fácil esquecer que existem políticas sociais desse tipo. Porque é algo acadêmico, mas é política social. E não tem nada a ver com caridade, mesmo sendo público e gratuito. É o que impulsiona a ciência e a cidadania em um país. É preciso esquecer de vez em quando as metáforas produtivistas, mas vai lá: nunca um investimento tão pequeno produziu tanto.

Porque são bolsas muito humildes, insuficientes na verdade. Mas as pessoas ficam felizes demais - e têm um impacto enorme sobre suas vidas! Não canso de me emocionar vendo isso no que meus orientandos falam e demonstram.

Isso é importantíssimo para a grande maioria dos estudantes que são contemplados com essa bolsa. Financeiramente, claro, para a maioria. Mas há algo ainda mais fundamental, ainda mais fascinante, ao mesmo tempo que intangível: a oportunidade de fazer a primeira pesquisa. A primeira pesquisa, provavelmente, é uma das primeiras coisas autorais que fazemos academicamente. E isso não pode ser subestimado.

Eu adoro fazer pesquisa. Mas a primeira tem um lugarzinho especial. Lembro daquela sensação de descoberta, de começar a entender alguma coisa, de produzir uma interpretação sobre aquilo que, por mais que você tenha ajuda de colegas, orientadores ou orientadoras, é seu e que mais ninguém fez daquela maneira. É isso arte? Talvez sim. Gosto de acreditar que sim, pelo menos em parte, essa que eu estou dizendo que é tão bonita. É difícil precisar o que isso faz por uma pessoa, mas sei que é grande.

Não deixo de me surpreender com essas coisas. Ainda mais porque estamos acostumados com a lógica do "pago", do "serviço". Nunca fiz IC. Comecei no mestrado mesmo. Mas lembro até hoje quando a secretária da pós ligou em casa e me disse que eu teria uma bolsa de estudos. Achei aquilo tão surreal que por pouco eu fico sem, porque eu não sabia que era tudo bem aceitar.

Minha família tem origens muito humildes. Certamente por isso fizeram questão de me proporcionar estudo. Infelizmente, na minha época, um bom estudo era sinônimo de escola particular - algo que meus pais não tiveram, mas achavam que valia a pena proporcionar aos filhos. Minha formação começou aí, mas ao mesmo tempo eu nunca deixei de me espantar de fato com o que há de público e gratuito - e o bem que isso faz. Essas oportunidades, para muita gente, começam na universidade pública. E, para muitas dessas pessoas, são coisas como uma bolsa de IC para pesquisa que viabilizam - em todos os sentidos - a educação e a formação para suas vidas. Para mim, que estou há mais de 20 anos em uma universidade dessas, é certamente minha vida. E, nessas horas, essa surpresa, do algo bonito que existe e merece ser defendido, faz um bem tremendo.

terça-feira, junho 14, 2016

Navegando

Hoje me peguei pensando no longo caminho que eu fazia, impulsionado por um namorico daqueles quase não mais adolescentes, entre Campo Grande e Niterói. Quase namorava uma moça que fazia economia na UFF.

Ia ao Rio, ficar na casa dos meus primos em Campo Grande, para de lá ficar algumas horas, as vezes alguns dias, com ela, em terras fluminenses. O longo, longo... longo e estranho percurso pela Brasil, naqueles ônibus lotados, suados, quase tombando em curvas rebeldes e teatrais. A perambulação pela Praça XV, o desviar das bisnagas de urina, da memória em fuga. E então os longos minutos embalado pelo balançar lento da barca, que avançava com preguiça, como uma grande lesma marinha, ruminando a água verde da baía e expelindo espuma branca como rastro. E, depois, toda a volta, com a testa encostada no vidro tremelizente do coletivo vazio, carregando as almas esgotadas, olhando para o escuro de fora com os olhos desfocados e baixos.

Como achava aquilo tudo esquisitamente mágico... as ruas feias, as pessoas de colarinho aberto andando apressadas... o mar lindo - ao Rio nunca faltou o sucesso do casamento com a natureza.

Vi o museu espaçonave de Niemeyer ser construído. Fui lá quando abriu, olhar aquela linda paisagem, mas duvidoso se ela não teria sido de alguma maneira estragada (quem lembra do mirante sem todo aquele concreto modernista? Há ali um tipo de mais valia bizarra, em que aquilo que sempre esteve ali começou a ser apreciado por detrás de um vidro pretensioso).

Daqueles tempos só guardei as lembranças das travessias. Da água salgada, dos malucos, das arquiteturas bonitas do Centro, daquelas ilhas de namorados, espalhadas pela Guanabara. Da moça, uma amargura rala, que nem se presta a ser trauma daqueles que você confidencia com uma garrafa de vinho, um vazio que só as medidas melodramáticas pode construir: queima tudo! Vidas outras, passageiras. O Rio, este fica. Sans dramas pessoais, mas com todos os dramas pessoais do mundo, reunidos mas nunca a se encontrar. As vezes alguns esbarrões, vislumbres das dores e amores alheios. Capturados de forma tão fugidia que não se espreme nem uma história contada - talvez uma imaginada, inventada. Mas que condensam um algo a mais, que se reproduz ao longo das gerações, mudando apenas de vestidos, de ternos e vestimentas.

Uma boniteza que não precisa ser bonita de fato. Pois está lá ainda.


PS - Este é o post de número 500! Puxa vida...

domingo, junho 12, 2016

Passeando fora do tempo

Nas rebarbas do congresso em Coimbra, para onde fui na semana passada, passei dois dias em Lisboa, relembrando como gosto daquela cidade.

Na primeira vez que fui, lá pelos idos de 1997, não tinha gostado, na verdade. Era véspera da Expo 98 - aquela coisa esquisita que fizeram com Lisboa - e tudo me parecia um grande canteiro de obras. De bom, mesmo, eu só lembro que se podia fumar em qualquer lugar. Nem queria acender um cigarro no cinema, mas já que podia...

Sobre a Expo, aliás, fico pensando, dá pra se falar muito. É o tipo de remodelagem radical que se faz em uma urbe, que aparentemente deveria revitalizá-la, mas que no fundo é uma forma de algumas pessoas ganharem muito dinheiro e exacerbar as desigualdades urbanas de uma maneira brutal. Sempre é o mesmo discurso, normalmente em Olimpíadas ou grandes eventos: aproveita-se o grande fluxo de capital e de vontade política e investe-se em infra-estrutura. Bem, já vimos que na prática a coisa é bem menos bonita. Descontando-se os superfaturamentos (sempre rondando os grandes empreendimentos), o fato é que é uma oportunidade de ouro pra especulação imobiliária, para a gentrificação progressiva que separa os cada vez mais endinheirados (e ciosos de suas vizinhanças e fronteiras) e aqueles empurrados para as periferias reais e simbólicas da vida. Há algo de muito violento no tipo de rápida transformação citadina que me deixa horrorizado.

Demoraria 15 anos para voltar a Lisboa, para um congresso, justamente. E a mudança foi impressionante. Havia toda uma parte da cidade que antes não existia! Para um lugar tão antigo, onde as construções são as mesmas por décadas ou séculos, isso é ainda mais estranho.

E agora novamente, 5 anos depois dessa penúltima visita, voltei a perambular por Lisboa. Mas evitei toda aquela região do Parque das Nações, insípida, planejada, cheia de shoppings e pavilhões que lembram - certamente não manifestadamente, mas provavelmente não à toa - a megalomania colonial salazariana. Algo com que os portugueses certamente não querem mais fazer associações, mas que está sempre presente, nos pequenos e nos grandes detalhes, incrustado na arquitetura e na paisagem.

Lisboa é uma cidade muitíssimo agradável para andar, a esmo. Para passear, no sentido promenade mesmo. Quando a tarde cai e as luzes (que nunca parecem iluminar de fato) começam a acender eu tenho a impressão de estar em outra época. Os fantasmas que perambulavam por ali ficam mais densos, menos esvoaçantes sob o amarelado dos postes e das grandes lanternas dependuradas e espalhadas pelas ruas.

Eu fico com a impressão de estar em algum quadro pós-impressionista. Daqueles que comentam os costumes da modernidade que chega de repente e que vem substituir o que quer que seja que guardava aqueles espaços que se pode identificar como antigos, velhos mesmo - ainda que teimosos por ir por completo (de onde a tragédia das regiões ultra planejadas). Quadros que anunciam o fim do século XIX, a transição do campo para a cidade, o começo dos estilos modernos. Da vida em movimento quase maníaco de tão constante. Um quadro de Toulouse-Lautrec em alguns momentos, ao pé do castelo de São Jorge, sempre mais cheio de sombras e de recantos mais escuros, de espaços sem muita gente. Ou então um de Degas, junto às pessoas na Alfama e seus vermelhos todos, ou a agitação e boemia da Mouraria. A parte baixa e o Chiado são pintados por outras mãos. Mas talvez por sua movimentação ininterrupta não sejam tão apetitosas ao flâneur que busca essa mediunidade ambulante. Para isso é preciso, precisamente, pausar. Mesmo que rapidamente.



