sexta-feira, junho 13, 2008

Jingle dos infernos

Não sei porque hoje me veio uma musiquinha irritante na mente (será a data tenebrosa?). Sabe daquela que gruda nos seus neurônios, vem das trevas do inconsciente e toma sua mente de assalto para não mais largar? E, como o soluço (esse outro fenômeno fisiológico misterioso), só se vai quando você desiste de tentar matar a dita cuja.
Pois é, dessa. Aliás, eu nunca vi nenhuma explicação sobre porque essas músicas surgem, ou porque elas persistem. Quer dizer, fora o Paulo Coelho, mas com o argumento extraordinário-psíquico-místico, em As Valquírias, ou em Diário de um Mago... um desses (sim, eu lia bastante o imortal da nova era). Algo como a mente em desequilíbrio, ou a mente desconcentrada.
De qualquer maneira, voltando à música. Não é um Bon Jovi, ou uma Bonnie Tyler, ou mesmo uma ABBA - alguns dos campeões do grude. Mas o jingle do Bom Dia São Paulo.
Era o "vamo embora, vamo embora, tá na hora, vamo embora, vamo embora"... que ouvi toda manhã por mais anos do que eu quero lembrar.

E junto com a lembrança do refrão, veio a memória de todos aqueles anos de escola ao raiar do dia.

Nunca gostei de acordar cedo, mas até o terceiro ano do colégio (com exceção do segundo, quando estudei à tarde - e dormia na aula, vai entender...), não tive muita escolha. Como se já não fosse bastante desagradável entrar na sala às 7:00 (os piores anos foram durante minha sétima e oitava séries, quando estudei num legítimo vale, ali perto da lagoa do Taquaral, onde até a segunda aula você não via mais que 10 metros à sua frente por conta da neblina), eu tinha que acordar especialmente cedo, porque desde que me conheço por gente, só fui para o colégio no esquema rodízio-de-pais (partilha da miséria), o que significava várias paradas nas casas de colegas antes de chegar na Bastilha.
E não sei porque cargas d'água, todo pai descontava a frustração de ter que cumprir com seu dever parental - numa hora em que nenhum ser vivo decente e temente à Deus deveria estar acordado - ouvindo o bendito programa, com as notícias que só interessam aos pais (partindo do pressuposto de que não nos faziam ouvir aquilo simplesmente como retaliação por todo o trabalho que lhes dávamos). Nada de The Cure, ou Smiths (em algum momento dos 80), ou U2, Information Society, Titãs ou Paralamas (em outros momentos), ou ainda Nirvana e Pearl Jam (sim, porque isso se arrastou até os 90). Não, eternamente minha trilha sonora para a escola foram as notícias sobre impostos, sobre corrupção na política e sobre os problemas da segurança pública. Invariavelmente e sem exceção.
Não fosse a CBN, ou coisa que o valha, bem poderia ser uma marcha qualquer de pelotão de fuzilamento. Não faria muita diferença.
Eu acho que minha ojeriza aos noticiários vem bastante daí.
E esse "vamo embora, tá na hora"... que desespero! Já está na hora de correr? Tão cedo? Que stress! "Vai vagabundo, faz alguma coisa que você já está atrasado, não importa o que você faça", poderia ser o segundo refrão.
Sempre aquele equilíbrio delicado entre o sair o mais tarde possível, dormir mais alguns poucos minutos (com seus pais ficando nervosos e já tirando o cobertor à força), e depois o correr, antes que o portão se fechasse. E que lógica horrorosa - me fazer ficar ansioso por chegar a tempo, quando o que eu mais queria era perder o sinal e jogar fliperama, ou voltar para a cama! Percebe o elemento esquizofrênico, percebe?
Sempre que ouvia o jingle infernal me sentia miserável, me dava uma sensação de sufocamento, de opressão, como se uma sentença me estivesse sendo anunciada. Seu dia nada mais será que um desdobramento de sua manhã. E nada mais.

E eu que pensava que essa neurose com o tempo fosse exclusivo dos meus anos de universidade...

domingo, junho 08, 2008

De onde os patrícios chegaram


De volta da ABA, da Bahia (uma Bahia diferente, que é Porto Seguro, não obstante), cheio de impressões.
Apresentei meu trabalho, não foi uma maravilha, mas não foi horrível. Tive boas dicas e bons insights, mas faltou falar muita coisa (pelo menos olhando retrospectivamente). Vi apresentações muito boas, mas muita coisa fraca também. Normal. O ponto negativo fica para a organização, bem fraquinha (ainda mais pensando no valor da inscrição). A parte divertida, fora encontrar amigos e perdidos conhecidos, foi a festa de encerramento. Dançar Tati Quebra Barraco com seu GT e seus professores não tem preço!

Da cidade de Porto Seguro mesmo não tenho muito o que dizer. Achei tudo muito feio, mas as praias são bonitas (do pouco que eu vi). Mas não tem jeito, eu não consigo passar despercebido pelas ruas. Minha regionalidade está marcada no corpo, bem como minha zambrice. E paulista é caçado de uma tal maneira que irrita. Fugir dos carinhas que tentam vender as mais diversas porcarias, alugar carros, fazer tatuagem de rena, tererê, ou simplesmente pedir dinheiro, é uma atividade constante e complexa. Já tinha tido experiência parecida em Salvador, e não gostei nada. Não é só a opressão de pedir, já se impondo, mas de já pressupor que fazendo, sem dar fôlego, o que quer que estão tentando vender, irá deixar a vítima constrangida a um tal ponto que não lhe resta alternativa que pagar o serviço - 10 reais aqui, 20 ali...
Como um colega paulistano disse, sair do stress paulista pra passar nervoso na Bahia é foda. E você começa a ficar estúpido depois da trigésima interpelação (que está mais pra assédio mesmo).

sexta-feira, maio 30, 2008

Reflexões de uma boa aula

A moral desta tétrica história da menininha, para mim é que as narrativas do ocorrido são construções, são bricolagem com agendas pré-determinadas, nem um pouco isentas. Até aí nada de novo. O que é sim interessante de se pensar é acerca do limite alcançado (ou melhor, ainda não alcançado) por estas narrativas, vindas dos mais diferentes campos. Por quê tanta repercussão?
Os dados "objetivos" são utilizados na criação de verdadeiras histórias pseudo-coerentes. Coerentes, sim. Mas uma coerência arbitrária, seletiva. Traços de personalidade, e até menos do que isso: um simples comentário, um deslize, são provas irrefutáveis da culpa, que aparece aqui como irresistível, certa e inevitável. E nem falo dos que simplesmente supõem que as ações abomináveis são resultado das posições ocupadas no quadro de parentesco, ou pela posição social.
E a entrada deste novo personagem, que já veio assombrar a idéia de uma neutralidade e objetividade científica (forense) em outra oportunidade, para mim só reforça a idéia de construção, de ficção. Duas histórias completamente opostas podem surgir. Interpretações ou explicações? De onde se fala e qual é a legitimidade de quem fala. E surge a possibilidade da dúvida, que é a intenção da defesa, claro (e nem digo com isso que não seja possível uma ciência forense bem intencionada).

Isso me lembra bastante o que li sobre o caso do Jack, o mais famoso deles. Estudos minuciosos provam que ele foi um pintor expressionista inglês, foi o médico que teorizou a histeria, foi um membro da realeza sifilítico.

domingo, maio 25, 2008

Últimas

Ando bastante caseiro nos últimos tempos, mas rolaram duas boas baladinhas esta semana. A primeira mais... digamos... convencional (ainda que com sonzinho de queridas). Já a segunda foi meio esquisitinha (mas um esquisito bom).
Fui no pub que não é pub (mas ainda sim bacana, ainda que com atendimento que deixa um pouco a desejar), com discotecagem de amigos (muito boa, por sinal).

Bem, você passa pela vida fazendo amizades e participando de certos círculos. Ao longo da existência você se relaciona mais, ou menos, com determinadas pessoas, em determinadas épocas - algumas sempre voltam em algum momento e parecem nunca ter se distanciado, outras desaparecem nas brumas. E alguns amigos são amigos entre si, mesmo que não sejam dos mesmos círculos. Me espanto com alguns exemplos: "mas você conhece fulano? De onde?" Ainda que tenha percebido que realmente Campinas é uma kitnet (rolaria fácil uma análise antropológica de redes).
Na verdade, o esquisito, afirmado acima, foi que pessoas de várias dessas turminhas confluiram para o mencionado estabelecimento (lá não tem cerveja da ilha, mas felizmente eu já tinha matado minhas lombrigas um pouco antes).
Encontrei algumas pessoas que há muito não via, bebi e dancei. Foi uma noite leve, daquelas que tudo dá certo, tudo é engraçado e, mesmo desembolsando uma grana que eu não tenho, voltei contente, com dor na perna e tudo.
E minha querida amiga da capital continua linda (e cabeluda, heim?!)...

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Dei minha primeira aulinha esta semana! E foi logo para uma turma de mestrado! Claro que quase que tenho uma síncope, mas o resultado foi até encorajador. Quem sabe essa minha paúra docente não melhora?

quinta-feira, maio 15, 2008

Uma breve notícia

Esta é a tragédia de Henrieta C., carioca torcedora do Fluminense, que veio para São Paulo assistir à semifinal da libertadores contra o outro time tricolor, mas que justificou a viagem, para seu pai, por conta de numa exposição sobre a Natureza das Coisas, no MASP, já que fazia arquitetura na Puc.
Foi, na verdade, para a capital paulista com seu namoradinho Josias, e não com a turma da faculdade, que viajou para Ouro Preto em uma pesquisa de campo.
É certo que pensou na exposição como desculpa porque queria de fato visitá-la, ainda que num nível bastante ideal e platônico, já que não tinha intenção nenhuma de deixar de assistir o jogo. Josias tinha conseguido os ingressos dificílimos e não tinham como perder a oportunidade, agora que o Flu parecia estar com um time tão bom e competitivo, e já tão longe na competição.
O fato é que o pai de Henrieta, Rene, não gostava nem um pouco de Josias que, para ele, era simplesmente um malaco. Homem muito conservador e controlador, proibiu a filha de se encontrar com o Romeu. Pobre homem, ignorante das verdades dos corações jovens, já tão cantadas pelos poetas, que sabem que a probição é como combustível para a paixão, mas ainda tão misteriosas aos pais, que sempre acham que seus filhos são diferentes deles mesmos.
A menina achou que o melhor era inventar uma desculpa relacionada à sua formação, tão prezada pelo pai. Quanto a isso, nunca nada lhe era negado. E de qualquer forma estaria de volta no dia seguinte, sem problemas.
Mas quis o destino que Rene resolvesse assistir o jogo na tv aquela noite. E quiseram os deuses zombeteiros que a câmera focalizasse, quase no final da partida, a torcida carioca, e mostrasse Josias passando um baseado para Henrieta. Era o primeiro que ela fumava, mas estava tão inebriada pelo espetáculo e pelo inusitado da situação, que resolveu experimentar. Oportunidades não faltavam na faculdade, mas nunca quisera então. Uma coisa era seu cotidiano. Outra era esta experiência, tão única e quase surreal, um parênteses na sua vidinha.
Rene, boquiaberto na frente da tela, por um momento não acreditou no que viu. Sua filhinha estava em Minas! Mas a imagem era clara.
Copo na parede. Cacos no chão. Cerveja no tapete.

