domingo, agosto 17, 2008

Novas notas olímpicas

Uma diversão a parte neste jogos olímpicos, pra mim, é ver uma competição fora das quadras, pistas e piscinas. As das emissoras de tv.
A troca de farpas é engraçada, para não dizer ridícula. Principalmente da espn, que como grande parte dos que estão em segundo lugar, acaba apelando. Dando umas zapeadas, pego sempre os comentaristas dessa emissora soltando "nessa prova, apenas nós estávamos lá. É impressionante o descaso das outras emissoras com o Brasil", ou algo do naipe.
É interessante notar que quando o Gustavo Borges, comentarista contratado pela globo/sportv, entrou na área dos nadadores e foi comemorar com o Cielo, foi sumariamente cortado pelos replays da concorrente.
Outro quesito em que eles estão perdendo é a entrevista com familiares e amigos. Nas provas em que brasileiros têm chance, sempre existe uma equipe da globo filmando os parentes, naquela rasgação de seda toda, já praxe nesses momentos. Com o Cielo, claro, não foi diferente. Tinha uma equipe de reportagem na casa da avó do cara, aqui perto, em Souzas.
À outra emissora restou procurar um técnico de natação lá. Ou quem sabe o jornaleiro do cara.

E o Carlitos Tevez da natação conseguiu mesmo. Well done.

Se eu fosse um desses atletas brasileiros sem qualquer tipo de apoio (a maioria), ou que tivesse meu patrocínio cortado pela confederação do meu esporte porque resolvi treinar fora do país porque teria melhores condições de treino, então ganhasse um ouro, e o Lula ligasse me cumprimentando, ou a supracitada confederação tentasse agora aproveitar os louros da minha vitória, mandaria todo mundo pastar.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Onde foram parar todos os cachorros?

Nessas madrugadas de escrivinhação torna-se irresistível assistir um pouco das olimpíadas, nos momentos de pausa (momentos que se estendem além da pausa, claro).
Tenho assistido bastante coisa. Por enquanto o que mais gosto de ver é a natação, em especial os brasileiros, que parecem melhores que 4 anos atrás, e o Michael "Tevez" Phelps. Não compro as críticas que tenho visto sobre o cara. Principalmente sobre as de arrogância e soberba. Se o cara acha que pode vencer, quem sou eu pra dizer o contrário... e ele realmente sobra nas provas.
Os outros esportes não têm sido tão empolgantes. Talvez o basquete seja uma exceção, com o tal Redemption Team, e a seleção da Espanha (e alguns jogadores de outras equipes). Mas as partidas são muito cedo, quando estou indo dormir. Fora natação e basquete eu acabo vendo um pouco de cada coisa, mas acabo logo me cansando um pouco.
O que espero com ansiedade mesmo são as provas de atletismo, que devem começar agora. Eu realmente me impressiono com o atletismo. As provas de velocidade são inacreditáveis; as de força dão medo; as de resistência dão agonia; as de salto são impressionantes. Acho tudo tão distante do que eu poderia sequer pensar em fazer um dia que não posso deixar de elogiar até mesmo o último colocado. Admiro em especial o salto com vara (imagine saltar sobre uma casa com uma vara!!!) e o decathlon e o heptathlon (esses sim são atletas).
E tem sido especialmente divertido ver esses jogos de Pequim por algumas histórias que se sobressaem. Desde as inevitáveis, no estilo Oprah - de superação e sacrifício - até os dramas mais rodriguianos. Essa história escabrosa da nadadora francesa Laure Manaudou é digna de aparecer na Márcia, por exemplo.
De resto, merece nota o completo descaso do governo brasileiro em desenvolver um projeto esportista no país; extremo oposto da neurose chinesa em ultrapassar os EUA em número de medalhas.

Em tempo: para onde foram os cachorros de Pequim?

terça-feira, agosto 12, 2008

Confidential

Já disseram que um mapa perfeito teria escala 1:1.
Também na crônica temos que nos contentar com os highlights da vida. Claro que fica a cargo do cronista saber o que vale a pena ressaltar de tudo que acontece no seu cotidiano.
Mas a bem da verdade é que não interessa contar tudo, evidentemente.
Muitas vezes fico meio cansado do blog, pensando até em matar o coitado. Acabo não o fazendo, já que depois de um tempo de vacas magras a vontade de contar algum pensamento, algum acontecimento, acaba retornando. E embora perdesse todos os possíveis leitores se contasse o que faço durante meus atuais morníssimos dias, ainda sim tenho alguns causos para relatar por aqui.
Alguns bastante interessantes. Emocionantes até.
Este aconteceu no final do ano passado, quando ainda morava em Londres.

Sabe quando os paranóicos que acreditam em teoria da conspiração dizem que muito do que acontece acaba sendo encoberto pelos agentes da matrix? Engravatados de preto e ponto no ouvido confiscam celulares e máquinas digitais, instruem as testemunhas ou simplesmente desacreditam as que escapam do pente fino. Pois bem, nada é mais verdade do que isso.
As pessoas não precisam ter visto um ovni para concordar comigo. Todo mundo testemunha alguma coisa e se espanta quando o que aconteceu é completamente destorcido pelo relato oficial. Quando o acontecido não é sequer descrito...

Meu "estive lá e vi" ocorreu em um bonito dia de inverno inglês, de muito sol e céu azul.
Estava em Southbank, na altura da Millenium Bridge quando pensei sentir um leve tremor no chão. Já disse aqui, em outra ocasião, que penso ter sentido o terremotinho que aconteceu no começo de 2007, cujo epicentro foi perto de Kent mas produziu efeitos mesmo em Londres. Então instantaneamente acreditei que se tratava de um novo protesto de Gaia.
Algumas das pessoas em volta também parecem ter percebido algo estranho. Mas depois de alguns segundos todos resolveram continuar suas vidas apressadas, e ninguém quis ser alvo de chacota, alardeando um temor infundado.
Entretanto, mais alguns instantes e um novo tremor. Este claro, assustador. Estava perto da entrada do antigo prédio de energia que agora abriga o Tate Modern, e comecei a olhar para as pessoas paradas, estáticas, ainda esperando os sinais da destruição: crateras abertas, estruturas desabando, gritos, correria.
Foi então que a cinquenta metros de onde estava, o chão começou a levantar em um certo ponto. Grandes pedaços de pedras, de asfalto e de terra começaram a rolar para os lados.
Empunhei minha câmera, que estava guardada no bolso, e dei um passo para trás.

O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Aquilo saiu do buraco formado, pata depois de pata, já atacando os liliputianos transeuntes mais pertos, com uma agilidade surpreendente para um tamanho gigantesco daqueles. Antes de começar a correr, consegui mirar e fazer um registro.


(Maman, Louise Bourgeois. Foto minha)

quarta-feira, agosto 06, 2008

A fábula da qualificação

Há um consideravelmente longo tempo atrás...
Em um lugar relativamente distante...
Vivia um antropólogo, em sua não tão gloriosa tarefa de de escrever sua qualificação.
Um texto quase-texto: perto de terminar de ser escrito, perto de estar compreensível, perto de ter todas as idéias encadeadas.
Mas ainda sim, sempre incompleto.
O bloqueio maléfico era onipotente, e o reino em que trabalhava não queria financiar sua pesquisa...

terça-feira, julho 22, 2008

Alguns pensamentos idiotas

Normalmente levamos a vida meio que anestesiados, sem prestar muita atenção no significado real das coisas que acontecem ao nosso redor. E de vez em quando, essas coisas, que presenciamos dezenas de vezes sem perder muito sono com isso, nos acertam em cheio, com força e de repente!
Isso sempre acontece comigo com letra de música. Às vezes, depois de muito tocar e insistir, ela deixa de ser um mantra e vira algo de fato compreensível. E isso também acontece com a maioria das frases feitas.
Temos, por exemplo, o famoso "o inferno são os outros", aliás, título de música, meio existencialista. Quer dizer, nunca sei precisar muito bem o sentido destas frases célebres ou dos ditados populares (tenho uma amiga que conhece todos e os emprega em momentos bastante propícios, provando que de fato existe uma sabedoria popular por aí e que nenhum mal social já não foi notado e julgado por gerações anteriores). No caso eu acho que significa que os problemas só acontecem com os vizinhos (ou são apenas os vizinhos, em contraposição a si). Quer dizer, isso até a página dois, porque quando queremos reclamamos muito bem dos problemas que parecem ocorrer apenas com nós mesmos e podemos, então, invocar algum outro ditado igualmente lapidar.

Toda essa introdução meio inútil para falar de algo que já havia dito uma vez bem lá no começo do blog, três anos atrás, sobre meu medo de enfrentar a adolescência dos filhos e, pior, enfrentar os pais dos amigos dos filhos.
Algumas semanas atrás eu fui numa festinha de criança, como tem acontecido com assustadora regularidade ultimamente. Lendo alguns posts antigos vi que escrevi muita porcaria, mas algumas coisas ainda valem. Ao me deparar com essa minha confissão sobre meu receio de virar adulto percebi que esse medo continua me assombrando, ainda que eu tenha me acostumado um pouco mais com a idéia. Mas percebi hoje que nesta festinha se concretizaram vários de meus receios em relação aos pais das outras crianças (é bom que se diga que as festinhas dos filhos dos amigos são diferentes das festinhas em que a criança é parente).
Primeiro porque parece que devido ao fato dos filhos terem colegas está pressuposta uma relação entre os progenitores. Mesmo que sejam imbecis que não tenham nada a ver com você. Mesmo que tudo o que as outras crianças façam nunca seja tão bom quanto o que o filho deles realize (ok, isso é básico, mas odeio quem não faz questão de deixar sua opinião reservada). Mesmo que nunca tivessem a intenção de sequer se encontrar se não fosse preciso - e aparentar uma civilidade inexistente ou de mão única.
O estranho é que eu não vi isso chegando. Como se a idéia de existirem pais que educam mal seus filhos fosse algo apenas do noticiário. Como se esse meu medo fosse de alguma forma apenas uma possibilidade ideal - mas irreal. Como se não fosse possível ver tudo isso acontecendo ao seu redor e - pensamento horripilante - achar tudo normal, e entrar à revelia nesta vida de gente grande fazendo exatamente o mesmo que incontáveis outros pais fizeram e que causava apreensão.

E vejam só como são as coisas. Tudo isso porque me lembrei hoje de uma cena maravilhosa do Terra de Ninguém, por conta da última prisão anunciada!
Em plena guerra da Bósnia, um soldado bósnio, lendo um jornal, comenta com outro algo como "você viu que merda está acontecendo em Ruanda?", ao que o outro responde algo como "você está louco?"

segunda-feira, julho 21, 2008

Receita de bolo

Depois do post chato da última semana, cheguei à conclusão que já me basta o martírio da qualificação - de escrever sobre certas coisas, digo.
Fica difícil desligar o antropologizês mesmo para as coisas mais corriqueiras, mas isso pode ficar insuportável em certos momentos.
Talvez seja a crise que a necessidade de escrever uma tese proporciona, mas sinto que preciso ter uma distância de outras coisas sérias agora.
Sem posts-cabeça por enquanto, portanto.

terça-feira, julho 15, 2008

Crueldade ou o progresso humano?

