domingo, agosto 31, 2008

Springbok

Neste quatrocentésimo post pensei em escrever algo sobre dois maravilhosos assuntos: comida e viagem.
Um amigo deu a deixa, me indicando um canal com programação recheada de ambas as coisas. Agora já não lembro do nome, mas fiquei curioso para assistir qualquer dia desses e depois contar algo sobre.
Na verdade, pensei em fazer uma série de textos sobre o assunto. Vamos ver se vinga. Por hora fico pela África do Sul...

No final de 2006, já nos preparativos para a viagem para Londres, acabei passando umas semanas em Cape Town, considerada por muitos uma das cidades mais bonitas do mundo. De fato não há como não se apaixonar pela cidade. As praias não deixam nada a desejar em relação com o que temos por aqui (existe toda uma discussão sobre se é a Cidade do Cabo ou se é o Rio de Janeiro a metrópole que melhor combina paisagem natural e urbanidade).

O Victoria & Albert Waterfront por si só é uma maravilha bastante singular - a herança européia transformou-se em algo bastante leve, nesta ponta do continente africano (há algo de inegavelmente colonial, mas ao mesmo tempo bastante contemporâneo, em Cape Town). Claro, aquilo é, e também não é, ao mesmo tempo, África. Ou ainda, é uma África bastante particular (ainda que não seja possível falar de uma África - me refiro apenas à idéia do continente).
Eu adorei passear pelos bares, restaurantes e lojinhas do lugar. A boa comida não é cara, e é possível beber uma cerveja e comer um ótimo peixe, frito ou assado, ouvindo música, nas mesinhas espalhadas ao longo do pier, ao lado de lindos barquinhos encantados de gente rica.
Para quem gosta de aquários - uma dica - o de lá me deixou maravilhado, com alienígenas caranguejos gigantes, fascinantes água-vivas fluorescentes e tubarões amedrontadores.

A Table Mountain, cartão postal número um, é algo de espetacular. Vista da cidade, com as nuvens descendo de suas encostas como uma gigantesca coberta, a montanha mais parece a morada de alguma deidade africana ancestral. E a vista lá de cima é de tirar o fôlego: à direita e em frente, toda a parte mais urbana com seus prédios, praças e avenidas; à esquerda da pedra em forma de leão, as praias com o mar azul e as casinhas branquinhas que mais parecem saídas de um cenário de ilhas gregas.


Ainda na cidade, uma visita ao South African Museum dá um gostinho da influência do antropologismo sul-africano do Cabo, ainda que o acervo inclua muita coisa de história natural. O Centro do Holocausto, colado ao museu judaico de Cape Town, é também um passeio obrigatório, ainda que intenso e um tanto quanto depressivo. Lá estão os depoimentos dos sobreviventes da Segunda Guerra que migraram para a África do Sul, e que trouxeram as marcas e objetos da perseguição e do anti-semitismo no velho continente. O National Gallery, na mesma área de Company Gardens, exibe arte européia e sul-africana, desde o período colonial até a arte pós-apartheid - este fantasma ainda não totalmente resolvido por lá.

Uma visita às vinículas, geralmente afrikaners, é um ótimo programa para quem gosta de saber mais sobre a produção dos excelentes vinhos sul-africanos, sentar debaixo de uma árvore enorme e frondosa, no campo, e degustar alguns vinhos.
Ainda na linha "natureza" (quase tudo por lá), o jardim botânico me surpreendeu. Pensei que fosse achar tudo meio entediante, mas o cuidado com as flores e plantas me deixou entusiasmado e bastante impressionado.

Para quem gosta e não se importa de fazer o turismo clichê, existem safaris - fotográficos - não muito distantes da cidade (que, afinal, não é tão completamente desanimalizada assim: vi vários babuínos e pinguins dando suas voltinhas nas estradas mais periféricas).Uma ida ao Cabo das Tormentas (porque de boa esperança acho que não tem muito mesmo; esse tal de Bartolomeu Dias foi um cara fodão), é igualmente uma boa opção, ainda que demorada e um pouco cansativa. Por lá, se tiver sorte, você pode ver baleias e focas, e nas não muito distantes praias mais orientais, alguns tubarões brancos (para quem tem coragem, existe a possibilidade de mergulhar com os tais bichos, mas essa experiência eu passo).

Mas uma das mais prazeirosas experiências foi dirigir em direção ao sul, margeando quilômetros de oceano atlântico, rumo ao Índico, e parar em um dos lindos restaurantes do caminho, com uma varanda dando para a praia, e beber uma cervejinha sul-africana (mais parecida com a nossa do que com a inglesa) e comer o tal springbok. Experimentei um tipo de guisado da carne do bichinho-símbolo de lá, numa espécie de mini-caldeirão de barro. Bem temperada e saborosa, parece um pouco uma comida que você acharia no litoral baiano - se aqui houvesse o costume de comer carne de caça, algo bem mais comum no outro lado do oceano.

Mas a melhor refeição mesmo, para quem puder gastar um pouco mais e tiver na mala uma roupinha mais arrumada, é aparecer no restaurante Atlantic do Table Bay Hotel. Comer com vista para o Waterfront e para a Table Mountain torna toda a experiência gastronômica muito mais prazeirosa.
O cardápio consite basicamente de uma mistura de cozinha sul-africana e internacional muito bem feita - e nem um pouco fresca, mesmo que sofisticada. O restaurante também possui vinhos realmente deliciosos. Na noite que apareci por lá, com mais algumas pessoas, éramos os únicos clientes, o significou que podíamos escolher as músicas, e ter no final, um tour guiado pela enorme e impressionante adega.