Murphinianas

Seria, afinal, o universo regido por forças não-aleatórias?
Todo mundo, quando lê as notícias de corrupção, covardia e vilanias em geral, no fundo vira um pouco budista vingador (ou cristão mesmo): em outra vida, ou em outro plano, aquele irá pagar. Vai arder no fogo do inferno, ou volta como um cupim manco.
E nem precisa ir muito longe na metafísica religiosa. Existe a lei da compensação secular - "aqui se faz, aqui se paga", e outros ditados do gênero (e se a justiça falha, pelo menos se espera que o safardanas durma mal, ou então que a história se encarregue de execrá-lo como merece - se o acerto de contas não se dá individualmente, quem sabe na memória, talvez).
Eu me pego sempre achando que existe algum princípio regulador no cosmos. Mas depois, invariavelmente, acabo me resignando, achando que o mundo é injusto mesmo e não tem o que se fazer - o último que sair que apague a luz. Entretanto, vem aquela pontinha de dúvida, de que as coisas se acertam, de alguma maneira, em algum momento - e acabo nunca escapando do círculo.
Nas últimas semanas tem reinado um princípio estrutural relacionado: de que quando as coisas param de funcionar, param todas ao mesmo tempo. É o banheiro que vira zona de guerra, mas também é o carro que sucumbe, o pneu que agoniza, a luz do escritório que pifa, a luz da cozinha que a acompanha, o interfone que fica mudo, o computador que pede arrego, a sola do sapato que desgruda.
Lá vou eu então testar o outro pricípio newtoniano da reciprocidade: vou jogar na mega-sena.

terça-feira, maio 13, 2008

Sobre reforma e madrugada

Pois bem, informo que minha capacidade cognitiva têm sofrido deveras com os trabalhos - que não são esotéricos mas ainda sim para-reais. Tenho a impressão de estar vivendo uma piada sem graça, uma parábola deveras exagerada. Quando penso que posso acordar, de fato vejo que nem dormi, e o despertar vem ao som das marteladas. É tudo quase psicodélico, em sua urgência cavalgante.
No começo achei um pouco irritante essa minha relação com os contratados. Não pela sujeira, incômodo ou barulho - tudo terrível, mas inevitável - mas pelas tais previsões que me dão. De quando terminaria (me foi dito inicialmente que seria uma semana, e não um mês - e contando), e de que material comprar: de nenhum cimento ("a gente se vira com um tiquinho da outra obra") para um saco 50 kg (que me ferrou as costas). Depois sair para comprar apenas mais um T de dois terços. Daí dois parafusos de cabeça chata, para então canos, sarrafos, misturadores, registros, isolantes, cola, fio, mais um saco de 50 kg (que acabou por me foder a lombar), e por aí vai (e vai longe). Você não acreditaria quanta coisa cabe num banheirinho. E, é claro, as tarefas me são dadas aos poucos; um produto de cada vez, à medida que são necessários, e não tudo junto em um só pedido.
É, isso me irritou no começo. Mas então, quando me senti como numa gincana de colégio e vi que teria, sim, que deselbolsar mais 100 aqui, mais 50 ali (que eu não tenho de fato), sair procurando madereira, loja de hidráulica, ovo de duas gemas e a pessoa mais velha que eu pudesse encontrar, me resignei. Agora acho tudo surreal, engraçado até. "Ok, vou procurar um start para 20 w. Não é que tenho nada melhor pra fazer mesmo".

Tenho cá algumas peculiaridades, que alguns podem considerar defeitos, mas que aprendi serem parte constituinte da pessoa que vos fala.
Como dormir tarde. Desisti de tentar me enganar, dizendo aos outros que irei acordar mais cedo, sair para caminhar com as primeiras luzes e sei-lá-mais-o-quê que normalmente se coloca na conta dos que têm o modelo de saúde a se emular. Eu durmo tarde, trabalho melhor de madrugada, acho que os melhores programas começam depois da hora da bobra e acho tudo muito mais tranquilo durante o reinado dos homenzinhos do Stevenson.
Sem a mulher de voz enjoada que vende pamonha, sem as buzinas, sem o bar azul, sem a vida que estaciona. O que é estranho, porque é exatamente nas primeiras horas que tudo parece congelar. Mas é quando tudo pára que se pode olhar pela janela e perceber o desenrolar de um simples movimento, despercebido que seria durante o dia. Voyeur singelo, adoro observar uma luz acendendo e tentar imaginar o que a pessoa está fazendo acordada; o piscar fantasmagórico de uma tv; um carro que passa solitário - vem de onde, vai para que canto? E mais, eu consigo me enxergar muito melhor.
Teço aqui minha ode e minha homenagem aos madrugadores, e aos insones como eu. Já sofro demais com isso para somar ainda mais uma neurose e achar que tudo é um lixo. Então digo que lido bem com isso (ainda que não recomende a ninguém).
Claro, nas últimas semanas este meu hábito trouxe problemas, pois é impossível continuar dormindo depois das 8, quando começam os mencionados trabalhos - no caso, uma reforma dos banheiros. Mas dormir cedo também não é uma opção. Resta torcer para que não surjam ainda mais imprevistos para o final das reformas.
E vou levando como Napoleão.

Mas nem tudo são espinhos. Informo que devo ter saído no Correio, na melhor pose pessoa-descolada-na-frente-de-seu-computador de orelha de livro (até fiz a barba, pasmem!). Engana-se quem pensa que seja algo relacionado à ciência do homem. Foi para uma matéria sobre video-game. O que contribui em muito para minha imagem de vagabundo sedentário, mas, enfim... é divertido (engraçado o fotógrafo, que queria uma foto ao lado do meu atari, mas teve que se contentar com o mouse mesmo).

Dentre as muitas outras possíveis notícias a se relatar neste espaço, ressalto apenas que finalmente assisti Coffee and Cigarettes (bem, o mais recente), ainda que não inteiro. Adoro o Jarmusch, mas ainda sim os filmes dele não são "de cabeceira"; não consigo assistir a qualquer hora.
Mas deve ser muito bom ser o cara. Amigos bacanas, respeitado, não precisa fazer muitas concessões, filma o que gosta, e agora se aproveita de uma boa estrutura que foi criada para os tais filmes cults, nos EUA. O equivalente na direção do que seria, por exemplo, o Bill Murray hoje.
E que vontade de café e cigarros...
(rápida menção: lembrei do diálogo entre o Jarmusch e o Keitel em Blue in the Face. Você não acredita que o Jim vai mesmo fumar seu último cigarro, depois daquela cena!)

domingo, maio 04, 2008

Gólgota

3 da manhã.
Volto de uma baladinha que teoricamente deveria reproduzir um pub londrino. Na prática, cerveja brahma e nada de guinness.
Mas sobre essa decepção falo outro dia.
O fato é que é uma dessas noites que poderia ficar bebendo indefinidamente, que não teria problema nenhum. Voltei porque não restaria ninguém no bar comigo. Sem nenhum sono e suficientemente alcoolizado para perder o pudor do entretenível, comecei a zapear a programação de sábado de madrugada. Lixo extremo. Por algum tempo fiquei entre um programa sobre terremotos na Turquia e a reprise de Anaconda - com uns pulos ocasionais para Troia dublado (e depois me censuram por criticar a lei de incentivo à cultura nacional).
Acabei indo para o VH1 em busca de uns clips podres e acabei por encontrar o supra-sumo da tosquice televisiva! A pérola, denominada Flavor of Love, é um The Bachelor versão Tião Macalé (sem o atenuante da anamnese pessoal e da paródia de si consciente), crossover teletubies on acid!
É o Flavor Flav envelhecido, tresloucado e acabado, com pitadas de chapeleiro louco, que escolhe a cada semana uma... nem sei que adjetivo adotar... uma guria para sair de seu harém dos infernos.
Fiquei pensando sobre as opções interpretativas e cheguei à conclusão que nenhuma implica em boa coisa:
Ou as mulheres estão realmente apaixonadas pelo Grande Otelo do rap, ou elas mentem descaradamente em prol de uma publicidade no mínimo dúbia (em que o público acredita na farsa), ou então todo mundo envolvido sabe que aquilo é um absurdo e é encenada uma tragédia hipócrita de proporções homéricas...

quinta-feira, maio 01, 2008

Primeiro de maio

Fazia muito tempo que as coisas não ficavam tão corridas.
Neste mês longe daqui muita coisa aconteceu - menininhas fofas nasceram, padres levantaram vôo, sublevou-se o país em hordas justiceiras e explicadoras, a Áustria assusta profundamente, surgiram (e desaparecerão) mulheres frutas (melâncias ou não). Realmente não foi por falta de novidades que deixei de dar uma atualizadinha no blog...
Ando às voltas com vários afazeres, um dos quais não muito prazeiroso, e que está restringindo meu sono em algumas horas diárias, ultimamente. Fazem a tal da reforma, finalmente. Atrasada em alguns anos, atrasada mesmo agora em sua execução. O que era para já ter terminado, se arrasta, me deixando louco e ainda mais surdo do que já sou.
Mas aconteceu uma coisa interessante por conta disso, que colocou em perspectiva minhas lamúrias laborais.
Claro que esse mito dos avanços trabalhistas pós revolução industrial é uma balela e não cola há tempos, mas quando me pego frente a frente com um caso concreto, ainda fico chocado.
O rapaz que vem quebrar pedra trabalha praticamente 20 horas por dia! Veio sem máscara, sem luvas, sem óculos... sem dormir. Sai daqui e vai para outro trabalho braçal, até de manhã, quando volta pra cá.
Ele tem o discurso empolgado de que pelo menos tem saúde pra continuar a trabalhar, então não tem do que reclamar. Mas se continuar assim, até quando?

quarta-feira, abril 02, 2008

Estádios e times


Hoje o Guarani FC faz 97 anos. Na verdade fez ontem, mas convencionou-se adotar o dois de abril afim de evitar mal-entendidos e piadinhas sem graça.
Vi hoje que o projeto de salvação (renovação, aos mais otimistas) foi aprovado. O Brinco será vendido, se tornará mais um conjunto de prédios em uma área que está se valorizando na cidade, e o time terá um novo complexo mais afastado. Parece que o consenso é que era ou isso ou o desaparecimento do clube, afundado em dívidas, às vésperas do seu centenário.
Tal como acontece com a cidade, minha família é dividida entre bugrinos e ponte-pretanos. E, ao que parece, há gerações. Reza a cosmogonia e mitologia familiar que meu bisavô materno, Fernando, alemão oriundo de Hamburgo que abandonou seu ofício de ourivesaria para se tornar ferreiro em terras tupi (destino poético e trágico, em certo sentido), foi responsável por uma das arquibancadas do estádio Majestoso. Já meu avô, genro de Fernando, parece ter se envolvido com o rival carlos gomista desde muito cedo, também aparentemente através de seu pai, que ajudou em alguma reforma, em algum momento da história. Mas até a chegada da ovelha negra do meu tio mais novo, o destino familiar estava traçado, em prol dos bugrinos.
De minha parte, creio que não tendo nem para um lado nem para outro. Sempre fui simpático aos alvi-negros, que transmitiam uma áurea de romantismo quixotesco. Eram sempre os mais pobrinhos, mas nunca abandonavam o time ou a esperança (a tragédia maior parece remontar à famigerada final com o Corinthians em 1977). É, além disso, um clube que sempre gozou de boas relações com o mencionado Corinthians. Mas também sempre tive um certo carinho com o Guarani, com certeza devido à paixão paterna. O bom é que parti para uma terceira opção como torcedor e me abstive da tomada de partido.
Mas me entristece muito a notícia do acordo, ainda que concorde que é o menor dos males. Em minha terceira década como habitante deste planeta, já pude notar uma grande diferença na paisagem urbana. Onde morava era quase uma roça em comparação a hoje. Claro, é inevitável que coisas mudem. Mas é também angustiante ver certos marcos, tão visíveis e tão duradouros não se mostrarem... bem, duradouros. Não passar pela Princesa d'oeste e não ver o estádio será estranho. Lá estive, em 1988, na final com o mesmo Corinthians, vendo o Viola acabar com as esperanças verdes, e lá estive em outras ocasiões depois.
Deve ser algo parecido com o famoso trauma que enfrentaram os torcedores do Dodgers quando tiveram que mudar de estádio no Brooklyn (o que acarretou na mudança do time da cidade e desespero dos fãs), e que em breve enfrentarão os torcedores do Yankees, que verão a demolição do quase centenário Yankees Stadium, no Bronx, e também outro marco da cidade de Nova Iorque.

segunda-feira, março 31, 2008

Uma festa

Dezembro. O frio já se abatia sobre a cidade. Só de lembrar das baixas temperaturas do começo do ano, sentia um misto de excitação e apreensão. O velho mundo é muito mais charmoso no inverno.
Contando que não houvesse neve, estaria tudo ótimo.
O trabalho andava a mil. Havia descoberto, algumas semanas antes, um pequeno tesouro na faculdade de Malinowski. Depois de achar que faltavam apenas pequenos detalhes para resolver e então poderia aproveitar as semanas derradeiras em stouts, ales e bitters, me peguei trabalhando praticamente durante todo o dia.
Mas vieram as visitas, e também não é que parei de aproveitar o que havia de bom e iria acabar logo.
Foi então que numa quinta-feira gelada, de garoa-quase-neve, encontramos uma festa para ir. Como na música dos brasilienses, estranha, com gente esquisita.
E num lugar bizarro. Era um antigo depósito de carga em King Cross, longe e escondido, agora usualmente usado pelo pessoal rave. Fiquei pendurado no telefone com a promoter, tentando entender onde tinha que virar à esquerda, direita, seguir reto, achar o posto, depois do pub...
Lá chegando achei que seria um fracasso. Nas vielas abandonadas, em meio a galpões velhos e fechados, carros enferrujados e muita escuridão, apenas os organizadores do evento, que se punham postados, de tempos em tempos, orientando os perdidos para onde ir. Mais ninguém. Pareciam tão solitários, parados no frio, no silêncio, como soldados esperando a próxima pessoa a pedir direções. Estranhamente, muito simpáticos e contentes.
Mas uma vez dentro, vi que havia muita gente. Como vieram e por onde chegaram permaneceu um mistério (e como foram embora, porque o lugar era realmente bem fora de mão, sem transporte coletivo depois de uma certa hora).
O mais interessante foi ver como eram os "étnicos" que mandavam no lugar. No centro da pista eram admirados e imitados - não muito bem, por sinal.
Invisíveis e pálidos nos escritórios e nas ruas, debaixo do estrobo e na frente dos falantes, eram diferentes. Fenômeno que vi outras vezes, como numa boate brazuca em plena Holborn.
Mas sou injusto. É a dor de cotovelo falando. Não existem mais festas assim em outras paragens.