Assisti hoje uma interessante palestra sobre a posição, nas ciências humanas, quanto aos experimentos feitos com animais.
Todas as falas giraram em torno da falácia cientificista "do bem maior", e dos pressupostos discursivos envolvidos na questão, tratando de analisar a ética e a moral no sofrimento infligido a outros terráqueos - quais poderes estão em jogo e qual seria a possibilidade de uma posição possível quanto à questão.
Pensei comigo mesmo que não sei se há de fato a possibilidade de um argumento que me convencesse logicamente, já que mesmo a tal "regra de ouro" - não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você - me dá a impressão de ser apenas mais um posicionamento e uma defesa de uma postura, culturalmente constituídas. De qualquer maneira, sobre uma universalidade no trato com outros seres, prefiro não falar muito (mesmo porque de fato não tenho certezas quanto a isso).
Cogitei fazer uma intervenção que saísse da discussão epistemológica que estava se desenhando e que entrasse no etnográfico, mesmo que fosse uma etnografia de mim mesmo (ou seja, minha opinião). Isso no tocante às estratégias discursivas na defesa dos animais (porque, como disse, acho que uma tomada de posição é inevitável, mesmo sob a óptica das ciências "hard").
Também acredito que o discurso cientificista não pode ser dissociado da questão ético-moral. E quando o é, há uma tendência a se perder na argumentação e tomar partido por outras razões que aquelas aparentes.
Explico. Li outro dia um artigo, do antropólogo Adrian Peace (no último número da AT, que, aliás, tem dado grande ênfase na questão ecológica nos últimos números), em que ele analisou a campanha publicitária da corporação Meat and Livestock Australia, que desde 2006 tentou estimular o consumo de carne vermelha no país com um bombardeio de propagandas na tv e junto aos profissionais da saúde (escritórios de nutricionistas, por exemplo). Na verdade se tratava de um contra-ataque a um estudo publicado sobre os malefícios do consumo de carne vermelha. Além do impacto ambiental gerado pela indústria pecuária (o desmatamento para a produção de pastos e a emissão dos gases que são responsáveis pelo efeito estufa - produzidos pelos animais ruminantes, mas não pelos monogástricos - como as aves, por exemplo), o consumo de carne vermelha aumenta significativamente (essa expressão tão adorada pelos cientistas, mas que é, ao mesmo tempo, tão vaga) o risco de doenças cardíacas, diabetes e obesidade.
A corporação aussi produziu então uma maquiavélica campanha (protagonizada pelo ator Sam Neil, incorporando seu personagem do Parque dos Dinossauros - procure no YouTube, é imperdível), também baseada em argumentos científicos, que provariam os benefícios da ingestão da carne vermelha. Uma espécie de neo-evolucionismo tacanho é então invocado para associar a evolução social humana (desde a descida da árvore) com a caça de animais. E mais, do desenvolvimento do cérebro humano com a dieta carnívora. Nossos antepassados sabiam, instintivamente, que essa dieta era necessária para a sobrevivência da espécie. Então quem somos nós para lutar contra a Natureza? Indo mais além - e este é o cerne da questão levantada pelos lobistas da carne - existem uma série de substâncias, como o ferro, o zinco, a essencial vitamina B12 e o famosíssimo Ômega-3s, que são obtidas na dieta de carne vermelha.
O que tudo isso significa, para mim, é que uma queda de braço discursiva está sendo travada, e você pode lançar mão da legitimidade científica para as mais variadas posições. E, quem fica no meio se encontra perdido na escolha: "prefiro ter zinco no meu corpo, ou não ter diabetes?"
Claro, a inserção lógica da questão ético-moral e uma etnografia da indústria do abate pode levar um ou outro para uma tomada de posição. Mas este é exatamente o ponto, já que essa lógica científica nunca é neutra, e vem acompanhada de diversos valores (são eles culturais, universais? Lévi-Strauss já gastou bastante tinta com isso). Mas o que me deixa com a pulga atrás da orelha é que mesmo tais pressupostos morais podem ser desafiados (hoje mesmo um rapaz levantou a questão "ok, também não gosto de matar animais, mas se isso é necessário para o desenvolvimento de medicamentos..."). E fico com a impressão que é um diálogo de surdos, cada lado advogando o seu argumento irrefutável. E voltamos ao cientificismo, incrivelmente, para pender a balança para um lado ou para o outro: os resultados obtidos com experimentação animal, por exemplo, são baseados no pressuposto da correlação entre homem e animal (que, paradoxalmente, deveria exatamente impedir o abuso contra os animais). Mas tais resultados não podem ser simplesmente transferidos à esfera humana sem novos testes (para que então, alguém poderia perguntar, se fez experiência com os animais para começo de conversa?).
Não parecemos andar em círculos? Ou exagero no relativismo?
Me abstive de falar qualquer coisa na hora da discussão com o público, no final das contas. Porque por mais que os personagens envolvidos tentem analisar a questão racionalmente, sempre defenderão seus pontos de vista de forma bastante emocional (e muitas vezes com rispidez - para dizer o mínimo). Mas sempre que fico sabendo dos resultados científicos, descobertos por estas equipes de estudiosos que fecham-se em seu mundinho, me dá a impressão de que sou moeda de troca em um embate maluco (o licopeno do tomate previne alguns tipos de câncer, mas a sementinha provoca outros. E então, como ficamos? Fora o tomate?). Nessas horas me sinto - desculpem-me, mas uso aqui um trocadilho infeliz, ainda que irresistível - como um verdadeiro ratinho de laboratório.
De duas, uma: ou acreditamos que podemos experimentar com os animais porque partimos do pressuposto de que eles são seres completamente distintos de nós, ou acreditamos que eles são parte de nossa humanidade e então a questão da crueldade se coloca. Pessoalmente acredito que a humanidade tem grande potencialidade para o sadismo.

domingo, julho 13, 2008

Disc jockey

Eu já tinha dado assistência outras vezes, mas dessa vez tive carta branca para um set list só pra mim, e acabei dando uma de jockey de pista!
Eu deveria estar imerso nos textos e de frente pro Word (o coffee break, layout novo aqui, veio em função de um blog em tempos de qualificação), mas não resisti à oportunidade dada pela Dani e pela Má (com a ajuda da boa e velha preguiça) e perdi um bom tempinho fazendo uma seleção musical, que não fosse óbvia mas que também não fosse totalmente incompreensível e obscura (sei que depois de algumas cervejas o que as pessoas querem mesmo é carne de vaca pra cantar em coro).
E devo dizer, como é divertido fazer as pessoas pularem, apenas com o poder dos seus dedos! Um botãozinho de equalização - ou a luz na intensidade certa - faz realmente toda a diferença!
Fazer com que as pessoas fiquem ansiosas pela próxima faixa e depois continuem numa toada, ou então migrarem para outro ritmo e outra lógica com uma transição sutil. E é engraçadíssimo depois ouvir as mais diversas reações - desde os elogios, até os pedidos de toca Raul (bem, ninguém pede Raul em discotecagem, mas, enfim, o equivalente).
Quem sabe depois do período ermitão não tento novamente? Daí faço um convite aqui com antecedência.

quarta-feira, julho 09, 2008

Um sonho patenteável e Cry me a river

De vez em quando sonhamos com algo bem legal, original até, e então vem aquela mesma sensação, usualmente em estado alterado de consciência, de quando temos a impressão de ter descoberto o sentido da vida. O que evidentemente não é nada mais que algo embaraçoso a ser esquecido e enterrado - quando de fato não o é, logo no dia seguinte.
Mas o sonho de hoje eu conto.
Estava em uma espécie de mesa, num jardim, com um amigo meu que costumava jogar basquete comigo e também a belíssima e charmosíssima orientadora de alguns de meus colegas (me abstenho aqui de dizer o nome, porque orientadora dos outros é quase mãe - e não ficaria aqui contando sonhos com as progenitoras alheias). Estávamos baixando umas musiquinhas pela internet, ao mesmo tempo em que fazíamos massa de pastel.
O grande lance era consumir uma música gastronomicamente. Recheio de Nouvelle Vague, de Stereo Total (aliás, bandas extremamente comestíveis). Colocávamos uma música por vez num pastelzinho, para distribuir na balada.
Levando ao extremo aquela idéia do Rubem Alves (tipo a banda Uakti) de reeducar os sentidos. Comer o som, ouvir o cheiro, essas coisas.
Bem que alguém podia dar um jeito de produzir algo semelhante, não?

(Aproveitando a temática fluvial da amiga Meme, mais imagens londrinas, do rio que me apaixonou profundamente e do qual tenho saudades. Acima, St. Paul, vista de Southbank; abaixo, o Parlamento e o London Eye, vistos de Waterloo bridge. Nada a ver com o sonho, mas dá uma embelezada no post.)

quinta-feira, julho 03, 2008

Um show. E sobre cigarro


Há cerca de um ano, fui no show desse cara aí.
Estranho, careca, de bigode. Mas extremamente carismático, e um músico apaixonante.
No show, em um clube perto de Camden, ele pulou, suou (e como), gritou, correu, e fumou.
E como fumou. Um cigarro depois do outro, cada vez que terminava uma música. Coisa, aliás, que ele fez nos comentários do The Proposition, filme com roteiro de sua autoria - ele não aguentou aqueles 100 minutos de filme sem um trago, e foi embora fumar.
Em meados de junho a Inglaterra estava prestes a entrar nessa onda de cerceamento politicamente correto anti-tabagista. E o senhor caverna fez questão de passar um sermão e se posicionar a respeito. A Europa (ok, como lembrou minha linda orientadora ainda hoje, Inglaterra não é Europa, mas enfim...) vem sendo palco desta discussão (e esperem só que isso ainda chega aqui!) sobre os direitos, os deveres, e a constituição de comportamentos públicos que, para quem lê Foucault, lembra demais o processo de disciplinarização dos sujeitos e seus corpos (e, claro, de uma certa doxa partilhada), no século passado.

Seja o ato de fumar, ou a criminalização dos sites pró-anorexia, parece haver a imposição de um modelo de cidadania e de normalidade que é pautado pelo argumento "o que é saudável" (veja a campanha Oswaldo Cruz), enfiado goela abaixo, em contraposição ao discurso da escolha e livre-arbítrio. E nem entro no mérito de se estas medidas são corretas (algumas vezes?). O fato é que estes desviantes são cada vez mais relacionados com certas características consideradas patológicas. São, neste sentido, considerados quase doentes (e então não-responsáveis por seu vício) e, o que talvez seja mais assustador, potencial fonte de contaminação de outrem e fardo para uma tal sociedade (e vão aí também os obesos e outros grupinhos mais - e o que dizer dessa lei seca?).
Agora, cigarro é um artefato cultural de extrema importância no cotidiano inglês - o que é considerado ser inglês. E talvez mais como no caso francês, e menos no caso alemão, essa proibição não vem sem questionamento (vi muita gente mandando às favas o controle e fumando mesmo). Bem, lá eles tendem a ser legalistas. Mas antes disso, eles acreditam em regras com que eles concordem. O certo e o legal não são conceitos que necessariamente se sobrepõem por lá. E isso é interessantíssimo. Claro que exagero, mas esse é o discurso êmico.

