segunda-feira, junho 30, 2008

Estar lá


Um pouco inspirado por Richard Holmes, tentei seguir algumas das pegadas de Mary. Como se houvesse algo que pudesse ser captado no ar dos caminhos percorridos. Como se pudesse acessar o testemunho daquelas árvores, daqueles prédios. Ruas em que andou, lugares onde estudou.
Fui para Oxford, no St. Anne's College, procurar esse elã biográfico.
St. Anne faz parte do colegiado da Universidade de Oxford, e, mesmo não sendo tão antigo quanto algumas das outras faculdades, me pareceu transpirar tradição. Ou talvez assim me parecesse por conta de meus interesses. Mas era como se houvesse uma história que para mim fosse significativa. Apenas me esperando. E lá, sozinho, fiz uma tentativa quase mediúnica de imaginar a jovem estudante católica naqueles gramados, naquelas salas, 60 anos antes.
Havia trazido um lanche desde Londres, em uma sacola que carreguei pela cidade medieval. Escolhi um banco afastado, dentro de um jardinzinho pegado a alguma casa de algum departamento, onde alguém fazia um café. E lá fiquei pensando sobre o trabalho que viria pela frente, como se estando lá - essa armadilha que tanto tentamos criticar, mas que nunca é totalmente exorcizada - eu pudesse ver mais claramente não só aquela trajetória, mas o momento no tempo em que esta se encontrou com a minha.

quarta-feira, junho 25, 2008

Paisagens londrinas 1


Na falta de tempo para atualizar por aqui, fica uma imagem do ano passado. Linda ponte que foi explodida e reconstruída no século XIX, quando ainda se escoavam os produtos que chegavam no porto, pelos canais, em barcaças puxadas por cavalos. O carregamento, no caso, era pólvora. Reza a história que o estrondo foi tão grande que os moradores dos arredores acharam que se tratava de um terremoto...
Os canais eventualmente foram interligados e unidos em uma única rede, que serpenteia e recorta Londres, ligando até mesmo outras cidades ao norte e ao oeste.
Na foto, o Regent's canal na altura do Zoológico de Londres.

sexta-feira, junho 13, 2008

Jingle dos infernos

Não sei porque hoje me veio uma musiquinha irritante na mente (será a data tenebrosa?). Sabe daquela que gruda nos seus neurônios, vem das trevas do inconsciente e toma sua mente de assalto para não mais largar? E, como o soluço (esse outro fenômeno fisiológico misterioso), só se vai quando você desiste de tentar matar a dita cuja.
Pois é, dessa. Aliás, eu nunca vi nenhuma explicação sobre porque essas músicas surgem, ou porque elas persistem. Quer dizer, fora o Paulo Coelho, mas com o argumento extraordinário-psíquico-místico, em As Valquírias, ou em Diário de um Mago... um desses (sim, eu lia bastante o imortal da nova era). Algo como a mente em desequilíbrio, ou a mente desconcentrada.
De qualquer maneira, voltando à música. Não é um Bon Jovi, ou uma Bonnie Tyler, ou mesmo uma ABBA - alguns dos campeões do grude. Mas o jingle do Bom Dia São Paulo.
Era o "vamo embora, vamo embora, tá na hora, vamo embora, vamo embora"... que ouvi toda manhã por mais anos do que eu quero lembrar.

E junto com a lembrança do refrão, veio a memória de todos aqueles anos de escola ao raiar do dia.

Nunca gostei de acordar cedo, mas até o terceiro ano do colégio (com exceção do segundo, quando estudei à tarde - e dormia na aula, vai entender...), não tive muita escolha. Como se já não fosse bastante desagradável entrar na sala às 7:00 (os piores anos foram durante minha sétima e oitava séries, quando estudei num legítimo vale, ali perto da lagoa do Taquaral, onde até a segunda aula você não via mais que 10 metros à sua frente por conta da neblina), eu tinha que acordar especialmente cedo, porque desde que me conheço por gente, só fui para o colégio no esquema rodízio-de-pais (partilha da miséria), o que significava várias paradas nas casas de colegas antes de chegar na Bastilha.
E não sei porque cargas d'água, todo pai descontava a frustração de ter que cumprir com seu dever parental - numa hora em que nenhum ser vivo decente e temente à Deus deveria estar acordado - ouvindo o bendito programa, com as notícias que só interessam aos pais (partindo do pressuposto de que não nos faziam ouvir aquilo simplesmente como retaliação por todo o trabalho que lhes dávamos). Nada de The Cure, ou Smiths (em algum momento dos 80), ou U2, Information Society, Titãs ou Paralamas (em outros momentos), ou ainda Nirvana e Pearl Jam (sim, porque isso se arrastou até os 90). Não, eternamente minha trilha sonora para a escola foram as notícias sobre impostos, sobre corrupção na política e sobre os problemas da segurança pública. Invariavelmente e sem exceção.
Não fosse a CBN, ou coisa que o valha, bem poderia ser uma marcha qualquer de pelotão de fuzilamento. Não faria muita diferença.
Eu acho que minha ojeriza aos noticiários vem bastante daí.
E esse "vamo embora, tá na hora"... que desespero! Já está na hora de correr? Tão cedo? Que stress! "Vai vagabundo, faz alguma coisa que você já está atrasado, não importa o que você faça", poderia ser o segundo refrão.
Sempre aquele equilíbrio delicado entre o sair o mais tarde possível, dormir mais alguns poucos minutos (com seus pais ficando nervosos e já tirando o cobertor à força), e depois o correr, antes que o portão se fechasse. E que lógica horrorosa - me fazer ficar ansioso por chegar a tempo, quando o que eu mais queria era perder o sinal e jogar fliperama, ou voltar para a cama! Percebe o elemento esquizofrênico, percebe?
Sempre que ouvia o jingle infernal me sentia miserável, me dava uma sensação de sufocamento, de opressão, como se uma sentença me estivesse sendo anunciada. Seu dia nada mais será que um desdobramento de sua manhã. E nada mais.