E dessa vez conheci o outro lado do Tejo, o sul, em Cacilhas. Com suas docas decrépitas, os pescadores noturnos, as paredes com os azulejos roídos e progressivamente roubados, não exatamente apagando seu passado, mas paradoxalmente conferindo um ar ainda mais forte, pela ausência cada vez mais presente daquilo que teria existido e que se esvai ano após ano. E de lá, em uma tasca a beira rio, tomando um vinho, comendo um arroz de Tamboril, depois bebericando uma bagaceira que desce rasgando sem queimar, ver o anoitecer me deu a chance de pensar tudo isso, de longe mas não tanto, sobre essa bonita, singular mas familiar e acolhedora cidade.



sexta-feira, maio 27, 2016

Um causo de infância

O ano era 1986, ou quem sabe 1987, não muito mais do que isso.

Fiquei décadas sem pensar sobre o assunto, mas ao mesmo tempo agora me lembro muito bem do acontecido. Também pudera, na época nada de muito inusual acontecia naquele pacato bairro universitário, então ainda mais cheio de terrenos baldios do que de casas, onde as pessoas não se davam o trabalho de fechar os portões e as crianças brincavam de rolimã na rua. Um assassinato misterioso inevitavelmente causaria uma forte impressão nos moradores dali.

Eu morava apenas a uma quadra de distância daquela casa - a segunda da esquina, com uma garagem que subia numa grande rampa saindo do nível da rua, e pintada de cores alegres e fortes (lembrança de uma educação liberal às crianças, estimuladas a decorar sua própria casa). Conhecia a vítima apenas de vista, mas era grande amigo de seu sobrinho - um filho de uma brasileira com um inglês, e que tinha nascido em Hong Kong, então colônia britânica - que morava ali perto também. Conta a história que ela morava só com o casal de filhos, depois que o marido, após uma viagem de negócios aos EUA resolveu que lá ficaria, com a namorada americana que conheceu e jurou amar até que dela também se separou não muito tempo depois.

Seja como for, a tragédia parecia iminente àquela família: o menino morreria em um acidente em uma cachoeira alguns meses depois; e da menina só se soube que resolvera se relacionar com um traficante e sumiu do mapa. O fato é que num certo dia encontraram-na - a mãe - morta em casa. Foi um grande choque para todo mundo, e por semanas conversas regadas a medo e teorias as mais delirantes correram de boca em boca, conferindo àquele momento um ar de novela de crimes policiais.

Nenhum sinal de luta. Não se soube com certeza se algo havia sido roubado. Com a exceção de uma calça, quer dizer. Souberam disso porque encontraram apenas as barras, cortadas e deixadas no quarto: o assassino fizera bermudas da calça da moça. Ele deixara suas próprias roupas (um terno marrom bem feito, que indicava se tratar de uma pessoa muito alta), escondidas atrás da máquina de lavar roupas, na área de serviço, ensanguentadas.

Um homem barbudo, de aparência distinta, mas então considerado desconhecido pelos vizinhos havia sido visto na frente da casa, naquele mesma noite (um estranho naquela época era facilmente notado pelos moradores, hábeis em controlar a vida alheia e imprimir um clima de cidade interiorana à região).

Investigações sobre sua identidade mostraram-se fracassadas. Mesmo quando um famoso médico legista (que anos depois teria sua carreira aniquilada por ter sido forçado a alterar um laudo de um caso célebre) pegara o caso e se comprometera a não deixar a investigação esmorecer, depois de meses não se chegou à nenhuma conclusão e a coisa esfriou. Ninguém havia sido sequer interrogado.

Mas corria à boca pequena, essa ferramenta odiosa da maledicência corriqueira, que um senhor, de nome de padre mas também de filósofo romano - Cícero - devia ser o malfeitor. Especulou-se que ele deveria ser o homem misterioso do terno marrom; apesar de à época do crime já ser conhecido naquelas bandas e andar sempre com roupas muito humildes. Afinal, dizia a enviesada lógica dos que precisam encaixar os fatos nas teorias, deveria ser por isso que não o reconheceram então: estava asseadamente e insolitamente trajado.

Não lembro se a fama já existia antes, mas contava-se que ele viera fugido do norte, onde acabou por ter ficado por demais notório por conta de sua ocupação original: matador de aluguel. Foram várias as mortes encomendadas, dizia-se. Perfil ideal para o crime que, se insolúvel na justiça deveria ser determinado, ilustrado e multiplicado pela sabedoria popular.

Esse bode expiatório da necessidade de atribuir culpa a monstros sinistros criados tinha a grande infelicidade de ter um olhar intenso, braços fortes e calejados pelo sol, proferir poucas palavras e adotar uma atitude sorumbática e silenciosa. Eu o conhecia bem: de vez em quando cuidava do jardim de casa, podando os galhos da primavera que crescia demais, ou cortando a grama quando esta ficava cheia de ervas daninhas.

Quando o boato começou a tomar a forma de uma potencial acusação, seo Cícero inteligentemente sumiu.

Lembrei dessa história porque soube que seo Cícero voltou para a região, depois de quase trinta anos. Deve ter mais de 80 anos agora, mas continua cortando galhos de árvore com incansável tenacidade. Do crime não soube se houve mais algum desdobramento. Provavelmente prescreveu e hoje continua apenas como lenda. Daquelas que para quem não a viveu tornou-se uma história para contar no escuro, para coleguinhas impressionáveis e amigos assustadiços.

quinta-feira, abril 28, 2016

Das amizades e alegrias

Tenho tentado não deixar que tudo de ruim que acontece atualmente me atinja muito.

Não sei se tenho uma estratégia pra isso, exatamente. Por um lado eu tento não ficar vendo notícias toda a hora, mas por outro me sinto mal se não fico a par - e, confesso, há um lado meio masoquista, meio estranho, que me faz voltar, fascinado com o horror, para os portais de notícias. Tenho também tentado não exercitar um lado revanchista, aquele de apontar o dedo e atribuir culpa para lá e para cá, ratatatá. Mas começo a tentar achar onde está o limite da compreensão e do diálogo - acho que é uma dúvida legítima, quando alguém defende um torturador e tem ressonância com gente que aproveita e destila todo o rancor.

Para quem é professor, é uma angústia e tanto - mas que me faz ter ainda mais convicção da importância da sala de aula.

Mas hoje foi um dia em que não consegui não me sentir desanimado, triste, com medo do que ainda vem por aí.

Mas então as minhas amizades, sempre elas, me tiraram do buraco!

O amigo querido - que também é meu aluno - que não tem bolsa, mas fez questão de me pagar um café nessa manhã fria. Outra aluna, que ficou feliz porque consegui pra ela um estágio voluntário, olha só puxa vida o que pode ser alegria também. A antiga professora, agora minha colega e amiga, que me escreveu, feliz, falando que se deu uns dias no Rio pra fazer o que a gente gosta: pesquisar. O amigo que escreveu convidando para o aniversário dele amanhã (ufa, quero aproveitar muito esses momentos de alegria da conversa e da risada). O almoço com outra minha amiga colega de departamento, que anda tão corrida quanto, mas que também faz questão de ter uns minutinhos pra sentar com alguém e bater um papo (ainda que tenha sido inevitável falar de trabalho... argh). Até a fapesp, que hoje deu um tapa com luva de pelica no governador para nos lavar a alma, coitados de nós cientistas sociais "inúteis", e que mandou avisar que concedeu duas bolsas para os alunos do meu projeto (nada prático, ó céus). A Dani, que falou que estava cansadíssima, que não sabia como ia ter forças pra preparar a aula de sociologia amanhã, mas que estava feliz porque a aula de hoje foi boa e as pessoas gostaram. E, agora, outra amiga, também professora, a sempre inspiradora (how do you do it?) Kau, que me mandou os roteiros das aulas que está dando de antropologia - e me fez ter um sorriso enorme no rosto por alguns minutos, lendo as lindas ideias sobre etnografia, sobre cadernos de campo, sobre ver e conhecer (ah, essa antropologia...), ficar viajando nos desenhos e ler as divertidíssimas auto-avaliações.

Tudo isso me fez esquecer um pouco dos problemas todos e ver que, com as amizades, não se está só.

Ainda que me sinta cada vez mais estranhando todo o resto.

quinta-feira, março 10, 2016

Vozes e cores nos corredores esterelizados

Eu passei os últimos dois dias no principal hospital de Atendimento de Urgência e Emergência do SUS em Campinas, o famoso "Dr. Mário Gatti". Quem morou tempo suficiente em Campinas já ouviu alguma coisa sobre este hospital - e arrisco a dizer que provavelmente não foi algo bacana. E, de fato, o clima lá é bem pesado (em que hospital não seria?). Todos os acidentes, todos os abusos, das pessoas mais humildes da urbe e também de seus arredores, dos que não têm o luxo dos planos de saúde imorais. Mas dois dias lá me fizeram colorir um pouco meus próprios preconceitos.