Aliás, questão interessante, nesta mesma lógica P.C. que eleva o multiculturalismo inglês (sobretudo londrino) a um patamar que deve ser defendido com unhas e dentes: gostaria de saber como se dão as negociações dessa disciplina quando tais pressupostos entram em choque com outros que teoricamente são igualmente soberanos. Pois, se não se pode impedir a prática de atividades culturais consideradas imprescindíveis de um grupo, como conciliar tais diretrizes? Há um debate sobre onde termina a liberdade de expressão e a incitação ao ódio, ou ainda sobre o uso da burka neste tempo de terrorismo. Falo tudo isso porque os londrinos donos de cafés árabes tentaram argumentar que a proibição da shisha fere uma das bases da sociabilidade mulçumana. E então, qual princípio sai vitorioso?
E não me acusem, por favor, de paladino da nicotina ou da bebedeira! Me preocupa apenas o que está por trás do processo.
Bem, viajei e não falei do show, que foi muito bom. Mas ficam fotos do líder das sementes maléficas.

segunda-feira, junho 30, 2008

Estar lá


Um pouco inspirado por Richard Holmes, tentei seguir algumas das pegadas de Mary. Como se houvesse algo que pudesse ser captado no ar dos caminhos percorridos. Como se pudesse acessar o testemunho daquelas árvores, daqueles prédios. Ruas em que andou, lugares onde estudou.
Fui para Oxford, no St. Anne's College, procurar esse elã biográfico.
St. Anne faz parte do colegiado da Universidade de Oxford, e, mesmo não sendo tão antigo quanto algumas das outras faculdades, me pareceu transpirar tradição. Ou talvez assim me parecesse por conta de meus interesses. Mas era como se houvesse uma história que para mim fosse significativa. Apenas me esperando. E lá, sozinho, fiz uma tentativa quase mediúnica de imaginar a jovem estudante católica naqueles gramados, naquelas salas, 60 anos antes.
Havia trazido um lanche desde Londres, em uma sacola que carreguei pela cidade medieval. Escolhi um banco afastado, dentro de um jardinzinho pegado a alguma casa de algum departamento, onde alguém fazia um café. E lá fiquei pensando sobre o trabalho que viria pela frente, como se estando lá - essa armadilha que tanto tentamos criticar, mas que nunca é totalmente exorcizada - eu pudesse ver mais claramente não só aquela trajetória, mas o momento no tempo em que esta se encontrou com a minha.

quarta-feira, junho 25, 2008

Paisagens londrinas 1


Na falta de tempo para atualizar por aqui, fica uma imagem do ano passado. Linda ponte que foi explodida e reconstruída no século XIX, quando ainda se escoavam os produtos que chegavam no porto, pelos canais, em barcaças puxadas por cavalos. O carregamento, no caso, era pólvora. Reza a história que o estrondo foi tão grande que os moradores dos arredores acharam que se tratava de um terremoto...
Os canais eventualmente foram interligados e unidos em uma única rede, que serpenteia e recorta Londres, ligando até mesmo outras cidades ao norte e ao oeste.
Na foto, o Regent's canal na altura do Zoológico de Londres.

sexta-feira, junho 13, 2008

Jingle dos infernos

Não sei porque hoje me veio uma musiquinha irritante na mente (será a data tenebrosa?). Sabe daquela que gruda nos seus neurônios, vem das trevas do inconsciente e toma sua mente de assalto para não mais largar? E, como o soluço (esse outro fenômeno fisiológico misterioso), só se vai quando você desiste de tentar matar a dita cuja.
Pois é, dessa. Aliás, eu nunca vi nenhuma explicação sobre porque essas músicas surgem, ou porque elas persistem. Quer dizer, fora o Paulo Coelho, mas com o argumento extraordinário-psíquico-místico, em As Valquírias, ou em Diário de um Mago... um desses (sim, eu lia bastante o imortal da nova era). Algo como a mente em desequilíbrio, ou a mente desconcentrada.
De qualquer maneira, voltando à música. Não é um Bon Jovi, ou uma Bonnie Tyler, ou mesmo uma ABBA - alguns dos campeões do grude. Mas o jingle do Bom Dia São Paulo.
Era o "vamo embora, vamo embora, tá na hora, vamo embora, vamo embora"... que ouvi toda manhã por mais anos do que eu quero lembrar.

E junto com a lembrança do refrão, veio a memória de todos aqueles anos de escola ao raiar do dia.

Nunca gostei de acordar cedo, mas até o terceiro ano do colégio (com exceção do segundo, quando estudei à tarde - e dormia na aula, vai entender...), não tive muita escolha. Como se já não fosse bastante desagradável entrar na sala às 7:00 (os piores anos foram durante minha sétima e oitava séries, quando estudei num legítimo vale, ali perto da lagoa do Taquaral, onde até a segunda aula você não via mais que 10 metros à sua frente por conta da neblina), eu tinha que acordar especialmente cedo, porque desde que me conheço por gente, só fui para o colégio no esquema rodízio-de-pais (partilha da miséria), o que significava várias paradas nas casas de colegas antes de chegar na Bastilha.
E não sei porque cargas d'água, todo pai descontava a frustração de ter que cumprir com seu dever parental - numa hora em que nenhum ser vivo decente e temente à Deus deveria estar acordado - ouvindo o bendito programa, com as notícias que só interessam aos pais (partindo do pressuposto de que não nos faziam ouvir aquilo simplesmente como retaliação por todo o trabalho que lhes dávamos). Nada de The Cure, ou Smiths (em algum momento dos 80), ou U2, Information Society, Titãs ou Paralamas (em outros momentos), ou ainda Nirvana e Pearl Jam (sim, porque isso se arrastou até os 90). Não, eternamente minha trilha sonora para a escola foram as notícias sobre impostos, sobre corrupção na política e sobre os problemas da segurança pública. Invariavelmente e sem exceção.
Não fosse a CBN, ou coisa que o valha, bem poderia ser uma marcha qualquer de pelotão de fuzilamento. Não faria muita diferença.
Eu acho que minha ojeriza aos noticiários vem bastante daí.
E esse "vamo embora, tá na hora"... que desespero! Já está na hora de correr? Tão cedo? Que stress! "Vai vagabundo, faz alguma coisa que você já está atrasado, não importa o que você faça", poderia ser o segundo refrão.
Sempre aquele equilíbrio delicado entre o sair o mais tarde possível, dormir mais alguns poucos minutos (com seus pais ficando nervosos e já tirando o cobertor à força), e depois o correr, antes que o portão se fechasse. E que lógica horrorosa - me fazer ficar ansioso por chegar a tempo, quando o que eu mais queria era perder o sinal e jogar fliperama, ou voltar para a cama! Percebe o elemento esquizofrênico, percebe?
Sempre que ouvia o jingle infernal me sentia miserável, me dava uma sensação de sufocamento, de opressão, como se uma sentença me estivesse sendo anunciada. Seu dia nada mais será que um desdobramento de sua manhã. E nada mais.

E eu que pensava que essa neurose com o tempo fosse exclusivo dos meus anos de universidade...

domingo, junho 08, 2008

De onde os patrícios chegaram


De volta da ABA, da Bahia (uma Bahia diferente, que é Porto Seguro, não obstante), cheio de impressões.
Apresentei meu trabalho, não foi uma maravilha, mas não foi horrível. Tive boas dicas e bons insights, mas faltou falar muita coisa (pelo menos olhando retrospectivamente). Vi apresentações muito boas, mas muita coisa fraca também. Normal. O ponto negativo fica para a organização, bem fraquinha (ainda mais pensando no valor da inscrição). A parte divertida, fora encontrar amigos e perdidos conhecidos, foi a festa de encerramento. Dançar Tati Quebra Barraco com seu GT e seus professores não tem preço!

Da cidade de Porto Seguro mesmo não tenho muito o que dizer. Achei tudo muito feio, mas as praias são bonitas (do pouco que eu vi). Mas não tem jeito, eu não consigo passar despercebido pelas ruas. Minha regionalidade está marcada no corpo, bem como minha zambrice. E paulista é caçado de uma tal maneira que irrita. Fugir dos carinhas que tentam vender as mais diversas porcarias, alugar carros, fazer tatuagem de rena, tererê, ou simplesmente pedir dinheiro, é uma atividade constante e complexa. Já tinha tido experiência parecida em Salvador, e não gostei nada. Não é só a opressão de pedir, já se impondo, mas de já pressupor que fazendo, sem dar fôlego, o que quer que estão tentando vender, irá deixar a vítima constrangida a um tal ponto que não lhe resta alternativa que pagar o serviço - 10 reais aqui, 20 ali...
Como um colega paulistano disse, sair do stress paulista pra passar nervoso na Bahia é foda. E você começa a ficar estúpido depois da trigésima interpelação (que está mais pra assédio mesmo).

sexta-feira, maio 30, 2008

Reflexões de uma boa aula

A moral desta tétrica história da menininha, para mim é que as narrativas do ocorrido são construções, são bricolagem com agendas pré-determinadas, nem um pouco isentas. Até aí nada de novo. O que é sim interessante de se pensar é acerca do limite alcançado (ou melhor, ainda não alcançado) por estas narrativas, vindas dos mais diferentes campos. Por quê tanta repercussão?
Os dados "objetivos" são utilizados na criação de verdadeiras histórias pseudo-coerentes. Coerentes, sim. Mas uma coerência arbitrária, seletiva. Traços de personalidade, e até menos do que isso: um simples comentário, um deslize, são provas irrefutáveis da culpa, que aparece aqui como irresistível, certa e inevitável. E nem falo dos que simplesmente supõem que as ações abomináveis são resultado das posições ocupadas no quadro de parentesco, ou pela posição social.
E a entrada deste novo personagem, que já veio assombrar a idéia de uma neutralidade e objetividade científica (forense) em outra oportunidade, para mim só reforça a idéia de construção, de ficção. Duas histórias completamente opostas podem surgir. Interpretações ou explicações? De onde se fala e qual é a legitimidade de quem fala. E surge a possibilidade da dúvida, que é a intenção da defesa, claro (e nem digo com isso que não seja possível uma ciência forense bem intencionada).

Isso me lembra bastante o que li sobre o caso do Jack, o mais famoso deles. Estudos minuciosos provam que ele foi um pintor expressionista inglês, foi o médico que teorizou a histeria, foi um membro da realeza sifilítico.

domingo, maio 25, 2008

Últimas

Ando bastante caseiro nos últimos tempos, mas rolaram duas boas baladinhas esta semana. A primeira mais... digamos... convencional (ainda que com sonzinho de queridas). Já a segunda foi meio esquisitinha (mas um esquisito bom).
Fui no pub que não é pub (mas ainda sim bacana, ainda que com atendimento que deixa um pouco a desejar), com discotecagem de amigos (muito boa, por sinal).

Bem, você passa pela vida fazendo amizades e participando de certos círculos. Ao longo da existência você se relaciona mais, ou menos, com determinadas pessoas, em determinadas épocas - algumas sempre voltam em algum momento e parecem nunca ter se distanciado, outras desaparecem nas brumas. E alguns amigos são amigos entre si, mesmo que não sejam dos mesmos círculos. Me espanto com alguns exemplos: "mas você conhece fulano? De onde?" Ainda que tenha percebido que realmente Campinas é uma kitnet (rolaria fácil uma análise antropológica de redes).
Na verdade, o esquisito, afirmado acima, foi que pessoas de várias dessas turminhas confluiram para o mencionado estabelecimento (lá não tem cerveja da ilha, mas felizmente eu já tinha matado minhas lombrigas um pouco antes).
Encontrei algumas pessoas que há muito não via, bebi e dancei. Foi uma noite leve, daquelas que tudo dá certo, tudo é engraçado e, mesmo desembolsando uma grana que eu não tenho, voltei contente, com dor na perna e tudo.
E minha querida amiga da capital continua linda (e cabeluda, heim?!)...

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Dei minha primeira aulinha esta semana! E foi logo para uma turma de mestrado! Claro que quase que tenho uma síncope, mas o resultado foi até encorajador. Quem sabe essa minha paúra docente não melhora?

quinta-feira, maio 15, 2008

Uma breve notícia

Esta é a tragédia de Henrieta C., carioca torcedora do Fluminense, que veio para São Paulo assistir à semifinal da libertadores contra o outro time tricolor, mas que justificou a viagem, para seu pai, por conta de numa exposição sobre a Natureza das Coisas, no MASP, já que fazia arquitetura na Puc.
Foi, na verdade, para a capital paulista com seu namoradinho Josias, e não com a turma da faculdade, que viajou para Ouro Preto em uma pesquisa de campo.
É certo que pensou na exposição como desculpa porque queria de fato visitá-la, ainda que num nível bastante ideal e platônico, já que não tinha intenção nenhuma de deixar de assistir o jogo. Josias tinha conseguido os ingressos dificílimos e não tinham como perder a oportunidade, agora que o Flu parecia estar com um time tão bom e competitivo, e já tão longe na competição.
O fato é que o pai de Henrieta, Rene, não gostava nem um pouco de Josias que, para ele, era simplesmente um malaco. Homem muito conservador e controlador, proibiu a filha de se encontrar com o Romeu. Pobre homem, ignorante das verdades dos corações jovens, já tão cantadas pelos poetas, que sabem que a probição é como combustível para a paixão, mas ainda tão misteriosas aos pais, que sempre acham que seus filhos são diferentes deles mesmos.
A menina achou que o melhor era inventar uma desculpa relacionada à sua formação, tão prezada pelo pai. Quanto a isso, nunca nada lhe era negado. E de qualquer forma estaria de volta no dia seguinte, sem problemas.
Mas quis o destino que Rene resolvesse assistir o jogo na tv aquela noite. E quiseram os deuses zombeteiros que a câmera focalizasse, quase no final da partida, a torcida carioca, e mostrasse Josias passando um baseado para Henrieta. Era o primeiro que ela fumava, mas estava tão inebriada pelo espetáculo e pelo inusitado da situação, que resolveu experimentar. Oportunidades não faltavam na faculdade, mas nunca quisera então. Uma coisa era seu cotidiano. Outra era esta experiência, tão única e quase surreal, um parênteses na sua vidinha.
Rene, boquiaberto na frente da tela, por um momento não acreditou no que viu. Sua filhinha estava em Minas! Mas a imagem era clara.
Copo na parede. Cacos no chão. Cerveja no tapete.