terça-feira, março 18, 2008

Cruzada pela moral e pelos bons costumes

Deu para o novo governador de Nova Iorque também admitir suas puladas de cerca - e o capacete de boi recíproco. Deve ter pensado que era melhor falar logo, que descobrirem e causarem um rebu - o que provavelmente aconteceria. Escândalo nos EUA é como mineração: depois que se descobre um veio, toda sorte de aproveitadores e carniceiros afluem como abutres pelo fedor e putrefação até que não reste nada além da memória dos ossos limpos.
Agora, essa honestidade em suspeita levanta algumas questões. A moral da história do paladino antecessor que foi pêgo com a boca na botija tem que ser que, o pior, não foi tanto a rendição às fraquezas da carne, mas a hipocrisia puritana. Isso em um país que leva muito a sério a correlação entre conduta e discurso. "Não mentirás", que para ouvidos sul-americanos soa como um estranho mandamento, é muito pior que "não roubarás".
De fato, há um grande mal estar quando os representantes eleitos do povo mostram-se menos que castos e honestos. O que é estranho, pelo menos no caso americano (e aqui também como no brasileiro), em que há uma desconfiança enorme no histórico moral dos políticos de carreira (talvez isso inclusive tenha agravado a situação de Spitzer, que definitivamente não tem o perfil de político profissional, mas que veio de um meio, digamos, menos suspeito. A traição parece maior).
Parece que a suspeita sempre paira, mas ainda causa choque quando ela se materializa de fato. O que me faz indagar o quanto isso é causado pelo ultraje moral e o quanto é pela decepção, talvez velada, pelo fato de que o cara, enfim, foi pêgo. Incompetente.
E não tem jeito, é como em outras esferas da vida pública - o que causa comoção são os crimes que envolvem sexo, traição. Esses dão ibope. Porque, afinal, não é o eleitorado que tira as maçãs podres do cesto, mas a pressão exercida pelas outras frutas reticentes e receosas da atenção recebida. Essa é razão pela qual fornicadores são guilhotinados e lobbistas, traficantes de armas e genocidas têm cargos vitalícios. Ainda que os corruptos e instigadores de violência estejam em círculos muito mais profundos que os luxuriosos na economia infernal dantesca.
Mas é evidente que não se pode esperar o fim do moralismo tacanho na política. As quatro paredes do poder ainda testemunharão, em silêncio, os horrores humanos. Se essas confissões têm um contexto todo especial para existirem, é importante lembrar que se trata de NY. Sabe quando isso aconteceria em... Utah, digamos?

domingo, março 16, 2008

A nobre arte da dublagem

A única coisa que presta na MTV é o Cine Class.
Recomendo efusivamente.
A mim me dá cãibras de rir!

quinta-feira, março 13, 2008

Outro seriado

Estou assistindo O Triângulo, que em parte acho interessante, mas também um pouco viagem além da conta.
Entretanto fiquei pensando no que o Gustavo me falou outro dia, sobre outra série que adoro. Talvez, se não estivéssemos acompanhando Lost há algum tempo e não estivéssemos tão viciados, provavelmente nos irritaríamos com a prolixidade das teorias alternativas, pseudo-científicas e quase místicas que caracterizam o show nos últimos tempos.
Enfim, sobre o Triângulo, vale a pena assistir pelo Eric Stoltz, ator que sempre gostei e que, afinal, não se perdeu nos anos 80.

PS - correções no post anterior.

quarta-feira, março 12, 2008

Perspectivismo

Outro dia fui na farmácia comprar álcool e soro. Domingo, por sinal. Esse dia vazio e preguiçoso.
O dia não estava dos mais bonitos, mas também não estava ruim. Aproveitaria e andaria um pouco, coisa que não tenho feito muito ultimamente. Quando cheguei na farmácia alguns pingos mais gordos já começavam a cair.
Acabou que comprei as coisas a que fui e fiquei esperando cair o mundo em forma d'água dentro do estabelecimento farmacêutico. Em cinco minutos tudo estava alagado.
Para quem conhece aquele cruzamento da Barreto Leme com Cel Quirino sabe das generosas poças que se formam por lá nessas chuvaradas - ainda que seja muito melhor que em outras regiões do bairro.
Lá esperei, olhando os produtos, a balança, a chuva, os pedestres encharcados, os motoristas com síndrome de rali.
Puxei conversa com um rapaz e acabamos falando sobre a chuva e os transtornos das inundações dali. Ele me contou que o problema é que aquela região toda antes era charco (ou o termo técnico correto) e que a água não tem como escorrer quando ocorrem os temporais, já que o sistema de esgoto é bem precário em decorrência do passado alagadiço da metrópole. Isso lá por volta de 1700.
Não sou versado na história da cidade, mas já havia ouvido explicações parecidas (o mesmo parece ocorrer com São Paulo e o problema com o Ipiranga, ou sejam lá que águas correntes subterrâneas espreitam e conspiram contra os cidadãos insuspeitos). De qualquer maneira, o argumento parecia bem plausível.
Das conjecturas históricas e urbanísticas não demorou para chegarmos no aquecimento global, no derretimento do gelo nos pólos e no aumento da temperatura e do nível do mar.
Mas a ganância do homem não se traduzia, segundo meu interlocutor, em poluição e destruição da camada de ozônio. Ou não apenas isso, de qualquer maneira. Mas é, antes de mais nada, a confirmação da natureza pecadora humana, a prova do sinal, indiscutível, de que a grande tragédia se aproxima - ou assim entendi, com minhas palavras.
Mas qual tragédia, indago?
O fim anunciado, foi a resposta.
A conotação bíblica de um apocalipse talvez menos simbólico (ainda que saturado de sentido) e assustadoramente real ficou logo evidente. E eu estaria equivocado em pensar o contrário.
Equivocado e iludido, porque é claro que a ciência tem sua explicação do fenômeno, mas ela falha miseravelmente quando diz respeito aos desígnios insondáveis saídos de um Velho Testamento vingativo. Tal como os azande, que não têm problema nenhum em admitir que cupins tenham roído o arco mas insistem em lembrar que a madeira ruiu exatamente quando fulano se encontrava debaixo (e, portanto, prova de que feitiçaria se mostra presente), me foi mostrado que os princípios por mim aceitos para explicar os problemas ambientais, eram mais complexos do que imaginava.
No fundo ele me alertava para os sentidos do efeito estufa, e estava de certa forma muito menos restrito quando se tratava de pensar sobre o problema, que evidentemente não é apenas ecológico - ainda que ele mesmo estivesse refém de sua perspectiva e visão de mundo.
Para quê acumular e planejar, quando o melhor, inferi pelos rumos da argumentação, era simplesmente esperar, resignado, o castigo merecido? Uma versão sombria e paradoxal do carpe diem exatamente porque, neste caso, o futuro é certo e o presente intocável.
Voltei para casa um pouco angustiado com o confronto com um outro paradigma e uma outra forma de experenciar, além de bastante molhado.

quarta-feira, março 05, 2008

Gênero do futebol

Há anos que faço etnografia televisiva - com gosto, devo dizer. Não acho que faço mal quando o papo é tv.
Logo depois do almoço eu paro no canal das mesas redondas de futebol - ainda que de vez em quando fique um tempo sem assistir, já que geralmente os argumentos se repetem irritantemente. As análises táticas raramente são compreensíveis e há uma preocupação exagerada de um equivalente politicamente correto nos prognósticos dos jogos - tudo é marcado por um "equilíbrio", e nada é "moleza".
Time X é "melhor tecnicamente", mas Z é "mais coeso e estruturado", enquanto W "passa por uma fase de renovação", entretanto K "tem a tradição a seu favor", só que Y "conta com o fator campo" - contudo, não se pode esquecer da altitude! Isso se traduz, literalmente, em não menosprezar o adversário ou, para quem vê de fora, em não queimar a língua, já que ninguém tem a mínima idéia do que vai acontecer (senão estava rico jogando na loteria esportiva e não apresentando programa). Porque, como dizia o folclórico Vicente Matheus, futebol é uma caixinha de dois legumes. Ou algo equivalente.
No fundo futebol ainda é extremamente marcado por conservadorismos esquisistos (como essa clivagem de gênero de décadas de idade) que, de alguma maneira, ainda conseguem sobreviver neste meio, como que socialmente blindados. Pelo menos no no que diz respeito à tv.
Exemplifico: no programa de hoje surgiu um comentário sobre como o ex-atacante são-paulino Müller está com o corpo conservado mesmo hoje em dia. Rapidamente todos os representantes masculinos se isentaram de comentários com risadinhas de "nessa eu não me meto". Com a exceção de que apenas a comentarista - que é gay, por sinal - presente poderia opinar, porque isso é do "departamento" dela.
E já existiram outras situações parecidas. Parece haver uma fobia exagerada em fornecer qualquer elemento que possibilite acusá-los, mesmo que remotamente, de nada menos que heterossexuais mais do que convictos. Ultra-machos. Duvidar da hombridade dos envolvidos com o esporte é ofensivo, e tabu maior que em outras esferas. É impensável até mesmo admitir que se tenha alguma opinião sobre algo inocente, como as pernas do Roberto Carlos.
Não o rei.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Arte

Pronto. Assisti Tropa de Elite. Desde "across the pond" que eu ouço falar desse filme, e das expressões que dele surgiram e tornaram-se cotidianas (até onde, eu não sei ao certo. Não as ouvi na rua ainda. Não sei se isso quer dizer que exageraram ou se vivo numa bolha elitista). Os pedreiros que azucrinam meu dia, na construção atrás de casa, cantam a maldita musiquinha funk quase todo dia - quando é possível ouvir algo, com todas as marteladas e serra-serra ininterruptas.
E não sei. Já ouvi falar coisas bem diferentes a respeito do longa. Desde "fascista" até "ótima crítica social". Um ponto a favor, para mim, em relação a Cronicamente Inviável, outro chute no saco da classe média que me veio à cabeça: não é nauseante. O tapa de pelica é feito com competência (e talvez maquiavelice), não tanto pelo choque (ainda que o assunto cause isso). Quando você menos vê está torcendo para o tal capitão Nascimento e vendo nos alunos da puc tudo aquilo que abomina nos seus colegas de faculdade.
O filme é construído assim e acredito que o efeito é intencional. Mas não acho que isso seja para tornar os policiais heróis. Acho que é para fazer o espectador se olhar no espelho e fazer o mea culpa e repensar cada prazer efêmero que vem descendo goela abaixo como uma pedra, quando o inferno passa invisível ao lado (e são nos entrecruzamentos deste inferno com nossas trajetórias que ele se torna evidente e passamos mal com nosso egoísmo, natural e teoricamente inocente, mas na realidade carregado de remorso ou ódio. Por isso a tática de enfiar a cabeça no chão). No fundo o que se diz é que a boa intenção não é bem-vinda, ela é hipócrita e os grupos sociais estão cada vez mais e absolutamente incomunicáveis. Nunca nascer em um grupo tornou as pessoas tão maniqueístas e tão à mercê do que elas são permitidas falar e agir.
Acho ainda que o filme tem algo que tenho percebido surgir como um tema atual: resignação. Não derrotismo propriamente. Mas uma denúncia que não tem a pretensão de fornecer uma resposta - quanto menos uma resposta banal, que existe às pencas por aí. E penso que sou mais isso do que comprar diagnósticos canhestros.