E eu que pensava que essa neurose com o tempo fosse exclusivo dos meus anos de universidade...

domingo, junho 08, 2008

De onde os patrícios chegaram


De volta da ABA, da Bahia (uma Bahia diferente, que é Porto Seguro, não obstante), cheio de impressões.
Apresentei meu trabalho, não foi uma maravilha, mas não foi horrível. Tive boas dicas e bons insights, mas faltou falar muita coisa (pelo menos olhando retrospectivamente). Vi apresentações muito boas, mas muita coisa fraca também. Normal. O ponto negativo fica para a organização, bem fraquinha (ainda mais pensando no valor da inscrição). A parte divertida, fora encontrar amigos e perdidos conhecidos, foi a festa de encerramento. Dançar Tati Quebra Barraco com seu GT e seus professores não tem preço!

Da cidade de Porto Seguro mesmo não tenho muito o que dizer. Achei tudo muito feio, mas as praias são bonitas (do pouco que eu vi). Mas não tem jeito, eu não consigo passar despercebido pelas ruas. Minha regionalidade está marcada no corpo, bem como minha zambrice. E paulista é caçado de uma tal maneira que irrita. Fugir dos carinhas que tentam vender as mais diversas porcarias, alugar carros, fazer tatuagem de rena, tererê, ou simplesmente pedir dinheiro, é uma atividade constante e complexa. Já tinha tido experiência parecida em Salvador, e não gostei nada. Não é só a opressão de pedir, já se impondo, mas de já pressupor que fazendo, sem dar fôlego, o que quer que estão tentando vender, irá deixar a vítima constrangida a um tal ponto que não lhe resta alternativa que pagar o serviço - 10 reais aqui, 20 ali...
Como um colega paulistano disse, sair do stress paulista pra passar nervoso na Bahia é foda. E você começa a ficar estúpido depois da trigésima interpelação (que está mais pra assédio mesmo).

sexta-feira, maio 30, 2008

Reflexões de uma boa aula

A moral desta tétrica história da menininha, para mim é que as narrativas do ocorrido são construções, são bricolagem com agendas pré-determinadas, nem um pouco isentas. Até aí nada de novo. O que é sim interessante de se pensar é acerca do limite alcançado (ou melhor, ainda não alcançado) por estas narrativas, vindas dos mais diferentes campos. Por quê tanta repercussão?
Os dados "objetivos" são utilizados na criação de verdadeiras histórias pseudo-coerentes. Coerentes, sim. Mas uma coerência arbitrária, seletiva. Traços de personalidade, e até menos do que isso: um simples comentário, um deslize, são provas irrefutáveis da culpa, que aparece aqui como irresistível, certa e inevitável. E nem falo dos que simplesmente supõem que as ações abomináveis são resultado das posições ocupadas no quadro de parentesco, ou pela posição social.
E a entrada deste novo personagem, que já veio assombrar a idéia de uma neutralidade e objetividade científica (forense) em outra oportunidade, para mim só reforça a idéia de construção, de ficção. Duas histórias completamente opostas podem surgir. Interpretações ou explicações? De onde se fala e qual é a legitimidade de quem fala. E surge a possibilidade da dúvida, que é a intenção da defesa, claro (e nem digo com isso que não seja possível uma ciência forense bem intencionada).

Isso me lembra bastante o que li sobre o caso do Jack, o mais famoso deles. Estudos minuciosos provam que ele foi um pintor expressionista inglês, foi o médico que teorizou a histeria, foi um membro da realeza sifilítico.

domingo, maio 25, 2008

Últimas

Ando bastante caseiro nos últimos tempos, mas rolaram duas boas baladinhas esta semana. A primeira mais... digamos... convencional (ainda que com sonzinho de queridas). Já a segunda foi meio esquisitinha (mas um esquisito bom).
Fui no pub que não é pub (mas ainda sim bacana, ainda que com atendimento que deixa um pouco a desejar), com discotecagem de amigos (muito boa, por sinal).

Bem, você passa pela vida fazendo amizades e participando de certos círculos. Ao longo da existência você se relaciona mais, ou menos, com determinadas pessoas, em determinadas épocas - algumas sempre voltam em algum momento e parecem nunca ter se distanciado, outras desaparecem nas brumas. E alguns amigos são amigos entre si, mesmo que não sejam dos mesmos círculos. Me espanto com alguns exemplos: "mas você conhece fulano? De onde?" Ainda que tenha percebido que realmente Campinas é uma kitnet (rolaria fácil uma análise antropológica de redes).
Na verdade, o esquisito, afirmado acima, foi que pessoas de várias dessas turminhas confluiram para o mencionado estabelecimento (lá não tem cerveja da ilha, mas felizmente eu já tinha matado minhas lombrigas um pouco antes).
Encontrei algumas pessoas que há muito não via, bebi e dancei. Foi uma noite leve, daquelas que tudo dá certo, tudo é engraçado e, mesmo desembolsando uma grana que eu não tenho, voltei contente, com dor na perna e tudo.
E minha querida amiga da capital continua linda (e cabeluda, heim?!)...