Murphinianas

Seria, afinal, o universo regido por forças não-aleatórias?
Todo mundo, quando lê as notícias de corrupção, covardia e vilanias em geral, no fundo vira um pouco budista vingador (ou cristão mesmo): em outra vida, ou em outro plano, aquele irá pagar. Vai arder no fogo do inferno, ou volta como um cupim manco.
E nem precisa ir muito longe na metafísica religiosa. Existe a lei da compensação secular - "aqui se faz, aqui se paga", e outros ditados do gênero (e se a justiça falha, pelo menos se espera que o safardanas durma mal, ou então que a história se encarregue de execrá-lo como merece - se o acerto de contas não se dá individualmente, quem sabe na memória, talvez).
Eu me pego sempre achando que existe algum princípio regulador no cosmos. Mas depois, invariavelmente, acabo me resignando, achando que o mundo é injusto mesmo e não tem o que se fazer - o último que sair que apague a luz. Entretanto, vem aquela pontinha de dúvida, de que as coisas se acertam, de alguma maneira, em algum momento - e acabo nunca escapando do círculo.
Nas últimas semanas tem reinado um princípio estrutural relacionado: de que quando as coisas param de funcionar, param todas ao mesmo tempo. É o banheiro que vira zona de guerra, mas também é o carro que sucumbe, o pneu que agoniza, a luz do escritório que pifa, a luz da cozinha que a acompanha, o interfone que fica mudo, o computador que pede arrego, a sola do sapato que desgruda.
Lá vou eu então testar o outro pricípio newtoniano da reciprocidade: vou jogar na mega-sena.

terça-feira, maio 13, 2008

Sobre reforma e madrugada

Pois bem, informo que minha capacidade cognitiva têm sofrido deveras com os trabalhos - que não são esotéricos mas ainda sim para-reais. Tenho a impressão de estar vivendo uma piada sem graça, uma parábola deveras exagerada. Quando penso que posso acordar, de fato vejo que nem dormi, e o despertar vem ao som das marteladas. É tudo quase psicodélico, em sua urgência cavalgante.
No começo achei um pouco irritante essa minha relação com os contratados. Não pela sujeira, incômodo ou barulho - tudo terrível, mas inevitável - mas pelas tais previsões que me dão. De quando terminaria (me foi dito inicialmente que seria uma semana, e não um mês - e contando), e de que material comprar: de nenhum cimento ("a gente se vira com um tiquinho da outra obra") para um saco 50 kg (que me ferrou as costas). Depois sair para comprar apenas mais um T de dois terços. Daí dois parafusos de cabeça chata, para então canos, sarrafos, misturadores, registros, isolantes, cola, fio, mais um saco de 50 kg (que acabou por me foder a lombar), e por aí vai (e vai longe). Você não acreditaria quanta coisa cabe num banheirinho. E, é claro, as tarefas me são dadas aos poucos; um produto de cada vez, à medida que são necessários, e não tudo junto em um só pedido.
É, isso me irritou no começo. Mas então, quando me senti como numa gincana de colégio e vi que teria, sim, que deselbolsar mais 100 aqui, mais 50 ali (que eu não tenho de fato), sair procurando madereira, loja de hidráulica, ovo de duas gemas e a pessoa mais velha que eu pudesse encontrar, me resignei. Agora acho tudo surreal, engraçado até. "Ok, vou procurar um start para 20 w. Não é que tenho nada melhor pra fazer mesmo".

Tenho cá algumas peculiaridades, que alguns podem considerar defeitos, mas que aprendi serem parte constituinte da pessoa que vos fala.
Como dormir tarde. Desisti de tentar me enganar, dizendo aos outros que irei acordar mais cedo, sair para caminhar com as primeiras luzes e sei-lá-mais-o-quê que normalmente se coloca na conta dos que têm o modelo de saúde a se emular. Eu durmo tarde, trabalho melhor de madrugada, acho que os melhores programas começam depois da hora da bobra e acho tudo muito mais tranquilo durante o reinado dos homenzinhos do Stevenson.
Sem a mulher de voz enjoada que vende pamonha, sem as buzinas, sem o bar azul, sem a vida que estaciona. O que é estranho, porque é exatamente nas primeiras horas que tudo parece congelar. Mas é quando tudo pára que se pode olhar pela janela e perceber o desenrolar de um simples movimento, despercebido que seria durante o dia. Voyeur singelo, adoro observar uma luz acendendo e tentar imaginar o que a pessoa está fazendo acordada; o piscar fantasmagórico de uma tv; um carro que passa solitário - vem de onde, vai para que canto? E mais, eu consigo me enxergar muito melhor.
Teço aqui minha ode e minha homenagem aos madrugadores, e aos insones como eu. Já sofro demais com isso para somar ainda mais uma neurose e achar que tudo é um lixo. Então digo que lido bem com isso (ainda que não recomende a ninguém).
Claro, nas últimas semanas este meu hábito trouxe problemas, pois é impossível continuar dormindo depois das 8, quando começam os mencionados trabalhos - no caso, uma reforma dos banheiros. Mas dormir cedo também não é uma opção. Resta torcer para que não surjam ainda mais imprevistos para o final das reformas.
E vou levando como Napoleão.

Mas nem tudo são espinhos. Informo que devo ter saído no Correio, na melhor pose pessoa-descolada-na-frente-de-seu-computador de orelha de livro (até fiz a barba, pasmem!). Engana-se quem pensa que seja algo relacionado à ciência do homem. Foi para uma matéria sobre video-game. O que contribui em muito para minha imagem de vagabundo sedentário, mas, enfim... é divertido (engraçado o fotógrafo, que queria uma foto ao lado do meu atari, mas teve que se contentar com o mouse mesmo).

Dentre as muitas outras possíveis notícias a se relatar neste espaço, ressalto apenas que finalmente assisti Coffee and Cigarettes (bem, o mais recente), ainda que não inteiro. Adoro o Jarmusch, mas ainda sim os filmes dele não são "de cabeceira"; não consigo assistir a qualquer hora.
Mas deve ser muito bom ser o cara. Amigos bacanas, respeitado, não precisa fazer muitas concessões, filma o que gosta, e agora se aproveita de uma boa estrutura que foi criada para os tais filmes cults, nos EUA. O equivalente na direção do que seria, por exemplo, o Bill Murray hoje.
E que vontade de café e cigarros...
(rápida menção: lembrei do diálogo entre o Jarmusch e o Keitel em Blue in the Face. Você não acredita que o Jim vai mesmo fumar seu último cigarro, depois daquela cena!)

domingo, maio 04, 2008

Gólgota

3 da manhã.
Volto de uma baladinha que teoricamente deveria reproduzir um pub londrino. Na prática, cerveja brahma e nada de guinness.
Mas sobre essa decepção falo outro dia.
O fato é que é uma dessas noites que poderia ficar bebendo indefinidamente, que não teria problema nenhum. Voltei porque não restaria ninguém no bar comigo. Sem nenhum sono e suficientemente alcoolizado para perder o pudor do entretenível, comecei a zapear a programação de sábado de madrugada. Lixo extremo. Por algum tempo fiquei entre um programa sobre terremotos na Turquia e a reprise de Anaconda - com uns pulos ocasionais para Troia dublado (e depois me censuram por criticar a lei de incentivo à cultura nacional).
Acabei indo para o VH1 em busca de uns clips podres e acabei por encontrar o supra-sumo da tosquice televisiva! A pérola, denominada Flavor of Love, é um The Bachelor versão Tião Macalé (sem o atenuante da anamnese pessoal e da paródia de si consciente), crossover teletubies on acid!
É o Flavor Flav envelhecido, tresloucado e acabado, com pitadas de chapeleiro louco, que escolhe a cada semana uma... nem sei que adjetivo adotar... uma guria para sair de seu harém dos infernos.
Fiquei pensando sobre as opções interpretativas e cheguei à conclusão que nenhuma implica em boa coisa:
Ou as mulheres estão realmente apaixonadas pelo Grande Otelo do rap, ou elas mentem descaradamente em prol de uma publicidade no mínimo dúbia (em que o público acredita na farsa), ou então todo mundo envolvido sabe que aquilo é um absurdo e é encenada uma tragédia hipócrita de proporções homéricas...

quinta-feira, maio 01, 2008

Primeiro de maio

Fazia muito tempo que as coisas não ficavam tão corridas.
Neste mês longe daqui muita coisa aconteceu - menininhas fofas nasceram, padres levantaram vôo, sublevou-se o país em hordas justiceiras e explicadoras, a Áustria assusta profundamente, surgiram (e desaparecerão) mulheres frutas (melâncias ou não). Realmente não foi por falta de novidades que deixei de dar uma atualizadinha no blog...
Ando às voltas com vários afazeres, um dos quais não muito prazeiroso, e que está restringindo meu sono em algumas horas diárias, ultimamente. Fazem a tal da reforma, finalmente. Atrasada em alguns anos, atrasada mesmo agora em sua execução. O que era para já ter terminado, se arrasta, me deixando louco e ainda mais surdo do que já sou.
Mas aconteceu uma coisa interessante por conta disso, que colocou em perspectiva minhas lamúrias laborais.
Claro que esse mito dos avanços trabalhistas pós revolução industrial é uma balela e não cola há tempos, mas quando me pego frente a frente com um caso concreto, ainda fico chocado.
O rapaz que vem quebrar pedra trabalha praticamente 20 horas por dia! Veio sem máscara, sem luvas, sem óculos... sem dormir. Sai daqui e vai para outro trabalho braçal, até de manhã, quando volta pra cá.
Ele tem o discurso empolgado de que pelo menos tem saúde pra continuar a trabalhar, então não tem do que reclamar. Mas se continuar assim, até quando?

quarta-feira, abril 02, 2008

Estádios e times


Hoje o Guarani FC faz 97 anos. Na verdade fez ontem, mas convencionou-se adotar o dois de abril afim de evitar mal-entendidos e piadinhas sem graça.
Vi hoje que o projeto de salvação (renovação, aos mais otimistas) foi aprovado. O Brinco será vendido, se tornará mais um conjunto de prédios em uma área que está se valorizando na cidade, e o time terá um novo complexo mais afastado. Parece que o consenso é que era ou isso ou o desaparecimento do clube, afundado em dívidas, às vésperas do seu centenário.
Tal como acontece com a cidade, minha família é dividida entre bugrinos e ponte-pretanos. E, ao que parece, há gerações. Reza a cosmogonia e mitologia familiar que meu bisavô materno, Fernando, alemão oriundo de Hamburgo que abandonou seu ofício de ourivesaria para se tornar ferreiro em terras tupi (destino poético e trágico, em certo sentido), foi responsável por uma das arquibancadas do estádio Majestoso. Já meu avô, genro de Fernando, parece ter se envolvido com o rival carlos gomista desde muito cedo, também aparentemente através de seu pai, que ajudou em alguma reforma, em algum momento da história. Mas até a chegada da ovelha negra do meu tio mais novo, o destino familiar estava traçado, em prol dos bugrinos.
De minha parte, creio que não tendo nem para um lado nem para outro. Sempre fui simpático aos alvi-negros, que transmitiam uma áurea de romantismo quixotesco. Eram sempre os mais pobrinhos, mas nunca abandonavam o time ou a esperança (a tragédia maior parece remontar à famigerada final com o Corinthians em 1977). É, além disso, um clube que sempre gozou de boas relações com o mencionado Corinthians. Mas também sempre tive um certo carinho com o Guarani, com certeza devido à paixão paterna. O bom é que parti para uma terceira opção como torcedor e me abstive da tomada de partido.
Mas me entristece muito a notícia do acordo, ainda que concorde que é o menor dos males. Em minha terceira década como habitante deste planeta, já pude notar uma grande diferença na paisagem urbana. Onde morava era quase uma roça em comparação a hoje. Claro, é inevitável que coisas mudem. Mas é também angustiante ver certos marcos, tão visíveis e tão duradouros não se mostrarem... bem, duradouros. Não passar pela Princesa d'oeste e não ver o estádio será estranho. Lá estive, em 1988, na final com o mesmo Corinthians, vendo o Viola acabar com as esperanças verdes, e lá estive em outras ocasiões depois.
Deve ser algo parecido com o famoso trauma que enfrentaram os torcedores do Dodgers quando tiveram que mudar de estádio no Brooklyn (o que acarretou na mudança do time da cidade e desespero dos fãs), e que em breve enfrentarão os torcedores do Yankees, que verão a demolição do quase centenário Yankees Stadium, no Bronx, e também outro marco da cidade de Nova Iorque.