Não, não fui eu que fiquei internado, apesar de ter passado horas e horas esperando naqueles corredores. Minha mãe foi atropelada por uma moto e foi levada para o Mário Gatti, por ter sido resgatada pelo SAMU, que leva todos os casos para lá. E foi um susto. Enorme. Minha mãe se machucou bastante. Quebrou algumas costelas e uma clavícula. Mas está bem, já preocupada no serviço que vai ficar atrasado. E, por conta disso, acabei ficando, junto com meu irmão e minha cunhada, bastante tempo no hospital.

E as histórias que vi e que ouvi...

Lá testemunhei, em meio ao caos e ao stress do ponto de chegada das ambulâncias do SUS em Campinas, gentilezas perseverantes, muitos sorrisos. Dei risada com os cirurgiões da alegria, que rondavam os corredores brincando com os pacientes cabisbaixos e os parentes preocupados. Mas também vi muita dureza e sofrimento. Lá ouvi muitas tosses, gemidos, angústias, gritos ocasionais, bem como sangue e outros fluidos e detritos suspeitos. Vi chegarem, algemados, vários presidiários com máscaras de proteção, para fazer raios-x (todos sinais de tuberculose?). Vi chegar uma ambulância fechada com cadeado e escoltada por policiais armados para deixar alguém ferido que certamente também era um suspeito de algo. Vi, sobretudo, os dramas das pessoas. Quer dizer, vi pedaços de dramas, alguns mais doídos do que outros.

Vi o seu Geraldo, que é conhecido por todos no PS, e que tanto no primeiro como no segundo dia em que estive lá quis se internar para tomar café e comer um pão. Conheci dona Teresinha, que estava com seu marido, que havia ficado cego recentemente. Vi uma mãe e uma filha, aflitas com a suspeita de que o pai e marido que estava internado, pudesse ter Alzheimer.

E meu coração apertou quando conheci seu Jesus, um senhor de 93 anos, sem família, morador de um abrigo da cidade, e que estava com sua sonda abdominal (que já tinha feito aniversário de 1 mês, segundo sua acompanhante, uma assistente do abrigo) solta, tendo se molhado com urina e sangue: esperou paciente que o pessoal trocasse a sonda e fizessem alguns exames. Vi a hora em que a cuidadora lhe disse que iria sair, por uns 15 minutos, para pegar roupas secas que o motorista do abrigo havia trazido na recepção. Sofri, quando seu Jesus, num suspiro, com um fiapo de voz, embargada e quase inaudível, chorou e pediu que ela não o abandonasse. "Claro que não vou fazer isso, seu Jesus! Não tenho coragem de fazer isso com o senhor. O senhor é meu querido" - foi a resposta. Mas vi como seu Jesus, sentado em sua cadeira de rodas e segurando uma bolsinha preta, continuava com medo, não acreditando na moça, olhando suplicante com olhos embaçados, não só de emoção, mas também de alguma catarata, que lhe apagava junto o corpo.

Não devia ser um sentimento infundado, o do abandono. Enquanto eu continuava esperando notícias sobre minha mãe e a ambulância bonita para levá-la dali, depois de horas naquele caldeirão de tensão, finalmente chorei.

E de fato, pensei, um hospital não é bem um lugar de sofrimento, ou mesmo de morte. É, sobretudo, um lugar de espera. Um lugar em que você pensa sobre o tempo e na deterioração do passar do tempo. Quando você vê sua mãe, seu pai, que deveriam te proteger sempre e serem seus heróis, em toda sua surpreendente fragilidade.

E então, paradoxalmente, com toda essa espera, você vê fragmentos de dramas, pequenas porções de alguma torcida, de um pouco de alívio, de muito pesar. Ali não cabe a revolta. Contra o quê? São histórias que, na maior parte das vezes, você não sabe como começaram, nem como irão terminar. Mas ao mesmo tempo, esperando, sempre esperando, é possível, e inevitável, apreender um pouco mais dessas vidas renitentes, e também resilientes.

Pelo menos algumas vezes.

Numa conversa com aquela senhora que sentou do seu lado, ouvindo trechos de alguma instrução dada por uma enfermeira, por uma médica, por um assistente social. Ou mesmo observando aquele andar a esmo, lento pelo peso do tempo e da espera (sempre ela), sem destino, daqueles que vagam, quase inconscientes, pelos corredores, carregando suas sondas, trajando apenas aventais verde-claros. Sempre existe pelo menos um desses, as quase almas penadas de hospital. Esses que são quase doloridos de olhar.

E com toda essa torrente de vidas assustadas, renovada todos os dias, é incrível que aqueles enfermeiros e enfermeiras, médicas e médicos, assistentes sociais, faxineiras e faxineiros, seguranças, responsáveis pela manutenção, consigam ser corteses, te tratar com humanidade e solidariedade. Fazer o possível, entre uma urgência e outra, para te ajudar um pouco - em alguns casos te dando seus telefones pessoais, já que estavam no fim do turno e se colocavam a disposição se fosse preciso!

Na viagem pela ambulância (a primeira vez que fiz uma, consciente) conheci mais dessas pessoas especiais. O motorista, que disse que ganhava muito mais como cicerone de um famoso cantor sertanejo, me assegurou que não se arrepende de ter trocado sua carreira antiga e virado socorrista do SAMU, tantos anos atrás agora. Ganhar menos, trabalhar jornadas extenuantes, flertar com úlceras nervosas, traçar estratégias para atender um chamado numa favela ou num presídio (pois disso depende sua integridade física)... mas aprendeu o que é a vida.

E fiz questão de agradecer todas as pessoas que nos ajudaram nesses dias. É o mínimo a se fazer, para essas que são as pessoas mais próximas da prática altruísta que eu conheço. E meu respeito pelo SUS, com os problemas que existem (e, se existem, não são por causa dessas pessoas que trabalham no dia a dia do hospital), apenas aumentou. O que acontece ali é de fato tirar leite de pedra. E é de tirar o chapéu, para aprender a ser mais grato, menos cínico.

sábado, março 05, 2016

A vida felina

Ontem se foi o gatinho Moustache. Uma das mais boazinhas criaturas que já existiu. Como eu falei num post anterior, quando ele começou a ficar ruinzinho, ele apanhava de todo mundo: do irmão, da mãe, das cachorras que minha mãe tinha (essa vez que elas resolveram pegá-lo o coitado quase foi desta pra melhor)... Mas nunca revidava. Apenas olhava com uma cara de "puxa, que foi que eu fiz?"...

Ele estava sofrendo bastante nas últimas semanas, mas não reclamou. Suportou tudo de uma maneira que nos devia envergonhar. Envergonhar pelo simples fato de mostrar um caráter (sim, gatos têm isso) exemplar. De mostrar o que importa na vida, apreciá-la de verdade. Eu ia visitar na clínica onde ele ficava internado quando piorava mais e saia com o coração apertado. Ele melhorava um pouco, nos dava esperança, parecendo querer nos poupar do sofrimento de vê-lo assim, e depois voltava a ficar ruim, sem forças.

Claro, nem tudo foi sofrimento na vida do Moustache. Ele adorava subir no colo e receber carinho da minha prima. E de mim também. Podia ficar semanas vem vê-lo, mas ele nunca me fez sentir culpado por isso, como poderia, por eu ser tão relapso. Tinha uma amor incondicional, sem mesquinharias ou cobranças. E adorava subir no colo e ficar esfregando o nariz na minha barriga. Acho que levou uma boa vida, feliz.

No final o alento foi que morreu em casa, e não internado, como ficou por tanto tempo. Fiquei triste, mas aliviado por ele poder descansar de uma boa maneira.

O dia foi blue. Mas hoje também, coincidentemente, fui ver com a Dani uma ninhada de gatinhos que minha cunhada pensa em adotar. São filhinhos de uma gata que dois gatófilos muito generosos resgataram, grávida, da rua. Aí aqueles barulhinhos de filhotes, a brincadeira de subir um em cima do outro, fizeram a mim e a Dani sorrirmos um pouco. Poucas coisas são tão bonitas quanto o bem estar que um bichinho pode dar.

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Das belezas da universidade pública

Não contei muito do que aconteceu durante o hiato de 5 anos desse blog. Mas tenho planos de aos poucos fazer isso.

Uma das coisas mais bacanas que aconteceu foi que, daquele momento de estudante em Belém, durante uma RBA (Reunião Brasileira de Antropologia), já doutor, mas ainda desempregado, para cá, eu virei, justamente, professor na universidade que me formou (o hiato mais ou menos coincidiu com um período estranho, límbico, de não-lugar, quando você já se doutorou, não é mais estudante, mas também não passou em nenhum concurso... momento que as pessoas acabam preenchendo cada vez mais com bicos, pós-doutorados e muita angústia sobre o que fazer da vida). Professor, agora, contratado de fato, mas por quatro anos, naquele esquema emocionante de posdoc.