De maneira geral, a cidade é extremamente atraente e agradável. O custo não é alto, quando comparado à Europa. O grande defeito ainda - e espero que resolvam isso para a Copa - é melhorar alguns aspectos da infraestrutura: melhor transporte público e uma ampliação do aeroporto, que já não comporta o crescimento dos últimos anos.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Smog

Para ver como ando desconfiado com as coisas. Cínico, na verdade. A política fede e os problems se acumulam.
Hoje, saindo do supermercado, olhei para o céu e vi um troço esquisito no sol. Mas vendo as manchetes, agora há pouco, descubro que se tratava de um fenômeno natural um tanto quanto raro. Algo a ver com o reflexo dos raios solares em cristais do ar...
Mas na hora lembrei das imagens que vi de Pequim durante as olimpíadas e pensei comigo mesmo que já era hora de pensar em mudar de cidade - "que merda de poluição, daqui a pouco vai parecer que sempre andamos no escuro"...

quarta-feira, agosto 27, 2008

Poeta moral

Ontem assisti uns pedaços do documentário sobre o Vinicius de Moraes do Miguel Faria Jr. Não é um grande filme, analisando friamente, mas ainda sim bastante interessante, muito por conta da figura que foi Vinicius. Acredito que seria muito difícil fazer algo chato sobre o poeta.
O longa segue a fórmula da reunião de depoimentos de familiares e de amigos, muitos dos quais também personalidades da arte brasileira. Às vezes este formato dá certo, como no já mencionado e maravilhoso filme do Julian Temple que comentei por aqui há um ano, mais ou menos. É evidente que, para segurar a atenção, os depoentes têm que ter certo talento - o que não acontece em alguns momentos - e as anedotas do personagem têm também que ser singulares. No caso de um Vinicius isso não é um problema. Mas aqueles intervalos com declamações de poemas, ainda que bem intencionados, quebram um pouco do ritmo narrativo. Eu preferia que existissem mais cenas com falas do próprio poeta ao invés disso. Mas no final das contas valeu ter assistido.
Personagem realmente fascinante, Vinicius de Moraes passa um pouco batido por uma certa intelectualidade que se pretende mais refinada, como bem lembrou minha amiga Paulinha algumas semanas atrás. A popularidade de sua obra, imagino eu, acaba por esconder a qualidade de seus escritos. Que são muitas. E tão evidentes, que toda essa história cheira a dor de cotovelo.
Talvez o fato de ser uma figura meio incongruente, inverossímil, também tenha contribuído para a injusta fama de um poeta menor. Porque se trata de um tiozinho barrigudo, meio impertinente, que não corresponde nem ao trovador romântico, ou ao devasso maldito, tuberculoso e bêbado (ainda que em certa medida o fosse - bêbado pelo menos). O fato é que alguém que não tem medo de queimar realmente, que canta o amor visceral e não ideal, só pode ser alguém extraordinário, no sentido literal da palavra. Meio que fora do mundo.
Os depoimentos são interessantes neste sentido também. Em torno de Vinicius circularam estas pessoas, que se apropriaram de sua vida, ou da vida que lhes tocava, de qualquer maneira. São, assim, depoimentos impressionistas e impressionados.
É, na grande maioria das vezes, recordar inventando. Ou talvez inventar recordando. Já não sei mais.
Talvez a própria pessoa homenageada concordasse com muito do que foi dito, mas ao mesmo tempo, com nada. Porque com todas as anedotas, se repetindo, e voltando, reaparecendo e teimando, ele se aproxima mais e mais de um mito.
E este documentário só contribui para isso. Porque as pessoas que o conheceram não precisam de incentivo para lembrá-lo. Lembro de ter ouvido o Toquinho contar causos engraçadíssimos do colega em várias oportunidades. Carlinhos Lyma também. Há bem uns 10 anos, fui assistir um show do Chico, no agora extinto Palace. Lembro bem dele também ter se rendido - me perdoem o trocadilho - ter se rendido ao vício de falar de Vinicius.
É, no final das contas, com todos os copos de whisky, todas as mulheres, as músicas e o pigarro, alguém invejável. Triste e acuado pelo mundo, ainda sim conseguia fazer o que queria. Uma inveja que não se sente, por exemplo, por outros velhos barrigudos e bêbados da literatura.

terça-feira, agosto 26, 2008

E a vaca vai, em ritmo de marcha atlética, para o brejo

As olimpíadas acabaram... e já não era sem tempo! Nada contra a maratona de competições, já que gosto de tudo quanto é esporte, por bizarro que seja. É só que eu fiquei tão viciado, que a qualificação, que já estava atrasada, praticamente parou nestas semanas.
Nos primeiros dias assistia as coisas mais "normais", tipo as partidas de vólei da seleção. Depois fui aumentando a gama de interesses, até terminar por ver algo como Sri Lanka versus Vietnã no badminton. Afinal, pensei, quando é que eu poderia assistir algo do gênero se não a cada 4 anos?
Nem ia comentar nada por aqui, porque vício você esconde, não é mesmo? Mas, conversando com um amigo meu hoje, que se disse tão viciado como eu nestas fatídias duas últimas semanas (e também em tempo de escrever tese), fiquei um pouco mais aliviado e me sentindo um pouco menos culpado. E ele, ainda, sem tv a cabo, quando se cansava dos jogos mais mainstream na globo, ia de madrugada na casa do orientador ver, digamos, o lado b dos jogos. Eu só precisava mudar a bunda 30 cm de lugar no sofá, quando cansava de uma posição - o que talvez seja ainda mais triste, pensando bem. Sei lá.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Sitcoms ambíguas