Chego então no outro filme que vi. No country for old men. Fui ver o filme esperando alegorias metafísicas (ou no mínimo morais) como, mais claramente, em Barton Fink (até hoje ainda tenho variadas interpretações do simbolismo exibido). Mas ao terminar de assistir fiquei com a impressão de que a maldade é gratuita e não há poesia ou qualquer possibilidade de real dramaturgia em torno do mal. O filme é uma sucessão de anti-climaxes desconcertante. Por quê temos que pensar que deve haver um desfecho previsível? Agora, não sei se é um alerta social ou simplesmente uma crítica à estrutura cinematográfica atual. Arrisco dizer que é mais a segunda opção, utilizando como meio, a primeira.
As pessoas saíam da sala desconfortadas com o inusitado enredo. Indignadas quase. O que há para entender afinal? Qual a lição moral?
Nesse sentido talvez os personagens tenham sido de fato arquétipos de algo. Expressões de confrontos que transpassam o cultural. E, talvez contradizendo o que disse anteriormente, tenham algo de grego. Mas é o herói sem redenção, o mal desglorificado e não punido, o bem despropositado - o oposto do esperado. Os elementos estão lá, mas dispostos e utilizados de uma maneira completamente diferente.
Eu ainda tenho que pensar um pouco sobre o filme para falar mais. Esta é uma primeira impressão. Sei que a Dani quer escrever sobre ele também. Esperarei, pois, querida Cris.

Para terminar a semana cultural, ontem fui para São Paulo assistir uma peça da Ana Carolina, amiga da Dani, que escreveu e atua em um ótimo monólogo. O texto é muito bom, inspirado numa conversa entre as duas (e a trilha inspirada no meu amigo An2), e a performance também excelente.
A história é uma tragédia baseada no estupro de uma menina de classe média, "socialmente esclarecida", e que no fundo é uma caricatura risível de todas as pessoas que têm boas intenções mas que também têm o amparo das instituições e do berço - para qualquer imprevisto, sabe como é.
Achei interessante assistir a peça porque entendi que ela também trata de uma tragédia social desesperadora, porque aparentemente sem solução - para lembrar de outro filme nauseabundo - irreversível. Devo lembrar que tais barbaridades aconteceram na unicamp e na pucc recentemente? E que um número alarmante de pessoas "esclarecidas" acham que a culpa é da mulher, "lasciva"?
No entanto, o buraco é ainda mais embaixo, porque não se trata de um roteiro do holocausto anunciado. Se a denúncia é social, as causas já se tornaram de tal maneira esticadas e espanadas (então insolúveis e irremediáveis), que o prognóstico é dos mais funestos. O mal é súbito, estúpido, não tem anúncio e não permite redenção - "você não sai mais forte no final" seria a coisa mais próxima de uma moral nabukoviana aqui em questão. As coisas acontecem e pronto.

Cena: esperava, na frente do teatro, no centro de São Paulo, praça Roosevelt, falando ao celular com uma amiga. Chega um menino de rua, pedindo dinheiro aos estudantes que tomavam cerveja na calçada. O dono do bar, que funcionava junto ao teatro, afugenta o garoto, instigando-o a "ir cheirar cola ou fumar crack em outro lugar, seu vagabundo". O garoto rebate dizendo que ele não é disso, que têm "consciência e é trabalhador". Ânimos se exaltam e ameaças de pancadas vêm dos dois lados. Enfim o menino ameaça "nóis é do comando e vou vir passar bala em tudo aqui". O pessoal do deixa disso tenta fazer o dono do bar perceber que não vale a pena provocar o guri. Mas fiquei com a impressão de que era menos pela grosseria e pelo preconceito terrível do rapaz, com toda a pinta de estudante de humanas de alguma faculdade paulistana (no bar eram vendidos "livros-cabeça"; comprei a autobiografia do Jean Genet e um livro do Henry Miller enquanto esperava), do que pela real possibilidade do menino voltar com reforços armados e cumprir a promessa.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Documentando diálogos

Foi o Oscar, aquela forçação que adoro assistir, o supra-sumo do excesso e pieguice que, misteriosamente, tem seu charme.
Este ano estou devendo em matéria de cinema. Vi Michael Clayton, que gostei muito, vi o filme da Piaf, que também adorei, e vi o novo Elizabeth, que achei um lixo. Mas acho que foi só. Então não posso realmente emitir um juízo.
Entretanto fiquei com vontade (bem, mais vontade) de ver alguns dos filmes. Em especial Juno, No country for old men, e There will be blood. Daí escrevo algo mais, post dedicado a amiga-xará.
Mas comecei falando do Oscar por outro motivo. Percebi que o prêmio de melhor documentário não foi pro Michael Moore com o filme sobre a saúde pública.
Há tempos que eu não acho que o cara seja documentarista. Na verdade eu não sei se existe a possibilidade de um documentário, se o pensarmos pelos princípios normalmente esperados para um - haja visto as objeções que vêm sendo levantadas em relação a Moore: tendencioso e partidário. A definição do anti-documentário.
Enfim, se é documentário ou propaganda para mim não importa muito. O problema é que a relevância dos filmes de Moore gira em torno exatamente deste ponto. Exemplo de denúncia esclarecida ou lixo partidário?
Agora veio um novo documentário, Manufacturing Dissent, que "mostra" como Moore manipula informações e imagens - ainda que terríveis por si só - para alcançar efeitos bem pouco próximos da realidade, seja o que for isso. Eu acredito que qualquer narrativa construída, editada, é ficção em um grau ou outro. Mas há má intencionalidade e má intencionalidade.
A grande questão - e acho que isso tem muito em comum com o atual governo no poder - é que alguém pode falar que este novo autruísmo delatista é, por sua vez, partidário e interessado. No caso, o império contra-ataca (veja a popularidade que o Mainardi têm conseguido). E pronto, já não se sabe quem fala a verdade - se é que ela existe, ou quem é pior do que quem. E você fica com a impressão de que é manipulado de um lado e de outro por políticos-publicitários da maior competência (e todos os melhores publicitários devem ter ido mesmo para a política, porque propaganda na tv é simplesmente terrível). Mesmo considerando que o documentarista não tem uma agenda e tente ser imparcial.
Um dos piores problemas dos tropeços da pretensa "esquerda" é dar munição para o inimigo. Depois, claro, da decepção em si.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Curriculum Vitae

Um dos seriados que mais gosto de assistir é House.
TV, nos últimos anos, nos EUA e aqui (no caso específico das sitcoms e dos programas importados), perdeu um pouco do estigma midiático de uma década atrás - quando em comparação com o cinema. Não sei se isso começou com Seinfeld, ou Friends, ou algum outro programa, mas notou-se que existia qualidade na telinha. E mais, os seriados ficaram mais valorizados e os atores passaram a ganhar mais, assim como os famigerados roteiristas e demais apêndices do ramo. Emmy ganhou glamour. Bafta ganhou espaço. Screen actors guild reapareceu. Hoje não trabalham na tv apenas os novos rostos. Gente consagrada na película migrou - e não apenas os atores em fim de carreira.
Se ainda não chegou no nível hollywoodiano de prestígio (que diminui exponencialmente, devo acrescentar; junto com a música americana, para mim moribunda), pelo menos trabalhar em seriado é, hoje, uma boa opção de trabalho entre os profissionais da classe.
E Hugh Laurie é um dos melhores atores que apareceram na tela em muito tempo. Acho que poucos conseguiriam tornar seu personagem simpático. Sua atuação é simplesmente deliciosa de assistir.
Enfim, não é exatamente sobre isso que quero falar. Lembrei de House porque esta quarta temporada, para mim não tão boa quanto as outras mas ainda sim excepcional, adicionou uma fórmula cada vez mais difundida que, acho, merece uma certa preocupação. E não pelos motivos banais sempre assinalados pelos cabeças de plantão - "o nível da televisão está horrível". Se isto é verdade, também não é novidade. Me refiro às eliminatórias voyeurísticas em voga.
Para quem não acompanha o programa (e, sério, faça algo a respeito), um rápido resumo:
House, diagnosticista brilhante mas com sérios problemas de relacionamento com o próximo, perdeu toda sua equipe-saco-de-pancada no final da terceira temporada. Agora ele quer contratar três novos pupilos, selecionando-os de um grupo de algumas dezenas de médicos candidatos. A cada episódio (mais ou menos), o sádico processo seletivo prossegue, ao mesmo tempo em que os casos enigmáticos vão acontecendo como de praxe.
Antes de House, que passa às 23:00, vi Hell's Kitchen, o programa do chef-belzebu Gordon Ramsay, em sua terceira temporada. Antes do Hell's Kitchen, vi American Idol, sétima temporada. Nos intervalos ia vendo Big Brother, dia do paredão.
E por aí vai. Deu pra sacar o drama, não?
Agora, neste momento cósmico da atual conjuntura socio-econômica-cultural-política da humanidade, perdida em uma insanidade avaliatória porque, enfim, não há espaço para todos; em que temos um vestibular no final do colegial, depois mestrado, doutorado, pós-doutorado (ou residência, exame da ordem, rachão...) etc; para então tentar concurso público, envio de curriculum, entrevistas, dinâmica de grupo, correr atrás de migalhas significativas, ou simplesmente fazer uma macumba braba para os que lá já estão se aposentem (ou pior); e em que a diminuta diferença que decide uma contratação pode ser porque ciclano faz uma torta de frango melhor que fulano, e em que colegas escondem os livros do exame com propósitos sabotadores... bem, neste momento dog-eat-dog, parece loucura que, nos momentos de lazer, as pessoas queiram ver este tipo de sofrimento, como que para esquecer que nós mesmos temos de enfrentar os ritos e lembrar que há outros igualmente fodidos (e que se sujeitam ao escrutínio público televisionado). Claro, mesmo os reality shows não passam de ficção (ao menos para quem assiste). Mas eu acho que o fenômeno é significativo; e é cruel ter que se deparar com a esquizofrenia da competição diariamente. Mesmo no sofá de sua casa.
É a celebração da provação pela humilhação em que desesperados se sujeitam, voluntariamente, em arena e em meio aos leões.
Vinte anos atrás - agora há pouco em termos evolutivos - meus professores eram contratados, pelas instituições de ponta, ainda na graduação! Como mudou tudo tão rápido? Terá o mundo lotação? Como um elevador? "Capacidade máxima: x bilhões ou y toneladas"?
Quem quer entrar numa joint venture comigo para lançar a idéia de um departamento de antropologia em Marte?

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Nota pop

Post deletado. Não assisto mais BB.

domingo, fevereiro 10, 2008

Temptation

Escrevi um post falando sobre minha quase ida ao "lado negro" profissional, ou o que os malucos que continuam na faculdade depois da graduação chamam, pejorativamente, de "mundo real".
Mas apaguei. O post, digo.
Afinal de contas quanta gente não trabalha em algo que não gosta, mas precisa? Fiquei com a impressão de que dava lição de moral - uma moral que nem levo tanto a sério (nada contra os idealistas. Eu sou um. Ainda que só na mesa do bar). Algo como "fui tentado, mas resolvi ser altaneiro e acreditar no sacrifício em prol da satisfação da alma".
Mas talvez eu simplesmente me recuse a dar o braço a torcer por motivos não muito nobres ou autruístas. Comodidade. Preguiça. Incompetência. Escolha seu veneno. Meus princípios vigoram até o preço certo, o que me faz concluir que eles não são tão fortes assim.
Pensei até em mergulhar de cabeça nesta quase ocupação como uma espécie de experimento antropológico. Entrar na subcultura do "império do mal". Mas chego à conclusão de que não vale a pena. Não agora.
A bem da verdade é que aprendi a pensar e agir de uma maneira, na última década, que não me permite entrever nenhum futuro alternativo de uma certa trajetória esperada. Ai de mim se resolver que não é isso que vou fazer na vida! O pensamento é assustador.
Entretanto, algo de bom surgiu disso tudo. Sei com mais clareza o que não consigo fazer. E fico mais disposto a seguir o que penso gostar. Mesmo que isso possa significar uma vida semi-monástica. Quer dizer, até o dízimo certo.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Sem título

Aprendi muitas coisas com o Beakman. A mais útil era aprender a sonhar com o que desejava. Em princípio de extrema serventia, mas na prática um pouco difícil de alcançar, a técnica deveria ser mais difundida entre os humanos sonhadores. Comigo deu certo algumas vezes...
Ah, o Lester não é o próprio Jean Reno de ratinho?!

Aliás, pensando em look-a-likes... o Antônio Fagundes não está igualzinho ao Paul Sr do American Chopper?

