sábado, novembro 28, 2015

Escutar, esperar e ler



Ainda que de vez em quando goste tanto de um livro que o leia de novo, isso não acontece com muita frequência, claro. E nunca tinha lido duas vezes um livro em uma semana. Mas esse livro, de que quero falar hoje, é especial.

Até menos de um mês atrás nem sequer o conhecia ou tinha ouvido falar, assim como ao seu autor, Jim Dogde – desses escritores americanos que cresceram nos 60 e que ainda teimam em impingir no mundo alguma cor e alguma esperança.

Ganhei o livro da minha querida amiga Karina, que o deu como combo junto a outro (o Flush da Virginia Woolf) e o recomendou muito, me assegurando que seria uma leitura “de uma sentada”: seria rápida e valeria a pena. Prometi que leria e fui enfrentar a vida nos dias seguintes.

E então passei dias bem complicados na semana passada. Muito trabalho, sim, mas também tive aquela tristeza meio irresistível de quando nos decepcionamos com o mundo. Então a Karina me disse novamente para ler o livro, que eu iria gostar.

E assim, um dia depois, numa manhã de domingo preguiçosa, tendo dormido mais do que o comum para fazer as pazes com a minha paixão pelas coisas, eu li. Na cama, deitado – e não sentado como recomendado. Mas valeu a pena mesmo assim.

Ah, esqueço de dizer qual é o livro, né? O livro chama Fup e conta a história de uma patinha meio desengonçada, bastante geniosa e que ainda não sabe voar; mas também de Miúdo, um moço grande fazedor de cercas e seu avô Jake, fazedor de um whiskey especial e de impropérios torrenciais. Ambos moradores de um desses cantinhos perdidos no mato americano, esquecidos pelo governo (aparentemente) e por Deus (talvez menos aparentemente). Pessoas simples que vivem aventuras que nunca chegariam a inspirar ou assombrar mais alguém não fosse a imaginação de algum escritor preocupado com as coisas pequenas.

A história é singela, como são as personagens, e como é a escrita. Ao final do livro a gente não pode não ter a impressão de que há uma mensagem muito importante sendo contada, mas de uma maneira tão simples que tudo o que aparece como significativo o é de forma franca e lindamente aberta, resistindo àquelas interpretações corretas e autorizadas. E acho que é isso mesmo o que o Jim Dodge gostaria, deixando o desfecho propositadamente mais fantástico, ao menos até que ficasse novamente mais claro, “em direção a alguma nova coerência” (p. 89).

E essa humildade e essa escrita despretensiosa cativam desde o primeiro momento. A simplicidade da vida de vovô Jake e Miúdo, personagens apaixonantes, nos chama atenção para a beleza da quietude, da possibilidade do escutar-se. E escutar também outras coisas.

Como todas as pessoas com a vida simples, elas percebem mais claramente o relacionamento que têm com as coisas, com os animais sobretudo – é assim que podemos entender a relação com o porco do mato Cerra-Dentes, apenas aparentemente o inimigo, destruidor das cercas feitas por Miúdo e matador do cão Patrão. Não surpreendentemente, Cerra-Dentes é intrépido e silencioso e, assim, tão imortal como o quase centenário Jake. Mas é sobretudo com Fup – essa patinha tão incrível, que aprende a voar renascendo, quando Miúdo realmente passa a ouvir – que podemos acompanhar esse diálogo com a natureza. Há, ao longo da narrativa, uma espécie de tensão vital vinda dessa relação, revelada na advertência do índio Sete Luas, amigo silencioso de Jake, que por “reverência ou desconfiança da linguagem” (p. 74), sabiamente lembra que tudo anseia por ser selvagem.

Aprendemos que podemos ouvir, mas que não precisamos explicar tudo. Aliás, talvez as explicações sejam enganadoras. Será que Fup era uma boa farejadora, quando saía com Miúdo nas expedições de domingo? É o vovô Jake, com a experiência que apenas a paciência da imortalidade confere a alguém, que lembra que “não havia necessidade de provar nada, que a maior parte das coisas fala por si mesma, mas que também não devia presumir que todos os seus raciocínios fossem necessariamente corretos. As razões das coisas, advertiu vovô, eram complicadas” (p. 67).

E talvez nos baste perceber que nos apressamos nas nossas conclusões e nos nossos julgamentos. É o mesmo Jake que pondera se, na verdade, Cerra-Dentes não estava, como inicialmente pensaram, de fato tentando matar Fup, naquele dia em que Miúdo a encontrou encolhida num buraco de cerca cheio de lama. Mas tentando salvá-la – assim como ela tentou poupar o porco, na mira da espingarda de Miúdo. Que seriam das nossas ações e nossas escolhas então? Que tipo de voo, que tipo de liberdade alcançaríamos, mesmo na realização da morte?

É a narrativa de uma linda história que pode se atrasar um pouco – porque se atrasando, como Fup fazia com Miúdo em suas rondas caçadoras, talvez boas coisas viessem e um porco do mato vivesse. Como seria bom também pausar de vez em quando. Como vovô Jake depois de se acidentar tentando ensinar Fup a voar: “Sentia-se fatigado. Tinha uma necessidade enorme de descansar. Andava levando porradas violentas ultimamente e precisava pensar no assunto, entender o que, com os diabos, andava acontecendo. Havia alguma coisa, isso era certo. Mas também tinha certeza de que provavelmente jamais entenderia o que era, e isso contribuía fortemente para que se sentisse exausto. Era um quebra-cabeça em que nem todas as peças cabiam. Sabia que era melhor acostumar-se com isso, se fosse levar a sério esse negócio de imortalidade” (pp. 84-85).

Ler (e reler) Fup, nesses dias, me fez pensar um pouco sobre essas pausas, esses mistérios, para escutar coisas. E pensar na beleza não da vida como deveria. Nem, tampouco, da vida como queremos – talvez o grande engano. Mas da vida como poderia.


As citações correspondem à edição em português de Fup, de Jim Dodge, publicado pela José Olympio em 2006 e traduzido por Melanie Laterman.


O maravilhoso desenho da Fup é da querida Karina Kuschnir, antropóloga e artista, minha amiga – que já tinha me desenhado uma Fup estatelada no chão e que agora fez mais novas versões para ilustrar este post tão feliz e tão importante pra mim.

sábado, novembro 21, 2015

Vida simples

A vida era tão mais simples.