Esses dias andei assistindo o The Riches, que tem feito certo sucesso lá pelas bandas do norte. Gostei bastante da idéia e dos atores, mas acho que é o tipo de seriado que eu não vou conseguir assistir. Isso porque acabo criando uma certa empatia com os protagonistas que, pela própria premissa da série, vão acabar se ferrando e passando por inevitáveis apertos futuros. E isso me deixa muito nervoso: o esperar. Será hoje? Ainda não. Será hoje? Quem sabe.
Como acontece também com Dexter, a série do serial-killer de boas-intenções. Além do misterioso serial killer rival que apronta umas, e o policial desconfiado, é claro que as dificuldades um dia vão alcançá-lo e algum dia o segredo dele será revelado. Aí não vai ter jeitinho nenhum que resolva. Porque a América pode ser suja dentro do armário, mas, hipocritamente, tem que ser impecável abertamente.
Mas o que é divertido nestas séries, enquanto o fim da farsa não vem, é que a idéia do moralmente correto puritano americano fica em xeque por alguns momentos.
Mesma razão, aliás, por eu ter gostado tanto de Brotherhood e Nip/Tuck, diga-se de passagem.

quinta-feira, agosto 21, 2008

London parks

Assistindo o programa do Jamie Oliver hoje me deu uma saudade de algo realmente maravilhoso de Londres e que dificilmente temos por aqui: os parques.
Neste programa, o cozinheiro-celebridade resolveu fazer uns quitutes para fazer um piquenique. A comida parecia muito boa e tal, mas o que me interessou mesmo foi o piquenique em si. Nada como escapar do corre-corre do dia a dia e relaxar num gramado maravilhoso, com uma vista linda, bebendo um suco ou comendo um sanduíche, ouvindo música e tomando um pouco de sol.
Eu morava perto de dois lindos parques (e outros menores - existem vários em todos os bairros): o Regent's e o Primrose Hill, logo em frente. Saindo de meu bairro, St. Johns Wood e indo em direção a Chalk Farm, Camden Town e Belsize Park, esses dois lindos pedaços de verde tornam a área muito agradável.
O Regent's é bem grande, com teatro ao ar livre, jardins muito gostosos, o delicioso canal que já descrevi por aqui e também o zoológico de Londres. Já o Primrose fica atravessando uma avenida, rodeado por aquelas casinhas bem inglesas, sobrados com montes de plantas e flores na frente, verdadeira paixão inglesa. E este parque tem um morro com uma visão espetacular de Londres! Lá de cima você consegue ver St. Paul, o London Eye, o centro da cidade... Em um dos cantos do parque existe um pub vitoriano, The Queens, que fica, por sua vez, logo em frente a casa do Engels, onde Marx sempre passava uns tempos discutindo os rumos do comunismo. É também uma área cheia de artistas de cinema, não só britânicos - o próprio Jamie morava ali. Mas muito tranquila e de fácil acesso.
Senti muita falta de fazer um sanduíche, sentar por lá e perder uma meia hora fazendo nada na grama, e das vezes em que fiz um piquenique, geralmente com a Camila.
A possibilidade de ficar pensando na morte da bezerra por algum tempo em um lugar pertinho de casa, em uma cidade tão grande quanto Londres, para olhos brasileiros soa um pouco inacreditável. E talvez um pouco estranho - até que você experimente e saiba o que está perdendo por não ter algo parecido por aqui. E o melhor, sem chance de ser assaltado, estuprado ou pegar um carrapato estrela deitado no chão.

domingo, agosto 17, 2008

Novas notas olímpicas

Uma diversão a parte neste jogos olímpicos, pra mim, é ver uma competição fora das quadras, pistas e piscinas. As das emissoras de tv.
A troca de farpas é engraçada, para não dizer ridícula. Principalmente da espn, que como grande parte dos que estão em segundo lugar, acaba apelando. Dando umas zapeadas, pego sempre os comentaristas dessa emissora soltando "nessa prova, apenas nós estávamos lá. É impressionante o descaso das outras emissoras com o Brasil", ou algo do naipe.
É interessante notar que quando o Gustavo Borges, comentarista contratado pela globo/sportv, entrou na área dos nadadores e foi comemorar com o Cielo, foi sumariamente cortado pelos replays da concorrente.
Outro quesito em que eles estão perdendo é a entrevista com familiares e amigos. Nas provas em que brasileiros têm chance, sempre existe uma equipe da globo filmando os parentes, naquela rasgação de seda toda, já praxe nesses momentos. Com o Cielo, claro, não foi diferente. Tinha uma equipe de reportagem na casa da avó do cara, aqui perto, em Souzas.
À outra emissora restou procurar um técnico de natação lá. Ou quem sabe o jornaleiro do cara.

E o Carlitos Tevez da natação conseguiu mesmo. Well done.

Se eu fosse um desses atletas brasileiros sem qualquer tipo de apoio (a maioria), ou que tivesse meu patrocínio cortado pela confederação do meu esporte porque resolvi treinar fora do país porque teria melhores condições de treino, então ganhasse um ouro, e o Lula ligasse me cumprimentando, ou a supracitada confederação tentasse agora aproveitar os louros da minha vitória, mandaria todo mundo pastar.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Onde foram parar todos os cachorros?