segunda-feira, março 31, 2008

Uma festa

Dezembro. O frio já se abatia sobre a cidade. Só de lembrar das baixas temperaturas do começo do ano, sentia um misto de excitação e apreensão. O velho mundo é muito mais charmoso no inverno.
Contando que não houvesse neve, estaria tudo ótimo.
O trabalho andava a mil. Havia descoberto, algumas semanas antes, um pequeno tesouro na faculdade de Malinowski. Depois de achar que faltavam apenas pequenos detalhes para resolver e então poderia aproveitar as semanas derradeiras em stouts, ales e bitters, me peguei trabalhando praticamente durante todo o dia.
Mas vieram as visitas, e também não é que parei de aproveitar o que havia de bom e iria acabar logo.
Foi então que numa quinta-feira gelada, de garoa-quase-neve, encontramos uma festa para ir. Como na música dos brasilienses, estranha, com gente esquisita.
E num lugar bizarro. Era um antigo depósito de carga em King Cross, longe e escondido, agora usualmente usado pelo pessoal rave. Fiquei pendurado no telefone com a promoter, tentando entender onde tinha que virar à esquerda, direita, seguir reto, achar o posto, depois do pub...
Lá chegando achei que seria um fracasso. Nas vielas abandonadas, em meio a galpões velhos e fechados, carros enferrujados e muita escuridão, apenas os organizadores do evento, que se punham postados, de tempos em tempos, orientando os perdidos para onde ir. Mais ninguém. Pareciam tão solitários, parados no frio, no silêncio, como soldados esperando a próxima pessoa a pedir direções. Estranhamente, muito simpáticos e contentes.
Mas uma vez dentro, vi que havia muita gente. Como vieram e por onde chegaram permaneceu um mistério (e como foram embora, porque o lugar era realmente bem fora de mão, sem transporte coletivo depois de uma certa hora).
O mais interessante foi ver como eram os "étnicos" que mandavam no lugar. No centro da pista eram admirados e imitados - não muito bem, por sinal.
Invisíveis e pálidos nos escritórios e nas ruas, debaixo do estrobo e na frente dos falantes, eram diferentes. Fenômeno que vi outras vezes, como numa boate brazuca em plena Holborn.
Mas sou injusto. É a dor de cotovelo falando. Não existem mais festas assim em outras paragens.

terça-feira, março 18, 2008

Cruzada pela moral e pelos bons costumes

Deu para o novo governador de Nova Iorque também admitir suas puladas de cerca - e o capacete de boi recíproco. Deve ter pensado que era melhor falar logo, que descobrirem e causarem um rebu - o que provavelmente aconteceria. Escândalo nos EUA é como mineração: depois que se descobre um veio, toda sorte de aproveitadores e carniceiros afluem como abutres pelo fedor e putrefação até que não reste nada além da memória dos ossos limpos.
Agora, essa honestidade em suspeita levanta algumas questões. A moral da história do paladino antecessor que foi pêgo com a boca na botija tem que ser que, o pior, não foi tanto a rendição às fraquezas da carne, mas a hipocrisia puritana. Isso em um país que leva muito a sério a correlação entre conduta e discurso. "Não mentirás", que para ouvidos sul-americanos soa como um estranho mandamento, é muito pior que "não roubarás".
De fato, há um grande mal estar quando os representantes eleitos do povo mostram-se menos que castos e honestos. O que é estranho, pelo menos no caso americano (e aqui também como no brasileiro), em que há uma desconfiança enorme no histórico moral dos políticos de carreira (talvez isso inclusive tenha agravado a situação de Spitzer, que definitivamente não tem o perfil de político profissional, mas que veio de um meio, digamos, menos suspeito. A traição parece maior).
Parece que a suspeita sempre paira, mas ainda causa choque quando ela se materializa de fato. O que me faz indagar o quanto isso é causado pelo ultraje moral e o quanto é pela decepção, talvez velada, pelo fato de que o cara, enfim, foi pêgo. Incompetente.
E não tem jeito, é como em outras esferas da vida pública - o que causa comoção são os crimes que envolvem sexo, traição. Esses dão ibope. Porque, afinal, não é o eleitorado que tira as maçãs podres do cesto, mas a pressão exercida pelas outras frutas reticentes e receosas da atenção recebida. Essa é razão pela qual fornicadores são guilhotinados e lobbistas, traficantes de armas e genocidas têm cargos vitalícios. Ainda que os corruptos e instigadores de violência estejam em círculos muito mais profundos que os luxuriosos na economia infernal dantesca.
Mas é evidente que não se pode esperar o fim do moralismo tacanho na política. As quatro paredes do poder ainda testemunharão, em silêncio, os horrores humanos. Se essas confissões têm um contexto todo especial para existirem, é importante lembrar que se trata de NY. Sabe quando isso aconteceria em... Utah, digamos?

domingo, março 16, 2008

A nobre arte da dublagem

A única coisa que presta na MTV é o Cine Class.
Recomendo efusivamente.
A mim me dá cãibras de rir!

quinta-feira, março 13, 2008

Outro seriado

Estou assistindo O Triângulo, que em parte acho interessante, mas também um pouco viagem além da conta.
Entretanto fiquei pensando no que o Gustavo me falou outro dia, sobre outra série que adoro. Talvez, se não estivéssemos acompanhando Lost há algum tempo e não estivéssemos tão viciados, provavelmente nos irritaríamos com a prolixidade das teorias alternativas, pseudo-científicas e quase místicas que caracterizam o show nos últimos tempos.
Enfim, sobre o Triângulo, vale a pena assistir pelo Eric Stoltz, ator que sempre gostei e que, afinal, não se perdeu nos anos 80.

PS - correções no post anterior.

quarta-feira, março 12, 2008

Perspectivismo

Outro dia fui na farmácia comprar álcool e soro. Domingo, por sinal. Esse dia vazio e preguiçoso.
O dia não estava dos mais bonitos, mas também não estava ruim. Aproveitaria e andaria um pouco, coisa que não tenho feito muito ultimamente. Quando cheguei na farmácia alguns pingos mais gordos já começavam a cair.
Acabou que comprei as coisas a que fui e fiquei esperando cair o mundo em forma d'água dentro do estabelecimento farmacêutico. Em cinco minutos tudo estava alagado.
Para quem conhece aquele cruzamento da Barreto Leme com Cel Quirino sabe das generosas poças que se formam por lá nessas chuvaradas - ainda que seja muito melhor que em outras regiões do bairro.
Lá esperei, olhando os produtos, a balança, a chuva, os pedestres encharcados, os motoristas com síndrome de rali.
Puxei conversa com um rapaz e acabamos falando sobre a chuva e os transtornos das inundações dali. Ele me contou que o problema é que aquela região toda antes era charco (ou o termo técnico correto) e que a água não tem como escorrer quando ocorrem os temporais, já que o sistema de esgoto é bem precário em decorrência do passado alagadiço da metrópole. Isso lá por volta de 1700.
Não sou versado na história da cidade, mas já havia ouvido explicações parecidas (o mesmo parece ocorrer com São Paulo e o problema com o Ipiranga, ou sejam lá que águas correntes subterrâneas espreitam e conspiram contra os cidadãos insuspeitos). De qualquer maneira, o argumento parecia bem plausível.
Das conjecturas históricas e urbanísticas não demorou para chegarmos no aquecimento global, no derretimento do gelo nos pólos e no aumento da temperatura e do nível do mar.
Mas a ganância do homem não se traduzia, segundo meu interlocutor, em poluição e destruição da camada de ozônio. Ou não apenas isso, de qualquer maneira. Mas é, antes de mais nada, a confirmação da natureza pecadora humana, a prova do sinal, indiscutível, de que a grande tragédia se aproxima - ou assim entendi, com minhas palavras.
Mas qual tragédia, indago?
O fim anunciado, foi a resposta.
A conotação bíblica de um apocalipse talvez menos simbólico (ainda que saturado de sentido) e assustadoramente real ficou logo evidente. E eu estaria equivocado em pensar o contrário.
Equivocado e iludido, porque é claro que a ciência tem sua explicação do fenômeno, mas ela falha miseravelmente quando diz respeito aos desígnios insondáveis saídos de um Velho Testamento vingativo. Tal como os azande, que não têm problema nenhum em admitir que cupins tenham roído o arco mas insistem em lembrar que a madeira ruiu exatamente quando fulano se encontrava debaixo (e, portanto, prova de que feitiçaria se mostra presente), me foi mostrado que os princípios por mim aceitos para explicar os problemas ambientais, eram mais complexos do que imaginava.
No fundo ele me alertava para os sentidos do efeito estufa, e estava de certa forma muito menos restrito quando se tratava de pensar sobre o problema, que evidentemente não é apenas ecológico - ainda que ele mesmo estivesse refém de sua perspectiva e visão de mundo.
Para quê acumular e planejar, quando o melhor, inferi pelos rumos da argumentação, era simplesmente esperar, resignado, o castigo merecido? Uma versão sombria e paradoxal do carpe diem exatamente porque, neste caso, o futuro é certo e o presente intocável.
Voltei para casa um pouco angustiado com o confronto com um outro paradigma e uma outra forma de experenciar, além de bastante molhado.

quarta-feira, março 05, 2008

Gênero do futebol

Há anos que faço etnografia televisiva - com gosto, devo dizer. Não acho que faço mal quando o papo é tv.
Logo depois do almoço eu paro no canal das mesas redondas de futebol - ainda que de vez em quando fique um tempo sem assistir, já que geralmente os argumentos se repetem irritantemente. As análises táticas raramente são compreensíveis e há uma preocupação exagerada de um equivalente politicamente correto nos prognósticos dos jogos - tudo é marcado por um "equilíbrio", e nada é "moleza".
Time X é "melhor tecnicamente", mas Z é "mais coeso e estruturado", enquanto W "passa por uma fase de renovação", entretanto K "tem a tradição a seu favor", só que Y "conta com o fator campo" - contudo, não se pode esquecer da altitude! Isso se traduz, literalmente, em não menosprezar o adversário ou, para quem vê de fora, em não queimar a língua, já que ninguém tem a mínima idéia do que vai acontecer (senão estava rico jogando na loteria esportiva e não apresentando programa). Porque, como dizia o folclórico Vicente Matheus, futebol é uma caixinha de dois legumes. Ou algo equivalente.
No fundo futebol ainda é extremamente marcado por conservadorismos esquisistos (como essa clivagem de gênero de décadas de idade) que, de alguma maneira, ainda conseguem sobreviver neste meio, como que socialmente blindados. Pelo menos no no que diz respeito à tv.
Exemplifico: no programa de hoje surgiu um comentário sobre como o ex-atacante são-paulino Müller está com o corpo conservado mesmo hoje em dia. Rapidamente todos os representantes masculinos se isentaram de comentários com risadinhas de "nessa eu não me meto". Com a exceção de que apenas a comentarista - que é gay, por sinal - presente poderia opinar, porque isso é do "departamento" dela.
E já existiram outras situações parecidas. Parece haver uma fobia exagerada em fornecer qualquer elemento que possibilite acusá-los, mesmo que remotamente, de nada menos que heterossexuais mais do que convictos. Ultra-machos. Duvidar da hombridade dos envolvidos com o esporte é ofensivo, e tabu maior que em outras esferas. É impensável até mesmo admitir que se tenha alguma opinião sobre algo inocente, como as pernas do Roberto Carlos.
Não o rei.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Arte