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Dei minha primeira aulinha esta semana! E foi logo para uma turma de mestrado! Claro que quase que tenho uma síncope, mas o resultado foi até encorajador. Quem sabe essa minha paúra docente não melhora?

quinta-feira, maio 15, 2008

Uma breve notícia

Esta é a tragédia de Henrieta C., carioca torcedora do Fluminense, que veio para São Paulo assistir à semifinal da libertadores contra o outro time tricolor, mas que justificou a viagem, para seu pai, por conta de numa exposição sobre a Natureza das Coisas, no MASP, já que fazia arquitetura na Puc.
Foi, na verdade, para a capital paulista com seu namoradinho Josias, e não com a turma da faculdade, que viajou para Ouro Preto em uma pesquisa de campo.
É certo que pensou na exposição como desculpa porque queria de fato visitá-la, ainda que num nível bastante ideal e platônico, já que não tinha intenção nenhuma de deixar de assistir o jogo. Josias tinha conseguido os ingressos dificílimos e não tinham como perder a oportunidade, agora que o Flu parecia estar com um time tão bom e competitivo, e já tão longe na competição.
O fato é que o pai de Henrieta, Rene, não gostava nem um pouco de Josias que, para ele, era simplesmente um malaco. Homem muito conservador e controlador, proibiu a filha de se encontrar com o Romeu. Pobre homem, ignorante das verdades dos corações jovens, já tão cantadas pelos poetas, que sabem que a probição é como combustível para a paixão, mas ainda tão misteriosas aos pais, que sempre acham que seus filhos são diferentes deles mesmos.
A menina achou que o melhor era inventar uma desculpa relacionada à sua formação, tão prezada pelo pai. Quanto a isso, nunca nada lhe era negado. E de qualquer forma estaria de volta no dia seguinte, sem problemas.
Mas quis o destino que Rene resolvesse assistir o jogo na tv aquela noite. E quiseram os deuses zombeteiros que a câmera focalizasse, quase no final da partida, a torcida carioca, e mostrasse Josias passando um baseado para Henrieta. Era o primeiro que ela fumava, mas estava tão inebriada pelo espetáculo e pelo inusitado da situação, que resolveu experimentar. Oportunidades não faltavam na faculdade, mas nunca quisera então. Uma coisa era seu cotidiano. Outra era esta experiência, tão única e quase surreal, um parênteses na sua vidinha.
Rene, boquiaberto na frente da tela, por um momento não acreditou no que viu. Sua filhinha estava em Minas! Mas a imagem era clara.
Copo na parede. Cacos no chão. Cerveja no tapete.

Murphinianas

Seria, afinal, o universo regido por forças não-aleatórias?
Todo mundo, quando lê as notícias de corrupção, covardia e vilanias em geral, no fundo vira um pouco budista vingador (ou cristão mesmo): em outra vida, ou em outro plano, aquele irá pagar. Vai arder no fogo do inferno, ou volta como um cupim manco.
E nem precisa ir muito longe na metafísica religiosa. Existe a lei da compensação secular - "aqui se faz, aqui se paga", e outros ditados do gênero (e se a justiça falha, pelo menos se espera que o safardanas durma mal, ou então que a história se encarregue de execrá-lo como merece - se o acerto de contas não se dá individualmente, quem sabe na memória, talvez).
Eu me pego sempre achando que existe algum princípio regulador no cosmos. Mas depois, invariavelmente, acabo me resignando, achando que o mundo é injusto mesmo e não tem o que se fazer - o último que sair que apague a luz. Entretanto, vem aquela pontinha de dúvida, de que as coisas se acertam, de alguma maneira, em algum momento - e acabo nunca escapando do círculo.
Nas últimas semanas tem reinado um princípio estrutural relacionado: de que quando as coisas param de funcionar, param todas ao mesmo tempo. É o banheiro que vira zona de guerra, mas também é o carro que sucumbe, o pneu que agoniza, a luz do escritório que pifa, a luz da cozinha que a acompanha, o interfone que fica mudo, o computador que pede arrego, a sola do sapato que desgruda.
Lá vou eu então testar o outro pricípio newtoniano da reciprocidade: vou jogar na mega-sena.

terça-feira, maio 13, 2008

Sobre reforma e madrugada

Pois bem, informo que minha capacidade cognitiva têm sofrido deveras com os trabalhos - que não são esotéricos mas ainda sim para-reais. Tenho a impressão de estar vivendo uma piada sem graça, uma parábola deveras exagerada. Quando penso que posso acordar, de fato vejo que nem dormi, e o despertar vem ao som das marteladas. É tudo quase psicodélico, em sua urgência cavalgante.
No começo achei um pouco irritante essa minha relação com os contratados. Não pela sujeira, incômodo ou barulho - tudo terrível, mas inevitável - mas pelas tais previsões que me dão. De quando terminaria (me foi dito inicialmente que seria uma semana, e não um mês - e contando), e de que material comprar: de nenhum cimento ("a gente se vira com um tiquinho da outra obra") para um saco 50 kg (que me ferrou as costas). Depois sair para comprar apenas mais um T de dois terços. Daí dois parafusos de cabeça chata, para então canos, sarrafos, misturadores, registros, isolantes, cola, fio, mais um saco de 50 kg (que acabou por me foder a lombar), e por aí vai (e vai longe). Você não acreditaria quanta coisa cabe num banheirinho. E, é claro, as tarefas me são dadas aos poucos; um produto de cada vez, à medida que são necessários, e não tudo junto em um só pedido.
É, isso me irritou no começo. Mas então, quando me senti como numa gincana de colégio e vi que teria, sim, que deselbolsar mais 100 aqui, mais 50 ali (que eu não tenho de fato), sair procurando madereira, loja de hidráulica, ovo de duas gemas e a pessoa mais velha que eu pudesse encontrar, me resignei. Agora acho tudo surreal, engraçado até. "Ok, vou procurar um start para 20 w. Não é que tenho nada melhor pra fazer mesmo".