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Proposta

Meu novo bar favorito da última semana (?!) fica pertinho de casa. Não fosse o preço, condizente com os estabelecimentos ao redor (aí é que está: quando todos os bares são caros, isso quer dizer que são caros mesmo? Nevermind. Pergunta retórica e besta. Eu sei a resposta, é apenas difícil de me conformar que fico cada vez mais desmonetarizado), seria meu bar favorito do ano! Ops, isso ele já é. Mas, enfim, não obstante e contudo, 2008 ainda é uma criança, então relevem as opiniões e julgamentos apressados, por favor.
O bar não tem nada demais. Sem cervejas supertrend ou luzes mortiças. Mas - e isso é importante - ele não tem o pessoal que quer sair na coluna social do bairro que vai nos estabelecimentos ao redor E - mais importante ainda - ele não tem telão com futebol! A cerveja é gelada, os sanduíches são muito bons (eles têm um fatiador de frios daqueles de padaria!) e o atendimento decente.
Na verdade o lugar é até meio feinho. Muito branco. Meio insípido.
Mas o cara tem uma coleção de discos muito boa! Não sei quanto tempo isso ainda dura, já que vinil agora é hype e alguns ali valem uma nota. Mas enquanto durar, vou lá, escolher um e pedir pra tocar.
Quem vier me visitar em casa eu levo pro meu novo bar favorito, ok?! Eu fico com ciúmes do meu bar favorito, então só divulgo o nome pra quem vier beber comigo.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Das resoluções, da auto-sabotagem masoquista e dos descaminhos televisivos

Que promessas de fim de ano normalmente ficam apenas como isso: promessas, não é novidade pra ninguém. Apesar de todo mundo sempre se enganar a respeito.
Mas minhas resoluções não estão parecendo muito resolutas nesse começo de 2008.
Eu andei e andei na capital britânica. Havia proposto (a quem?) que iria voltar e continuar com as andanças saudáveis. Quem sabe até dar um upgrade e usar minha bicicleta amarela novinha e enteiada?! Pois bem...
Sem tv por um ano pensei que pudesse me desacostumar com essa praga que me tomava tanto tempo em 2006. Pois, não é que volto pra frente da maldita?! E assisto a fina-flor também! Big Brother 60 e Caminhos do coração!
Claro que essa última veio na onda heroes, que já veio na onda da revitalizada marvel. Mutantes perseguidos e incompreendidos e blá, blá. Nada de novo. Mas que é esquisito ver a fórmula na superprodução evangélica da record, isso é. Só que é divertido de tão absurdo (tenho lá minhas dúvidas se isso é proposital).
Agora, o primeiro, não sei como ainda tem público pra assistir (bem, tem eu). Pessoalzinho triste esse ano...
E é isso, ou então os programas de discussão esportiva. Ou campeonato de pôker. Ou programa importado de cozinha.
Ô miséria.

sábado, janeiro 05, 2008

A volta

Parei!
Ufa, depois de semanas de corre-corre, finalmente tenho um tempinho para escrever um pouco aqui. E olha, já na primeira linha vejo que me sai um texto pessoal, coisa rara neste canto (pelo menos em certo tom; ou então esqueci sobre o que balbucio aqui)!
Mas, vai lá; geralmente não sei sobre o que escreverei até começar a digitar. Então, como diz Sarney, "bããão também"!
As últimas semanas em terras reais foram frias, muito frias. E tentei deixar o mínimo de pontas soltas, que invariavelmente teimam em existir. Voltei carregado de textos, documentos e livros, mas leve de espírito. Voltei para encontrar os que amo e cheguei com o sentimento de que, mesmo tudo saindo completamente diferente do que esperava, fiz lá algo de bom. Agora só preciso alquimizar tudo em algo palatável, como um bom cozinheiro (e olhe que mando a modéstia às favas e digo que me transformei num decente).
Escapamos (eu e fratello) de pegar greve nos aeroportos e fog, muito fog. Nem tudo lá funciona às mil maravilhas...
Cheguei e estava quente, muito quente. 30 graus a mais. E ainda não me habituei a ter que andar semi-nu para sobreviver.
O Ano Novo não ajudou. Calor e sol. Mas cerveja, muita cerveja ajudou. E não é que me acostumei rapidinho com a cevada nacional? Na verdade no dia que cheguei já deu para degustar algumas com minha querida xará. Claro que não consegui contar metade, nem ouvir metade do que preencheu 2007. Mas para isso existe essa maravilhosa invenção, o fim de tarde no boteco...
Mas voltando ao Ano Novo. Lá conheci novo membro da família. Lá comi. E lá pesquei! Ah sim, não podia ter feito coisa melhor! Caneca de cerveja na mão, boné na cabeça, braços queimados de sol e varinha na mão (sem qualquer conotação anatômica). Nada de olhar para o lado esquerdo, nada de me vestir como uma cebola, nada de ter que desviar de milhões de outros desviantes.
Enfim, preciso voltar a saber escrever. I'll be back.

domingo, dezembro 16, 2007

Preparativos

Não imaginava que seria diferente. A correria de última hora. Tantas coisas e tantos lugares que fui "deixando pra depois", sempre pra depois, e agora queria fazer tudo ao mesmo tempo. A tristeza de saber que vou deixar muito inacabado. O que não é de todo mal, imagino.
A minha viagem para as Highlands já era, como acho que terei que deixar o Phantom para a próxima também. Sem contar nos trocentos lugares que ainda não conheci.
E não por falta de vontade e disposição, porque parece que nas últimas semanas tenho ficado na rua constantemente. A pesquisa que ainda guardou umas surpresas. Shows que estou aproveitando. Museus que ainda não vi. Por isso o sumiço também.
Quando penso que estarei de volta, percebo que a ficha ainda não caiu. E não vai cair por muito tempo ainda. Vai ser quando atravessar a rua, quando olhar o céu, quando beber uma cerveja, quando ouvir as pessoas. O estranhamento agora é ao contrário.
E não é só isso que ainda não consigo avaliar direito. Esse ano inteiro valeu por uns 5, e não estou exagerando. Ainda é difícil levar tudo em conta e chegar a qualquer conclusão. Quem sabe mais tarde...
Bem, percebo que este post veio em forma de telegrama. Tudo bem. Estou num clima de urgência mesmo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Arquivos da juventude

Dos jogos de tabuleiro, que já foram muito mais populares do que são hoje (ainda que eu ache que esteja acontecendo um ressurgimento, junto com os videogames), os de guerra eram que os que eu mais gostava. Como Combate, por exemplo, que eu costumava ir bem.
Mas, claro, adorava mesmo era WAR, em todas suas versões (menos o 2, que tinha o recurso dos aviões, que eu achava muito injusto, às vezes aniquilando tudo em poucas rodadas). E WAR rolava até em festinhas mais sossegadas (ou fracassadas).
Mas acho que o motivo por aturar os ânimos exarcebados - que invariavelmente surgiam - talvez fosse porque eu nunca me importava muito em ter meus exércitos dizimados e ser confinado a um único território - coisa que costumava acontecer com uma frequência alarmante. Bem, sempre gostei de ser o underdog, de qualquer maneira.
Além disso meus pais também nunca foram desses que diziam que esses jogos eram imperialistas, que filme de terror era proibido e que manga com leite não pode.
Os monetários também tinham seu apelo. Monopoly, Jogo da Vida, Status. Meu sucesso neste tipo de jogo seguia o mesmo padrão observado no WAR. Mas sair cedo do jogo tinha suas vantagens. Raramente chegava no ponto de saturação, que pode ser tão chato para os participantes do evento - e então ou você se arrasta até o final do suplício ou então interrompe tudo, alternativa broxante. Outra vantagem era que já podia treinar para um proto-antropólogo e assistir o comportamento competitivo dos humanos amigos.
Mas gostava também os de conhecimentos gerais, os de detetive (Detetive, Scotland Yard), os de dado, cartas... Sempre topei entrar numa roda de jogatina (mas, devo dizer, nunca participei de um RPG, não sei direito porque. A única vez que tentei, fiquei o dia todo para fazer um personagem - um lenhador rastreador - e nunca chegamos a começar a jogar de fato).
Mas tinha um jogo que combinava algumas características de jogos distintos: Supremacia, que na época da minha terceira série, mais ou menos, virou uma febre e desbancou, ao menos por um momento (e, não é demais lembrar, no auge da guerra-fria), o WAR.
Geralmente não gosto das regras que permitem uma reviravolta completa na sorte da peleja (como os malditos aviões do WAR 2). Mas esse tinha O recurso apelão por excelência, o que proporcionava um grande apelo, exatamente por sua tosquice.
Se as vias normais da diplomacia, a disputa mercadológica e o confronto armado convencional não funcionassem, ou se a sua paciência esgotasse, você não precisava levar a bola embora, ou chutar o tabuleiro. Simplesmente você comprava uma bomba nuclear e a soltava no território cheio de tropas e estruturas do infeliz ao lado e boa, partimos pra outro tipo de recreação mais inocente.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Livros

Já devo ter mencionado meu cotidiano espartano, não? No TV, no internet, no phone. Por mais que eu fique sem fazer nada, tenho tanto tempo livre que acabo lendo muito. De tudo.
Não sou muito seletivo quando se trata de leitura. Pelo menos quanto ao tipo da prosa. Se estiver bem escrito e interessante, acho que leio até bula de remédio.
Esses dias resolvi retirar um livro de casos do Conan Doyle. Sempre gostei do Sherlock e, morando a apenas uma estação de distância de Baker Street, o detetive sempre acaba aparecendo para me lembrar dessa paixão. Fora o museuzinho no 221b e trocentas bugigangas em tudo quanto é barraquinha turística, o próprio tube trata de celebrar uns de seus mais famosos personagens, com decoração, excertos dos livros, etc.
E não é todo dia que você lê algo que goste e que se passa bem onde você mora, nas mesmas ruas em que você anda. Outro dia li um caso em que Holmes e Watson têm que solucionar um mistério, a pedido do herdeiro do trono bohêmio, em St. Johns Wood, meu bairro! Segundo Doyle, não muito mais que uma periferia calma e frondosa de Londres!
Por sinal, um dia conto um pouco da história do bairro, que fazia parte da grande floresta de Middlesex, propriedade de uma ordem religiosa - os cavaleiros de Malta, ou Hospitalários, ou de São João de Jerusalém, em referência a seu santo padroeiro. Daí o nome.

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Já é moda há algum tempo, mas só outro dia caiu a ficha realmente - do quanto isso é engraçado, para não usar uma palavra mais forte, como "ridículo", i.e.
Romances históricos competem com romances policiais no quesito ficção nas livrarias. Templários parecem ser os preferidos, mas qualquer ordem mais obscura pode virar tema de livro (e convenhamos, quanto mais pode ser dito desses caras?). A contra-partida, já estabelecida (por exemplo, Sherlock Holmes), são os livros policiais e de aventura em série que utilizam um mesmo personagem. Dirk Pitt, Scarpetta, Brennan e por aí vai. A idéia é simples: tornar os protagonistas conhecidos e queridos, familiares.
Agora os livros "históricos" estão pegando um atalho. Simplesmente já usam um personagem conhecido de ante-mão. Poupa-tempo. Você não precisa passar um bom pedaço do livro apresentando o dito cujo.
Um dos que mais proporcionou controvérsia esses tempos foi Michelangelo, transformado em detetive renascentista.
Esses dias estava folheando os lançamentos do tipo blockbuster e achei um deveras curioso: Sigmund Freud, aquele tiozinho tão esculhambado nesta pós-modernidade (e quase vizinho meu, por sinal), em uma viagem para os EUA, deve desvendar um mistério. Um crime foi cometido. A única testemunha, traumatizada. Restam os poderes quase mágicos dessa ciência recém-nascida (então), para resgatar as pistas que levarão os bandidos para trâs das grades.
Bem, eu sugiro um próximo personagem para um romance desse tipo: Malinowski, tiozinho interessante e esquisito. Mas se o grande público não estiver muito interessado ou familiarizado com antropologia, então pode ser, sei lá, Newton ou Shakespeare, que nas horas vagas exercitam poderes de dedução científica ou artística. Ou Marx, que entre capital e manifesto, testemunhou um assassinato num parque londrino e deve usar ferramentas sociológicas para encontrar o criminoso. Para o público lusófono, Camões pode ser uma. Ou quem sabe um mistério envolvendo Colombo, ou então Cabral?
Sacou o padrão?