Pronto. Assisti Tropa de Elite. Desde "across the pond" que eu ouço falar desse filme, e das expressões que dele surgiram e tornaram-se cotidianas (até onde, eu não sei ao certo. Não as ouvi na rua ainda. Não sei se isso quer dizer que exageraram ou se vivo numa bolha elitista). Os pedreiros que azucrinam meu dia, na construção atrás de casa, cantam a maldita musiquinha funk quase todo dia - quando é possível ouvir algo, com todas as marteladas e serra-serra ininterruptas.
E não sei. Já ouvi falar coisas bem diferentes a respeito do longa. Desde "fascista" até "ótima crítica social". Um ponto a favor, para mim, em relação a Cronicamente Inviável, outro chute no saco da classe média que me veio à cabeça: não é nauseante. O tapa de pelica é feito com competência (e talvez maquiavelice), não tanto pelo choque (ainda que o assunto cause isso). Quando você menos vê está torcendo para o tal capitão Nascimento e vendo nos alunos da puc tudo aquilo que abomina nos seus colegas de faculdade.
O filme é construído assim e acredito que o efeito é intencional. Mas não acho que isso seja para tornar os policiais heróis. Acho que é para fazer o espectador se olhar no espelho e fazer o mea culpa e repensar cada prazer efêmero que vem descendo goela abaixo como uma pedra, quando o inferno passa invisível ao lado (e são nos entrecruzamentos deste inferno com nossas trajetórias que ele se torna evidente e passamos mal com nosso egoísmo, natural e teoricamente inocente, mas na realidade carregado de remorso ou ódio. Por isso a tática de enfiar a cabeça no chão). No fundo o que se diz é que a boa intenção não é bem-vinda, ela é hipócrita e os grupos sociais estão cada vez mais e absolutamente incomunicáveis. Nunca nascer em um grupo tornou as pessoas tão maniqueístas e tão à mercê do que elas são permitidas falar e agir.
Acho ainda que o filme tem algo que tenho percebido surgir como um tema atual: resignação. Não derrotismo propriamente. Mas uma denúncia que não tem a pretensão de fornecer uma resposta - quanto menos uma resposta banal, que existe às pencas por aí. E penso que sou mais isso do que comprar diagnósticos canhestros.

Chego então no outro filme que vi. No country for old men. Fui ver o filme esperando alegorias metafísicas (ou no mínimo morais) como, mais claramente, em Barton Fink (até hoje ainda tenho variadas interpretações do simbolismo exibido). Mas ao terminar de assistir fiquei com a impressão de que a maldade é gratuita e não há poesia ou qualquer possibilidade de real dramaturgia em torno do mal. O filme é uma sucessão de anti-climaxes desconcertante. Por quê temos que pensar que deve haver um desfecho previsível? Agora, não sei se é um alerta social ou simplesmente uma crítica à estrutura cinematográfica atual. Arrisco dizer que é mais a segunda opção, utilizando como meio, a primeira.
As pessoas saíam da sala desconfortadas com o inusitado enredo. Indignadas quase. O que há para entender afinal? Qual a lição moral?
Nesse sentido talvez os personagens tenham sido de fato arquétipos de algo. Expressões de confrontos que transpassam o cultural. E, talvez contradizendo o que disse anteriormente, tenham algo de grego. Mas é o herói sem redenção, o mal desglorificado e não punido, o bem despropositado - o oposto do esperado. Os elementos estão lá, mas dispostos e utilizados de uma maneira completamente diferente.
Eu ainda tenho que pensar um pouco sobre o filme para falar mais. Esta é uma primeira impressão. Sei que a Dani quer escrever sobre ele também. Esperarei, pois, querida Cris.

Para terminar a semana cultural, ontem fui para São Paulo assistir uma peça da Ana Carolina, amiga da Dani, que escreveu e atua em um ótimo monólogo. O texto é muito bom, inspirado numa conversa entre as duas (e a trilha inspirada no meu amigo An2), e a performance também excelente.
A história é uma tragédia baseada no estupro de uma menina de classe média, "socialmente esclarecida", e que no fundo é uma caricatura risível de todas as pessoas que têm boas intenções mas que também têm o amparo das instituições e do berço - para qualquer imprevisto, sabe como é.
Achei interessante assistir a peça porque entendi que ela também trata de uma tragédia social desesperadora, porque aparentemente sem solução - para lembrar de outro filme nauseabundo - irreversível. Devo lembrar que tais barbaridades aconteceram na unicamp e na pucc recentemente? E que um número alarmante de pessoas "esclarecidas" acham que a culpa é da mulher, "lasciva"?
No entanto, o buraco é ainda mais embaixo, porque não se trata de um roteiro do holocausto anunciado. Se a denúncia é social, as causas já se tornaram de tal maneira esticadas e espanadas (então insolúveis e irremediáveis), que o prognóstico é dos mais funestos. O mal é súbito, estúpido, não tem anúncio e não permite redenção - "você não sai mais forte no final" seria a coisa mais próxima de uma moral nabukoviana aqui em questão. As coisas acontecem e pronto.

Cena: esperava, na frente do teatro, no centro de São Paulo, praça Roosevelt, falando ao celular com uma amiga. Chega um menino de rua, pedindo dinheiro aos estudantes que tomavam cerveja na calçada. O dono do bar, que funcionava junto ao teatro, afugenta o garoto, instigando-o a "ir cheirar cola ou fumar crack em outro lugar, seu vagabundo". O garoto rebate dizendo que ele não é disso, que têm "consciência e é trabalhador". Ânimos se exaltam e ameaças de pancadas vêm dos dois lados. Enfim o menino ameaça "nóis é do comando e vou vir passar bala em tudo aqui". O pessoal do deixa disso tenta fazer o dono do bar perceber que não vale a pena provocar o guri. Mas fiquei com a impressão de que era menos pela grosseria e pelo preconceito terrível do rapaz, com toda a pinta de estudante de humanas de alguma faculdade paulistana (no bar eram vendidos "livros-cabeça"; comprei a autobiografia do Jean Genet e um livro do Henry Miller enquanto esperava), do que pela real possibilidade do menino voltar com reforços armados e cumprir a promessa.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Documentando diálogos

Foi o Oscar, aquela forçação que adoro assistir, o supra-sumo do excesso e pieguice que, misteriosamente, tem seu charme.
Este ano estou devendo em matéria de cinema. Vi Michael Clayton, que gostei muito, vi o filme da Piaf, que também adorei, e vi o novo Elizabeth, que achei um lixo. Mas acho que foi só. Então não posso realmente emitir um juízo.
Entretanto fiquei com vontade (bem, mais vontade) de ver alguns dos filmes. Em especial Juno, No country for old men, e There will be blood. Daí escrevo algo mais, post dedicado a amiga-xará.
Mas comecei falando do Oscar por outro motivo. Percebi que o prêmio de melhor documentário não foi pro Michael Moore com o filme sobre a saúde pública.
Há tempos que eu não acho que o cara seja documentarista. Na verdade eu não sei se existe a possibilidade de um documentário, se o pensarmos pelos princípios normalmente esperados para um - haja visto as objeções que vêm sendo levantadas em relação a Moore: tendencioso e partidário. A definição do anti-documentário.
Enfim, se é documentário ou propaganda para mim não importa muito. O problema é que a relevância dos filmes de Moore gira em torno exatamente deste ponto. Exemplo de denúncia esclarecida ou lixo partidário?
Agora veio um novo documentário, Manufacturing Dissent, que "mostra" como Moore manipula informações e imagens - ainda que terríveis por si só - para alcançar efeitos bem pouco próximos da realidade, seja o que for isso. Eu acredito que qualquer narrativa construída, editada, é ficção em um grau ou outro. Mas há má intencionalidade e má intencionalidade.
A grande questão - e acho que isso tem muito em comum com o atual governo no poder - é que alguém pode falar que este novo autruísmo delatista é, por sua vez, partidário e interessado. No caso, o império contra-ataca (veja a popularidade que o Mainardi têm conseguido). E pronto, já não se sabe quem fala a verdade - se é que ela existe, ou quem é pior do que quem. E você fica com a impressão de que é manipulado de um lado e de outro por políticos-publicitários da maior competência (e todos os melhores publicitários devem ter ido mesmo para a política, porque propaganda na tv é simplesmente terrível). Mesmo considerando que o documentarista não tem uma agenda e tente ser imparcial.
Um dos piores problemas dos tropeços da pretensa "esquerda" é dar munição para o inimigo. Depois, claro, da decepção em si.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Curriculum Vitae

Um dos seriados que mais gosto de assistir é House.
TV, nos últimos anos, nos EUA e aqui (no caso específico das sitcoms e dos programas importados), perdeu um pouco do estigma midiático de uma década atrás - quando em comparação com o cinema. Não sei se isso começou com Seinfeld, ou Friends, ou algum outro programa, mas notou-se que existia qualidade na telinha. E mais, os seriados ficaram mais valorizados e os atores passaram a ganhar mais, assim como os famigerados roteiristas e demais apêndices do ramo. Emmy ganhou glamour. Bafta ganhou espaço. Screen actors guild reapareceu. Hoje não trabalham na tv apenas os novos rostos. Gente consagrada na película migrou - e não apenas os atores em fim de carreira.
Se ainda não chegou no nível hollywoodiano de prestígio (que diminui exponencialmente, devo acrescentar; junto com a música americana, para mim moribunda), pelo menos trabalhar em seriado é, hoje, uma boa opção de trabalho entre os profissionais da classe.
E Hugh Laurie é um dos melhores atores que apareceram na tela em muito tempo. Acho que poucos conseguiriam tornar seu personagem simpático. Sua atuação é simplesmente deliciosa de assistir.
Enfim, não é exatamente sobre isso que quero falar. Lembrei de House porque esta quarta temporada, para mim não tão boa quanto as outras mas ainda sim excepcional, adicionou uma fórmula cada vez mais difundida que, acho, merece uma certa preocupação. E não pelos motivos banais sempre assinalados pelos cabeças de plantão - "o nível da televisão está horrível". Se isto é verdade, também não é novidade. Me refiro às eliminatórias voyeurísticas em voga.
Para quem não acompanha o programa (e, sério, faça algo a respeito), um rápido resumo:
House, diagnosticista brilhante mas com sérios problemas de relacionamento com o próximo, perdeu toda sua equipe-saco-de-pancada no final da terceira temporada. Agora ele quer contratar três novos pupilos, selecionando-os de um grupo de algumas dezenas de médicos candidatos. A cada episódio (mais ou menos), o sádico processo seletivo prossegue, ao mesmo tempo em que os casos enigmáticos vão acontecendo como de praxe.
Antes de House, que passa às 23:00, vi Hell's Kitchen, o programa do chef-belzebu Gordon Ramsay, em sua terceira temporada. Antes do Hell's Kitchen, vi American Idol, sétima temporada. Nos intervalos ia vendo Big Brother, dia do paredão.
E por aí vai. Deu pra sacar o drama, não?
Agora, neste momento cósmico da atual conjuntura socio-econômica-cultural-política da humanidade, perdida em uma insanidade avaliatória porque, enfim, não há espaço para todos; em que temos um vestibular no final do colegial, depois mestrado, doutorado, pós-doutorado (ou residência, exame da ordem, rachão...) etc; para então tentar concurso público, envio de curriculum, entrevistas, dinâmica de grupo, correr atrás de migalhas significativas, ou simplesmente fazer uma macumba braba para os que lá já estão se aposentem (ou pior); e em que a diminuta diferença que decide uma contratação pode ser porque ciclano faz uma torta de frango melhor que fulano, e em que colegas escondem os livros do exame com propósitos sabotadores... bem, neste momento dog-eat-dog, parece loucura que, nos momentos de lazer, as pessoas queiram ver este tipo de sofrimento, como que para esquecer que nós mesmos temos de enfrentar os ritos e lembrar que há outros igualmente fodidos (e que se sujeitam ao escrutínio público televisionado). Claro, mesmo os reality shows não passam de ficção (ao menos para quem assiste). Mas eu acho que o fenômeno é significativo; e é cruel ter que se deparar com a esquizofrenia da competição diariamente. Mesmo no sofá de sua casa.
É a celebração da provação pela humilhação em que desesperados se sujeitam, voluntariamente, em arena e em meio aos leões.
Vinte anos atrás - agora há pouco em termos evolutivos - meus professores eram contratados, pelas instituições de ponta, ainda na graduação! Como mudou tudo tão rápido? Terá o mundo lotação? Como um elevador? "Capacidade máxima: x bilhões ou y toneladas"?
Quem quer entrar numa joint venture comigo para lançar a idéia de um departamento de antropologia em Marte?