Quando? Bem, a resposta está no tempo verbal da frase. Sempre tive a impressão que a vida ia complicando, complicando. Lembro do tempo da jovem adultice com certa nostalgia. E nessa época, lembrava da adolescência, achando que aí sim é que as coisas eram tranquilas (mesmo não parecendo, então). A exceção é justamente a adolescência. A infância, sim, que era boa, mas eu ansiava pelos anos balzaquianos - quando poderia, finalmente, fazer as coisas que queria. Tolice.

Ou pelo menos era assim que eu pensava. Na loucura dos que se deixam levar pela ilusão da felicidade esvanecente eu paro e penso "não vale a pena". Não é assim que vou fazer o começo do restante da minha vida (para torcer o bordão que todos conhecem e quase ninguém entende - mesmo tendo visto o filme, olha só!).

E é tão fácil se perder nessa vaga, tão esperada que torna-se quase inexorável. E sabe o que é pior? É que é mais fácil ainda que isso tudo seja confirmado, quando reagimos a isso de maneira intempestiva. Melhor deixar passar, claro. Mas é fácil falar.

O que me traz ao como. Como a vida era mais simples? Não sei. Mas suspeito que a resposta também esteja no tempo verbal. E esse nosso medo de que é tarde demais? Que o que começamos, começamos. Mas o que nessa altura do campeonato não fizemos, bem...

Mas o que de fato começamos, quando? Continuo começando. Continuo começando. E a beleza do que ainda está por vir me diz para não entrar na loucura dos que desistiram e que atraem a desistência.

Não é fácil. Mas aí chego na razão: porque somos nós que fazemos sentidos. E, no final das contas, é simples sim.

domingo, novembro 15, 2015

Um céu estrelado

Semana mais do que corrida, continuo adiando a recapitulação do hiato de 5 anos sem blog. Um pouquinho só mais de paciência, tá? Mas ao menos eu me lembrei de uma história que aconteceu nesse meio tempo! Já é alguma coisa, né?

A história é rapidinha, porque conto só o final dela. Depois posso contar o resto, quem sabe...

*******

Em 2013 fui na REA/ABANNE, que é o congresso do Norte-Nordeste-Equatorial de Antropologia. Foi em Boa Vista, RR. Lugar incrível, cheio de espaços esquisitíssimos, de cidade e mato - incrivelmente coexistentes, pra alguém de São Paulo: Ali do lado da avenida, um cais, com uns barquinhos, pra você ir para os igarapés deliciosos e nadar com a turma antropológica, fugir um pouco do calor.

Bom, dando um fast foward, fui com minha amiga Marisa (ex colega de Unicamp e professora na UFRR, que me abrigou lá), e minha amiga Sel (que agora tá na UNILA), pra Lethem, na Guiana. A viagem, de Boa Vista até lá, não é longe, mas um pouco demorada. Mas o lugar é lindo e vale muito a pena! A cidade parecia parada no tempo (coisa feia pra antropólogo dizer, né?), uma gracinha. Umas lojas indianas vende-tudo, umas casinhas, um posto de gasolina da década de 50, um pequeno aeroporto, uma lojinha de uma curandeira, uma padaria, mais umas lojinhas aleatórias, um maravilhoso mercado municipal todo de madeira onde comemos muitíssimo bem, e um barzinho, com guinness muito barata e gelada (quê, você acha que é possível tomar guinness na temperatura ambiente na Guiana?!). Tudo muito calmo, com algumas crianças nadando no rio, um pessoal sentado na varanda vendo a eternidade passar...

Mas o que eu me lembrei foi a viagem de volta. Queríamos voltar logo, para não dirigir de noite, mas o remédio que a Marisa pediu (pra dor de cabeça) demorou um pouco pra ficar pronto, na loja da curandeira-xamã local. A noite nos alcançou na metade do caminho, de uma estrada muito, muito esburacada, de volta ao Brasil.

Perdido por um, perdido por mil, é o que dizem, né? Pois bem. Paramos o carro na estrada (não é que tinha qualquer risco de alguém passar por ali naquela hora, naquele lugar, e nos abarroar), desligamos o farol (de novo, sem risco nenhum de vir algum carro desgovernado ali) e ficamos olhando o céu. O céu mais lindo da minha vida. Não sabia que era possível ver tantas estrelas. Longe de qualquer cidade, o negro acima de nossas cabeças mostra tantas luzes que parece mágico.

E ali, no meio do nada, entre a Guiana e o Brasil, só um pouquinho ao norte do equador, eu pude perceber como há um mundo, literalmente, que eu não conheço e do qual sei muito, muito pouco. Um mundo bonito, misterioso, alheio ao meu próprio quinhão cotidiano (por vezes doce, por vezes amargo), que vai continuar lá mesmo depois que eu voltar pra casa.

Em tempos tão duros, tão tristes, foi bom lembrar disso hoje. Quando eu começo a achar que as coisas estão cagadas demais, feias demais, é uma felicidade saber que a despeito das bombas, há lugares em que você consegue enxergar todo o firmamento e que lá a humanidade entra em perspectiva.

domingo, novembro 08, 2015

O Rio de Janeiro continua lindo, ou a promessa da recapitulação

Um pouquinho atrasado (de novo) e coisa rápida. Mas não queria deixar passar a ideia de um post por semana. Fica como um update.

Aliás, talvez os próximos posts sejam assim, até o mês que vem. Entro num regime meio insano de final de semestre, então o tempo, sempre ele, vai ficar um pouco curto. Mas ao mesmo tempo já entro naquela fase "vislumbrando a reta final"!

Um dos motivos por não ter escrito ontem foi que estava viajando de volta pra casa. Fui rapidinho pro Rio, lugar que adoro, mas que há alguns anos não ia. Sempre me sinto bem indo pra lá - e dessa vez não foi diferente. Fiz passeios muito bacanas, tive boas conversas de trabalho e encontrei pessoas queridas!

Como deve ter ficado subtendido pelo post da semana passada, tive que fazer alguns exames por conta de um desconforto constante nos últimos tempos - e que chegou naquele nível que não dava mais pra ignorar e empurrar com a barriga. Descobri que estou com refluxo (mais precisamente hérnia de hiato), algo muito chato realmente, mas que pelo jeito é tratável sem muito problema e que tem a estranha vantagem de me fazer tentar seguir um regime mais saudável. Aquele que os nutricionistas falam que a gente deveria fazer de qualquer maneira, sabe? Comer menos nas refeições, fazer lanches intermediários, comer menos fritura, jantar pouco e não dormir logo depois disso. Vamos ver, vai ser um pouco difícil refazer hábitos alimentares - como é mudar qualquer coisa cotidiana - mas a alternativa não é muito bacana, acredite.