E já tenho várias histórias pra contar sobre essa aventura que é dar aula (e lá se vão quase sete anos desde que comecei a dar aula, cinco desses realmente pra valer - uma diferente da outra, completamente imprevisíveis). Mas ontem lembrei, dando risada, de um dia em específico. Creio que era 2013, ou então 2012, e eu dava uma disciplina na graduação em Ciências Sociais. Talvez Antropologia III, ou Antropologia IV, obrigatórias. Turma lotada, sempre rolam seminários bacanas por parte dos alunos (gosto de deixar como atividade opcional, não é todo mundo que gosta de dar seminário - mas quando é bacana, é muito bacana!).

Estávamos discutindo um livro da Maria Elvira, Nas Redes do Sexo, que é sobre o mercado pornográfico brasileiro (livrão, aliás). Eu sempre gostei de dar liberdade para os alunos prepararem os seminários - a criatividade é geralmente grande e sempre veem boas surpresas. Bem, no seminário anterior, que era sobre Tristes Trópicos, o grupo tinha passado um video com uma entrevista do Lévi-Strauss falando sobre o Brasil, e foi super legal (acho que foi nesse ano também que um grupo passou um video do Antonio Cândido falando sobre o caipira, bem como umas fotos de quadros do Almeida Júnior - o seminário, claro, era do lindo Parceiros do Rio Bonito). Pois bem, o grupo, talvez um pouco provocativamente, pra ver até onde ia a boa vontade do professor, resolveu passar em sala um video pornô feminista. A ideia era discutir a possibilidade de pornografia que não reproduzisse estruturas de dominação masculina. E acho que tivemos mesmo um debate fantástico sobre agência, empoderamento, poder, sexualidade e gênero.

Mas enquanto eu via aqueles corpos todos pelados e mandando ver, eu não conseguia deixar de pensar que em alguns dias a direção iria me dar uma bronca, depois de ter sido procurada por algum pai ou mãe chocados com a ementa dos cursos na universidade. Não aconteceu nada, claro. Eu subestimava a beleza que é uma universidade pública livre e contestadora. Pouco tempo passou desde então, mas o mundo mudou bastante, ficou mais histérico e paranóico. E eu fico pensando até quando ainda vai ser possível ter aulas assim.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Rapidinhas mais uma vez

Pequeno momento enxaqueca:

Me irritam os intelectuais poetas de facebook que fazem haikai de aforismos pseudo-cultos. Haja paciência...

Pequeno momento deslumbre:

Hoje peguei um Agatha Christie (O assassinato no campo de golfe) que alguém deixou pra doar, junto com outros livros, no prédio da pós. Vou ler a história no que me resta de férias e depois devolver ao mundo, para outras leituras por aí. Que legal seria uma biblioteca libertária e anônima se essa onda pegasse...

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

A burocracia do eterno retorno e a kafkanidade das soluções insolúveis

Estou suspeitando que a placa do meu carro foi clonada. Na verdade, eu só descobri que isso era possível esses dias (ingenuidade minha, já que há séculos nos especializamos em copiar as coisas, e hoje em dia pirateiam até água mineral).

Há pouco mais de uma semana eu tinha recebido uma multa, em um lugar que nunca vou dirigindo, "mas ok, de repente eu esqueci que fui lá; nem é tão longe de casa". O fato da autuação chegar só muito tempo depois da infração contribui para a dúvida. Mas então chegou uma outra multa, como se estivesse em Sorocaba - lugar em que não vou há uns 10 anos (a última vez foi pra ver um show dos Muzzarelas, num bar tão decrépito que o teto tinha caído em um ponto, dando pra gente ver o céu, que estava estrelado nesse dia... mas o show foi legal).

Então fui procurar como recorrer a multas em locais em que não estivemos e vi que são até bem comuns, as clonagens de carros - o nome certo é "dublê", como me informou uma simpática-mas-impossibilitada-de-me-ajudar moça no Detran no dia seguinte.

Angustiado, acordei cedinho, em pleno sábado, e fui no Poupa-tempo do centro. 7 da manhã. A cidade vazia, mas já bastante gente pegando fila na repartição. Situação realmente dantesca.

Moça no guichê, com sono, preocupada com a avaliação do serviço que iria receber depois do atendimento (você dá uma nota de 0 a 5 ao final - cinco é uma tecla verde sorrindo; zero, uma vermelha e triste):

____ Sinto muito, não há o que fazer aqui. O senhor tem que ir até o outro Poupa-Tempo, no shopping tal, onde tem um Detran também. Pode dar uma nota para o atendimento?

Pois é, aqui existe um shopping, já perto de pegar o caminho pra São Paulo, que tem um Poupa-Tempo, bem como um Detran. E uma polícia federal, aliás, onde expedem até passaportes. Acho isso um tanto quanto bizarro... meio como esses condomínios que estão surgindo, com padaria e supermercado dentro - micro urbes dentro das cidades. Você compra meias na loja de departamento, vê um filme que concorre ao Oscar, come um pão de queijo na praça de alimentação e aproveita e renova seu RG descascando.

Toca ir ao tal shopping, na puta-que-o-pariu-onde-Judas-perdeu-as-botas. Bom, na verdade o caminho, apesar de ser até bem longinho, foi rápido - a cidade ainda estava preguiçosa.

Shopping às escuras, mas Poupa-Tempo já bem movimentado também. Lá, o moço da parte do trânsito e veículos, já suficientemente alerta às 8 da manhã para cravar sorrindo com vitalidade e pronto agouro (não sem uma dose de crueldade, ou ao menos falta de sensibilidade):

____ Ih, é bem comum clonarem carros. Você pode até tentar pedir pra trocar de placa, mas o pessoal fica tão desesperado recebendo multa que prefere vender mesmo.

Os ombros de quem ainda está pagando o carro caem 20 metros em direção ao chão.

____ Mas o carro não tem um ano ainda... e isso não é passar o problema pra outra pessoa?

Sorriso mais simpático e agora também bastante triste, provavelmente pensando "assim é a vida, não sabia?"...

____Pois é... Não tem solução, não. Melhor ir no Detran lá em cima - apontou o dedo pro teto - e ver melhor isso aí.

Toca ir pro Detran, onde realmente daria pra recorrer de alguma coisa, dois andares acima (não sem antes tomar um expresso num quiosque de lanches lotado - pelo menos para isso serve estar num shopping - para afogar a vontade de largar o carro ali mesmo e nunca mais dirigir). Lá, a mencionada moça simpática-mas-de-mãos-atadas me disse, com um solidário desânimo, que eu podia recorrer às multas, mas que seria difícil ganhar.

____ Se é melhor pagar? A gente não pode dar instrução nesses casos, senhor. Mas se eu fosse o senhor eu pagava, por via das dúvidas. Se ganhar o recurso pode pedir restituição... (dando a entender que eu teria mais problemas se resolvesse exercer meu direito de não pagar pelo que eu não fiz) Mas aqui só dá pra recorrer da multa recebida em Campinas. A de Sorocaba tem que ir lá ou mandar por correio (mas pra multar o sistema intermunicipal integrado funciona muito bem, né?).

Uma calma sinistra, própria dos condenados, abateu-se sobre a minha pessoa. "Mas que porra de piada é essa?" - pensei, mas não falei. De que serviria? Ao invés, murmurei alguma praga contra ninguém e contra todos.

____ Mas o que eu posso fazer então?

O segundo sorriso triste e simpático do dia:

____ Tem que esperar chegar mais uma multa, pelo menos, para poder entrar com algum processo na delegacia.

A calma sinistra definitivamente virou resignação. O que foi bom, acho - sobretudo em épocas de gastrite.

Quando já convencido de que devia voltar pra cama e encerrar o dia que mal tinha começado, a moça tentou fazer o que eu apenas posso acreditar que foi uma tentativa de me animar, já que eu tive a impressão de que ela estava verdadeiramente compadecida de mim:

____ Mas o senhor até que tem sorte! Geralmente, em caso de carro dublê, chegam várias multas por semana!

terça-feira, janeiro 19, 2016

Amores eternos

Naqueles planejamentos do que ser quando crescer eu sempre soube que não conseguiria ser veterinário. Como disse no post anterior, não me dou bem com sofrimento dos bichos. Passo realmente mal e sofro junto.