Tenho cá algumas peculiaridades, que alguns podem considerar defeitos, mas que aprendi serem parte constituinte da pessoa que vos fala.
Como dormir tarde. Desisti de tentar me enganar, dizendo aos outros que irei acordar mais cedo, sair para caminhar com as primeiras luzes e sei-lá-mais-o-quê que normalmente se coloca na conta dos que têm o modelo de saúde a se emular. Eu durmo tarde, trabalho melhor de madrugada, acho que os melhores programas começam depois da hora da bobra e acho tudo muito mais tranquilo durante o reinado dos homenzinhos do Stevenson.
Sem a mulher de voz enjoada que vende pamonha, sem as buzinas, sem o bar azul, sem a vida que estaciona. O que é estranho, porque é exatamente nas primeiras horas que tudo parece congelar. Mas é quando tudo pára que se pode olhar pela janela e perceber o desenrolar de um simples movimento, despercebido que seria durante o dia. Voyeur singelo, adoro observar uma luz acendendo e tentar imaginar o que a pessoa está fazendo acordada; o piscar fantasmagórico de uma tv; um carro que passa solitário - vem de onde, vai para que canto? E mais, eu consigo me enxergar muito melhor.
Teço aqui minha ode e minha homenagem aos madrugadores, e aos insones como eu. Já sofro demais com isso para somar ainda mais uma neurose e achar que tudo é um lixo. Então digo que lido bem com isso (ainda que não recomende a ninguém).
Claro, nas últimas semanas este meu hábito trouxe problemas, pois é impossível continuar dormindo depois das 8, quando começam os mencionados trabalhos - no caso, uma reforma dos banheiros. Mas dormir cedo também não é uma opção. Resta torcer para que não surjam ainda mais imprevistos para o final das reformas.
E vou levando como Napoleão.

Mas nem tudo são espinhos. Informo que devo ter saído no Correio, na melhor pose pessoa-descolada-na-frente-de-seu-computador de orelha de livro (até fiz a barba, pasmem!). Engana-se quem pensa que seja algo relacionado à ciência do homem. Foi para uma matéria sobre video-game. O que contribui em muito para minha imagem de vagabundo sedentário, mas, enfim... é divertido (engraçado o fotógrafo, que queria uma foto ao lado do meu atari, mas teve que se contentar com o mouse mesmo).

Dentre as muitas outras possíveis notícias a se relatar neste espaço, ressalto apenas que finalmente assisti Coffee and Cigarettes (bem, o mais recente), ainda que não inteiro. Adoro o Jarmusch, mas ainda sim os filmes dele não são "de cabeceira"; não consigo assistir a qualquer hora.
Mas deve ser muito bom ser o cara. Amigos bacanas, respeitado, não precisa fazer muitas concessões, filma o que gosta, e agora se aproveita de uma boa estrutura que foi criada para os tais filmes cults, nos EUA. O equivalente na direção do que seria, por exemplo, o Bill Murray hoje.
E que vontade de café e cigarros...
(rápida menção: lembrei do diálogo entre o Jarmusch e o Keitel em Blue in the Face. Você não acredita que o Jim vai mesmo fumar seu último cigarro, depois daquela cena!)

domingo, maio 04, 2008

Gólgota

3 da manhã.
Volto de uma baladinha que teoricamente deveria reproduzir um pub londrino. Na prática, cerveja brahma e nada de guinness.
Mas sobre essa decepção falo outro dia.
O fato é que é uma dessas noites que poderia ficar bebendo indefinidamente, que não teria problema nenhum. Voltei porque não restaria ninguém no bar comigo. Sem nenhum sono e suficientemente alcoolizado para perder o pudor do entretenível, comecei a zapear a programação de sábado de madrugada. Lixo extremo. Por algum tempo fiquei entre um programa sobre terremotos na Turquia e a reprise de Anaconda - com uns pulos ocasionais para Troia dublado (e depois me censuram por criticar a lei de incentivo à cultura nacional).
Acabei indo para o VH1 em busca de uns clips podres e acabei por encontrar o supra-sumo da tosquice televisiva! A pérola, denominada Flavor of Love, é um The Bachelor versão Tião Macalé (sem o atenuante da anamnese pessoal e da paródia de si consciente), crossover teletubies on acid!
É o Flavor Flav envelhecido, tresloucado e acabado, com pitadas de chapeleiro louco, que escolhe a cada semana uma... nem sei que adjetivo adotar... uma guria para sair de seu harém dos infernos.
Fiquei pensando sobre as opções interpretativas e cheguei à conclusão que nenhuma implica em boa coisa:
Ou as mulheres estão realmente apaixonadas pelo Grande Otelo do rap, ou elas mentem descaradamente em prol de uma publicidade no mínimo dúbia (em que o público acredita na farsa), ou então todo mundo envolvido sabe que aquilo é um absurdo e é encenada uma tragédia hipócrita de proporções homéricas...

quinta-feira, maio 01, 2008

Primeiro de maio

Fazia muito tempo que as coisas não ficavam tão corridas.
Neste mês longe daqui muita coisa aconteceu - menininhas fofas nasceram, padres levantaram vôo, sublevou-se o país em hordas justiceiras e explicadoras, a Áustria assusta profundamente, surgiram (e desaparecerão) mulheres frutas (melâncias ou não). Realmente não foi por falta de novidades que deixei de dar uma atualizadinha no blog...
Ando às voltas com vários afazeres, um dos quais não muito prazeiroso, e que está restringindo meu sono em algumas horas diárias, ultimamente. Fazem a tal da reforma, finalmente. Atrasada em alguns anos, atrasada mesmo agora em sua execução. O que era para já ter terminado, se arrasta, me deixando louco e ainda mais surdo do que já sou.
Mas aconteceu uma coisa interessante por conta disso, que colocou em perspectiva minhas lamúrias laborais.
Claro que esse mito dos avanços trabalhistas pós revolução industrial é uma balela e não cola há tempos, mas quando me pego frente a frente com um caso concreto, ainda fico chocado.
O rapaz que vem quebrar pedra trabalha praticamente 20 horas por dia! Veio sem máscara, sem luvas, sem óculos... sem dormir. Sai daqui e vai para outro trabalho braçal, até de manhã, quando volta pra cá.
Ele tem o discurso empolgado de que pelo menos tem saúde pra continuar a trabalhar, então não tem do que reclamar. Mas se continuar assim, até quando?