domingo, novembro 18, 2007

Ode à biografia

Esses dias tenho ficado com a impressão que meu cérebro se transforma em geléia, minha miopia tem aumentado e tenho andado tão curvado que começo a pensar que estou virando Quasímodo.
Imagino que é o preço que tenho que pagar por meu voyerismo e essa minha intromissão. Tenho acordado fantasmas, ressuscitado conversas que há muito descansavam em silêncio. Tento demonstrar respeito, mas não é algo de se sair incólume.
Meu prazer em transformar minha bibliografia em humanos exige um sacrifício. Como se mexer neste equilíbrio passado não fosse tarefa leviana, lidar com os poderes da alquimia e do éter. Nem acho que deveria ser, de qualquer maneira.
Mas não há escapatória, eu mergulho no fluxo da recordação alheia, assumo meu papel de leitor onisciente - ou se preferir, de paranormal e vidente. Sinto o gosto do vício que corre em minhas veias como a endorfina abençoada e entro, no que é jargão corrente do meio basquetebolístico, in the zone.
E contemplo fascinado cada letra, bonita ou feia, cada erro de ortografia, cada declaração de amor, cada relacionamento insuspeito, cada desabafo, cada crítica cáustica, cada exemplo de amizade, cada tristeza e cada sucesso, cada gentileza e cada notícia, e começo a enxergar um filme do passado, em que aquelas pessoas que para mim eram nome apenas, ganham cor, cara, som. Mas então lembro que são vidas que se findaram, ciclos que, ainda que escondidos e enterrados, estão fechados. Essas vozes, tão vivas e tão vibrantes, estão mortas. Essa quase amizade que começo a estabelecer, é via de mão única, e sei que minha própria voz nunca mais chegará em seus ouvidos e que arrisco me machucar.
E chego à conclusão que nunca alguém ficou tão próximo, para então sua distância parecer tão punjente..
Tento retraçar passos e caminhos percorridos, mas estes são tortuosos e muitas vezes desaparecem, sem deixar vestígios. E então tenho que redobrar meus esforços, pensar em outros percursos, e ter que me conformar com o fato de que talvez eles não mais existam. Fico com o gosto, salgado de suor, de algo interrompido, de apenas flashbacks de histórias.
Mas ainda sim tenho que acreditar que essas mesmas vozes ainda merecem ser resgatadas. E então respiro fundo, ajeito meus óculos, estalo as costas e continuo a trabalhar.

quarta-feira, novembro 14, 2007

5 pensamentos ignóbeis:

- Por quê os hotéis não têm décimo terceiro andares? O décimo quarto não vira o décimo terceiro então? Ou, se tem lobby, ou zero, o décimo segundo não é, na realidade, um andar acima? O que importa é o numerinho no elevador?
- Tenho certeza que todo mundo já veio com aquele papo pseudo-cabeça, reservado para a noitada no boteco, de que "celular virou uma necessidade quando antes passávamos muito bem sem", ou o lance fight club de que somos doutrinados a querer coisas que não precisamos. Mas o que significa realmente ter celular? Há 10 anos você não parava o carro, corria pro orelhão e ligava falando "estou indo pra casa".
- Por quê tudo o que é orgânico é bom e tudo o que é transgênico é ruim? O que isso significa, afinal de contas? E qual é dessa esquizofrenia dos estudos (sempre de cientistas canadenses ou alemães; essa galera não tem mais o que fazer?) que falam que o tomate é bom pro coração, mas as sementes podem dar câncer? E aí, como você prefere morrer?
- Por quê nos filmes, quando a pessoa sabe que vai morrer, o que ela realmente quer é um cigarro? Por quê não sexo? Bem, ok, às vezes é um beijo derradeiro...
- Já percebeu que os diretores já montam a cena sabendo que aquele pedaço vai virar trailer, ou pior, vinheta na apresentação dos indicados para o Oscar?

PS - Ando trabalhando tanto que chega a hora de escrever um post não tem como sair nada melhor que isso... sorry.

sábado, novembro 10, 2007

Diary

Captain's log: Today the crew started to get unsettling with the lack of women and the grogue diet. There's an eerie feeling drifting through the ship and the wind is long gone...

Ops, diário errado!

Nova entrada: Hoje avistamos novamente o leviatã. Ela parecia mais curiosa do que agressiva, espiando-nos, cada vez mais próxima, cada vez que subia à superfície. Finalmente ela emparelhou conosco, quase tocando o barco, virou levemente de lado e olhou, assustadoramente ciente, direto em meus olhos! Abriu a bocarra, como se fosse bocejar, e então chamei, convicto de obter uma resposta: "Jonas"? E, um momento depois, certo de que cometi um engano: "Gepeto"?

Affe, qual é dessa temática náutica?

Vamos de novo. Dessa vez vai.
Querido diário: Conheci um dos lugares mais tradicionais da cena musical londrina, o Roundhouse. Há décadas que esta antiga estação transformou-se em um lugar em que as bandas apresentam seu repertório. Hoje o espaço está mais trend do que costumava ser na década de 70, durante o apogeu da cena brit de renovação, mas ainda sim muito divertido, na borda de Camden Town.
Para os filhos do New Wave, o show foi histórico. O público empolgadíssimo (e engraçadíssimo; vocês não imaginam as figuras presentes...) garantiu uma atmosfera animada e leve. Pena que eu estava quase em estado de comatose de tão cansado. ELA, divina e mesmerizante (essa palavra existe?), parece que congelou no tempo. A voz ainda tem potência e o visual ainda fascina.
Só pensei nisso agora, mas acho que o segredo sempre foi misturar a aura femme fatale e o mistério à la Mata Hari com uma fragilidade que inspira caridade (como a vontade de pegar um bichinho abandonado), sempre com os movimentos insinuantes de uma odalisca. Isso faz algum sentido?

quinta-feira, novembro 08, 2007

Busy

Fico um tempo sem escrever por aqui, os assuntos acumulam, as idéias brotam e a vontade de "contar pros amigos" vem. Mas quando finalmente tenho internet na frente da fuça, dá um branco...
Ando correndo muito esse final de ano. E acho que o ritmo não diminui até eu voltar. Tenho passado horas em bibliotecas, todos os dias, pegando todo o material que eu consigo. Já desisti de começar a escrever por aqui. Agora minha missão é coletar dados, dados. Mas as coisas parecem promissoras...
Depois eu dou um relato mais minucioso sobre meus achados, verdadeiras pérolas, devo dizer!
Os arquivos que tenho mexido são bem recentes, coisa de 60, 70 anos (a vantagem de fazer "história da antropologia" é essa). Mas já me deparei com cada coisa... tenho que me concentrar, respirar fundo, e não sair estudando outros arquivos só porque tudo parece tão fasciante e emocionante! Algumas coisas são da época em que do outro lado da poça existiam apenas indiozinhos e uns vikings...

quinta-feira, novembro 01, 2007

Pequeno update

Queridos (considerem distinções de gênero anuladas) amigos antropólogos ou cientistas sociais, não vou ficar falando muito aqui contando como as coisas aqui são diferentes, em termos de recursos, prestígio e oportunidades de pesquisa. Isso porque nem estou no eixo Oxbridge, realmente OUTRO nível (notícia, aliás: Marilyn Strathern está se aposentando e quem vai ocupar sua cadeira em Cambridge é nosso conterrâneo Viveiros de Castro). Ou alguns lugares da Ivy league gringa. Mas ainda sim...
Mas uma das coisas que eu acho realmente incrível é ver e conversar com sua bibliografia! Ontem vi uma palestra interessante do Tim Ingold que, suspeito, já tem cacife suficiente para ser um pouco... excêntrico... nas suas pesquisas. Eu que achava que todo o papo eco-viajante era uma grande metáfora para, sei lá, método biográfico, diferença entre sociologia e antropologia... vi que ele falava exatamente do que ele parecia falar.
Mas, enfim, rolam palestras muito legais por aqui.
Para muitos de meus colegas Judith Butler é um alento para o que pode ser muitas vezes a árida planice teórica moderna. E nada mais chique que assistir uma palestra da moça na LSE! E, devo acrescentar, ela é muito irônica e com ótimo senso de humor! Como diria um professor, um luxo!

Ah, olha que legal! E que faz bem pro ego: o Edson, escritor do blog cujo endereço coloquei aí do lado, publicou um post meu sobre o filme do Joe Strummer! O blog é muito legal, com inúmeros cometários sobre montes de filmes!

Última notícia: agora é contagem regressiva mesmo! Segui conselhos e voltarei no Natal!

domingo, outubro 28, 2007

Praga II - O Retorno

É fato universalmente aceito por todos os seres cientes e dotados de um mínimo senso estético, daqui (seja onde for aqui) até Timbuktu, que as sequências nunca são melhores que os originais. Não têm nem mesmo qualidade semelhante. Exceções, dignas de nota, vão para O Império Contra-Ataca, para As Invasões Bárbaras e possivelmente para Shrek 2.
Mas via de regra, continuações raramente trazem algo de inovador, limitando-se a emular a estrutura de algo que funcionou uma primeira vez. Inevitavelmente vem aquele gosto acre de paródia, de farsa, de que seja lá o que de bom havia pra começo de conversa na história agora acabou em detrimento da lógica caça-níquel cada vez mais em voga e que se ferrem os espectadores porque no fundo são todos uns deslumbrados que têm a mesma mentalidade de viciados em heroína sempre atrás daquela euforia primeva cada vez mais distante e longínqua mas sempre santificada como o graal dos peregrinos.
Mas, enfim, conto que voltei para Praga! E não quero dizer que foi melhor que da outra vez, porque a aventura com Dani e Malu pela terra das consoantes foi demais! Essa vez foi apenas... diferente. Fiz coisas que não fiz da outra vez, então não sei se é justo comparar.
A Praga que vi esse final de semana nem é a mesma Praga de três meses atrás, ensolarada e opressivamente quente. Cheguei num frio, com neblina e chuva, que proporcionaram um cenário todo distinto.
E ao invés do hostel que tremia toda vez que o metrô passava zunindo do lado e que me dava medo de pegar piolho ao dormir na cama, dessa vez tive tratamento vip! Não entrarei em detalhes, mas conto que comi pela primeira vez num restaurante listado no guia Michelin!
Subi os tais 287 degraus da catedral de St. Vitus (e quase sucumbi como resultado), como prometi à minha amiga Ju, fui ver os vitrais e os afrescos do Mucha, fiz uma oração (encomenda de minha avó) na igreja do Menino Jesus de Praga, fiz degustação de cervejas tchecas (maravilhosas e baratíssimas) e camelei muito!
Mas agora, olha que estranho: estava esperando no lobby do hotel a hora do jantar quando chega um dos médicos do grupo e me pergunta "como vai a velhinha, sua vizinha? E aquela história, como ficou?". Demorou até cair a ficha e entender sobre o que ele estava falando...

domingo, outubro 21, 2007

Ratinho em Londres

Quem me conhece sabe que meu modus vivendi não é compatível com barraco. Nunca gostei, nunca vou gostar. Certamente nunca vou fazer (a menos que você me encha o saco! - Já que também não sou dado a contradições. Ou ironia, pelo que me consta).
Enquanto escrevo isso, um barraco está rolando na casa ao lado. Ouço os gritos e reconheço algumas ameaças, suaves e veladas: "You fucking bastard, I'll kill you", "Shut up you fucking slut", bem como uns sons gruturais que impressionantemente estão saindo de gargantas humanas, o rufar de pés correndo e o estrondo de objetos atirados e consequentemente quebrados.
Mas esses vizinhos são escandalosos mesmo. Desde que me mudei pra cá eu ouço berros e promessas de espancamentos e morte. Geralmente é a mãe, quando tenta fazer os filhos irem para a escola de manhã. Ela alcança uma oitava que qualquer cantora sentiria inveja. Aquela que racha cristais e atiça os cães da vizinhança. Nessas ocasiões, a coisa vai esquentando por uns vinte minutos, até que finalmente ela consegue arrastar os fedelhos pra fora (a menos que algum se tranque no banheiro, quando então promessas de arrombamento e aniquilação da porta a pontapés afloram). Mas de vez em quando é o pai que esbraveja e me faz lembrar do lobo mau, assoprando a casa dos porquinhos.
Não sei como ninguém chamou a polícia até agora. Ou pelo menos a super nanny (ou a Trisha, a equivalente da Márcia Goldsmith daqui).
Mas esse é o problema de se morar em apartamento: a chance de você ter um pirado morando perto o suficiente para você ouví-lo, é estatisticamente suficiente para você de fato ter um.
No meu prédio, no Brasil, tenho vizinhos que jogam lixo pela janela, ouvem sertanejo no som da sala imaginando que estão num trio elétrico, ou deixam a tv num volume tão alto que você pode concluir que ou a terceira guerra mundial começou do outro lado da parede ou então alguém está vendo um filme de guerra. Como disse uma vez Palahniuk: "these sound-oholics, these quiet-ophobics".
O prédio em frente (no Brasil) é ainda pior. No apartamento logo em frente, do outro lado da rua, vira e mexe a mulher começa a jogar tudo ao alcance das mãos no marido (uma vez presenciei um chute tão certeiro e espetacular, com uma bola de futebol que marcava por lá, e que tinha como alvo a cabeça do sujeito, que se fosse um olheiro de algum time a convidaria na hora pra fazer um teste no meu clube), ao mesmo tempo que demonstra a excelente forma pulmonar.
Uma vez, um amigo e sua então namorada vieram fazer uma visita. Domingão. No terraço do prédio da frente, que imagino seja a área social, rolava um churrasco básico. De repente, do burburinho das conversas e das ébrias risadas usuais, irrompe um "vou te matar, filha da puta" e a típica sonoplastia da cizânia que normalmente segue tal declaração. Aí ouço uma mulher gritando, histericamente, pra alguém chamar a polícia. Em alguns minutos o terraço fica silencioso e não sei se alguém possuído por completo por um frenesi assassino acabou matando todo mundo capaz de emitir ruídos, ou se a galera começou a se digladiar em outro lugar, mais reservado. Claro que enquanto isso, do nosso lado da rua, havíamos parado de conversar e passamos a apreciar a rusga, com aquela curiosidade macabra que Deus concebeu a todos os primatas deste planeta.
Isso porque meu bairro é considerado de "alto nível". Tem associação de bairro, jornalzinho local, manicure canina, empório, e frutarias orgânico-maníacas caríssimas.
Mas esses vizinhos aqui do lado são diferentes. São também judeus ortodoxos. Não digo isso depreciativamente, como um comentário anti-semita. Pelo contrário, imaginava que aquela galera que vejo toda semana saindo de terninho e de vestido chique da sinagoga, como se todo domingo rolasse um casamento por lá (tem duas sinagogas grandes aqui no bairro) fosse mais civilizado (mas aqui estou em terreno perigoso; não importa o quanto eu profira tolerância, quando o assunto entra por essas bandas identitárias, alguém sempre vai levar pelo lado errado. Como gente muito mais inteligente do que eu já percebeu, nada pior do que o complexo de culpa liberal que tenta balbuciar desculpas pelas injustiças cometidas. Mas, claro, o melhor mesmo é ter cuidado).
Umas semanas atrás eles ergueram uma barraca no jardim (do lado da minha janela). Tipo uma daquelas cabanas de poder que alguns grupos xamanísticos gostam de montar para os rituais de auto-conhecimento. Tinha uma mesinha, um monte de badulaque pendurado (pra mim parecia vudu) e uns canapés - kosher, imagino. A família convidava seus amigos israelitas e ficavam cantando musiquinhas religiosas a plenos pulmões - às 10 horas da noite! O equilavente hebreu das rodinhas de praia, em que algum chato pega o violão e começa a tocar músicas do Legião.
Mas seja lá qual for a data especial (que durou algumas semanas) que suscitou a cantoria no jardim, agora passou, e a oca foi desmontada. Agora, não sei se na verdade sinto saudades dessa época, já que enquanto eles cantavam, pelo menos não se matavam como personagens de um filme do Spike Lee.