E tenho uma boa nova. Mas que não vale a pena contar sem antes dar um pequeno resumo de algumas das coisas que aconteceram com a minha vidinha desde 2010, o último post da primeira fase, digamos assim, do blog. Então fica aqui pelo menos a promessa de que, quando conseguir, nas próximas semanas, faço um pequeno resumo dos últimos 5 anos, tudo bem? Coisa fácil, pá pum, easy peasy lemon squeezy, síntese é comigo mesmo!

(Na foto, a linda Lagoa Rodrigo de Freitas, durante passeio com minha amiga Karina. O dia estava nublado, mas sabe que eu até gosto do Rio assim também?)


domingo, novembro 01, 2015

Conversa de consultório

Post um pouco atrasado... era pra ter saído ontem. Eu já estava escrevendo toda uma crítica social espirituosa e um pouco apimentada. Mas resolvi que ia deixar guardado, o texto. Quem sabe depois... quem sabe nunca... tenho ficado cansado do embate tosco e polarizado.

Ao invés disso, um post mais breve, mais light. E um pouco estranho.

Tenho tido umas dores esquisitas ultimamente. Que me fizeram cortar o glúten (e agora, querendo cortar o leite, pra ver se ajuda) e, essa semana, fazer alguns exames meio que a contragosto. Um deles, uma endoscopia, me rendeu uma conversa que (não) tento contar mais adiante.

***

Lá fui eu, sexta cedinho, de jejum, no consultório de gastrologia. É incrível porque é uma verdadeira linha de produção, para um exame não tão simples. Espera na salinha com mesas com revistas de variedade, entra na outra salinha, deita de lado na maca, ganha agulha na mão, "ai, dói", toma um gás na fuça, apaga. Repete o processo com o próximo alguns minutinhos depois. Eu ganhei um baita de um hematoma na mão por conta dessa agilidade.

E aí acordo, talvez meia hora depois, não sei, não lembro, em outra salinha ainda, numa poltroninha reclinável, ao lado de outras pessoas desacordadas em suas poltroninhas reclináveis. Cena estranha, né? Também achei. Eu que não tenho lembrança nenhuma de ser carregado, como vi uma moça que estava chegando nesta terceira salinha ser. Ainda bem grogue, fiquei olhando para as outras 3 pessoas ali apagadas (uma enfermeira por duas vezes ficou chamando uma delas, ainda na maca, mas nada, nem um sinal, mesmo com uma sacudida). Estava tentando entender o que tinha acontecido. Nem nas piores bebedeiras eu fico sem me lembrar de nada.

Fiquei vendo as pessoas apagadas e uma outra moça, mais velha, que estava olhando sonolenta pros lados, como uma passageira de avião acordando depois de uma turbulência, ou depois das luzes se acenderem; e então tentar se localizar - justamente o que não dá pra fazer num avião em movimento. Você espera a familiaridade da sua cama, então demora um pouquinho pra perceber onde está. Não sei se é uma sensação necessariamente ruim, mas beira o surreal.

Dois minutinhos, a moça, já mais consciente, é levada para outra salinha (quantas salinhas existem?). Espero mais um pouco e logo uma enfermeira (será a mesma de antes?), que já percebeu que estou acordado, se aproxima, pega no meu braço e me leva dali.

Chego na mesma salinha (a quarta, se você não está contando) da moça que acabou de ser levada. Ela está sentada na frente de uma mesa, tomando chá e comendo bolachas. Começo a fazer o mesmo. O chá está bom, a bolacha também. Mas também, depois de horas de jejum de comida e bebida, qualquer coisa ia ser bem vinda!

E aí começa uma conversa estranha, devagar, arrastada. Os raciocínios ainda nublados, ainda acordando, tentando entrar em movimento. Falamos de nossos sintomas, claro. Por quê estamos ali? Não é por causa do chá - que está muito bom, por sinal. Falamos do stress da vida cotidiana. Seria inevitável chegar no assunto Cantareira ou na lama da crise nacional? Aquela conversa de reconhecimento de território nos não-lugares, de que fala o Augé? Dos shoppings e aeroportos, espaços de passagem em que as fronteiras sociais estão sendo justamente testadas e o ressentimento aflora?

Mas não. Descobrimos que gostamos de quadrinhos. Conversa vai e vem; algum tempo depois chega a enfermeira (será outra?), trazendo um rapaz, que deve ter acordado recentemente, que senta-se e pega seu copo de chá e sua cota de bolachas. A enfermeira então pergunta se estamos bem para irmos. -Só mais um pouco, já já. A conversa está boa, o chá não muito quente, não sei em que sala estou. Fight the power, resistimos ao sistema!

Foram ótimos - o que, 10 minutos? No final fomos levados para a sala da entrada (essa bem grande), fora do labirinto clínico. Me despedi da minha amiga, que nem sei o nome. "Boa sorte, heim?!", "Tchau!".

O problema é que eu não lembro do que falamos sobre os quadrinhos...

sábado, outubro 24, 2015

Era uma vez... muito tempo atrás, num espaço bem, bem longe...

Aviso: parte deste post fará sentido em dois meses, aproximadamente (assim espero, será?). Sim, lá pelo dia 25 de dezembro (ou no entorno, se eu estiver empanturrado de pernil ou muito bêbado de cidra cereser no dia de Natal) eu escreverei um outro post, neste blog mesmo, acessível aqui. ("aqui" é o link que hoje, 24 de outubro, ainda não existe)

É, por um lado, uma experiência, por outro, uma homenagem ao Chris Claremont, roteirista de quadrinhos americano e que eu admirava muito quando moleque e que, não sei porque cargas d'água, lembrei esses dias e que me inspirou pra esse post, mas sobre quem eu já tinha falado aqui.