quarta-feira, abril 02, 2008

Estádios e times


Hoje o Guarani FC faz 97 anos. Na verdade fez ontem, mas convencionou-se adotar o dois de abril afim de evitar mal-entendidos e piadinhas sem graça.
Vi hoje que o projeto de salvação (renovação, aos mais otimistas) foi aprovado. O Brinco será vendido, se tornará mais um conjunto de prédios em uma área que está se valorizando na cidade, e o time terá um novo complexo mais afastado. Parece que o consenso é que era ou isso ou o desaparecimento do clube, afundado em dívidas, às vésperas do seu centenário.
Tal como acontece com a cidade, minha família é dividida entre bugrinos e ponte-pretanos. E, ao que parece, há gerações. Reza a cosmogonia e mitologia familiar que meu bisavô materno, Fernando, alemão oriundo de Hamburgo que abandonou seu ofício de ourivesaria para se tornar ferreiro em terras tupi (destino poético e trágico, em certo sentido), foi responsável por uma das arquibancadas do estádio Majestoso. Já meu avô, genro de Fernando, parece ter se envolvido com o rival carlos gomista desde muito cedo, também aparentemente através de seu pai, que ajudou em alguma reforma, em algum momento da história. Mas até a chegada da ovelha negra do meu tio mais novo, o destino familiar estava traçado, em prol dos bugrinos.
De minha parte, creio que não tendo nem para um lado nem para outro. Sempre fui simpático aos alvi-negros, que transmitiam uma áurea de romantismo quixotesco. Eram sempre os mais pobrinhos, mas nunca abandonavam o time ou a esperança (a tragédia maior parece remontar à famigerada final com o Corinthians em 1977). É, além disso, um clube que sempre gozou de boas relações com o mencionado Corinthians. Mas também sempre tive um certo carinho com o Guarani, com certeza devido à paixão paterna. O bom é que parti para uma terceira opção como torcedor e me abstive da tomada de partido.
Mas me entristece muito a notícia do acordo, ainda que concorde que é o menor dos males. Em minha terceira década como habitante deste planeta, já pude notar uma grande diferença na paisagem urbana. Onde morava era quase uma roça em comparação a hoje. Claro, é inevitável que coisas mudem. Mas é também angustiante ver certos marcos, tão visíveis e tão duradouros não se mostrarem... bem, duradouros. Não passar pela Princesa d'oeste e não ver o estádio será estranho. Lá estive, em 1988, na final com o mesmo Corinthians, vendo o Viola acabar com as esperanças verdes, e lá estive em outras ocasiões depois.
Deve ser algo parecido com o famoso trauma que enfrentaram os torcedores do Dodgers quando tiveram que mudar de estádio no Brooklyn (o que acarretou na mudança do time da cidade e desespero dos fãs), e que em breve enfrentarão os torcedores do Yankees, que verão a demolição do quase centenário Yankees Stadium, no Bronx, e também outro marco da cidade de Nova Iorque.

segunda-feira, março 31, 2008

Uma festa

Dezembro. O frio já se abatia sobre a cidade. Só de lembrar das baixas temperaturas do começo do ano, sentia um misto de excitação e apreensão. O velho mundo é muito mais charmoso no inverno.
Contando que não houvesse neve, estaria tudo ótimo.
O trabalho andava a mil. Havia descoberto, algumas semanas antes, um pequeno tesouro na faculdade de Malinowski. Depois de achar que faltavam apenas pequenos detalhes para resolver e então poderia aproveitar as semanas derradeiras em stouts, ales e bitters, me peguei trabalhando praticamente durante todo o dia.
Mas vieram as visitas, e também não é que parei de aproveitar o que havia de bom e iria acabar logo.
Foi então que numa quinta-feira gelada, de garoa-quase-neve, encontramos uma festa para ir. Como na música dos brasilienses, estranha, com gente esquisita.
E num lugar bizarro. Era um antigo depósito de carga em King Cross, longe e escondido, agora usualmente usado pelo pessoal rave. Fiquei pendurado no telefone com a promoter, tentando entender onde tinha que virar à esquerda, direita, seguir reto, achar o posto, depois do pub...
Lá chegando achei que seria um fracasso. Nas vielas abandonadas, em meio a galpões velhos e fechados, carros enferrujados e muita escuridão, apenas os organizadores do evento, que se punham postados, de tempos em tempos, orientando os perdidos para onde ir. Mais ninguém. Pareciam tão solitários, parados no frio, no silêncio, como soldados esperando a próxima pessoa a pedir direções. Estranhamente, muito simpáticos e contentes.
Mas uma vez dentro, vi que havia muita gente. Como vieram e por onde chegaram permaneceu um mistério (e como foram embora, porque o lugar era realmente bem fora de mão, sem transporte coletivo depois de uma certa hora).
O mais interessante foi ver como eram os "étnicos" que mandavam no lugar. No centro da pista eram admirados e imitados - não muito bem, por sinal.
Invisíveis e pálidos nos escritórios e nas ruas, debaixo do estrobo e na frente dos falantes, eram diferentes. Fenômeno que vi outras vezes, como numa boate brazuca em plena Holborn.
Mas sou injusto. É a dor de cotovelo falando. Não existem mais festas assim em outras paragens.