Pois então, hoje fiquei sabendo que o Moustache, o filho da primeira ninhada da Judy, a gatinha que minha amiga Pati deixou comigo quando se mudou pra Alemanha, há tantos anos atrás (quando a Judy veio pra casa, veio kinder ovo, com surpresinha dentro já), está muito mal. Fui no veterinário onde ele está internado, visitar e fazer um pouco de carinho. Ele tava tão fraquinho... tão fraquinho que não dava nem pra arriscar e fazer os exames pra ter certeza do que ele tem. Eu fazia carinho e ele miava fraquinho, engasgado, começando um ronrom doído, quase imperceptível, até se cansar e ficar de novo um pouco quietinho. Logo ele, que demonstrava toda sua alegria parecendo um motorzinho potente sempre que me via. Consegui fazer ele comer uns 3 pedacinhos de carne, dando na boca dele, com ele deitadinho... e me segurando pra não chorar de soluçar ali e xingar o universo tão injusto.

O Moustache sempre foi o gato mais bonzinho, que sofria bullying de todo mundo. Patadas do irmão... até mesmo da mãe... assédio da cadelinha da casa... e sempre suportando tudo e vindo se refugiar no meu colo. Esfregando o nariz na minha barriga... Há uma pureza cruel e bonita na alegria genuína nessa simplicidade.

Há uma coisa muito poderosa no amor incondicional de um bichinho. Eles confiam inteiramente na gente e não têm nenhum pudor de demonstrar, constantente, sua gratidão e esse sentimento. No olhar, apaixonado, entregue, completamente honesto e sincero. E, nisso, aos que sabem apreciar, viram parte da família. Mais do que isso, na verdade. Essa história de que gato é egoísta é besteira. Nunca tive um gato que não tenha adorado se aninhar num colo e brincar de pegar.

Mas esse amor me dói profundamente, na alma, porque os bichos teimam em não ser eternos. E eu tenho problemas em perder meus amores. Tenho um egoísmo irrecuperável. Mas é porque acho que, apesar de nos darem muito mais do que damos a eles, mostrando o quanto são mais nobres do que nós, eu não consigo deixar de me sentir superprotetor, achando que são mais frágeis do que são. É que eles vivem mais intensamente - mas viver sete vezes mais rápido nos faz ficar desamparados, nós que somos mais lentos e demoramos tanto para amar.

Então espero o impossível da vida sem dor. Até que esta se refaça, invariavelmente, em saudades e depois em novos amores. Pois é assim que quebramos as promessas de não mais sofrer junto - "nunca mais terei um bichinho". Mas aquele amor incondicional, esse nunca é esquecido. Morro um pouco, junto, toda vez, até quando tenho de onde tirar, um pouco menor cada vez. Mas nunca arrependido.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Pensamentos avulsos

Quantas vidas cabem numa pessoa com convicção suficiente pra não se satisfazer ou não ter convicção suficiente pra teimar? Pensei nisso hoje, lembrando de lembranças de um outro eu com tantos sonhos tão diferentes. Afinal, quando é que esses sonhos deixam de definir e viram memórias? E como saber que essas memórias de fato não são coloridas por sonhos novos?

***

Hoje fui pagar o IPVA do carro, mas tinha esquecido que era possível quitar todas as taxas juntas. Paguei primeiro o IPVA e depois, quando fui ver o licenciamento, descobri que não tinha como pagar separado. Só pagando esse combo de taxa – com o IPVA incluído de novo. Toca pegar senha pra ser atendido por bancário humano. Desvio da loira grossa que fica na mesa da frente, distribuindo sua cota de miséria cotidiana – será que é castigo atender o público? Quase sou atingido por um espirro tão grande, de um grande moço novinho com cara de entediado que acompanhava a mãe no banco, que pensei que os seguranças fossem sacar suas armas, achando tratar-se de um assalto (tenho pavor de segurança de banco e mais ainda quando chega um carro forte). Dez e dez da manhã, já existe uma fila considerável. Espera, espera. A bancária humana, depois de ouvir meus lamentos, diz que não é possível pagar mais separadamente. “Agora tem que esperar dois dias e tentar de novo, quando o sistema computar o pagamento já feito”. “Dois dias?”. “Sim, dizem que é online, mas não é coisa nenhuma”. Volto pensando nas vantagens da tecnologia a serviço da burocracia. É por essas que eu continuo não achando que estou perdendo muita coisa sendo um desfavorecido computacional. Não quando tudo ainda é decidido por alguém sem muita boa vontade.

***


Fiquei uma semana na praia. Em Itamambuca, litoral norte de São Paulo. Dias tranquilos, muita chuva, muito sono, então consegui descansar – não sem brincar com o bebê-sorriso, Theo, e cozinhar bastante com a Luiza, que se mostrou uma cozinheira de mão cheia. Nas tardes preguiçosas, nos intervalos de trabalho de um textinho que estou escrevendo, li Flush, da Virginia Woolf, presente da querida Karina – e gostei muito! Não sem algum sofrimento (tenho problemas com os problemas dos animais), mas completamente fascinado pelo texto e pela perspicácia da perspectiva canina sobre o mundo. A passagem sobre a experiência constituída pelos cheiros é fantástica e deliciosa de ler! E pensar que foi um livro escrito despretensiosamente, pra descansar de outros projetos... Tinha levado um livro do Schneider, mas a biblioteca da casa que alugamos era muito interessante, então resolvi investir em outra ficção. Achei lá um romance da Agatha Christie, que eu sempre gostei de ler quando mais novo: Morte na rua Hickory. Foi interessante ler dois best-sellers de duas inglesas mais ou menos contemporâneas, num intervalo curto de tempo. A prosa de Christie é mesmo muito boa e fácil de ler. E os mistérios ainda entretêm – eu me surpreendi com a resolução do crime, pela dedução de Poirot (interessante que este é um dos casos em que ele recebe bastante ajuda da polícia – ele está mais velho e já dá sinais de que não é infalível). Mas é um romance que envelheceu. Diferente do livro de Woolf, que dá pra ler e reler - e imagino que continue assim por muito tempo.

quinta-feira, dezembro 31, 2015

Recesso possesso

Bem, era para concluir aquele post teste que tinha feito um tempo atrás. Mas a preguiça de fim de ano bateu mais alto. Preguiça, esta, que vai virar - bem picaretamente - o tema deste post de final de ano. Mas por um bom motivo escondido: depois de meses de correria, gostaria de elogiar um pouco a preguiça.

Mas só para não deixar completamente batida a ideia do post duplo temporal, algumas palavrinhas. A ideia era falar alguma coisa sobre o novo filme do Star Wars - afinal, àquela altura do post de outubro, eu já tinha ingressos comprados (de onde a noção meio esquisita de algo tão no futuro que já estivesse certo). Estava super animado para ver, depois de anos esperando (e depois da decepção dos tais prequels) um novo filme realmente empolgante da série. E o filme foi bom mesmo. Assisti no dia da estreia. Não sem seus defeitos, achei que o diretor conseguiu lidar muito bem com a enorme expectativa e a cobrança que foi feita em cima da produção, que já tem batido todos os recordes de arrecadação. Só por lidar com isso tudo já merece uma menção de louvor. Gostei dos personagens novos e, na maior parte das vezes, dos personagens clássicos. Ficam aqui meus cumprimentos ao diretor, que é ótimo para ter ideias: contarei em futuro post sobre o livro, de sua concepção, que estou lendo.

Então por que não fazer o tal post, tal como eu tinha planejado? Por conta da preguiça, principalmente. Mas também porque senti que decepcionei o universo scifi na última banca que participei - e fiquei um pouco traumatizado com o tema. Sem mais sobre isso - apenas a título de uma rápida explicação.

E a preguiça, você pergunta?

Normalmente palavrinha com conotação negativa, estou exercitando minha preguiça neste final de ano. E sabe o que é maluco? Com dificuldade. Alguma força sinistra está me impedindo de usufrui-la como se deve.

Justo ela, que me vinha tão fácil ao longo de toda a vida...

Bem, eu tinha decidido que não iria fazer nada até começo de janeiro. E realmente tenho dormido como há tempos não dormia. Mas todo dia eu acordo com uma sensação de que estou atrasado com alguma coisa, que deveria estar trabalhando em algo. Poderia estar fazendo isso e aquilo. É muito estranho e até um pouco angustiante.

Que bizarro ritmo de trabalho foi esse que adquiri que não me deixa desligar? Bom, pelo menos o corpo tem descansado - já é alguma coisa. É um pouco assustadora a quantidade de horas que estou dormindo, mas isso é sinal de que eu realmente estava precisando. Espero que em mais uns dias eu consiga desligar também mente - mesmo que depois seja difícil retomar as atividades. Tudo bem em relação a isso: sempre fui craque em desligar e depois correr atrás do prejuízo.

Fica aqui meu rápido e sem sal post de fim de ano.Mas achei que era legal fazer uma forcinha e pelo menos produzir algumas frases agora. Ano que vem recomeço com novas energias!

Meu desejo de que a preguiça venha na hora que tiver que vir, sem culpas. Antes de mais nada, que todo mundo se cuide mais e melhor no ano que começa!