This is Halloween


Acho interessante observar algumas diferenças culturais, que não são tão diferentes assim - como datas comemorativas, por exemplo. Explico melhor: temos Natal no Brasil, sabemos o que é Halloween. Mas comemoramos e compreendemos essas datas de outra maneira. São estruturas análogas, mas simbólica e processualmente muito distintas. Inteligíveis, mas historicamente separadas. Mesmo quando são imitadas aparentemente fielmente, o ritual sempre muda.
Quando estudava inglês no In Touch, na era mesozóica, existiam várias atividades culturais extra-classe: teatro, festas, excursões. E no Halloween, como toda escola de inglês que se preze, mergulhávamos na preparação da decoração, as aulas eram em torno do tema, tínhamos festas à fantasia temáticas, por aí vai. E saíamos de monstros e vampiros, pedindo doces pelas casas. Os moradores das redondezas já estavam acostumados, então já não eram pegos de calças arriadas, e sempre tinham um estoque de doces nessa época do ano.
Agora, não quero nem ouvir falar de imperialismo americano e dizer que é uma data que não tem significado no Brasil. Não me venham com uma de Suassuna, porque daí vai ser complicado achar alguém que siga costumes estritamente tupinambá, anauê ou o que seja. O fato é que era divertido, ainda mais porque eu sempre tive uma queda pelo que é gótico, pelo horror, pelo fantástico.
Mas é certo também que Halloween não é de fato muito relevante no Brasil. Pelo menos não tem a mesma importância que tem nos EUA.
Estando em um país anglo-saxão, agora eu vejo como alguns feriados têm mesmo um sabor novo. E a noite das bruxas deixa isso muito explícito. Nos supermercados, nas bancas de frutas da rua, nas delicatessen, você encontra enormes abóboras para se transformarem em Jack-O-Lantern. As lojas vendem máscaras, presas postiças e capas pretas. O comércio se maquia de branco, negro e vermelho, e teias de aranha são penduradas nas vitrines.
Eu acho demais. Quando eu ver como é o Natal eu volto pra contar mais diferenças...

PS - A foto é de autoria de Dan Haskell, que deixou links nos comentários deste post. Sorry about that Dan, but here it is! Cheers!

sábado, outubro 20, 2007

Minhas paranóias

Já parou para pensar sobre aqueles "papagaios de pirata" que saem ao fundo, na sua foto? Alguns se dissolvem na paisagem, mas alguns você acaba reparando. Porque são bonitos, porque estão com uma roupa chamativa, porque estão em foco, na mesa de trás, junto ao monumento sempre lotado... Você nunca mais vai ver essa pessoa. Talvez até passe do lado de alguém que viu, que conheceu, ou que viu ou conheceu alguém que viu ou conheçou (pensando sobre os 6 graus). Mas nunca vai ficar sabendo. As robinsonadas de que falava Marx são mais fortes. Você não é exatamente uma ilha, mas sua vida como você a concebe muitas vezes é. O reconhecimento que algo mais além da mera presença neste planeta e da posse de um polegar opositor liga você a um desconhecido, nem que seja um simples vislumbre, na rua, não é uma opção.
E mais: a chance de você estar inadvertidamente no álbum de fotos de alguém é muito grande. Afinal, todo mundo hoje em dia tem uma câmera digital que leva na viagem ou na festa de aniversário no boteco, ou tem um celular que tira foto, etc. A idéia de que eu permaneço anônimo e congelado, nas lembranças e alegrias de outras pessoas, é assustadora. Só de fotos de viagem para Londres, devo ser residente de dezenas de pastas de imagens; todas, como um fantasma que assombra a famosa faixa de pedestres, atravessando a Abbey Road.

quinta-feira, outubro 18, 2007

"Intelectualmente desfavorecidos?"

Junto com o miguxês e o gerundismo-telemarketeiro, uma das piores pragas do meio comunicativo moderno é o politicamente-corretês.
Mas o politicamente correto está se transformando. Se refinando, diria. A arte de pisar em ovos e não ferir (demais) os sentimentos alheios se desenvolve paralelamente com as crescentes políticas diferenciais voltadas para... bem, para as diferenças (etnia, preferência sexual, credo, aparência, time de futebol...) (o efeito, na prática, é geralmente o oposto, claro: vide imigração, xenofobia, etc).
Se você gosta de jiló vai acabar conseguindo provar que é uma minoria perseguida no meio gastronômico, e tem o direito de comer jiló em paz junto com seus colegas comedores de jiló (e se bobear, conseguir reparações materiais dos comedores de quiabo).
Cada um na sua guilda ou no seu feudo encantados e ai de quem trespassar!
Esse politicamente correto do novo milênio está, de certa forma, se cristalizando na fala e pensamento das pessoas - o que, convenhamos, é um pé no saco. Mas enfim, tem lá seu mérito... o mundo não está mais justo e tolerante, mas pelo menos está mais... polido, ponhamos assim (e talvez mais hipócrita também).
Veja alguns exemplos das expressões e eufemismos que estão se tornando correntes no mundo profissional e que foram compilados por um maluco aqui. Variam do puramente engraçado ao estupidamente cruel:
- Generously proportioned (gordo)
- Wardrobe malfunction (brega)
- Memory failure (mentindo)
- Negative investment return (prejuízo)
Para demitir, essa coisa chatíssima para quem tem que por ventura fazer com algum funcionário (mais chato ainda para esse último), existem vários exemplos. Os membros da equipe que ficaram com o palitinho menor podem ser: "thinned out", "redeployed", "restructured", ou serem passíveis de "headcount management", "personnel ceiling reductions", ou ainda serem aconselhados a "further their career" ou "cut the pigtail". Não é uma graça? O segredo consiste em ferrar com alguém e se sair bem na fita, como se tivesse feito um favor em iluminar o caminho do infeliz.
Você se fodeu de verde e amarelo, mas sai do escritório achando que seu chefe é uma boa pessoa, um cara sensível e decente.
Daqui a pouco chegaremos a um tal nível de refinamento que você vai poder chamar a mãe do outro de biscate e sair ileso. Algo como "sua progenitora é sexualmente caridosa". É. Algo por aí.

terça-feira, outubro 16, 2007

Abulafia

Ultimamente estou ratinho de biblioteca. Não que isso seja algo difícil, ou mesmo ruim, na verdade, dada a natureza das bibliotecas aqui... na já referida do meu bairro, eu encontro até mesmo um Giddens... bem, isso não é tão surpreendente assim, ainda mais aqui na Inglaterra. Mas engraçado que tem um monte de livro do Castells também. mmm, vou até pesquisar melhor o perfil "ciências sociais" das bibliotecas públicas (são literalmente centenas).
Bem, mas as jóias da coroa são evidentemente a British Library e a Senate House. A British Library recebe uma cópia de todo livro impresso no Reino Unido. É lei. É claro que eles têm muita coisa de outros países, além de periódicos, imagens, vídeos, mapas, manuscritos... mas acho que já falei dela, não?
Enfim, é linda, mas não muito prática para minha tática de estudo, que consiste em percorrer as estantes, fuçar os livros em volta daquele que iniciou a pesquisa, ter contato direto com eles. Na BL você acha a referência no computador e faz o pedido. Um funcionário então traz o dito cujo na sua mesa. Um drive thru intelectual, por assim dizer. Meio esterilizado. Provavelmente você encontrará o que está procurando, mas é difícil topar com alguma boa surpresa, ao acaso. No esquema graus de separação transladado à pesquisa bibliográfica, digo.
Mas a Senate House, a biblioteca da Universidade de Londres (que é o colegiado de várias universidades) é diferente. O prédio pra começo de conversa, mais antigo, em forma de lança, parece uma versão menor do Empire State Bulding no coração de Bloomsbury, o bairro intelectual daqui. Vários andares, corredores, alas, sessões, escadas, rampas e elevadores pré-históricos, dos mais variados tamanhos (o que sobe para o sexto andar, o de antropologia, sai da sessão de periódicos do quarto andar e não permite mais que duas pessoas, apertadas), com milhões de livros e revistas adornando as paredes à sua volta. Não tem tantos exempares como na BL, mas ainda sim é a maior biblioteca de Ciências Sociais do Reino Unido!
E cada raridade que se acha... Pimba, pego um livro de 1900 e bolinha e vejo que ninguém o retirou por décadas (bem, isso acontece no ifch também). Acho isso tão legal. Eu resgatei o coitado daquela estante, onde repousou imóvel por anos, quando alguém, que provavelmente não é nem mais um estudante e, quiçá, nem está mais entre nós, e que se interessou pelo mesmo assunto, o usou pela última vez. E eu sei que ninguém vai rasgar o coitado, roubá-lo ou sublinhá-lo, então é bem provável que eu acabe sendo uma pequena parte de sua longa história.
E é divertido que você começa a pegar a lógica e conhecer o lugar apenas depois de ter ido lá umas 10 vezes. Porque fica tudo espalhado. Eu me sinto William (ou Sean Connery) no Nome da Rosa, percorrendo a biblioteca da abadia, bestificado com a enormidade da experiência.
E a sensação de que uma lógica hermenêutica perpassa a biblioteca e seu modo de funcionamento é real e paupável. Como se fosse necessária uma chave cabalística para decifrar o lugar. Ou, fazendo referência a outro maravilhoso livro do Eco, um Abulafia para destrancar os mistérios e as maravilhas do conhecimento, que estão ali esperando quem realmente quiser procurar.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Egotrip