Nessas madrugadas de escrivinhação torna-se irresistível assistir um pouco das olimpíadas, nos momentos de pausa (momentos que se estendem além da pausa, claro).
Tenho assistido bastante coisa. Por enquanto o que mais gosto de ver é a natação, em especial os brasileiros, que parecem melhores que 4 anos atrás, e o Michael "Tevez" Phelps. Não compro as críticas que tenho visto sobre o cara. Principalmente sobre as de arrogância e soberba. Se o cara acha que pode vencer, quem sou eu pra dizer o contrário... e ele realmente sobra nas provas.
Os outros esportes não têm sido tão empolgantes. Talvez o basquete seja uma exceção, com o tal Redemption Team, e a seleção da Espanha (e alguns jogadores de outras equipes). Mas as partidas são muito cedo, quando estou indo dormir. Fora natação e basquete eu acabo vendo um pouco de cada coisa, mas acabo logo me cansando um pouco.
O que espero com ansiedade mesmo são as provas de atletismo, que devem começar agora. Eu realmente me impressiono com o atletismo. As provas de velocidade são inacreditáveis; as de força dão medo; as de resistência dão agonia; as de salto são impressionantes. Acho tudo tão distante do que eu poderia sequer pensar em fazer um dia que não posso deixar de elogiar até mesmo o último colocado. Admiro em especial o salto com vara (imagine saltar sobre uma casa com uma vara!!!) e o decathlon e o heptathlon (esses sim são atletas).
E tem sido especialmente divertido ver esses jogos de Pequim por algumas histórias que se sobressaem. Desde as inevitáveis, no estilo Oprah - de superação e sacrifício - até os dramas mais rodriguianos. Essa história escabrosa da nadadora francesa Laure Manaudou é digna de aparecer na Márcia, por exemplo.
De resto, merece nota o completo descaso do governo brasileiro em desenvolver um projeto esportista no país; extremo oposto da neurose chinesa em ultrapassar os EUA em número de medalhas.

Em tempo: para onde foram os cachorros de Pequim?

terça-feira, agosto 12, 2008

Confidential

Já disseram que um mapa perfeito teria escala 1:1.
Também na crônica temos que nos contentar com os highlights da vida. Claro que fica a cargo do cronista saber o que vale a pena ressaltar de tudo que acontece no seu cotidiano.
Mas a bem da verdade é que não interessa contar tudo, evidentemente.
Muitas vezes fico meio cansado do blog, pensando até em matar o coitado. Acabo não o fazendo, já que depois de um tempo de vacas magras a vontade de contar algum pensamento, algum acontecimento, acaba retornando. E embora perdesse todos os possíveis leitores se contasse o que faço durante meus atuais morníssimos dias, ainda sim tenho alguns causos para relatar por aqui.
Alguns bastante interessantes. Emocionantes até.
Este aconteceu no final do ano passado, quando ainda morava em Londres.

Sabe quando os paranóicos que acreditam em teoria da conspiração dizem que muito do que acontece acaba sendo encoberto pelos agentes da matrix? Engravatados de preto e ponto no ouvido confiscam celulares e máquinas digitais, instruem as testemunhas ou simplesmente desacreditam as que escapam do pente fino. Pois bem, nada é mais verdade do que isso.
As pessoas não precisam ter visto um ovni para concordar comigo. Todo mundo testemunha alguma coisa e se espanta quando o que aconteceu é completamente destorcido pelo relato oficial. Quando o acontecido não é sequer descrito...

Meu "estive lá e vi" ocorreu em um bonito dia de inverno inglês, de muito sol e céu azul.
Estava em Southbank, na altura da Millenium Bridge quando pensei sentir um leve tremor no chão. Já disse aqui, em outra ocasião, que penso ter sentido o terremotinho que aconteceu no começo de 2007, cujo epicentro foi perto de Kent mas produziu efeitos mesmo em Londres. Então instantaneamente acreditei que se tratava de um novo protesto de Gaia.
Algumas das pessoas em volta também parecem ter percebido algo estranho. Mas depois de alguns segundos todos resolveram continuar suas vidas apressadas, e ninguém quis ser alvo de chacota, alardeando um temor infundado.
Entretanto, mais alguns instantes e um novo tremor. Este claro, assustador. Estava perto da entrada do antigo prédio de energia que agora abriga o Tate Modern, e comecei a olhar para as pessoas paradas, estáticas, ainda esperando os sinais da destruição: crateras abertas, estruturas desabando, gritos, correria.
Foi então que a cinquenta metros de onde estava, o chão começou a levantar em um certo ponto. Grandes pedaços de pedras, de asfalto e de terra começaram a rolar para os lados.
Empunhei minha câmera, que estava guardada no bolso, e dei um passo para trás.

O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Aquilo saiu do buraco formado, pata depois de pata, já atacando os liliputianos transeuntes mais pertos, com uma agilidade surpreendente para um tamanho gigantesco daqueles. Antes de começar a correr, consegui mirar e fazer um registro.


(Maman, Louise Bourgeois. Foto minha)

quarta-feira, agosto 06, 2008

A fábula da qualificação

Há um consideravelmente longo tempo atrás...
Em um lugar relativamente distante...
Vivia um antropólogo, em sua não tão gloriosa tarefa de de escrever sua qualificação.
Um texto quase-texto: perto de terminar de ser escrito, perto de estar compreensível, perto de ter todas as idéias encadeadas.
Mas ainda sim, sempre incompleto.
O bloqueio maléfico era onipotente, e o reino em que trabalhava não queria financiar sua pesquisa...

terça-feira, julho 22, 2008

Alguns pensamentos idiotas

Normalmente levamos a vida meio que anestesiados, sem prestar muita atenção no significado real das coisas que acontecem ao nosso redor. E de vez em quando, essas coisas, que presenciamos dezenas de vezes sem perder muito sono com isso, nos acertam em cheio, com força e de repente!
Isso sempre acontece comigo com letra de música. Às vezes, depois de muito tocar e insistir, ela deixa de ser um mantra e vira algo de fato compreensível. E isso também acontece com a maioria das frases feitas.
Temos, por exemplo, o famoso "o inferno são os outros", aliás, título de música, meio existencialista. Quer dizer, nunca sei precisar muito bem o sentido destas frases célebres ou dos ditados populares (tenho uma amiga que conhece todos e os emprega em momentos bastante propícios, provando que de fato existe uma sabedoria popular por aí e que nenhum mal social já não foi notado e julgado por gerações anteriores). No caso eu acho que significa que os problemas só acontecem com os vizinhos (ou são apenas os vizinhos, em contraposição a si). Quer dizer, isso até a página dois, porque quando queremos reclamamos muito bem dos problemas que parecem ocorrer apenas com nós mesmos e podemos, então, invocar algum outro ditado igualmente lapidar.