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Passeios pelas alamedas verdes

Fui, nesses dias, no CEASA (Centrais de Abastecimento de Campinas). Há anos que não ia. Lembro que ia de vez em quando com a minha mãe, que adorava levar os filhos pra esses lugares diferentes. Era aventura em fábrica de biscoito, em central de abastecimento de legumes e flores, em granja no bairro rural, em fazenda pra pegar leite na latona... Outra época, outra Campinas.

Bom, fui lá porque eu e a Dani decidimos que esse Natal iríamos dar plantas e flores de presente. E foi ótimo! O dia estava muito quente, mas quando chegamos na sessão das plantas tudo ficou mais fresco: não apenas porque, afinal, estávamos no meio do verde, mas porque tinha também aquele sprayzinho de água funcionando nos corredores imensos com as barraquinhas de vendedores. Passeamos bastante e saímos com o carro cheio de flores e plantas - suculentas e cactos, orquídeas e plantas carnívoras, plantas com folhões e plantas com folhinhas... e um jasmim cheiroso, pra ir pra janela da minha salinha na unicamp assim que terminarem as férias!

Voltei com as lembranças e os cheiros de anos passados. Mas também com ideias e vislumbres de ideias, oxigenadas provavelmente pela clorofila toda.

Memórias tão antigas que pertenciam a outros átomos. Geradas por outras paixões. Mas também inspirações refrescantes.

Me veio um diálogo à mente - de um diálogo real. Chegava hoje de manhã no ifch quase vazio, as 8 da manhã.

"Professorzinho" - Dona Marli me chama sempre assim, a senhora da limpeza da empresa terceirizada alocada no instituto. Um dínamo. "Professorzinho, não acredito que veio trabalhar!"

"É o último dia, dona Marli. Depois só no começo de janeiro."

"Ah, essa bendita empresa nova [recentemente houve uma troca das empresas e os funcionários migraram, mas com ainda menos direitos] vai nos obrigar a ficar até o dia 24 aqui. Toca sair correndo pra preparar ceia correndo depois de trabalhar. Uma maldade."

"Não acredito dona Marli!"

"Sim, e segunda estou de volta. Quer que regue seus bebês [é como chama as minhas plantinhas]?"

"Não, obrigado. E queria poder te responder em qualquer outro ano." Bem, essa última parte eu não respondi de fato. Só pensei. Queria dizer para ela que a vida era uma merda, que ela não precisava se preocupar comigo, mas que isso a fazia uma linda pessoa. Queria ter uma resposta que não soasse, não importa o quanto eu desejasse o contrário, constrangida.

Pensei o porquê pensei: "por que responder em outro ano?" O passado que talvez idealizamos. O futuro que vai chegar e deixar as amarguras mais anestesiadas. Porque vai passar. Há de passar.

Conversava com uma amiga ontem. Há algo de um princípio reparador no universo. Não exatamente místico, ou cármico, mas você pode pensar assim se quiser. Não exatamente algo compensatório, mas sinta-se à vontade de se confortar com essa noção. É que há um momento que a estatística, the big picture, nos alcança nas mais ínfimas intimidades - e tudo se mistura, não se equalizando. E a justeza da existência se assenta. É tão injusto esperar que a gratidão não discrimine, achar que basta esperar pelo bem. Mas ao mesmo tempo são nessas horas que o pessimismo da crueza da análise nua não funciona - e não vai funcionar mesmo. E acreditar em coisas melhores cria outras coisas - geralmente muito bonitas. De estar fodido, mas ainda sim fazer sorrir.


quinta-feira, dezembro 17, 2015

Quick ones

Rapidinhas (a volta dos pensamentos avulsos e aleatórios)


Hoje o facebook (existia facebook na época em que escrevi o último post antes dessa nova fase?) me perguntou se eu queria fazer a retrospectiva do ano. Como parece ser algo generalizado, eu quero que 2015 acabe logo. Existem algumas boas coisas que aconteceram - e, no meio de tanta angústia, elas se sobressaem muito. Não preciso de ajuda pra lembrar, thanks very much, Mark.

***

Eu descobri o como ter estudado o que estudei não me preparou para uma parte da academia bastante dura. Percebi que preciso aprender a ser mais pé no chão para muita coisa. Mas percebi sobretudo que não quero nunca deixar de me angustiar com as coisas difíceis que irão acontecer. A possibilidade de dormir sem remorso quando isso acontece é assustadora. No thank you, life.

***

Faz parte das coisas que aconteceram nos últimos 5 anos e que queria contar eventualmente, mas hoje me peguei lembrando de um mercadinho de rua em Tartu, a segunda maior cidade da Estônia (o que não quer dizer que seja grande, em absoluto). É uma cidade linda, maravilhosa de passear (quando não está debaixo de neve), com prédios lindos e uma história fantástica, onde aconteceu um congresso em que fui. Lugar encantador mesmo. E lá, nesse mercado, do lado de uma praia de rio onde os quase albinos estonianos lagarteavam felizes com um sol de 15 graus, comprei sacos de morangos, framboesas e outras frutas vermelhas, já que estavam na estação, por preços muito baratos! Algo como um saco, pra comer até se empanturrar, por 2 euros, algo assim.

Os cogumelos são incríveis também! Lindos e muito baratos. Já tinha percebido isso quando fui pra Finlândia, fuçando nos mercados de rua, que essas coisas naquelas bandas, são privilégio daquele pessoal. Mas as frutas vermelhas eram algo de outro mundo - e dava pra comer na hora. Doces, deliciosas, saídas de contos de fada.

Não tenho foto das frutas vermelhas - uma coisa linda só de olhar -, mas aqui uma fotinho do mercado e das várias coisas mágicas que você encontrava. Saídas de outra época, parece. De outro mundo. Um que está se redescobrindo, depois de áridas décadas soviéticas que devem ter sido uó.


Thanks, estonian people!

sábado, dezembro 12, 2015

Descobrir a si



Fui nesta sexta para Santo André, essa cidade tão estranha,  onde pude comprovar a existência daquela palavrinha que aprendi nas aulas de geografia e que mais parece sintoma de resfriado: conurbação. Não deve ser fácil ser conurbado com São Paulo (e adjacências do abecedário). Parece que é tudo uma grande cidade que só termina chegando no pé da serra. É mesmo uma cidade feia, mas com charme... se é que isso faz sentido.

Bom, mas sobre ontem... Fiquei alguns anos sem ir pra lá. Fui algumas vezes enquanto o pai da Dani tinha consultório naquelas bandas. E ontem fui lá de novo, acompanhando, como ajudante de pesquisa, a Dani, que ia fazer a última reunião de grupo de mindfulness que ela estava ajudando a coordenar, no prédio da Escola de Saúde, na praça do Carmo, no centrão de Santo André.

É um programa muito bonito, feito em parceria com a prefeitura de Santo André, para implementar um protocolo de atendimento para trabalhadoras do SUS, sofrendo com depressão, sofrendo com stress, dores crônicas. Daquelas coisas que salvam um pouco o mundo, sabe?

A Dani me pediu pra ajudá-la. "É só ser antropólogo e me ajudar a anotar o que acontece na prática". E foi legal mesmo. Fazia algum tempo que eu não pegava meu caderninho e ficava anotando. Arrisquei até um desenho da coisa toda.

Assisti apenas essa última sessão (foram duas semanas de práticas) e não participei desde o começo, mas deu para perceber que a iniciativa deu certo. As mulheres (eram nove, duas bem jovenzinhas e uma mais idosa, e seis outras com idades no intervalo) fizeram questão de agradecer muito as coordenadoras das práticas de meditação - a Dani e duas amigas dela, uma nutricionista e uma psicóloga. Quiseram deixar claro como tinham gostado, como a meditação tinha ajudado. No final até eu, que estava lá como "ajudante antropólogo que ia tomar umas notas" e fiquei quieto todo o tempo, ganhei abraços de todas - tão agradecidas estavam. Foi muito bom ganhar um abraço de alguém que nunca tinha visto antes e isso não ter sido constrangedor. Abraços de pessoas que não ajudei em absoluto, mas que nem por isso estavam dispostas a deixar de mostrar que estavam felizes. Me senti bem, mesmo que um pouco embaraçado depois. Não fiz nada por aqueles abraços. Mas no final das contas... isso importa para um abraço?

Há algo de muito bacana numa dinâmica de grupo. Depois que a primeira pessoa arruma coragem para contar algo, as outras conseguem fazer também. E os relatos são tão doloridos... Mas bonitos também. A mais idosa logo lembrou como a meditação ajudou nas dores do corpo - e também da mente; ela havia perdido a irmã apenas há duas semanas e estava fragilizada. Estava com medo de ter que ir num psiquiatra e só remédios ajudarem.

Uma outra moça, de vestido vermelho, logo deu o depoimento mais contundente: ela descobriu que não conhecia o próprio corpo... "Tocava o pé e não parecia que era meu", disse. Nestas duas semanas começou um exercício de sentir sensações nas pernas, que não sabia que tinha perdido.