terça-feira, março 18, 2008

Cruzada pela moral e pelos bons costumes

Deu para o novo governador de Nova Iorque também admitir suas puladas de cerca - e o capacete de boi recíproco. Deve ter pensado que era melhor falar logo, que descobrirem e causarem um rebu - o que provavelmente aconteceria. Escândalo nos EUA é como mineração: depois que se descobre um veio, toda sorte de aproveitadores e carniceiros afluem como abutres pelo fedor e putrefação até que não reste nada além da memória dos ossos limpos.
Agora, essa honestidade em suspeita levanta algumas questões. A moral da história do paladino antecessor que foi pêgo com a boca na botija tem que ser que, o pior, não foi tanto a rendição às fraquezas da carne, mas a hipocrisia puritana. Isso em um país que leva muito a sério a correlação entre conduta e discurso. "Não mentirás", que para ouvidos sul-americanos soa como um estranho mandamento, é muito pior que "não roubarás".
De fato, há um grande mal estar quando os representantes eleitos do povo mostram-se menos que castos e honestos. O que é estranho, pelo menos no caso americano (e aqui também como no brasileiro), em que há uma desconfiança enorme no histórico moral dos políticos de carreira (talvez isso inclusive tenha agravado a situação de Spitzer, que definitivamente não tem o perfil de político profissional, mas que veio de um meio, digamos, menos suspeito. A traição parece maior).
Parece que a suspeita sempre paira, mas ainda causa choque quando ela se materializa de fato. O que me faz indagar o quanto isso é causado pelo ultraje moral e o quanto é pela decepção, talvez velada, pelo fato de que o cara, enfim, foi pêgo. Incompetente.
E não tem jeito, é como em outras esferas da vida pública - o que causa comoção são os crimes que envolvem sexo, traição. Esses dão ibope. Porque, afinal, não é o eleitorado que tira as maçãs podres do cesto, mas a pressão exercida pelas outras frutas reticentes e receosas da atenção recebida. Essa é razão pela qual fornicadores são guilhotinados e lobbistas, traficantes de armas e genocidas têm cargos vitalícios. Ainda que os corruptos e instigadores de violência estejam em círculos muito mais profundos que os luxuriosos na economia infernal dantesca.
Mas é evidente que não se pode esperar o fim do moralismo tacanho na política. As quatro paredes do poder ainda testemunharão, em silêncio, os horrores humanos. Se essas confissões têm um contexto todo especial para existirem, é importante lembrar que se trata de NY. Sabe quando isso aconteceria em... Utah, digamos?

domingo, março 16, 2008

A nobre arte da dublagem

A única coisa que presta na MTV é o Cine Class.
Recomendo efusivamente.
A mim me dá cãibras de rir!

quinta-feira, março 13, 2008

Outro seriado

Estou assistindo O Triângulo, que em parte acho interessante, mas também um pouco viagem além da conta.
Entretanto fiquei pensando no que o Gustavo me falou outro dia, sobre outra série que adoro. Talvez, se não estivéssemos acompanhando Lost há algum tempo e não estivéssemos tão viciados, provavelmente nos irritaríamos com a prolixidade das teorias alternativas, pseudo-científicas e quase místicas que caracterizam o show nos últimos tempos.
Enfim, sobre o Triângulo, vale a pena assistir pelo Eric Stoltz, ator que sempre gostei e que, afinal, não se perdeu nos anos 80.

PS - correções no post anterior.

quarta-feira, março 12, 2008

Perspectivismo

Outro dia fui na farmácia comprar álcool e soro. Domingo, por sinal. Esse dia vazio e preguiçoso.
O dia não estava dos mais bonitos, mas também não estava ruim. Aproveitaria e andaria um pouco, coisa que não tenho feito muito ultimamente. Quando cheguei na farmácia alguns pingos mais gordos já começavam a cair.
Acabou que comprei as coisas a que fui e fiquei esperando cair o mundo em forma d'água dentro do estabelecimento farmacêutico. Em cinco minutos tudo estava alagado.
Para quem conhece aquele cruzamento da Barreto Leme com Cel Quirino sabe das generosas poças que se formam por lá nessas chuvaradas - ainda que seja muito melhor que em outras regiões do bairro.
Lá esperei, olhando os produtos, a balança, a chuva, os pedestres encharcados, os motoristas com síndrome de rali.
Puxei conversa com um rapaz e acabamos falando sobre a chuva e os transtornos das inundações dali. Ele me contou que o problema é que aquela região toda antes era charco (ou o termo técnico correto) e que a água não tem como escorrer quando ocorrem os temporais, já que o sistema de esgoto é bem precário em decorrência do passado alagadiço da metrópole. Isso lá por volta de 1700.
Não sou versado na história da cidade, mas já havia ouvido explicações parecidas (o mesmo parece ocorrer com São Paulo e o problema com o Ipiranga, ou sejam lá que águas correntes subterrâneas espreitam e conspiram contra os cidadãos insuspeitos). De qualquer maneira, o argumento parecia bem plausível.
Das conjecturas históricas e urbanísticas não demorou para chegarmos no aquecimento global, no derretimento do gelo nos pólos e no aumento da temperatura e do nível do mar.
Mas a ganância do homem não se traduzia, segundo meu interlocutor, em poluição e destruição da camada de ozônio. Ou não apenas isso, de qualquer maneira. Mas é, antes de mais nada, a confirmação da natureza pecadora humana, a prova do sinal, indiscutível, de que a grande tragédia se aproxima - ou assim entendi, com minhas palavras.
Mas qual tragédia, indago?
O fim anunciado, foi a resposta.
A conotação bíblica de um apocalipse talvez menos simbólico (ainda que saturado de sentido) e assustadoramente real ficou logo evidente. E eu estaria equivocado em pensar o contrário.
Equivocado e iludido, porque é claro que a ciência tem sua explicação do fenômeno, mas ela falha miseravelmente quando diz respeito aos desígnios insondáveis saídos de um Velho Testamento vingativo. Tal como os azande, que não têm problema nenhum em admitir que cupins tenham roído o arco mas insistem em lembrar que a madeira ruiu exatamente quando fulano se encontrava debaixo (e, portanto, prova de que feitiçaria se mostra presente), me foi mostrado que os princípios por mim aceitos para explicar os problemas ambientais, eram mais complexos do que imaginava.
No fundo ele me alertava para os sentidos do efeito estufa, e estava de certa forma muito menos restrito quando se tratava de pensar sobre o problema, que evidentemente não é apenas ecológico - ainda que ele mesmo estivesse refém de sua perspectiva e visão de mundo.
Para quê acumular e planejar, quando o melhor, inferi pelos rumos da argumentação, era simplesmente esperar, resignado, o castigo merecido? Uma versão sombria e paradoxal do carpe diem exatamente porque, neste caso, o futuro é certo e o presente intocável.
Voltei para casa um pouco angustiado com o confronto com um outro paradigma e uma outra forma de experenciar, além de bastante molhado.