Toda essa introdução meio inútil para falar de algo que já havia dito uma vez bem lá no começo do blog, três anos atrás, sobre meu medo de enfrentar a adolescência dos filhos e, pior, enfrentar os pais dos amigos dos filhos.
Algumas semanas atrás eu fui numa festinha de criança, como tem acontecido com assustadora regularidade ultimamente. Lendo alguns posts antigos vi que escrevi muita porcaria, mas algumas coisas ainda valem. Ao me deparar com essa minha confissão sobre meu receio de virar adulto percebi que esse medo continua me assombrando, ainda que eu tenha me acostumado um pouco mais com a idéia. Mas percebi hoje que nesta festinha se concretizaram vários de meus receios em relação aos pais das outras crianças (é bom que se diga que as festinhas dos filhos dos amigos são diferentes das festinhas em que a criança é parente).
Primeiro porque parece que devido ao fato dos filhos terem colegas está pressuposta uma relação entre os progenitores. Mesmo que sejam imbecis que não tenham nada a ver com você. Mesmo que tudo o que as outras crianças façam nunca seja tão bom quanto o que o filho deles realize (ok, isso é básico, mas odeio quem não faz questão de deixar sua opinião reservada). Mesmo que nunca tivessem a intenção de sequer se encontrar se não fosse preciso - e aparentar uma civilidade inexistente ou de mão única.
O estranho é que eu não vi isso chegando. Como se a idéia de existirem pais que educam mal seus filhos fosse algo apenas do noticiário. Como se esse meu medo fosse de alguma forma apenas uma possibilidade ideal - mas irreal. Como se não fosse possível ver tudo isso acontecendo ao seu redor e - pensamento horripilante - achar tudo normal, e entrar à revelia nesta vida de gente grande fazendo exatamente o mesmo que incontáveis outros pais fizeram e que causava apreensão.

E vejam só como são as coisas. Tudo isso porque me lembrei hoje de uma cena maravilhosa do Terra de Ninguém, por conta da última prisão anunciada!
Em plena guerra da Bósnia, um soldado bósnio, lendo um jornal, comenta com outro algo como "você viu que merda está acontecendo em Ruanda?", ao que o outro responde algo como "você está louco?"

segunda-feira, julho 21, 2008

Receita de bolo

Depois do post chato da última semana, cheguei à conclusão que já me basta o martírio da qualificação - de escrever sobre certas coisas, digo.
Fica difícil desligar o antropologizês mesmo para as coisas mais corriqueiras, mas isso pode ficar insuportável em certos momentos.
Talvez seja a crise que a necessidade de escrever uma tese proporciona, mas sinto que preciso ter uma distância de outras coisas sérias agora.
Sem posts-cabeça por enquanto, portanto.

terça-feira, julho 15, 2008

Crueldade ou o progresso humano?