Outra contou como era duro ser taxada de louca; como esse medo, de acabar sendo despedida se descobrirem o nível de stress que passa, faz com que sempre engula as piadinhas, o bullying. E como estava conseguindo não brigar com ninguém. E que isso era importante pra ela.

Mas o que foi mais falado mesmo é a dor. A dor que, para melhorar, primeiro tem que ser reconhecida. Não por acaso, quando a Dani perguntou qual foi o exercício preferido, elas disseram que foi o escaneamento corporal. Havia algo de muito assustador ouvir como essas mulheres, com seus turnos de trabalho extenuantes, de horas de pé a fio, tão fortes, tão resilientes, perderam a conexão com os próprios corpos.

Falaram, quase todas, como descobriram que merecem ser cuidadas também. Porque trabalham com o cuidar de pessoas. E, para isso, precisam estar bem primeiro. A moça de vermelho disse "passei a prestar atenção em mim". Várias concordaram que é muito fácil não se importar. Ou então virarem máquinas, para dessensibilizar o que no fundo não pode ser dessensibilizado. Ou guardarem tudo, ou descontarem nos outros, ou de querer controlar tudo - e não conseguirem, ao final. De como é fácil lidar da pior maneira com o sofrimento dos outros, de deixar de acolher para se proteger. A mais idosa resumiu: "os primeiros pacientes do SUS temos que ser nós". E a moça de vermelho completou: "é bom pensar em mim, em nós, como somos importantes. Me valorizar".

As pessoas estavam descobrindo a si mesmas. E foi difícil ver como a consciência da renúncia de si pode ser avassaladora. Para outras foi demais. Afinal, começaram o grupo com 39 pessoas, há duas semanas. Estas 9 chegaram, como disseram, como sobreviventes. Mas ao mesmo tempo, testemunhar esse sobreviver e esse reconhecer do próprio corpo foi um privilégio.

Que nos sirva de lição, para cuidarmos de nós mesmos também. Ou, como dizia a mensagem de biscoito da sorte, mas no pirulito que eu também ganhei, ao final: "A inspiração que você procura está dentro de você, fique em silêncio e escute" (Rumi).



*******

O lindo desenho, que ficou perfeito no post, é da minha querida amiga Karina, que está virando parceira deste blog! Quando eu contei um pouco do dia de ontem ela quis me mandar um desenho de modelo vivo, para simbolizar o descobrimento de si...

A foto é do pirulito que ganhei da Vera, a simpática nutricionista, que tem um filho de 14 anos que, como eu, adora ver vídeo de joguinhos no youtube.

sábado, dezembro 05, 2015

Um brilho.

A minha geração aprendeu que o ensino público e gratuito provido pelo Estado estava falido. Aquilo que havia sido a joia e o orgulho da geração anterior, a dos meus pais, era coisa do passado. Apenas quem não tinha dinheiro ou talento, quem não queria novamente repetir de ano ou não estava a fim de estudar, "ia para o Estado". A conversa era apenas em que colégio particular você iria ter mais chance de ter uma boa formação e em qual você tinha mais chance de passar no vestibular.

E então, o que vinha a ser mais um golpe, inevitável e melancólico, ao legado do ensino público - o mal disfarçado eufemismo reorganizatório (rumo ao fim do direito ao ensino, na sanha privatizante) - encontrou resistência. Começaram algumas ocupações, realizadas pelos jovens e pelas jovens estudantes secundaristas - ocupações que a imprensa teimava em colocar em suspeita, numa nojenta e tosca tentativa de criminalização, ao invés de louvar o espírito de luta e a recusa da dor de uma vida em constante resignação, tão esperada e certa para esta geração.

Essas ocupações logo multiplicaram-se. Começamos a prestar atenção, admirados com o idealismo destes estudantes. E essa admiração começou a virar orgulho, destas pessoas e sua crença de que algo valia a pena ser defendido.

Logo veio a repressão. As manobras, as chantagens, a tentativa de desmobilizar quem só ficou mais convicto da justeza de sua peleja. Aulas públicas foram organizadas, doações de alimentos foram realizadas, para que estes estudantes tivessem algum apoio em suas ocupações. Mas o protagonismo foi sempre destes e destas adolescentes. E era assim que devia ser. E o sacrifício também foi deles, mas também a nobreza. Recusaram o partidarismo, a cooptação dos movimentos já engessados em suas visões viciadas. Mantiveram como bandeira a defesa por uma educação mais digna e a possibilidade de continuar estudando onde têm direito de assim o fazer. E isso mais do que bastava.

O país pegava fogo. Em Minas, escorremos rumo ao Espírito Santo, correndo incrédulos e dilacerados rumo ao mar. Mas também em revoltas em condições bárbaras no cárcere nordestino. Em genocídios da juventude negra na cidade bonita. No machismo endêmico e assassino. Em revanchismos egoístas e irresponsáveis de um bandido com diploma e mandato. E o governo do estado ressecado e murcho, sedento e indiferente, anestesiado e doente, quis engrossar a voz e colocar a molecada no seu lugar. Quebrou a cara. A cada cena das atrocidades cometidas contra os jovens a vontade apenas intensificava.

Falaram "mas e as reposições? E o perigo do teor político do movimento?" Eu tenho certeza de que estes meninos e estas meninas aprenderam muito mais do que a bonita derivada e a nobre gramática. Aprenderam a boa política. E nós, aprendemos alguma coisa juntos - inclusive a sermos menos cínicos e podermos de novo nos permitir maravilhar.

O governo que resolveu recuar, mas que tentou ser malandro deixando a possibilidade de retomar os planos eufemísticos, pode se livrar, novamente. É provável, aliás, que isso aconteça. Como tem acontecido, incrivelmente e quase incompreensivelmente, nos últimos anos. Mas como todo autoritarismo, este carece de inteligência. Não percebe que aquilo que o constitui é o que o torna abjeto e é o que o destituirá eventualmente.

Pois uma geração de gente muito melhor do que a minha acaba de nascer. E podemos ter alguma esperança novamente. Em um futuro em que os que hoje odeiam irão, aos poucos, sendo colocado de lado. Em que passem como nada mais do que uma memória incômoda e um tanto embaraçosa.

E mesmo um futuro em que aqueles que, como eu, acreditavam que as coisas estavam fadadas - como estava fadado, o ensino público e gratuito, à miséria e à mediocridade -, fadadas a algo, a qualquer coisa, redescubram alguma coisa para chorar emocionados.

sábado, novembro 28, 2015

Escutar, esperar e ler



Ainda que de vez em quando goste tanto de um livro que o leia de novo, isso não acontece com muita frequência, claro. E nunca tinha lido duas vezes um livro em uma semana. Mas esse livro, de que quero falar hoje, é especial.

Até menos de um mês atrás nem sequer o conhecia ou tinha ouvido falar, assim como ao seu autor, Jim Dogde – desses escritores americanos que cresceram nos 60 e que ainda teimam em impingir no mundo alguma cor e alguma esperança.

Ganhei o livro da minha querida amiga Karina, que o deu como combo junto a outro (o Flush da Virginia Woolf) e o recomendou muito, me assegurando que seria uma leitura “de uma sentada”: seria rápida e valeria a pena. Prometi que leria e fui enfrentar a vida nos dias seguintes.

E então passei dias bem complicados na semana passada. Muito trabalho, sim, mas também tive aquela tristeza meio irresistível de quando nos decepcionamos com o mundo. Então a Karina me disse novamente para ler o livro, que eu iria gostar.

E assim, um dia depois, numa manhã de domingo preguiçosa, tendo dormido mais do que o comum para fazer as pazes com a minha paixão pelas coisas, eu li. Na cama, deitado – e não sentado como recomendado. Mas valeu a pena mesmo assim.

Ah, esqueço de dizer qual é o livro, né? O livro chama Fup e conta a história de uma patinha meio desengonçada, bastante geniosa e que ainda não sabe voar; mas também de Miúdo, um moço grande fazedor de cercas e seu avô Jake, fazedor de um whiskey especial e de impropérios torrenciais. Ambos moradores de um desses cantinhos perdidos no mato americano, esquecidos pelo governo (aparentemente) e por Deus (talvez menos aparentemente). Pessoas simples que vivem aventuras que nunca chegariam a inspirar ou assombrar mais alguém não fosse a imaginação de algum escritor preocupado com as coisas pequenas.

A história é singela, como são as personagens, e como é a escrita. Ao final do livro a gente não pode não ter a impressão de que há uma mensagem muito importante sendo contada, mas de uma maneira tão simples que tudo o que aparece como significativo o é de forma franca e lindamente aberta, resistindo àquelas interpretações corretas e autorizadas. E acho que é isso mesmo o que o Jim Dodge gostaria, deixando o desfecho propositadamente mais fantástico, ao menos até que ficasse novamente mais claro, “em direção a alguma nova coerência” (p. 89).