Lendo as histórias do meu xará não havia como não ter a impressão que ele pensava coisas com anos de antecedência, na composição da trama dos heróis nos quadrinhos. Sobretudo em quadrinhos isso é difícil de fazer, já que normalmente é uma mídia bastante imediatista e, na verdade, longe de intocável nos cânones que constrói. As histórias dos personagens são constantemente ignoradas pelos roteiristas, que resolvem criar uma nova origem, uma nova saga... as vezes mudando completamente o perfil de um personagem já estabelecido. É relativamente comum isso no mundo da oitava arte.

Então eu ficava realmente impressionado com as histórias do Claremont: quando relia alguma, depois de um tempo, eu percebia que ele já havia lançado alguma pista, que na época da publicação poderia muito bem passar despercebida, mas que, anos depois, faria sentido à luz do que vinha posteriormente. Seria um roteirista de quadrinhos fenomenologista? (peço desculpas, piramos numa discussão sobre fenomenologia essa semana, lendo o bonito livro do Rabinow sobre Marrocos: no livro, na sua própria organização, o sentido de algo é dado pelos efeitos, retrospectivos, digamos assim, do que vem depois. Ou algo assim, esqueçam isso. E é besteira, não tem nada de fenomenologia nesse futurismo bobo - é só alguém que planejava bem suas histórias e tinha uns bons truques na manga - o Claremont, não o Rabinow! Sim, pois é. De qualquer forma, esse começar do meio pra ir pro começo não dá certo... -atenção! Referência ao experimento!! Até que dê certo!)

Pois bem, essa experiência de atualização de uma memória que não é só minha, mas que ainda assim é única para mim, deve acontecer na reflexão no futuro!

***

Ao contrário de Humphrey Bogart (1899-1957), que em certo momento de sua carreira já havia consolidado uma imagem na sua persona artística (do personagem durão, mas com uma vulnerabilidade desarmante), apesar da descontinuidade com sua origem social (o que aconteceu, muitas vezes, à sua própria revelia, como o período de sua produção durante a guerra mostrou, como fundamental neste processo, sobretudo com O Falcão Maltês, 1941, Casablanca, 1942), como conta lindamente o meu amigo Felipe, que agora acaba de lançar em livro sua dissertação de mestrado, temos um caso aparentemente diferente, até mesmo invertido, com o Henry Fonda (1905-1982), que quando protagonizou o hiper vilão Frank em Era uma Vez no Oeste (1968), chocou o público e fez desta quebra do pacto (mesmo que ao reconhecê-lo), um dos elementos da imortalidade do que muitos consideram a obra prima de Sergio Leone (1929-1989).

Claro, são contextos completamente diferentes, como me lembrou o Felipe nessa semana, durante o lançamento do seu livro. Filmado na Espanha, o western do Leone não se encaixava exatamente no contexto clássico de Hollywood, mesmo lançando e relançando atores e atrizes ícones do cinema mainstream americano, uma certa tradição européia (mais precisamente, italiana), estava indelevelmente impressa em cada frame de Era uma Vez no Oeste (e em outros filmes do Leone deste período).

O momento também era diferente. Em 1968, ano do lançamento de Era uma Vez... algumas das convenções de gênero mais estruturantes do cinema já estavam consolidadas (algumas das quais graças à relação de Bogart com outros representantes dos grandes estúdios). Mas talvez exatamente por isso, o que o Felipe mostra para os atores e atrizes de Hollywood, cuja vida e trajetória, esmiuçada na tensão entre performance e persona e origem, revela um espaço de atuação (literalmente) bastante limitado no meio das disputas mobilizadas pelos grandes estúdios e rebatidas pela audiência cada vez maior e mais relevante na constituição da "Indústria", talvez possamos contrapor com o que faz Leone, para pensar em uma espécie de sociologia feita pelo diretor italiano. Justamente por subverter uma análise do universo hollywoodiano.

Em 1968, ao contrário daquele momento definidor do período da guerra para Bogart, Fonda já era um ator com seu lugar consolidado em Hollywood. Mas é exatamente aí que acontece a subversão. Leone tinha plena consciência de que o público estava acostumado a associar Fonda com personagens bons, heróis, moralmente superiores. E é através de uma ressignificação, processada tecnicamente com maestria, dos olhos azuis angelicais, sinceros, capturados nos famosos e idiossincráticos zoons de Leone, possibilitada pela nova composição, com o afastamento mínimo da câmera, que agora ajuda a compor o retrato de um homem vil, sádico, justamente amoral, apenas pela barba por fazer e o sorriso maldoso, que o público se surpreende, justamente por um choque da quebra do pacto, da morte da persona com a que estavam familiarizados, mas que ao mesmo tempo aprende a reconhecer a linguagem e o código proposto, sobretudo em contraposição ao rosto duro, amargo, mas singelamente relacionável de Jason Robards (1922-2000), também portador de olhos azuis, mais aguados e uma barba ainda mais cerrada, índice de um sujeito batido, endurecido, mas também marcado por uma dignidade no sofrimento - e, sobretudo, destituído da vilania pouco terrena, pouco humana e mais demarcada por um afastamento quase místico de concretude, uma ideia de mal, representada por Fonda (nesse sentido, Cheyenne, personagem de Robards, com nome indígena, mas bastante euroamericano, bem poderia ser interpretado por Bogart, se este ainda estivesse vivo então) - que este filme é, para mim, uma tentativa de reflexividade da própria cultura ocidental (heim, pera lá, como isso aconteceu? Onde? Quando?). Assim, como Era uma Vez na América (1984) e Quando Explode a Vingança (1971), os outros filmes da trilogia da América). Uma narração, em voz alta, do ritmo de transformação da vida, mas para a consolidação de algo bem particular e que tende a se tornar quase paisagem, natural - a vida tal como ela é/chegou a ser. Narração de períodos longos, num só fôlego, como Saramago. Nesse sentido, não há como não lamentar, angustiado, o fim constante que se anuncia, sobretudo na ideia de uma trilogia de uma saga (como são as trilogias, aliás): um fim que é eternamente velado; se está sempre morrendo, sempre perdendo inexoravelmente algo que mal chegou a ser e, por exatamente por ser história, tem em si todo o peso da destruição do que é atemporal.