Assisti hoje uma interessante palestra sobre a posição, nas ciências humanas, quanto aos experimentos feitos com animais.
Todas as falas giraram em torno da falácia cientificista "do bem maior", e dos pressupostos discursivos envolvidos na questão, tratando de analisar a ética e a moral no sofrimento infligido a outros terráqueos - quais poderes estão em jogo e qual seria a possibilidade de uma posição possível quanto à questão.
Pensei comigo mesmo que não sei se há de fato a possibilidade de um argumento que me convencesse logicamente, já que mesmo a tal "regra de ouro" - não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem com você - me dá a impressão de ser apenas mais um posicionamento e uma defesa de uma postura, culturalmente constituídas. De qualquer maneira, sobre uma universalidade no trato com outros seres, prefiro não falar muito (mesmo porque de fato não tenho certezas quanto a isso).
Cogitei fazer uma intervenção que saísse da discussão epistemológica que estava se desenhando e que entrasse no etnográfico, mesmo que fosse uma etnografia de mim mesmo (ou seja, minha opinião). Isso no tocante às estratégias discursivas na defesa dos animais (porque, como disse, acho que uma tomada de posição é inevitável, mesmo sob a óptica das ciências "hard").
Também acredito que o discurso cientificista não pode ser dissociado da questão ético-moral. E quando o é, há uma tendência a se perder na argumentação e tomar partido por outras razões que aquelas aparentes.
Explico. Li outro dia um artigo, do antropólogo Adrian Peace (no último número da AT, que, aliás, tem dado grande ênfase na questão ecológica nos últimos números), em que ele analisou a campanha publicitária da corporação Meat and Livestock Australia, que desde 2006 tentou estimular o consumo de carne vermelha no país com um bombardeio de propagandas na tv e junto aos profissionais da saúde (escritórios de nutricionistas, por exemplo). Na verdade se tratava de um contra-ataque a um estudo publicado sobre os malefícios do consumo de carne vermelha. Além do impacto ambiental gerado pela indústria pecuária (o desmatamento para a produção de pastos e a emissão dos gases que são responsáveis pelo efeito estufa - produzidos pelos animais ruminantes, mas não pelos monogástricos - como as aves, por exemplo), o consumo de carne vermelha aumenta significativamente (essa expressão tão adorada pelos cientistas, mas que é, ao mesmo tempo, tão vaga) o risco de doenças cardíacas, diabetes e obesidade.
A corporação aussi produziu então uma maquiavélica campanha (protagonizada pelo ator Sam Neil, incorporando seu personagem do Parque dos Dinossauros - procure no YouTube, é imperdível), também baseada em argumentos científicos, que provariam os benefícios da ingestão da carne vermelha. Uma espécie de neo-evolucionismo tacanho é então invocado para associar a evolução social humana (desde a descida da árvore) com a caça de animais. E mais, do desenvolvimento do cérebro humano com a dieta carnívora. Nossos antepassados sabiam, instintivamente, que essa dieta era necessária para a sobrevivência da espécie. Então quem somos nós para lutar contra a Natureza? Indo mais além - e este é o cerne da questão levantada pelos lobistas da carne - existem uma série de substâncias, como o ferro, o zinco, a essencial vitamina B12 e o famosíssimo Ômega-3s, que são obtidas na dieta de carne vermelha.
O que tudo isso significa, para mim, é que uma queda de braço discursiva está sendo travada, e você pode lançar mão da legitimidade científica para as mais variadas posições. E, quem fica no meio se encontra perdido na escolha: "prefiro ter zinco no meu corpo, ou não ter diabetes?"
Claro, a inserção lógica da questão ético-moral e uma etnografia da indústria do abate pode levar um ou outro para uma tomada de posição. Mas este é exatamente o ponto, já que essa lógica científica nunca é neutra, e vem acompanhada de diversos valores (são eles culturais, universais? Lévi-Strauss já gastou bastante tinta com isso). Mas o que me deixa com a pulga atrás da orelha é que mesmo tais pressupostos morais podem ser desafiados (hoje mesmo um rapaz levantou a questão "ok, também não gosto de matar animais, mas se isso é necessário para o desenvolvimento de medicamentos..."). E fico com a impressão que é um diálogo de surdos, cada lado advogando o seu argumento irrefutável. E voltamos ao cientificismo, incrivelmente, para pender a balança para um lado ou para o outro: os resultados obtidos com experimentação animal, por exemplo, são baseados no pressuposto da correlação entre homem e animal (que, paradoxalmente, deveria exatamente impedir o abuso contra os animais). Mas tais resultados não podem ser simplesmente transferidos à esfera humana sem novos testes (para que então, alguém poderia perguntar, se fez experiência com os animais para começo de conversa?).
Não parecemos andar em círculos? Ou exagero no relativismo?
Me abstive de falar qualquer coisa na hora da discussão com o público, no final das contas. Porque por mais que os personagens envolvidos tentem analisar a questão racionalmente, sempre defenderão seus pontos de vista de forma bastante emocional (e muitas vezes com rispidez - para dizer o mínimo). Mas sempre que fico sabendo dos resultados científicos, descobertos por estas equipes de estudiosos que fecham-se em seu mundinho, me dá a impressão de que sou moeda de troca em um embate maluco (o licopeno do tomate previne alguns tipos de câncer, mas a sementinha provoca outros. E então, como ficamos? Fora o tomate?). Nessas horas me sinto - desculpem-me, mas uso aqui um trocadilho infeliz, ainda que irresistível - como um verdadeiro ratinho de laboratório.
De duas, uma: ou acreditamos que podemos experimentar com os animais porque partimos do pressuposto de que eles são seres completamente distintos de nós, ou acreditamos que eles são parte de nossa humanidade e então a questão da crueldade se coloca. Pessoalmente acredito que a humanidade tem grande potencialidade para o sadismo.

domingo, julho 13, 2008

Disc jockey

Eu já tinha dado assistência outras vezes, mas dessa vez tive carta branca para um set list só pra mim, e acabei dando uma de jockey de pista!
Eu deveria estar imerso nos textos e de frente pro Word (o coffee break, layout novo aqui, veio em função de um blog em tempos de qualificação), mas não resisti à oportunidade dada pela Dani e pela Má (com a ajuda da boa e velha preguiça) e perdi um bom tempinho fazendo uma seleção musical, que não fosse óbvia mas que também não fosse totalmente incompreensível e obscura (sei que depois de algumas cervejas o que as pessoas querem mesmo é carne de vaca pra cantar em coro).
E devo dizer, como é divertido fazer as pessoas pularem, apenas com o poder dos seus dedos! Um botãozinho de equalização - ou a luz na intensidade certa - faz realmente toda a diferença!
Fazer com que as pessoas fiquem ansiosas pela próxima faixa e depois continuem numa toada, ou então migrarem para outro ritmo e outra lógica com uma transição sutil. E é engraçadíssimo depois ouvir as mais diversas reações - desde os elogios, até os pedidos de toca Raul (bem, ninguém pede Raul em discotecagem, mas, enfim, o equivalente).
Quem sabe depois do período ermitão não tento novamente? Daí faço um convite aqui com antecedência.

quarta-feira, julho 09, 2008

Um sonho patenteável e Cry me a river

De vez em quando sonhamos com algo bem legal, original até, e então vem aquela mesma sensação, usualmente em estado alterado de consciência, de quando temos a impressão de ter descoberto o sentido da vida. O que evidentemente não é nada mais que algo embaraçoso a ser esquecido e enterrado - quando de fato não o é, logo no dia seguinte.
Mas o sonho de hoje eu conto.
Estava em uma espécie de mesa, num jardim, com um amigo meu que costumava jogar basquete comigo e também a belíssima e charmosíssima orientadora de alguns de meus colegas (me abstenho aqui de dizer o nome, porque orientadora dos outros é quase mãe - e não ficaria aqui contando sonhos com as progenitoras alheias). Estávamos baixando umas musiquinhas pela internet, ao mesmo tempo em que fazíamos massa de pastel.
O grande lance era consumir uma música gastronomicamente. Recheio de Nouvelle Vague, de Stereo Total (aliás, bandas extremamente comestíveis). Colocávamos uma música por vez num pastelzinho, para distribuir na balada.
Levando ao extremo aquela idéia do Rubem Alves (tipo a banda Uakti) de reeducar os sentidos. Comer o som, ouvir o cheiro, essas coisas.
Bem que alguém podia dar um jeito de produzir algo semelhante, não?