Trocando e-mails com uma querida amiga, resolvi escrever algo sobre essa minha experiência em Londres. Falávamos de solidão, a vida numa cidade nova e a necessidade de descobrir até que ponto gostamos de nós mesmos.
Digo, apesar das visitas que tive e das amigas que tenho aqui, passo a maior parte do tempo sozinho. Dias se passam sem que eu fale com viva alma às vezes. E quando falo é em inglês... Não tenho tv, nem mais a precária internet de antes. Telefone idem (ok, tenho um celular, mas aí não é mais algo da casa; celular está virando um apêndice humano; é tão absurdo sair sem ele como seria sair descalço). As distrações de casa são livros, meu laptop e a cozinha (e não é que aprendi a fazer algumas coisas mais elaboradas que omelete?!).
Nesse ambiente espartano inevitavelmente tenho muito tempo para prestar atenção em mim mesmo, de uma maneira que, arrisco a comparação, carinha que sai andando semanas até Santiago também deve ter. Bem, a capital britânica não deve proporcionar o mesmo tipo de iluminação transcendental que as paragens bascas, e não tive nenhum tipo de epifania ou recebi um chamado. Mas descobri que eu posso me aguentar por um longo tempo. E foi bom saber disso.
Claro, tudo aqui é temporário, sei bem disso. Estou chegando no ponto de saturação, e se não soubesse que logo vou voltar, provavelmente pediria pra passar a régua e cruzaria o oceano novamente. Gostar muito de mim mesmo não basta, logicamente. Essa é a conclusão a que cheguei.
Londres tem seus medos e ameaças, diferentes dos encontrados na terrinha. E nem sei se são mesmo comparáveis, como é inevitável acabar fazendo, ao contar as experiências vividas (alguém poderia argumentar, com certeza com razão, que estatisticamente um lugar é mais seguro que outro, mas não é bem disso que estou falando).
Os loucos, esse medo meio esquisito de ser explodido durante sua viagem pelo transporte público (sacolas e bolsas largadas assumem outra perspectiva), as histórias dos psicopatas que empurram gente no metrô, os que pulam no metrô. Os esmagados no trânsito (geralmente turistas que esquecem da mão inversa). Os vigaristas. Os que são esfaqueados (e, tremei, os londrinos começam a descobrir o que é o medo de arma de fogo). O fato de não saber os sinais, não ajuda, claro. Mas quando você começa a compreender a diferente semântica cotidiana, sua grandiosidade, o absurdo imanente que afinal de contas a define como uma ameaça, este verdadeiro significado de perigo começa a trabalhar em um nível diferente de medo.
Antes que alguém me dedure para a embratur inglesa, me apresso em dizer: me sinto muito mais seguro aqui, sem dúvida. Andar sozinho na rua às 2 da manhã não é uma aventura...
Estou lendo um livro que a Dani encomendou para a pesquisa dela, o já famoso "Muscle" de Sam Fussell. Camille Paglia (essa pessoa, digamos, controversa) tem razão, na orelha do livro: ele parece um relato atual de Alice. Mas, completo, possui também uma pitada de Hunter Thompson e muita, mas muita ironia, humor e graça. Graça que, entretanto, apenas expõe e amplifica o fato de que tudo o que Fussell fala é extremamente assustador. Quem é você senão uma construção esquizóide em face de como você encara as coisas ao seu redor? E, claro, o medo do mundo tem sua parcela de contribuição em como você se faz ser visto pelo outros. A tal ponto que não é risível perguntar se este, mutatis mutandis, não se trata de você mesmo.
Apenas, acho, algumas pessoas se rendem mais absolutamente a maneiras extremas de se proteger.
Enfim, começo a divagar, pra variar. Termino com um lindo e, de certa forma, encorajador verso de Robert Frost que, não tenho dúvidas, teve sua parcela de experiências por vezes assustadoras para descrever esses sentimentos:

The woods are lovely, dark and deep.
But I have promises to keep.
And miles to go before I sleep...
And miles to go before I sleep.

domingo, outubro 14, 2007

Esse final de semana

Esse final de semana tive um programa diferente, mas ao mesmo tempo muito familiar. Fui num bar brasileiro, com a Si, o Chris e a Carol, beber brahma e ouvir DJ Paulão discotecando! Antes de vir para cá parece que era só o que fazia - ouvir black music do DJ Paulão ou seus discípulos nas baladas. Mas eu gosto da ironia de vir para Londres e... ouvir DJ Paulão!
E dessa vez foi diferente. A brasilidade no exterior é diferente. Extremamente mais caricaturizada, mas com um outro apelo. Não sei se é a saudade de casa, uma válvula de escape para toda a estranheza de uma vida num país que não é o seu... e nem é toda hora. Aliás, pra falar a verdade, eu fujo de tudo o que é brasileiro aqui...
De qualquer maneira, adoro dançar (não que eu saiba, mas não precisamos entrar nesse mérito), e gostei muito da noite, bem como do lugar (Guanabara, lá em Holborn, lugar composto metade por brazucas e metade por gringos empolgados que são, por sinal, os mais engraçados que existem). Até relevei o fato de estar pagando 14 reais por cada long neck de brahma (!?) que tomava (e foram muitas). Bem como o fato de que o repertório é decidamente mais comercial que o normal (mas é o que os gringos e os brasileiros migrantes querem ouvir: o samba mais manjado e reconhecível possível) - claro que o Paulão sabia disso.
Fiquei tão passado que quase não consigo ir no Undertones no dia seguinte! Digo quase, porque no final decidi que ia me arrastando mesmo, mas não ia perder o show, que foi muito bom! O resultado é que peguei uma gripe e tenho que apertar o cinto até a próxima bolsa, mas acho que valeu a pena.

Outro efeito colateral foram sonhos esquisitíssimos. Exemplo de um:
Me vejo na tv, de esquis, câmera estilo enduro de corrida, deslizando pra cá e pra lá no gelo, seguindo um pinguim, que é entrevisto por breves momentos, escorregando adiante. Ele me leva até uma competição de off-road - de fiat unos. Eu e um amigo entramos na competição e somos melhores do que imaginávamos. Eu completei o percurso em 1 minuto e 15 segundos, ele um segundo mais rápido. Mudo de canal e finalmente posso ver de onde estou assistindo. É minha casa, e estou assistindo tv com minha prima Ju. Ela come uma pizza e eu um big mac requentado. Na tela agora é a nova novela das oito: descubro que uma personagem, a da Malu Mader, é uma ricaça que é culpada de fraude fiscal nos EUA e foge pro Brasil, mas não conta nada disso pra família, que acha que ela veio de férias. Outro personagem na novela é o Gianfrancesco Guarnieri, que faz um homem que está fugindo de algo. O caseiro do lugar onde ele está escondido, chamado Sebastião, protagonizado por um desses atores clichês (no caso, porteiro, caseiro, motorista), sabe que o cara tem algo a esconder e suborna o coitado do Guarnieri por 400 libras. Ele diz "eu sei que você deve no cartório. Mas pode deixar que o tio Sebastião vai proteger seu segredo direitinho" e dá uma risadinha irônica, ao que o outro replica, ao perceber que estaria constantemente à mercê do safado se não tomasse uma providência "na verdade, eu já tenho um amigo para me proteger", a típica fala de um filme do Jerry Bruckheimer. O sorriso de Sebastião desaparece, substituído por uma expressão de quem não entendeu. E então seu rosto congela, ao perceber que Guarnieri tira um .38 da cintura. Aponta e atira. Eu viro para minha prima e digo "essa novela nova é malvada, mas ainda sim barata".
Vai entender a mente convalescente...

domingo, outubro 07, 2007

Natalidades

Ontem fui numa festinha de aniversario, da linda e sorridente Letícia, que fez seu primeiro aninho de vida aqui na terra da rainha. Brigadeiro, pão de queijo, beijinho e cachorro quente! Como adoro festa de criança...
Aliás, ultimamente parece que só tenho comprado presente pra crianca, indo pra festa de criança... todo mundo está tendo filho! Por um lado isso é meio assustador... quem vai sobrar pra ir pro boteco comigo em breve?!

terça-feira, outubro 02, 2007

Redencao, ou como todas as cagadas sao perdoadas no tiroteio final

Ok amigos, estão com o chocolate quente em mãos e a coberta ao redor dos ombros? Estão preparados para ouvir uma história verdadeiramente assustadora? A história, esta que está para ser narrada, é, entre outras coisas, sobre um assassino arrependido em busca de uma figura paterna. Mas antes do dobrar dos sinos, por assim dizer; antes do desfecho desta saga repleta de falso glamour e segredos assombrosos, saberemos algo sobre alguns dos mais conhecidos artistas cujas alcunhas adornam as estrelas nas calçadas hollywoodianas, um ensandecido-mas-de-bom-coração escritor de screenplay, bem como sobre um complô internacional de proporções gigantescas e outras besteiras.

Encontramos nosso primeiro protagonista reclinado sobre uma perna num ângulo improvável. Sua perna. Completamente inconsciente, quebrada, inútil. Se aproximarmos, zoom!, close up!, e dissiparmos um pouco da escuridão que, de outra maneira deixa os detalhes completamente invisíveis, é possível perceber que ele está ensopado. Um líquido viscoso. Como ouvimos um arfar resignado, aliviado, mas alto o suficiente para perceber dor, somamos um mais um e, voilá, está sangrando. Muito. Estará morrendo?
Se pudéssemos nos valer do olfato agora, saberíamos que além do cheiro de mofo que impregna o recinto escuro, tiros foram disparados. Aquele fedor de pólvora que se dissipará em breve, deixando apenas o cheiro de medo. E morte. Mas como vocês não podem sentir estes odores, terão que confiar em mim neste ponto. Mas sou um narrador honesto. Tanto quanto narradores podem ser, de qualquer maneira.
O zoom agora é o suficiente para discernirmos alguns traços. O cabelo empastado no rosto, o terno elegante-ainda-que-arruinado, o sorriso. Nosso protagonista sorri, apesar do óbvio tormento. E então uma voz sai do negrume de um canto insuspeito, alguns metros à esquerda. Não está só. Ele volta seu rosto para a direção da voz, ainda fraca e indistinta para entendermos algo.
- Maldito complexo de Cluster de vocês americanos. De onde vem essa idéia de morrer... como vocês dizem... "in a blaze of glory"? Esse derradeiro sacrifício grandioso que vocês anseiam para o apagar das luzes? Há algo de realmente nobre em ir dessa maneira? Todos os pecados são perdoados no tiroteio final?
- Que merda você falando? Responde a voz, finalmente forte o suficiente para se fazer ouvida. Uma tosse atormentada.
- Estou falando de Butch Cassidy e Sundance Kid. De Dirty Dozen. Da porra do Young Guns. De Magnificent Seven. Bem... esse aí vem do Kurosawa... mas você sabe do que estou falando, mate.
- Você poderia estar falando de você, não é chapa? O que você acha que acabou de acontecer por aqui além de uma cena saída de um filme do John Woo?
- Sim, mas não tínhamos alternativa. E não acho tudo isso poético, ou mesmo grandioso... Ainda que ache tudo estranhamente engraçado agora que aconteceu...
Risos entrecortados com uma tosse excruciante.
- Para sua informação, nunca gostei desses filmes.
- Ah, blasfêmia.
- Vai se foder. É verdade.
Silêncio de alguns segundos. Insuportáveis.
- O que você está pensando? Não acredita que exista um americano que escape dessa sua grande teoria sociológica?
- Não, estava pensando no meu tio, Alzheimer.
- Seu tio tem Alzheimer?
- Ele se chamava Alzheimer.
- Como a doença?
- Ele era filho do homem que diagnosticou a síndrome.
- Como as doenças têm nome de pessoas, afinal de contas?
- Ei, pode não ser tão glamouroso como batizar cometas ou alguma porcaria de fórmula, mas se você trabalhou duro para descobrir algo científico, não gostaria de entrar para a história, mesmo que seu nome seja odiado e temido toda vez que fosse pronunciado?
- Não sei. Acho que não. A idéia não me agrada nem um pouco. E não é que vão lembrar de mim, de qualquer maneira. Apenas uma palavra, um nome descarnado. Lou-Gehrig. Parkinson. Cushing. Você sabe algo sobre esses tipos?
- Não. Você tem um ponto aí. Mas eu também não gostaria de ser lembrado assim. Apenas lembrei de meu tio agora.
- O que ele te disse afinal?
- Quando eu era apenas uma criança ele já era muito velho. Morava perto da minha escola, então eu costumava ir para lá depois da aula e lhe fazer companhia até minha mãe vir me buscar. Normalmente ele ficava ali, apenas olhando pela janela, sem dizer muita coisa, e eu me acostumei a brincar sozinho na sua sala. Um dia, me lembro como se fosse ontem, estava imaginando uma aventura de índios e cowboys quando ele saiu do seu transe usual, olhou para mim e fez um sinal para que me aproximasse. Esperou até que eu estivesse muito perto e sussurrou "nunca confie num escritor de screenplay".
- O que ele quis dizer com isso?
- Não sei. Ele tinha Alzheimer. Ele não falava nada com nada.
- Vai se foder. Você está zoando comigo.
- Ei, história verdadeira. Mas fico pensando se ele não tinha razão. Veja onde nós paramos. Tudo por culpa daquele filha da puta.
A segunda voz pareceu concordar com um suspiro e novamente fizeram silêncio solene, antes da escuridão aumentar. Inexorável.
Fade out.

Mas agora já nos aproximamos do final de nossa história. Deixe-me voltar alguns dias, longe da ensolarada Los Angeles, para a úmida e fria Londres...

continua...