Resta compreender o enigmático personagem anônimo, identificado apenas pelo nome de um instrumento (mas, sobretudo, da evocação musical que lhe acompanha na trilha magistral de Morricone, 1928-), Harmonica (gaita), interpretado por um outro ator de olhos azuis, quase mortos, de Charles Bronson (1921-2003). Bronson não se parece em nada com o índio que viu seu irmão ser morto pelo personagem de Fonda quando adolescente (talvez ele pudesse ser um Cheyenne? Mas não, não para Leone - que justamente pirraceava com as convenções "físicas" dos atores! Mesmo as vozes não precisavam combinar com o personagem - as dublagens toscas são também marca registrada, que ele de fato não achava ser um defeito).

Mas não importa. O que importa é o rosto talhado quase por uma lente expressionista de Leone. Não há reconhecimento, exceto pela ambiguidade do personagem de Bronson - e, sobretudo, no de Robards.

Pois essa é a expectativa de uma geração, a ser atualizada daqui a dois meses. Será que vai dar certo?

sábado, outubro 17, 2015

Estilingue

E assim, sem mais, esse espacinho que foi tão importante numa época, deu um bip de vida!

Cinco anos sem um pio e, de repente, um texto sobre ipês amarelos. Sem explicação, sem dar justificativa, "você some sem nem dar notícia?!" dizem os amigos que me dão aquela bronca-bem-humorada-mas-que-é-uma-bronca-mesmo-assim por sumir. Para esses eu costumo dar o acanhado "puxa, ultimamente está tão corrido, mas a gente combina algo sim" - resposta que mais ou menos serve aqui também. Em nenhum dos dois casos a resposta é muito satisfatória. E é meio covarde, na verdade. Sincera ma non troppo.

Em parte, sim, a vida ficou corrida. Mas na realidade acho que eu precisei dar um tempo disso aqui. Não que eu não tenha ficado com vontade de escrever, em um momento ou em outro. E ensaiei retomar esse blog algumas vezes nesse tempo todo. Mas não fazia sentido. E eu não tinha certeza se faria sentido alguma vez mais. E ainda não tenho certeza. Mas, se estou agora escrevendo o segundo post é porque talvez tenha algo ainda pra dizer, não?

Mas tergiverso. Algo pra dizer sempre tem. Aliás, o que não falta é coisa pra contar, de 2010 até agora. Vamos ver, se realmente engrenar de novo eu vou contando aos poucos alguns highlights e algumas pequenas alegrias e algumas pequenas neuroses - sempre material divertido, que dispensa a grandiosidade revolucionária dos grandes eventos para realmente importar para alguém. Mas esse "sentido" de que estou falando é, na verdade, bem egoísta. Eu sei que eu contava para os outros (e poucos outros, uma vez que pouquíssima gente lia este blog - e, agora, depois desse hiato todo, menos ainda), mas contava para os outros para que eu pudesse contar algo que eu precisava para mim mesmo. Euzinho que nunca fiz análise ou terapia.

Bom, para não matar qualquer chance de gostar de escrever aqui, uma historinha, pra não ficar só nessa auto-análise toda.

***

Esses dias foi dia das crianças. Eu gosto muito de ver os amigos de facebook (eu tinha facebook em 2010, quando parei com esse blog?) mudando as fotos de perfil. Curto todas. Mas eu mesmo nunca tinha colocado uma minha. Tenho umas fotos bonitinhas de criança, mas nunca aderi ao movimento. Aliás, esse ano foi a primeira vez que aderi a essas mudanças de perfil por alguma coisa, com algumas campanhas muito necessárias nessa época de fundamentalismos... Opa, volto a fazer rodeios!

Foco!

Enfim, mudei a foto de perfil, para uma minha esticando o elástico de um estilingue e olhando pro outro lado, morrendo de medo. E eu lembro desse dia! Devia ter uns 5, 6 anos no máximo. Usava aquele macacão que eu adorava (aliás, adorava macacões, principalmente por causa do bolso de canguru, e fiquei bem bravo quando o último que tive ficou pequeno demais pra usar e a moda tinha mudado e ninguém usava mais) e umas sandálias franciscanas que usava com meias. Sempre com meias - aliás, até hoje, não fico muito descalço e prefiro ficar de meias mesmo em casa, para horror da Dani...

Foco!

Dá até pra ver, ao fundo, outras casas no bairro. Mas naquela época havia mais terrenos baldios na Cidade Universitária do que casas construídas. Era outra época mesmo, em que as crianças passavam os dias ralando joelhos e se cobrindo daquela mesma terra vermelha cheia de formigas que fez com que o Zeferino Vaz conseguisse o terreno da Unicamp por um preço de banana.

E por que dessa vez mudei a foto? Por pirraça. No pun intended.

Tenho percebido que as redes sociais viraram, para muitos, mais do que exercício de cidadania. Viraram publicidade, plataformas hipócritas (porque não parecem nunca falar às claras) de interesses pessoais bem mesquinhos. Geralmente politicamente motivadas, que se fazem na desgraça e na criação de inimigos, cada vez mais distantes e desumanizados. À esquerda, à direita, ao centro. E agora, mesmo os "niilistas", os que acham que está tudo ruim mesmo, têm prato cheio. Cada vez mais as pessoas comprometem algo de si para vociferar contra tudo e contra todos. Trampolins pra defender suas próprias agendas das maneiras mais baixas. Com notícias falsas, com uma seletividade absurda - fechando os olhos para os absurdos de seus próprios "partidos", na maior onda de comprometimento das próprias consciências que eu já vi. Os piores: os amargos. Aqueles que no dia dos professores colocam recadinhos, indiretas, sobre professor não poder ser amigo de aluno; numa cruzada contra o que certamente consideram as fofurices cretinas da vida porque afinal o mundo is burning, it is burning baby. E que devem viver num mundo bem escuro do qual eu não quero fazer parte.

Me falta uma reflexão mais aprofundada sobre o assunto, mas acho que as redes sociais pioraram e amplificaram essas coisas. Porque essas pessoas fazem escola. Quando você menos percebe, só vê sangue na tela.

"Você é contra as campanhas e o ativismo online?"

Absolutamente. Eu acho que muita coisa boa pode ser feita. E tem que ser feita, aproveitando o potencial e a dispersão dos caracteres na rede. E essas pessoas de que falo são minoria - barulhenta, mas minoria. Mas me irrita (sempre me irritou) a patrulha ideológica. Que agora virou patrulha moral. Faço questão de colocar fotos de gatinhos. Não quero ficar obcecado com a revolução (ou com o apocalipse). A vida tem pequenas dádivas, sim. Poliana? Pode ser, mas é assim que eu consigo dormir de noite. E as minhas lutas, as luto do meu jeito.