(Aproveitando a temática fluvial da amiga Meme, mais imagens londrinas, do rio que me apaixonou profundamente e do qual tenho saudades. Acima, St. Paul, vista de Southbank; abaixo, o Parlamento e o London Eye, vistos de Waterloo bridge. Nada a ver com o sonho, mas dá uma embelezada no post.)

quinta-feira, julho 03, 2008

Um show. E sobre cigarro


Há cerca de um ano, fui no show desse cara aí.
Estranho, careca, de bigode. Mas extremamente carismático, e um músico apaixonante.
No show, em um clube perto de Camden, ele pulou, suou (e como), gritou, correu, e fumou.
E como fumou. Um cigarro depois do outro, cada vez que terminava uma música. Coisa, aliás, que ele fez nos comentários do The Proposition, filme com roteiro de sua autoria - ele não aguentou aqueles 100 minutos de filme sem um trago, e foi embora fumar.
Em meados de junho a Inglaterra estava prestes a entrar nessa onda de cerceamento politicamente correto anti-tabagista. E o senhor caverna fez questão de passar um sermão e se posicionar a respeito. A Europa (ok, como lembrou minha linda orientadora ainda hoje, Inglaterra não é Europa, mas enfim...) vem sendo palco desta discussão (e esperem só que isso ainda chega aqui!) sobre os direitos, os deveres, e a constituição de comportamentos públicos que, para quem lê Foucault, lembra demais o processo de disciplinarização dos sujeitos e seus corpos (e, claro, de uma certa doxa partilhada), no século passado.

Seja o ato de fumar, ou a criminalização dos sites pró-anorexia, parece haver a imposição de um modelo de cidadania e de normalidade que é pautado pelo argumento "o que é saudável" (veja a campanha Oswaldo Cruz), enfiado goela abaixo, em contraposição ao discurso da escolha e livre-arbítrio. E nem entro no mérito de se estas medidas são corretas (algumas vezes?). O fato é que estes desviantes são cada vez mais relacionados com certas características consideradas patológicas. São, neste sentido, considerados quase doentes (e então não-responsáveis por seu vício) e, o que talvez seja mais assustador, potencial fonte de contaminação de outrem e fardo para uma tal sociedade (e vão aí também os obesos e outros grupinhos mais - e o que dizer dessa lei seca?).
Agora, cigarro é um artefato cultural de extrema importância no cotidiano inglês - o que é considerado ser inglês. E talvez mais como no caso francês, e menos no caso alemão, essa proibição não vem sem questionamento (vi muita gente mandando às favas o controle e fumando mesmo). Bem, lá eles tendem a ser legalistas. Mas antes disso, eles acreditam em regras com que eles concordem. O certo e o legal não são conceitos que necessariamente se sobrepõem por lá. E isso é interessantíssimo. Claro que exagero, mas esse é o discurso êmico.

Aliás, questão interessante, nesta mesma lógica P.C. que eleva o multiculturalismo inglês (sobretudo londrino) a um patamar que deve ser defendido com unhas e dentes: gostaria de saber como se dão as negociações dessa disciplina quando tais pressupostos entram em choque com outros que teoricamente são igualmente soberanos. Pois, se não se pode impedir a prática de atividades culturais consideradas imprescindíveis de um grupo, como conciliar tais diretrizes? Há um debate sobre onde termina a liberdade de expressão e a incitação ao ódio, ou ainda sobre o uso da burka neste tempo de terrorismo. Falo tudo isso porque os londrinos donos de cafés árabes tentaram argumentar que a proibição da shisha fere uma das bases da sociabilidade mulçumana. E então, qual princípio sai vitorioso?
E não me acusem, por favor, de paladino da nicotina ou da bebedeira! Me preocupa apenas o que está por trás do processo.
Bem, viajei e não falei do show, que foi muito bom. Mas ficam fotos do líder das sementes maléficas.

segunda-feira, junho 30, 2008

Estar lá


Um pouco inspirado por Richard Holmes, tentei seguir algumas das pegadas de Mary. Como se houvesse algo que pudesse ser captado no ar dos caminhos percorridos. Como se pudesse acessar o testemunho daquelas árvores, daqueles prédios. Ruas em que andou, lugares onde estudou.
Fui para Oxford, no St. Anne's College, procurar esse elã biográfico.
St. Anne faz parte do colegiado da Universidade de Oxford, e, mesmo não sendo tão antigo quanto algumas das outras faculdades, me pareceu transpirar tradição. Ou talvez assim me parecesse por conta de meus interesses. Mas era como se houvesse uma história que para mim fosse significativa. Apenas me esperando. E lá, sozinho, fiz uma tentativa quase mediúnica de imaginar a jovem estudante católica naqueles gramados, naquelas salas, 60 anos antes.
Havia trazido um lanche desde Londres, em uma sacola que carreguei pela cidade medieval. Escolhi um banco afastado, dentro de um jardinzinho pegado a alguma casa de algum departamento, onde alguém fazia um café. E lá fiquei pensando sobre o trabalho que viria pela frente, como se estando lá - essa armadilha que tanto tentamos criticar, mas que nunca é totalmente exorcizada - eu pudesse ver mais claramente não só aquela trajetória, mas o momento no tempo em que esta se encontrou com a minha.

quarta-feira, junho 25, 2008

Paisagens londrinas 1


Na falta de tempo para atualizar por aqui, fica uma imagem do ano passado. Linda ponte que foi explodida e reconstruída no século XIX, quando ainda se escoavam os produtos que chegavam no porto, pelos canais, em barcaças puxadas por cavalos. O carregamento, no caso, era pólvora. Reza a história que o estrondo foi tão grande que os moradores dos arredores acharam que se tratava de um terremoto...
Os canais eventualmente foram interligados e unidos em uma única rede, que serpenteia e recorta Londres, ligando até mesmo outras cidades ao norte e ao oeste.
Na foto, o Regent's canal na altura do Zoológico de Londres.