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Nota pop

Post deletado. Não assisto mais BB.

domingo, fevereiro 10, 2008

Temptation

Escrevi um post falando sobre minha quase ida ao "lado negro" profissional, ou o que os malucos que continuam na faculdade depois da graduação chamam, pejorativamente, de "mundo real".
Mas apaguei. O post, digo.
Afinal de contas quanta gente não trabalha em algo que não gosta, mas precisa? Fiquei com a impressão de que dava lição de moral - uma moral que nem levo tanto a sério (nada contra os idealistas. Eu sou um. Ainda que só na mesa do bar). Algo como "fui tentado, mas resolvi ser altaneiro e acreditar no sacrifício em prol da satisfação da alma".
Mas talvez eu simplesmente me recuse a dar o braço a torcer por motivos não muito nobres ou autruístas. Comodidade. Preguiça. Incompetência. Escolha seu veneno. Meus princípios vigoram até o preço certo, o que me faz concluir que eles não são tão fortes assim.
Pensei até em mergulhar de cabeça nesta quase ocupação como uma espécie de experimento antropológico. Entrar na subcultura do "império do mal". Mas chego à conclusão de que não vale a pena. Não agora.
A bem da verdade é que aprendi a pensar e agir de uma maneira, na última década, que não me permite entrever nenhum futuro alternativo de uma certa trajetória esperada. Ai de mim se resolver que não é isso que vou fazer na vida! O pensamento é assustador.
Entretanto, algo de bom surgiu disso tudo. Sei com mais clareza o que não consigo fazer. E fico mais disposto a seguir o que penso gostar. Mesmo que isso possa significar uma vida semi-monástica. Quer dizer, até o dízimo certo.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Sem título

Aprendi muitas coisas com o Beakman. A mais útil era aprender a sonhar com o que desejava. Em princípio de extrema serventia, mas na prática um pouco difícil de alcançar, a técnica deveria ser mais difundida entre os humanos sonhadores. Comigo deu certo algumas vezes...
Ah, o Lester não é o próprio Jean Reno de ratinho?!

Aliás, pensando em look-a-likes... o Antônio Fagundes não está igualzinho ao Paul Sr do American Chopper?

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Proposta

Meu novo bar favorito da última semana (?!) fica pertinho de casa. Não fosse o preço, condizente com os estabelecimentos ao redor (aí é que está: quando todos os bares são caros, isso quer dizer que são caros mesmo? Nevermind. Pergunta retórica e besta. Eu sei a resposta, é apenas difícil de me conformar que fico cada vez mais desmonetarizado), seria meu bar favorito do ano! Ops, isso ele já é. Mas, enfim, não obstante e contudo, 2008 ainda é uma criança, então relevem as opiniões e julgamentos apressados, por favor.
O bar não tem nada demais. Sem cervejas supertrend ou luzes mortiças. Mas - e isso é importante - ele não tem o pessoal que quer sair na coluna social do bairro que vai nos estabelecimentos ao redor E - mais importante ainda - ele não tem telão com futebol! A cerveja é gelada, os sanduíches são muito bons (eles têm um fatiador de frios daqueles de padaria!) e o atendimento decente.
Na verdade o lugar é até meio feinho. Muito branco. Meio insípido.
Mas o cara tem uma coleção de discos muito boa! Não sei quanto tempo isso ainda dura, já que vinil agora é hype e alguns ali valem uma nota. Mas enquanto durar, vou lá, escolher um e pedir pra tocar.
Quem vier me visitar em casa eu levo pro meu novo bar favorito, ok?! Eu fico com ciúmes do meu bar favorito, então só divulgo o nome pra quem vier beber comigo.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Das resoluções, da auto-sabotagem masoquista e dos descaminhos televisivos

Que promessas de fim de ano normalmente ficam apenas como isso: promessas, não é novidade pra ninguém. Apesar de todo mundo sempre se enganar a respeito.
Mas minhas resoluções não estão parecendo muito resolutas nesse começo de 2008.
Eu andei e andei na capital britânica. Havia proposto (a quem?) que iria voltar e continuar com as andanças saudáveis. Quem sabe até dar um upgrade e usar minha bicicleta amarela novinha e enteiada?! Pois bem...
Sem tv por um ano pensei que pudesse me desacostumar com essa praga que me tomava tanto tempo em 2006. Pois, não é que volto pra frente da maldita?! E assisto a fina-flor também! Big Brother 60 e Caminhos do coração!
Claro que essa última veio na onda heroes, que já veio na onda da revitalizada marvel. Mutantes perseguidos e incompreendidos e blá, blá. Nada de novo. Mas que é esquisito ver a fórmula na superprodução evangélica da record, isso é. Só que é divertido de tão absurdo (tenho lá minhas dúvidas se isso é proposital).
Agora, o primeiro, não sei como ainda tem público pra assistir (bem, tem eu). Pessoalzinho triste esse ano...
E é isso, ou então os programas de discussão esportiva. Ou campeonato de pôker. Ou programa importado de cozinha.
Ô miséria.

sábado, janeiro 05, 2008

A volta

Parei!
Ufa, depois de semanas de corre-corre, finalmente tenho um tempinho para escrever um pouco aqui. E olha, já na primeira linha vejo que me sai um texto pessoal, coisa rara neste canto (pelo menos em certo tom; ou então esqueci sobre o que balbucio aqui)!
Mas, vai lá; geralmente não sei sobre o que escreverei até começar a digitar. Então, como diz Sarney, "bããão também"!
As últimas semanas em terras reais foram frias, muito frias. E tentei deixar o mínimo de pontas soltas, que invariavelmente teimam em existir. Voltei carregado de textos, documentos e livros, mas leve de espírito. Voltei para encontrar os que amo e cheguei com o sentimento de que, mesmo tudo saindo completamente diferente do que esperava, fiz lá algo de bom. Agora só preciso alquimizar tudo em algo palatável, como um bom cozinheiro (e olhe que mando a modéstia às favas e digo que me transformei num decente).
Escapamos (eu e fratello) de pegar greve nos aeroportos e fog, muito fog. Nem tudo lá funciona às mil maravilhas...
Cheguei e estava quente, muito quente. 30 graus a mais. E ainda não me habituei a ter que andar semi-nu para sobreviver.
O Ano Novo não ajudou. Calor e sol. Mas cerveja, muita cerveja ajudou. E não é que me acostumei rapidinho com a cevada nacional? Na verdade no dia que cheguei já deu para degustar algumas com minha querida xará. Claro que não consegui contar metade, nem ouvir metade do que preencheu 2007. Mas para isso existe essa maravilhosa invenção, o fim de tarde no boteco...
Mas voltando ao Ano Novo. Lá conheci novo membro da família. Lá comi. E lá pesquei! Ah sim, não podia ter feito coisa melhor! Caneca de cerveja na mão, boné na cabeça, braços queimados de sol e varinha na mão (sem qualquer conotação anatômica). Nada de olhar para o lado esquerdo, nada de me vestir como uma cebola, nada de ter que desviar de milhões de outros desviantes.
Enfim, preciso voltar a saber escrever. I'll be back.

domingo, dezembro 16, 2007

Preparativos

Não imaginava que seria diferente. A correria de última hora. Tantas coisas e tantos lugares que fui "deixando pra depois", sempre pra depois, e agora queria fazer tudo ao mesmo tempo. A tristeza de saber que vou deixar muito inacabado. O que não é de todo mal, imagino.
A minha viagem para as Highlands já era, como acho que terei que deixar o Phantom para a próxima também. Sem contar nos trocentos lugares que ainda não conheci.
E não por falta de vontade e disposição, porque parece que nas últimas semanas tenho ficado na rua constantemente. A pesquisa que ainda guardou umas surpresas. Shows que estou aproveitando. Museus que ainda não vi. Por isso o sumiço também.
Quando penso que estarei de volta, percebo que a ficha ainda não caiu. E não vai cair por muito tempo ainda. Vai ser quando atravessar a rua, quando olhar o céu, quando beber uma cerveja, quando ouvir as pessoas. O estranhamento agora é ao contrário.
E não é só isso que ainda não consigo avaliar direito. Esse ano inteiro valeu por uns 5, e não estou exagerando. Ainda é difícil levar tudo em conta e chegar a qualquer conclusão. Quem sabe mais tarde...
Bem, percebo que este post veio em forma de telegrama. Tudo bem. Estou num clima de urgência mesmo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Arquivos da juventude

Dos jogos de tabuleiro, que já foram muito mais populares do que são hoje (ainda que eu ache que esteja acontecendo um ressurgimento, junto com os videogames), os de guerra eram que os que eu mais gostava. Como Combate, por exemplo, que eu costumava ir bem.
Mas, claro, adorava mesmo era WAR, em todas suas versões (menos o 2, que tinha o recurso dos aviões, que eu achava muito injusto, às vezes aniquilando tudo em poucas rodadas). E WAR rolava até em festinhas mais sossegadas (ou fracassadas).
Mas acho que o motivo por aturar os ânimos exarcebados - que invariavelmente surgiam - talvez fosse porque eu nunca me importava muito em ter meus exércitos dizimados e ser confinado a um único território - coisa que costumava acontecer com uma frequência alarmante. Bem, sempre gostei de ser o underdog, de qualquer maneira.
Além disso meus pais também nunca foram desses que diziam que esses jogos eram imperialistas, que filme de terror era proibido e que manga com leite não pode.
Os monetários também tinham seu apelo. Monopoly, Jogo da Vida, Status. Meu sucesso neste tipo de jogo seguia o mesmo padrão observado no WAR. Mas sair cedo do jogo tinha suas vantagens. Raramente chegava no ponto de saturação, que pode ser tão chato para os participantes do evento - e então ou você se arrasta até o final do suplício ou então interrompe tudo, alternativa broxante. Outra vantagem era que já podia treinar para um proto-antropólogo e assistir o comportamento competitivo dos humanos amigos.
Mas gostava também os de conhecimentos gerais, os de detetive (Detetive, Scotland Yard), os de dado, cartas... Sempre topei entrar numa roda de jogatina (mas, devo dizer, nunca participei de um RPG, não sei direito porque. A única vez que tentei, fiquei o dia todo para fazer um personagem - um lenhador rastreador - e nunca chegamos a começar a jogar de fato).
Mas tinha um jogo que combinava algumas características de jogos distintos: Supremacia, que na época da minha terceira série, mais ou menos, virou uma febre e desbancou, ao menos por um momento (e, não é demais lembrar, no auge da guerra-fria), o WAR.
Geralmente não gosto das regras que permitem uma reviravolta completa na sorte da peleja (como os malditos aviões do WAR 2). Mas esse tinha O recurso apelão por excelência, o que proporcionava um grande apelo, exatamente por sua tosquice.
Se as vias normais da diplomacia, a disputa mercadológica e o confronto armado convencional não funcionassem, ou se a sua paciência esgotasse, você não precisava levar a bola embora, ou chutar o tabuleiro. Simplesmente você comprava uma bomba nuclear e a soltava no território cheio de tropas e estruturas do infeliz ao lado e boa, partimos pra outro tipo de recreação mais inocente.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Livros

Já devo ter mencionado meu cotidiano espartano, não? No TV, no internet, no phone. Por mais que eu fique sem fazer nada, tenho tanto tempo livre que acabo lendo muito. De tudo.
Não sou muito seletivo quando se trata de leitura. Pelo menos quanto ao tipo da prosa. Se estiver bem escrito e interessante, acho que leio até bula de remédio.
Esses dias resolvi retirar um livro de casos do Conan Doyle. Sempre gostei do Sherlock e, morando a apenas uma estação de distância de Baker Street, o detetive sempre acaba aparecendo para me lembrar dessa paixão. Fora o museuzinho no 221b e trocentas bugigangas em tudo quanto é barraquinha turística, o próprio tube trata de celebrar uns de seus mais famosos personagens, com decoração, excertos dos livros, etc.
E não é todo dia que você lê algo que goste e que se passa bem onde você mora, nas mesmas ruas em que você anda. Outro dia li um caso em que Holmes e Watson têm que solucionar um mistério, a pedido do herdeiro do trono bohêmio, em St. Johns Wood, meu bairro! Segundo Doyle, não muito mais que uma periferia calma e frondosa de Londres!
Por sinal, um dia conto um pouco da história do bairro, que fazia parte da grande floresta de Middlesex, propriedade de uma ordem religiosa - os cavaleiros de Malta, ou Hospitalários, ou de São João de Jerusalém, em referência a seu santo padroeiro. Daí o nome.