quarta-feira, março 05, 2008

Gênero do futebol

Há anos que faço etnografia televisiva - com gosto, devo dizer. Não acho que faço mal quando o papo é tv.
Logo depois do almoço eu paro no canal das mesas redondas de futebol - ainda que de vez em quando fique um tempo sem assistir, já que geralmente os argumentos se repetem irritantemente. As análises táticas raramente são compreensíveis e há uma preocupação exagerada de um equivalente politicamente correto nos prognósticos dos jogos - tudo é marcado por um "equilíbrio", e nada é "moleza".
Time X é "melhor tecnicamente", mas Z é "mais coeso e estruturado", enquanto W "passa por uma fase de renovação", entretanto K "tem a tradição a seu favor", só que Y "conta com o fator campo" - contudo, não se pode esquecer da altitude! Isso se traduz, literalmente, em não menosprezar o adversário ou, para quem vê de fora, em não queimar a língua, já que ninguém tem a mínima idéia do que vai acontecer (senão estava rico jogando na loteria esportiva e não apresentando programa). Porque, como dizia o folclórico Vicente Matheus, futebol é uma caixinha de dois legumes. Ou algo equivalente.
No fundo futebol ainda é extremamente marcado por conservadorismos esquisistos (como essa clivagem de gênero de décadas de idade) que, de alguma maneira, ainda conseguem sobreviver neste meio, como que socialmente blindados. Pelo menos no no que diz respeito à tv.
Exemplifico: no programa de hoje surgiu um comentário sobre como o ex-atacante são-paulino Müller está com o corpo conservado mesmo hoje em dia. Rapidamente todos os representantes masculinos se isentaram de comentários com risadinhas de "nessa eu não me meto". Com a exceção de que apenas a comentarista - que é gay, por sinal - presente poderia opinar, porque isso é do "departamento" dela.
E já existiram outras situações parecidas. Parece haver uma fobia exagerada em fornecer qualquer elemento que possibilite acusá-los, mesmo que remotamente, de nada menos que heterossexuais mais do que convictos. Ultra-machos. Duvidar da hombridade dos envolvidos com o esporte é ofensivo, e tabu maior que em outras esferas. É impensável até mesmo admitir que se tenha alguma opinião sobre algo inocente, como as pernas do Roberto Carlos.
Não o rei.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Arte

Pronto. Assisti Tropa de Elite. Desde "across the pond" que eu ouço falar desse filme, e das expressões que dele surgiram e tornaram-se cotidianas (até onde, eu não sei ao certo. Não as ouvi na rua ainda. Não sei se isso quer dizer que exageraram ou se vivo numa bolha elitista). Os pedreiros que azucrinam meu dia, na construção atrás de casa, cantam a maldita musiquinha funk quase todo dia - quando é possível ouvir algo, com todas as marteladas e serra-serra ininterruptas.
E não sei. Já ouvi falar coisas bem diferentes a respeito do longa. Desde "fascista" até "ótima crítica social". Um ponto a favor, para mim, em relação a Cronicamente Inviável, outro chute no saco da classe média que me veio à cabeça: não é nauseante. O tapa de pelica é feito com competência (e talvez maquiavelice), não tanto pelo choque (ainda que o assunto cause isso). Quando você menos vê está torcendo para o tal capitão Nascimento e vendo nos alunos da puc tudo aquilo que abomina nos seus colegas de faculdade.
O filme é construído assim e acredito que o efeito é intencional. Mas não acho que isso seja para tornar os policiais heróis. Acho que é para fazer o espectador se olhar no espelho e fazer o mea culpa e repensar cada prazer efêmero que vem descendo goela abaixo como uma pedra, quando o inferno passa invisível ao lado (e são nos entrecruzamentos deste inferno com nossas trajetórias que ele se torna evidente e passamos mal com nosso egoísmo, natural e teoricamente inocente, mas na realidade carregado de remorso ou ódio. Por isso a tática de enfiar a cabeça no chão). No fundo o que se diz é que a boa intenção não é bem-vinda, ela é hipócrita e os grupos sociais estão cada vez mais e absolutamente incomunicáveis. Nunca nascer em um grupo tornou as pessoas tão maniqueístas e tão à mercê do que elas são permitidas falar e agir.
Acho ainda que o filme tem algo que tenho percebido surgir como um tema atual: resignação. Não derrotismo propriamente. Mas uma denúncia que não tem a pretensão de fornecer uma resposta - quanto menos uma resposta banal, que existe às pencas por aí. E penso que sou mais isso do que comprar diagnósticos canhestros.