sexta-feira, junho 13, 2008

Jingle dos infernos

Não sei porque hoje me veio uma musiquinha irritante na mente (será a data tenebrosa?). Sabe daquela que gruda nos seus neurônios, vem das trevas do inconsciente e toma sua mente de assalto para não mais largar? E, como o soluço (esse outro fenômeno fisiológico misterioso), só se vai quando você desiste de tentar matar a dita cuja.
Pois é, dessa. Aliás, eu nunca vi nenhuma explicação sobre porque essas músicas surgem, ou porque elas persistem. Quer dizer, fora o Paulo Coelho, mas com o argumento extraordinário-psíquico-místico, em As Valquírias, ou em Diário de um Mago... um desses (sim, eu lia bastante o imortal da nova era). Algo como a mente em desequilíbrio, ou a mente desconcentrada.
De qualquer maneira, voltando à música. Não é um Bon Jovi, ou uma Bonnie Tyler, ou mesmo uma ABBA - alguns dos campeões do grude. Mas o jingle do Bom Dia São Paulo.
Era o "vamo embora, vamo embora, tá na hora, vamo embora, vamo embora"... que ouvi toda manhã por mais anos do que eu quero lembrar.

E junto com a lembrança do refrão, veio a memória de todos aqueles anos de escola ao raiar do dia.

Nunca gostei de acordar cedo, mas até o terceiro ano do colégio (com exceção do segundo, quando estudei à tarde - e dormia na aula, vai entender...), não tive muita escolha. Como se já não fosse bastante desagradável entrar na sala às 7:00 (os piores anos foram durante minha sétima e oitava séries, quando estudei num legítimo vale, ali perto da lagoa do Taquaral, onde até a segunda aula você não via mais que 10 metros à sua frente por conta da neblina), eu tinha que acordar especialmente cedo, porque desde que me conheço por gente, só fui para o colégio no esquema rodízio-de-pais (partilha da miséria), o que significava várias paradas nas casas de colegas antes de chegar na Bastilha.
E não sei porque cargas d'água, todo pai descontava a frustração de ter que cumprir com seu dever parental - numa hora em que nenhum ser vivo decente e temente à Deus deveria estar acordado - ouvindo o bendito programa, com as notícias que só interessam aos pais (partindo do pressuposto de que não nos faziam ouvir aquilo simplesmente como retaliação por todo o trabalho que lhes dávamos). Nada de The Cure, ou Smiths (em algum momento dos 80), ou U2, Information Society, Titãs ou Paralamas (em outros momentos), ou ainda Nirvana e Pearl Jam (sim, porque isso se arrastou até os 90). Não, eternamente minha trilha sonora para a escola foram as notícias sobre impostos, sobre corrupção na política e sobre os problemas da segurança pública. Invariavelmente e sem exceção.
Não fosse a CBN, ou coisa que o valha, bem poderia ser uma marcha qualquer de pelotão de fuzilamento. Não faria muita diferença.
Eu acho que minha ojeriza aos noticiários vem bastante daí.
E esse "vamo embora, tá na hora"... que desespero! Já está na hora de correr? Tão cedo? Que stress! "Vai vagabundo, faz alguma coisa que você já está atrasado, não importa o que você faça", poderia ser o segundo refrão.
Sempre aquele equilíbrio delicado entre o sair o mais tarde possível, dormir mais alguns poucos minutos (com seus pais ficando nervosos e já tirando o cobertor à força), e depois o correr, antes que o portão se fechasse. E que lógica horrorosa - me fazer ficar ansioso por chegar a tempo, quando o que eu mais queria era perder o sinal e jogar fliperama, ou voltar para a cama! Percebe o elemento esquizofrênico, percebe?
Sempre que ouvia o jingle infernal me sentia miserável, me dava uma sensação de sufocamento, de opressão, como se uma sentença me estivesse sendo anunciada. Seu dia nada mais será que um desdobramento de sua manhã. E nada mais.

E eu que pensava que essa neurose com o tempo fosse exclusivo dos meus anos de universidade...

domingo, junho 08, 2008

De onde os patrícios chegaram


De volta da ABA, da Bahia (uma Bahia diferente, que é Porto Seguro, não obstante), cheio de impressões.
Apresentei meu trabalho, não foi uma maravilha, mas não foi horrível. Tive boas dicas e bons insights, mas faltou falar muita coisa (pelo menos olhando retrospectivamente). Vi apresentações muito boas, mas muita coisa fraca também. Normal. O ponto negativo fica para a organização, bem fraquinha (ainda mais pensando no valor da inscrição). A parte divertida, fora encontrar amigos e perdidos conhecidos, foi a festa de encerramento. Dançar Tati Quebra Barraco com seu GT e seus professores não tem preço!

Da cidade de Porto Seguro mesmo não tenho muito o que dizer. Achei tudo muito feio, mas as praias são bonitas (do pouco que eu vi). Mas não tem jeito, eu não consigo passar despercebido pelas ruas. Minha regionalidade está marcada no corpo, bem como minha zambrice. E paulista é caçado de uma tal maneira que irrita. Fugir dos carinhas que tentam vender as mais diversas porcarias, alugar carros, fazer tatuagem de rena, tererê, ou simplesmente pedir dinheiro, é uma atividade constante e complexa. Já tinha tido experiência parecida em Salvador, e não gostei nada. Não é só a opressão de pedir, já se impondo, mas de já pressupor que fazendo, sem dar fôlego, o que quer que estão tentando vender, irá deixar a vítima constrangida a um tal ponto que não lhe resta alternativa que pagar o serviço - 10 reais aqui, 20 ali...
Como um colega paulistano disse, sair do stress paulista pra passar nervoso na Bahia é foda. E você começa a ficar estúpido depois da trigésima interpelação (que está mais pra assédio mesmo).