Último desvio, prometo. Mas esse eu queria fazer.

Mas volto ao estilingue. Meu vô, marceneiro, filho de marceneiro, irmão de marceneiros, fazia um estilingue para cada neto que nascia. Ele sempre quis fazer uma boneca para as netas. Mas elas não vieram. Em 6 oportunidades. Mesmo décadas depois, com mais uma chance improvável, para ser avô de novo, ele teve que fazer um novo estilingue, agora pro Benjamin (mesmo que um só simbólico, sem muita funcionalidade real, porque, afinal, os tempos são outros, os olhos e a firmeza das mãos também).

Eu adorava esse estilingue, apesar de não saber usar direito. O estilingue e uma espada de madeira, que ele fez uma vez, pra minha fantasia de Peter Pan, que usei no carnaval de 1979, ou de 1980, algo por aí (ganhei um prêmio por ela!). Os dois quebraram em algum momento da história. E não sei porque não guardei de recordação. Mas o estilingue era um tesouro pra mim. Meu objeto preferido.

Já falei de um amigo meu, aqui neste blog, que veio do Piauí, certo? Bem, esse amigo uma vez ganhou do pai um estilingue de alumínio, que apoiava no antebraço com uma meia lua que parecia uma manopla, com elástico industrial (e não a borracha de pneu usado, que meu vô utilizava). Que atirava uma mamona (usávamos mamonas dos terrenos baldios) muito mais longe do que o meu estilingue de madeira - que, aliás, muitas vezes falhava, com a manona batendo numa das hastes de madeira da forquilha, voltando no dedo, que ficava ardendo de dor.

Mas o meu estilingue tinha alma. Eu sabia, mesmo naquela época.

E a foto? Acho que é a minha maneira de mostrar meu comprometimento.

(Tentarei adotar um dia da semana pra escrever aqui, seguindo a sugestão de uma querida amiga, que deu a maior força para reviver o blog. Vamos ver se dá certo nos finais de semana)

quarta-feira, outubro 14, 2015

Ipê Amarelo

Hoje eu pretendia ficar em casa, trabalhando sossegado na minha bagunça confortável. Mas fui avisado que tinha que ir assinar um documento urgente.

Bom, fazer o quê, parte do processo de patrimonialização. Vamos lá. Sapato, meia, calça (mas que calor, não dá pra ir de bermuda?), camiseta (aqui eu bato o pé).

On the road.

No rádio do carro, o primeiro cd de discotecagem feito pela Dani, que ela tinha colocado uns dias atrás no tocador. Passando pela avenida Norte Sul, o trânsito espantosamente tranquilo, eu dirigindo devagarinho, começa a tocar Mad World, do Red Paintings, banda que a Dani gosta bastante.

E eu sozinho na avenida, numa manhã de céu azul sem nuvens, indo sem pressa, sem outros carros em volta, começa um vento muito forte, uma lufada, que sacode todos os vários ipês que ladeiam o asfalto. E aí uma chuva intensa de amarelo. E então fiquei pensando no momento bonito, totalmente banal, mas também extremamente significativo. Pensei na coincidência dessa música, com o cenário de Kurosawa em Campinas, como combinava na minha cabeça.

Não necessariamente feliz. Mais a frente, na verdade, uma cena triste. Mas ainda sim, um momento bonito.

https://www.youtube.com/watch?v=UkH9aZWv5Zc

E me lembrei do que disse o saudoso Rubem Alves, que nos deixou ano passado e que gostava de ipês:

"O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui... Escrever é meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês amarelos..."

Também descobri essa:

"E quem é Rubem Alves? Um menininho respondeu: 'O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês amarelos...' A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que amam".

segunda-feira, agosto 02, 2010

A terra onde nasceu Jesus

Aqui na acalorada Belém tudo funciona com ar condicionado, as comidas são quentes, líquidos gelados são necessários. Conclusão: dor de garganta!

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É tão legal ficar encontrando os conhecidos em uma cidade tão distante. Parece que é a maior coincidência do mundo topar com a galera que você não vê há meses, por vezes anos!

terça-feira, junho 29, 2010

Rapidinhas sobre a copa

E meu bolão ainda tá valendo! Brasil x Espanha na final...

O meu xará - Ronaldo me irrita profundamente... se tirassem o telão dos estádios é capaz de Portugal ter se classificado...

quarta-feira, maio 05, 2010

Sobre a discussão em torno da demarcação de terras indígenas e quilombolas

Me eximo de emitir minha opnião pessoal na questão que chacoalhou a comunidade antropológica nos últimos dias (entretanto, adianto, é de interesse de todos: os que se preocupam com a constituição dos argumentos veiculados nos meios mediáticos brasileiros, sua imparcialidade e poder de reflexão crítica).
Me limito, ao menos neste post, a reproduzir os desdobramentos de uma matéria intutulada "A farra da antropologia oportunista", publicada na revista Veja (ano 43, n. 18), no intuito de divulgar a discussão.

A começar pela matéria em si: http://alertabrasiltextos.blogspot.com/2010/05/farra-da-antropologia-oportunista.html

Um dos antropólogos citados na matéria, Eduardo Viveiros de Castro, escreveu uma réplica, que segue (cito aqui por não encontrar link para o texto):

Aos Editores da revista Veja:

Na matéria "A farra da antropologia oportunista" (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de "montado" ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante. Grato pela atenção,

Eduardo Viveiros de Castro

A revista publicou uma resposta à réplica: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/brasil-todo-mundo-indio-quem-nao-555649.shtml

Seguiu-se uma nova resposta por parte de Viveiros de Castro: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2010/05/470943.shtml

A Associação Brasileira de Antropologia, em conjunto com a Comissão de Assuntos Indígenas, publicou nota sobre o caso: http://www.abant.org.br/conteudo/005COMISSOESGTS/Documentos%20da%20CAI/NotaCAI-ABA.pdf

O artigo (entrevista) em questão, utilizado pelos responsáveis pela matéria para citar Viveiros de Castro, segue em: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/brasil-todo-mundo-indio-quem-nao-555649.shtml

Em tempo. A resposta de outro antropólogo citado, Mércio Pereira Gomes: http://merciogomes.blogspot.com/2010/05/resposta-materia-da-veja-farra-da.html