Chego então no outro filme que vi. No country for old men. Fui ver o filme esperando alegorias metafísicas (ou no mínimo morais) como, mais claramente, em Barton Fink (até hoje ainda tenho variadas interpretações do simbolismo exibido). Mas ao terminar de assistir fiquei com a impressão de que a maldade é gratuita e não há poesia ou qualquer possibilidade de real dramaturgia em torno do mal. O filme é uma sucessão de anti-climaxes desconcertante. Por quê temos que pensar que deve haver um desfecho previsível? Agora, não sei se é um alerta social ou simplesmente uma crítica à estrutura cinematográfica atual. Arrisco dizer que é mais a segunda opção, utilizando como meio, a primeira.
As pessoas saíam da sala desconfortadas com o inusitado enredo. Indignadas quase. O que há para entender afinal? Qual a lição moral?
Nesse sentido talvez os personagens tenham sido de fato arquétipos de algo. Expressões de confrontos que transpassam o cultural. E, talvez contradizendo o que disse anteriormente, tenham algo de grego. Mas é o herói sem redenção, o mal desglorificado e não punido, o bem despropositado - o oposto do esperado. Os elementos estão lá, mas dispostos e utilizados de uma maneira completamente diferente.
Eu ainda tenho que pensar um pouco sobre o filme para falar mais. Esta é uma primeira impressão. Sei que a Dani quer escrever sobre ele também. Esperarei, pois, querida Cris.

Para terminar a semana cultural, ontem fui para São Paulo assistir uma peça da Ana Carolina, amiga da Dani, que escreveu e atua em um ótimo monólogo. O texto é muito bom, inspirado numa conversa entre as duas (e a trilha inspirada no meu amigo An2), e a performance também excelente.
A história é uma tragédia baseada no estupro de uma menina de classe média, "socialmente esclarecida", e que no fundo é uma caricatura risível de todas as pessoas que têm boas intenções mas que também têm o amparo das instituições e do berço - para qualquer imprevisto, sabe como é.
Achei interessante assistir a peça porque entendi que ela também trata de uma tragédia social desesperadora, porque aparentemente sem solução - para lembrar de outro filme nauseabundo - irreversível. Devo lembrar que tais barbaridades aconteceram na unicamp e na pucc recentemente? E que um número alarmante de pessoas "esclarecidas" acham que a culpa é da mulher, "lasciva"?
No entanto, o buraco é ainda mais embaixo, porque não se trata de um roteiro do holocausto anunciado. Se a denúncia é social, as causas já se tornaram de tal maneira esticadas e espanadas (então insolúveis e irremediáveis), que o prognóstico é dos mais funestos. O mal é súbito, estúpido, não tem anúncio e não permite redenção - "você não sai mais forte no final" seria a coisa mais próxima de uma moral nabukoviana aqui em questão. As coisas acontecem e pronto.

Cena: esperava, na frente do teatro, no centro de São Paulo, praça Roosevelt, falando ao celular com uma amiga. Chega um menino de rua, pedindo dinheiro aos estudantes que tomavam cerveja na calçada. O dono do bar, que funcionava junto ao teatro, afugenta o garoto, instigando-o a "ir cheirar cola ou fumar crack em outro lugar, seu vagabundo". O garoto rebate dizendo que ele não é disso, que têm "consciência e é trabalhador". Ânimos se exaltam e ameaças de pancadas vêm dos dois lados. Enfim o menino ameaça "nóis é do comando e vou vir passar bala em tudo aqui". O pessoal do deixa disso tenta fazer o dono do bar perceber que não vale a pena provocar o guri. Mas fiquei com a impressão de que era menos pela grosseria e pelo preconceito terrível do rapaz, com toda a pinta de estudante de humanas de alguma faculdade paulistana (no bar eram vendidos "livros-cabeça"; comprei a autobiografia do Jean Genet e um livro do Henry Miller enquanto esperava), do que pela real possibilidade do menino voltar com reforços armados e cumprir a promessa.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Documentando diálogos

Foi o Oscar, aquela forçação que adoro assistir, o supra-sumo do excesso e pieguice que, misteriosamente, tem seu charme.
Este ano estou devendo em matéria de cinema. Vi Michael Clayton, que gostei muito, vi o filme da Piaf, que também adorei, e vi o novo Elizabeth, que achei um lixo. Mas acho que foi só. Então não posso realmente emitir um juízo.
Entretanto fiquei com vontade (bem, mais vontade) de ver alguns dos filmes. Em especial Juno, No country for old men, e There will be blood. Daí escrevo algo mais, post dedicado a amiga-xará.
Mas comecei falando do Oscar por outro motivo. Percebi que o prêmio de melhor documentário não foi pro Michael Moore com o filme sobre a saúde pública.
Há tempos que eu não acho que o cara seja documentarista. Na verdade eu não sei se existe a possibilidade de um documentário, se o pensarmos pelos princípios normalmente esperados para um - haja visto as objeções que vêm sendo levantadas em relação a Moore: tendencioso e partidário. A definição do anti-documentário.
Enfim, se é documentário ou propaganda para mim não importa muito. O problema é que a relevância dos filmes de Moore gira em torno exatamente deste ponto. Exemplo de denúncia esclarecida ou lixo partidário?
Agora veio um novo documentário, Manufacturing Dissent, que "mostra" como Moore manipula informações e imagens - ainda que terríveis por si só - para alcançar efeitos bem pouco próximos da realidade, seja o que for isso. Eu acredito que qualquer narrativa construída, editada, é ficção em um grau ou outro. Mas há má intencionalidade e má intencionalidade.
A grande questão - e acho que isso tem muito em comum com o atual governo no poder - é que alguém pode falar que este novo autruísmo delatista é, por sua vez, partidário e interessado. No caso, o império contra-ataca (veja a popularidade que o Mainardi têm conseguido). E pronto, já não se sabe quem fala a verdade - se é que ela existe, ou quem é pior do que quem. E você fica com a impressão de que é manipulado de um lado e de outro por políticos-publicitários da maior competência (e todos os melhores publicitários devem ter ido mesmo para a política, porque propaganda na tv é simplesmente terrível). Mesmo considerando que o documentarista não tem uma agenda e tente ser imparcial.
Um dos piores problemas dos tropeços da pretensa "esquerda" é dar munição para o inimigo. Depois, claro, da decepção em si.