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Já é moda há algum tempo, mas só outro dia caiu a ficha realmente - do quanto isso é engraçado, para não usar uma palavra mais forte, como "ridículo", i.e.
Romances históricos competem com romances policiais no quesito ficção nas livrarias. Templários parecem ser os preferidos, mas qualquer ordem mais obscura pode virar tema de livro (e convenhamos, quanto mais pode ser dito desses caras?). A contra-partida, já estabelecida (por exemplo, Sherlock Holmes), são os livros policiais e de aventura em série que utilizam um mesmo personagem. Dirk Pitt, Scarpetta, Brennan e por aí vai. A idéia é simples: tornar os protagonistas conhecidos e queridos, familiares.
Agora os livros "históricos" estão pegando um atalho. Simplesmente já usam um personagem conhecido de ante-mão. Poupa-tempo. Você não precisa passar um bom pedaço do livro apresentando o dito cujo.
Um dos que mais proporcionou controvérsia esses tempos foi Michelangelo, transformado em detetive renascentista.
Esses dias estava folheando os lançamentos do tipo blockbuster e achei um deveras curioso: Sigmund Freud, aquele tiozinho tão esculhambado nesta pós-modernidade (e quase vizinho meu, por sinal), em uma viagem para os EUA, deve desvendar um mistério. Um crime foi cometido. A única testemunha, traumatizada. Restam os poderes quase mágicos dessa ciência recém-nascida (então), para resgatar as pistas que levarão os bandidos para trâs das grades.
Bem, eu sugiro um próximo personagem para um romance desse tipo: Malinowski, tiozinho interessante e esquisito. Mas se o grande público não estiver muito interessado ou familiarizado com antropologia, então pode ser, sei lá, Newton ou Shakespeare, que nas horas vagas exercitam poderes de dedução científica ou artística. Ou Marx, que entre capital e manifesto, testemunhou um assassinato num parque londrino e deve usar ferramentas sociológicas para encontrar o criminoso. Para o público lusófono, Camões pode ser uma. Ou quem sabe um mistério envolvendo Colombo, ou então Cabral?
Sacou o padrão?

domingo, novembro 18, 2007

Ode à biografia

Esses dias tenho ficado com a impressão que meu cérebro se transforma em geléia, minha miopia tem aumentado e tenho andado tão curvado que começo a pensar que estou virando Quasímodo.
Imagino que é o preço que tenho que pagar por meu voyerismo e essa minha intromissão. Tenho acordado fantasmas, ressuscitado conversas que há muito descansavam em silêncio. Tento demonstrar respeito, mas não é algo de se sair incólume.
Meu prazer em transformar minha bibliografia em humanos exige um sacrifício. Como se mexer neste equilíbrio passado não fosse tarefa leviana, lidar com os poderes da alquimia e do éter. Nem acho que deveria ser, de qualquer maneira.
Mas não há escapatória, eu mergulho no fluxo da recordação alheia, assumo meu papel de leitor onisciente - ou se preferir, de paranormal e vidente. Sinto o gosto do vício que corre em minhas veias como a endorfina abençoada e entro, no que é jargão corrente do meio basquetebolístico, in the zone.
E contemplo fascinado cada letra, bonita ou feia, cada erro de ortografia, cada declaração de amor, cada relacionamento insuspeito, cada desabafo, cada crítica cáustica, cada exemplo de amizade, cada tristeza e cada sucesso, cada gentileza e cada notícia, e começo a enxergar um filme do passado, em que aquelas pessoas que para mim eram nome apenas, ganham cor, cara, som. Mas então lembro que são vidas que se findaram, ciclos que, ainda que escondidos e enterrados, estão fechados. Essas vozes, tão vivas e tão vibrantes, estão mortas. Essa quase amizade que começo a estabelecer, é via de mão única, e sei que minha própria voz nunca mais chegará em seus ouvidos e que arrisco me machucar.
E chego à conclusão que nunca alguém ficou tão próximo, para então sua distância parecer tão punjente..
Tento retraçar passos e caminhos percorridos, mas estes são tortuosos e muitas vezes desaparecem, sem deixar vestígios. E então tenho que redobrar meus esforços, pensar em outros percursos, e ter que me conformar com o fato de que talvez eles não mais existam. Fico com o gosto, salgado de suor, de algo interrompido, de apenas flashbacks de histórias.
Mas ainda sim tenho que acreditar que essas mesmas vozes ainda merecem ser resgatadas. E então respiro fundo, ajeito meus óculos, estalo as costas e continuo a trabalhar.

quarta-feira, novembro 14, 2007

5 pensamentos ignóbeis:

- Por quê os hotéis não têm décimo terceiro andares? O décimo quarto não vira o décimo terceiro então? Ou, se tem lobby, ou zero, o décimo segundo não é, na realidade, um andar acima? O que importa é o numerinho no elevador?
- Tenho certeza que todo mundo já veio com aquele papo pseudo-cabeça, reservado para a noitada no boteco, de que "celular virou uma necessidade quando antes passávamos muito bem sem", ou o lance fight club de que somos doutrinados a querer coisas que não precisamos. Mas o que significa realmente ter celular? Há 10 anos você não parava o carro, corria pro orelhão e ligava falando "estou indo pra casa".
- Por quê tudo o que é orgânico é bom e tudo o que é transgênico é ruim? O que isso significa, afinal de contas? E qual é dessa esquizofrenia dos estudos (sempre de cientistas canadenses ou alemães; essa galera não tem mais o que fazer?) que falam que o tomate é bom pro coração, mas as sementes podem dar câncer? E aí, como você prefere morrer?
- Por quê nos filmes, quando a pessoa sabe que vai morrer, o que ela realmente quer é um cigarro? Por quê não sexo? Bem, ok, às vezes é um beijo derradeiro...
- Já percebeu que os diretores já montam a cena sabendo que aquele pedaço vai virar trailer, ou pior, vinheta na apresentação dos indicados para o Oscar?

PS - Ando trabalhando tanto que chega a hora de escrever um post não tem como sair nada melhor que isso... sorry.

sábado, novembro 10, 2007

Diary

Captain's log: Today the crew started to get unsettling with the lack of women and the grogue diet. There's an eerie feeling drifting through the ship and the wind is long gone...

Ops, diário errado!

Nova entrada: Hoje avistamos novamente o leviatã. Ela parecia mais curiosa do que agressiva, espiando-nos, cada vez mais próxima, cada vez que subia à superfície. Finalmente ela emparelhou conosco, quase tocando o barco, virou levemente de lado e olhou, assustadoramente ciente, direto em meus olhos! Abriu a bocarra, como se fosse bocejar, e então chamei, convicto de obter uma resposta: "Jonas"? E, um momento depois, certo de que cometi um engano: "Gepeto"?

Affe, qual é dessa temática náutica?

Vamos de novo. Dessa vez vai.
Querido diário: Conheci um dos lugares mais tradicionais da cena musical londrina, o Roundhouse. Há décadas que esta antiga estação transformou-se em um lugar em que as bandas apresentam seu repertório. Hoje o espaço está mais trend do que costumava ser na década de 70, durante o apogeu da cena brit de renovação, mas ainda sim muito divertido, na borda de Camden Town.
Para os filhos do New Wave, o show foi histórico. O público empolgadíssimo (e engraçadíssimo; vocês não imaginam as figuras presentes...) garantiu uma atmosfera animada e leve. Pena que eu estava quase em estado de comatose de tão cansado. ELA, divina e mesmerizante (essa palavra existe?), parece que congelou no tempo. A voz ainda tem potência e o visual ainda fascina.
Só pensei nisso agora, mas acho que o segredo sempre foi misturar a aura femme fatale e o mistério à la Mata Hari com uma fragilidade que inspira caridade (como a vontade de pegar um bichinho abandonado), sempre com os movimentos insinuantes de uma odalisca. Isso faz algum sentido?

quinta-feira, novembro 08, 2007

Busy

Fico um tempo sem escrever por aqui, os assuntos acumulam, as idéias brotam e a vontade de "contar pros amigos" vem. Mas quando finalmente tenho internet na frente da fuça, dá um branco...
Ando correndo muito esse final de ano. E acho que o ritmo não diminui até eu voltar. Tenho passado horas em bibliotecas, todos os dias, pegando todo o material que eu consigo. Já desisti de começar a escrever por aqui. Agora minha missão é coletar dados, dados. Mas as coisas parecem promissoras...
Depois eu dou um relato mais minucioso sobre meus achados, verdadeiras pérolas, devo dizer!
Os arquivos que tenho mexido são bem recentes, coisa de 60, 70 anos (a vantagem de fazer "história da antropologia" é essa). Mas já me deparei com cada coisa... tenho que me concentrar, respirar fundo, e não sair estudando outros arquivos só porque tudo parece tão fasciante e emocionante! Algumas coisas são da época em que do outro lado da poça existiam apenas indiozinhos e uns vikings...

quinta-feira, novembro 01, 2007

Pequeno update

Queridos (considerem distinções de gênero anuladas) amigos antropólogos ou cientistas sociais, não vou ficar falando muito aqui contando como as coisas aqui são diferentes, em termos de recursos, prestígio e oportunidades de pesquisa. Isso porque nem estou no eixo Oxbridge, realmente OUTRO nível (notícia, aliás: Marilyn Strathern está se aposentando e quem vai ocupar sua cadeira em Cambridge é nosso conterrâneo Viveiros de Castro). Ou alguns lugares da Ivy league gringa. Mas ainda sim...
Mas uma das coisas que eu acho realmente incrível é ver e conversar com sua bibliografia! Ontem vi uma palestra interessante do Tim Ingold que, suspeito, já tem cacife suficiente para ser um pouco... excêntrico... nas suas pesquisas. Eu que achava que todo o papo eco-viajante era uma grande metáfora para, sei lá, método biográfico, diferença entre sociologia e antropologia... vi que ele falava exatamente do que ele parecia falar.
Mas, enfim, rolam palestras muito legais por aqui.
Para muitos de meus colegas Judith Butler é um alento para o que pode ser muitas vezes a árida planice teórica moderna. E nada mais chique que assistir uma palestra da moça na LSE! E, devo acrescentar, ela é muito irônica e com ótimo senso de humor! Como diria um professor, um luxo!

Ah, olha que legal! E que faz bem pro ego: o Edson, escritor do blog cujo endereço coloquei aí do lado, publicou um post meu sobre o filme do Joe Strummer! O blog é muito legal, com inúmeros cometários sobre montes de filmes!

Última notícia: agora é contagem regressiva mesmo! Segui conselhos e voltarei no Natal!