A discussão é um pouco longa, mas vale a pena seguir. Tire suas próprias conclusões.

quinta-feira, abril 29, 2010

Self-made

Há alguns anos, com o relativo fácil acesso de softwares que ajudam a compor, editar e bordar, começou uma onda de self-made men (women) fazendo seus sons no conforto do lar. Muitas vezes, quando o resultado era decente, não era preciso nem uma gravadora. Estão aí os programas de compartilhamento de música para isso. Programas, aliás, que muitos artistas resolveram parar de combater e usar em seu favor (Metallica not included).
Em conversa com o Chaplin e o Gui, no primeiro e único programa de nosso podcast, surgiu o assunto da mediocridade dos novos especialistas e a democratização da informação e da tecnologia. Todo mundo agora é fotógrafo, é programador, músico, dj. Mas eu ainda acho que a facilidade para a criação é bem-vinda. Depois é só separar o que é bom do que não é e tudo fica certo.
E tem muita gente boa, que nem precisa de banda, fazendo som.
O último que descobri responde pelo nome de Rhoderic Land (não é seu verdadeiro nome). Não achei muitas informações do tio, mas pelo jeito se trata de um financista inglês exilado em Paris há quase 20 anos, que resolveu fazer um som no conforto do lar e divulgar. Ele toca todos os instrumentos, grava todas as vozes, e depois edita tudo em seu computador pessoal. O resultado é excelente! Procure pelo vídeo King Kong Tonight no You Tube e cheque por conta própria.

segunda-feira, abril 19, 2010

Em prol do planeta

No último dia 27, das 20:30 às 21:30, a WWF promoveu a hora do planeta, para alertar sobre o aquecimento global (quem ainda não acredita nessa josma, peloamordedeus?).
Nada mais nobre, ainda que talvez inútil, se o mundo acabar mesmo daqui a dois míseros aninhos, segundo maias, hopi, antigas múmias egípcias, roteiristas do History Channel e donos de companhia aérea na Europa.
Enfim, eu, que só ajudo nestas causas no conforto do lar (reciclar lixo e escovar os dentes com a torneira fechada), aderi. Quem não consegue viver sem energia elétrica por uma mísera horinha?!
Depois de apenas alguns momentos eu já não aguentava mais. E me irritava profundamente olhar para fora da janela e ver que todo o resto do mundo deixou a luz acesa! Provavelmente estavam também aspirando pó, cozinhando com a geladeira aberta, ou tomando banho pelo restante do tempo.
Mas era uma questão de honra, aguentar até completar os 60 minutos.
Lá pelas 21:00, cansado de jogar fifa soccer no celular, resolvi sentar na poltrona da janela para fumar.
E, sentado ali, esperando os 3600 segundos passarem, na não tão absoluta escuridão (dado o show de luzes que entrava pela sala, vindo das casas dos meus vizinhos ridículos), numa cena realmente deprimente, eis que o Puskás, o gato de casa, pula no encosto, talvez ignorante de minha presença ali, macambúzio.
Após um quase-ataque cardíaco e um dolorido rasgo de 20 centímetros no braço, feito pelo felino que também se assustou com meu susto, resolvo deitar e dormir o restante dos 3600000 milissegundos passarem.

segunda-feira, março 29, 2010

Um dia uma carona

Nem de flush vivem minhas memórias. Ontem, já deitado, na difícil tarefa de esperar o sono vir, lembrei de quando, adolescente, eu e meu amigo Flávio voltávamos das quadras da unicamp, depois de uma tarde quentíssima jogando basquete.
De vez em quando nos aventurávamos, naquela época, a pegar umas caronas, em dias que a exaustão era maior. O mundo (leia-se Barão Geraldo), era bem menos desconfiado e perigoso.
Na avenida, nos arrastando morro acima, eis que aparece uma alma caridosa.
Um Del Rey verde prateado, cheio de ferrugens e barulhinhos, pára e nos deixa entrar. Arrumamos espaço entre as toneladas de papel que ocupavam os espaços vagos nos bancos e ficamos embasbacados com a beleza da motorista, que deveria ter uns 20 anos. Na época, uma adulta, para a gente.
E além de lindíssima, muito gentil e divertida. Nos deixou em casa (os 3, morávamos bem perto) e foi-se embora, levando dois corações.
Sempre me apaixonei fácil, e naquele dia ainda tive a inusitada coragem de aparecer novamente na casa da moça, alegando ter deixado alguma besteira no carro, só para trocar mais umas palavrinhas e fotografar sua figura na retina.

Pelo jeito deu certo.

sábado, março 20, 2010

C'est fini...

Até semana que vem.

quarta-feira, março 10, 2010

O fim dos 80

Ano passado foi o John Hughes, agora foi Corey Haim... quando a galera dos anos 80 começa a morrer, um sinalzinho de alerta acende... (e alguns, não por velhice, mas porque embarcaram, ou foram condenados, a uma vida trash e decadente).

Alguns atores adolescentes, da minha época de adolescente, conseguiram escapar da sina da "década perdida". Mesmo no campo dos filmes, ainda, como John Cusack, Matthew Broderick, Tom Hanks, ou, em menor escala, Eric Stoltz. Ou então encontraram a tábua de salvação, que virou a programação da telinha, como Patrick Dempsey, Charlie Sheen e Heather Graham (ainda que estes tenham feito também uns filminhos, aqui e ali). Alguns até conseguiram chegar na década de 1990, como Jennifer Jason Leigh, ainda que tenham sumido, recentemente.
Mas outros, coitados, pereceram sob a rotulação teen. Como é o caso do irmão não-Sheen, Molly Ringwald e Mark Hamill. E vivem de dvd, comerciais, pequenos papéis, joguinhos de computador (esse é o fundo do poço)... mantidos por um grupo sempre presente de "admiradores cult" (que vira e mexe acabam virando modinha, dependendo da vibe revival ou retrô). Corey Haim era um desses, que, no fundo, davam dó.

Já o outro Corey, o Feldman, esse é um caso a parte.

sábado, fevereiro 27, 2010

Who's Banksy?