E essa humildade e essa escrita despretensiosa cativam desde o primeiro momento. A simplicidade da vida de vovô Jake e Miúdo, personagens apaixonantes, nos chama atenção para a beleza da quietude, da possibilidade do escutar-se. E escutar também outras coisas.

Como todas as pessoas com a vida simples, elas percebem mais claramente o relacionamento que têm com as coisas, com os animais sobretudo – é assim que podemos entender a relação com o porco do mato Cerra-Dentes, apenas aparentemente o inimigo, destruidor das cercas feitas por Miúdo e matador do cão Patrão. Não surpreendentemente, Cerra-Dentes é intrépido e silencioso e, assim, tão imortal como o quase centenário Jake. Mas é sobretudo com Fup – essa patinha tão incrível, que aprende a voar renascendo, quando Miúdo realmente passa a ouvir – que podemos acompanhar esse diálogo com a natureza. Há, ao longo da narrativa, uma espécie de tensão vital vinda dessa relação, revelada na advertência do índio Sete Luas, amigo silencioso de Jake, que por “reverência ou desconfiança da linguagem” (p. 74), sabiamente lembra que tudo anseia por ser selvagem.

Aprendemos que podemos ouvir, mas que não precisamos explicar tudo. Aliás, talvez as explicações sejam enganadoras. Será que Fup era uma boa farejadora, quando saía com Miúdo nas expedições de domingo? É o vovô Jake, com a experiência que apenas a paciência da imortalidade confere a alguém, que lembra que “não havia necessidade de provar nada, que a maior parte das coisas fala por si mesma, mas que também não devia presumir que todos os seus raciocínios fossem necessariamente corretos. As razões das coisas, advertiu vovô, eram complicadas” (p. 67).

E talvez nos baste perceber que nos apressamos nas nossas conclusões e nos nossos julgamentos. É o mesmo Jake que pondera se, na verdade, Cerra-Dentes não estava, como inicialmente pensaram, de fato tentando matar Fup, naquele dia em que Miúdo a encontrou encolhida num buraco de cerca cheio de lama. Mas tentando salvá-la – assim como ela tentou poupar o porco, na mira da espingarda de Miúdo. Que seriam das nossas ações e nossas escolhas então? Que tipo de voo, que tipo de liberdade alcançaríamos, mesmo na realização da morte?

É a narrativa de uma linda história que pode se atrasar um pouco – porque se atrasando, como Fup fazia com Miúdo em suas rondas caçadoras, talvez boas coisas viessem e um porco do mato vivesse. Como seria bom também pausar de vez em quando. Como vovô Jake depois de se acidentar tentando ensinar Fup a voar: “Sentia-se fatigado. Tinha uma necessidade enorme de descansar. Andava levando porradas violentas ultimamente e precisava pensar no assunto, entender o que, com os diabos, andava acontecendo. Havia alguma coisa, isso era certo. Mas também tinha certeza de que provavelmente jamais entenderia o que era, e isso contribuía fortemente para que se sentisse exausto. Era um quebra-cabeça em que nem todas as peças cabiam. Sabia que era melhor acostumar-se com isso, se fosse levar a sério esse negócio de imortalidade” (pp. 84-85).

Ler (e reler) Fup, nesses dias, me fez pensar um pouco sobre essas pausas, esses mistérios, para escutar coisas. E pensar na beleza não da vida como deveria. Nem, tampouco, da vida como queremos – talvez o grande engano. Mas da vida como poderia.


As citações correspondem à edição em português de Fup, de Jim Dodge, publicado pela José Olympio em 2006 e traduzido por Melanie Laterman.


O maravilhoso desenho da Fup é da querida Karina Kuschnir, antropóloga e artista, minha amiga – que já tinha me desenhado uma Fup estatelada no chão e que agora fez mais novas versões para ilustrar este post tão feliz e tão importante pra mim.

sábado, novembro 21, 2015

Vida simples

A vida era tão mais simples.

Quando? Bem, a resposta está no tempo verbal da frase. Sempre tive a impressão que a vida ia complicando, complicando. Lembro do tempo da jovem adultice com certa nostalgia. E nessa época, lembrava da adolescência, achando que aí sim é que as coisas eram tranquilas (mesmo não parecendo, então). A exceção é justamente a adolescência. A infância, sim, que era boa, mas eu ansiava pelos anos balzaquianos - quando poderia, finalmente, fazer as coisas que queria. Tolice.

Ou pelo menos era assim que eu pensava. Na loucura dos que se deixam levar pela ilusão da felicidade esvanecente eu paro e penso "não vale a pena". Não é assim que vou fazer o começo do restante da minha vida (para torcer o bordão que todos conhecem e quase ninguém entende - mesmo tendo visto o filme, olha só!).

E é tão fácil se perder nessa vaga, tão esperada que torna-se quase inexorável. E sabe o que é pior? É que é mais fácil ainda que isso tudo seja confirmado, quando reagimos a isso de maneira intempestiva. Melhor deixar passar, claro. Mas é fácil falar.

O que me traz ao como. Como a vida era mais simples? Não sei. Mas suspeito que a resposta também esteja no tempo verbal. E esse nosso medo de que é tarde demais? Que o que começamos, começamos. Mas o que nessa altura do campeonato não fizemos, bem...

Mas o que de fato começamos, quando? Continuo começando. Continuo começando. E a beleza do que ainda está por vir me diz para não entrar na loucura dos que desistiram e que atraem a desistência.

Não é fácil. Mas aí chego na razão: porque somos nós que fazemos sentidos. E, no final das contas, é simples sim.

domingo, novembro 15, 2015

Um céu estrelado

Semana mais do que corrida, continuo adiando a recapitulação do hiato de 5 anos sem blog. Um pouquinho só mais de paciência, tá? Mas ao menos eu me lembrei de uma história que aconteceu nesse meio tempo! Já é alguma coisa, né?

A história é rapidinha, porque conto só o final dela. Depois posso contar o resto, quem sabe...

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Em 2013 fui na REA/ABANNE, que é o congresso do Norte-Nordeste-Equatorial de Antropologia. Foi em Boa Vista, RR. Lugar incrível, cheio de espaços esquisitíssimos, de cidade e mato - incrivelmente coexistentes, pra alguém de São Paulo: Ali do lado da avenida, um cais, com uns barquinhos, pra você ir para os igarapés deliciosos e nadar com a turma antropológica, fugir um pouco do calor.

Bom, dando um fast foward, fui com minha amiga Marisa (ex colega de Unicamp e professora na UFRR, que me abrigou lá), e minha amiga Sel (que agora tá na UNILA), pra Lethem, na Guiana. A viagem, de Boa Vista até lá, não é longe, mas um pouco demorada. Mas o lugar é lindo e vale muito a pena! A cidade parecia parada no tempo (coisa feia pra antropólogo dizer, né?), uma gracinha. Umas lojas indianas vende-tudo, umas casinhas, um posto de gasolina da década de 50, um pequeno aeroporto, uma lojinha de uma curandeira, uma padaria, mais umas lojinhas aleatórias, um maravilhoso mercado municipal todo de madeira onde comemos muitíssimo bem, e um barzinho, com guinness muito barata e gelada (quê, você acha que é possível tomar guinness na temperatura ambiente na Guiana?!). Tudo muito calmo, com algumas crianças nadando no rio, um pessoal sentado na varanda vendo a eternidade passar...

Mas o que eu me lembrei foi a viagem de volta. Queríamos voltar logo, para não dirigir de noite, mas o remédio que a Marisa pediu (pra dor de cabeça) demorou um pouco pra ficar pronto, na loja da curandeira-xamã local. A noite nos alcançou na metade do caminho, de uma estrada muito, muito esburacada, de volta ao Brasil.

Perdido por um, perdido por mil, é o que dizem, né? Pois bem. Paramos o carro na estrada (não é que tinha qualquer risco de alguém passar por ali naquela hora, naquele lugar, e nos abarroar), desligamos o farol (de novo, sem risco nenhum de vir algum carro desgovernado ali) e ficamos olhando o céu. O céu mais lindo da minha vida. Não sabia que era possível ver tantas estrelas. Longe de qualquer cidade, o negro acima de nossas cabeças mostra tantas luzes que parece mágico.

E ali, no meio do nada, entre a Guiana e o Brasil, só um pouquinho ao norte do equador, eu pude perceber como há um mundo, literalmente, que eu não conheço e do qual sei muito, muito pouco. Um mundo bonito, misterioso, alheio ao meu próprio quinhão cotidiano (por vezes doce, por vezes amargo), que vai continuar lá mesmo depois que eu voltar pra casa.

Em tempos tão duros, tão tristes, foi bom lembrar disso hoje. Quando eu começo a achar que as coisas estão cagadas demais, feias demais, é uma felicidade saber que a despeito das bombas, há lugares em que você consegue enxergar todo o firmamento e que lá a humanidade entra em perspectiva.