Eu acreditava que depois das últimas semanas, dormindo 3, 4 horas, ou simplesmente varando madrugadas afora, eu iria apagar por uma semana, depois de entregar o texto. Mas acho que o corpo realmente desenvolve costumes (acordar cedo, fumar na privada, tomar um café no meio da tarde). Continuo dormindo 3, 4 horas, mesmo não precisando.
Tudo bem, pelo menos agora não é por nervosismo ou por falta de tempo.
Este finalzinho foi realmente muito difícil. Por diversas vezes eu queria deixar do jeito que estava (mas admito que muita coisa podia ser melhorada). Fiz o máximo que pude, só espero que seja o suficiente.
Murphy me fodeu bonito também. Mas acho que era o jeito de realmente perceber que estava acabando. Entre não conseguir imprimir, gastar muito mais do que queria com os exemplares da tese, e ter o celular roubado (ou "entre mortos e feridos"...), deu tudo certo.

Depois de um bom tempo longe daqui, espero que tenha agora mais vontade de não deixar tudo às moscas.
Então adianto uma dica cinematográfica.

Se trata de um documentário editado pelo Banksy (sim, o grafiteiro preferido do grande público, mas odiado por muitos de seus colegas), baseado no material de Thierry Guetta, um francês bizarro, que também se tornou um artista de rua bem sucedido (e também acabou odiado por isso), e que registrou a cena grafiteira de Los Angeles.
Exit Through the Gift Shop foi incluído no repertório do Festival de Berlin e também no do Sundance Festival deste ano. A idéia de registar uma forma de arte tão perecível é bastante interessante. Mas acho que o melhor mesmo são as questões que podem ser debatidas através do conteúdo do documentário, e mesmo do trabalho em si.
Porque muita gente já começou a torcer o nariz para o Banksy (seria inveja? Em boa parte das críticas?), que apesar de continuar criando uns stencils muito perspicazes, nos recantos mais inusitados de Londres e adjacências (que já não são tão adjacentes assim), agora vende quadros nas conceituadas galerias e casas de leilão britânicas. Na verdade, alguns de seus maiores críticos são seus colegas grafiteiros, que não acreditam que o tipo de elaboração feita por Banksy é tão original assim. Ou, ainda, que ele se vendeu na primeira oportunidade de transformar a arte da contestação em algo comercial.
Eu, pessoalmente, acho que nada do que ele fez, ao vender por centenas de milhares de libras alguns de seus trabalhos para artistas de Hollywood e gente com muito dinheiro e com gosto duvidoso (para dizer o mínimo), contradiz a natureza da crítica ácida e satírica de sua proposta. A tática de colocar material inteligente, mas completamente ridículo, nas exposições da "arte consagrada", é um exemplo. É algo como "vocês acham que sabem sobre arte? Primeiro, não conseguem separar o trabalho dos competentes da minha merda. Segundo, o trabalho dos competentes não é tão competente assim". No fundo, ele chama atenção, ao equalizar as formas de arte (por baixo, devo dizer), para uma questão que há muito é debatida pelos historiadores de arte: boa parte da moral disto tudo se refere à forma como a arte é vendida, adornada e apresentada. E vender suas porcarias por milhares de libras é um tapa na face de quem acredita que consegue avaliar a arte por si só.
E, convenhamos, se mesmo tudo o que eu disse aqui acabar sendo um monte de abobrinhas, ainda resta um ponto: qual seria o grafiteiro, por mais underground que seja, que não aceitaria um troco super-valorizado por sua arte?
Assistir o documentário em um cinema de porão no sul de Londres (como de fato aconteceu) talvez faça mais sentido que assistir no glamour de Berlin, ou mesmo no já não tão alternativo Sundance. Mas, ao mesmo tempo, talvez sejam nestes lugares, ou em um confortável dvd, que o filme mais se realize.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Tilt

Acho que nunca estive tão cansado na minha vida.
Mas ao mesmo tempo, nessa reta final, entrei, no que chamam os basqueteiros, "in the zone"!
E vamos que vamos.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

E começa 2010

Como era de se esperar, não deu pra descansar tanto neste final de ano. Mas rolaram boas comidas, uma pausa rápida na escrivinhação toda (nada como trabalho braçal para parar de pensar na tese por um tempo) e uns presentes bem bacanas!
Esse ano tive umas boas surpresas no quesito. Nada extravagante, mas coisas divertidas mesmo assim. Algumas camisetas, que sempre são bem vindas (não compro roupa). E também uma panela de fazer risoto (ou paella, se eu descobrir como... uhu!) e um carrinho de fricção!
Há muitos anos não ganhava um brinquedo e achei bem legal! Ainda não tive muito tempo pra sair brincando com ele, mas logo, logo vocês vão me encontrar em algum tanque de areia ou parquinho, causando olhares estranhos nas mães presentes.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Última do ano

Nos finalmentes com a bendita, não tenho muito tempo (leia-se "saco") de escrever qualquer outra coisa. Mas em qualquer pausinha do trabalho não hesito em ver algum seriado para relaxar (estou conhecendo vários!).
O último que vi achei bem interessante. Na verdade é uma mini-série britânica (e viva a BBC, que ainda faz coisa decente com pouco dinheiro!) que foi ao ar ano passado. Chama-se Dead Set, e no fundo não tem nada de revolucionário. Mas achei interessante, mesmo assim.
A história se passa no estúdio de gravação do Big Brother britânico, justo na noite de paredão. Enquanto imbecis assistem imbecis presos numa gaiola, a boa e velha epidemia viral (como os ingleses têm obsessão pelo tema!) transforma as pessoas em mortos-vivos famintos (os zumbis também infectam os outros com mordidas, também morrem apenas com disparos ou golpes na cabeça, mas são os que se movem rápido, no estilo Danny Boyle e não George Romero). As críticas do criador sobre a sociedade contemporânea e suas neuras são evidentes. Mas o bom da mini-série é que ela não tenta esconder suas referências ou forçar a mão para ser original.
Enfim, voltando à história... Poucos sobrevivem ao primeiro ataque, entre eles o produtor cretino do programa e uma estagiária da emissora. E, claro, os participantes do reality show, isolados na casa.
O programa é bem gore, então estejam avisados. Mas gostei bastante e vi todos os cinco episódios em sequência. Também vale a pena por algumas outras referências, hilárias, de outros filmes de horror.
E achei engraçadíssimo que a apresentadora do programa, que é de fato a mesma do BB britânico real, é zumbificada e sai em busca do produtor. Seria demais se fizessem isso com o Bial, correndo atrás do tal Boninho.
E nem precisariam de muita maquiagem para dar um trato no cara.